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Hooligans não poderão pegar trem na Suíça




As autoridades suíças querem acabar com cenas como esta (Keystone)

As autoridades suíças querem acabar com cenas como esta

(Keystone)

As autoridades suíças estão examinando algumas propostas radicais para lidar com a depredação dos trens causada por torcedores vândalos.

A cada temporada, fãs enlouquecidos causam cerca de 3,5 milhões de dólares de danos aos trens. A companhia de trens agora pensa até em abandoná-los no meio do nada em caso de problemas.

"As coisas não podem continuar como estão", declarou Peter Füglistaler, chefe da Secretaria Federal de Transportes, nos jornais de domingo NZZ am Sonntag e Le Matin Dimanche. "É hora de agir antes que um acidente grave ocorra."

A Secretaria Federal de Transportes, responsável pela Companhia Ferroviária Federal (CFF), pretende decidir até o final do mês as medidas a serem tomadas, que incluem testes de alcoolismo, proibição do consumo de álcool e de garrafas de vidro nos trens, bem como a possibilidade de expulsar do trem, entre as estações, os viajantes problemáticos.

"A polícia pode proibir a viagem de um ônibuzinho cheio de baderneiros. Então, por que deveria ser diferente com os transportes públicos?", perguntou o chefe da secretaria de transportes.

Füglistaler também questionou a atual legislação, que permite que qualquer pessoa tome o trem, mesmo sem passagem. A secretaria pretende verificar o que as autoridades ferroviárias podem fazer legalmente. Se necessário, a secretaria de transportes vai propor que as leis sejam adaptadas à nova realidade.

As autoridades estão interessadas em introduzir uma passagem de trem combinada com a entrada do estádio, o que forçaria as torcidas de fora a usar trens especiais organizados e pagos pelos clubes de futebol para torná-los mais responsáveis pela ordem e a segurança das torcidas.

Atualmente, os torcedores já são separados dos usuários comuns na compra de ingressos reduzidos para trens especiais, mas os danos causados aos trens fica às custas da companhia ferroviária federal.

"No sistema atual, há sempre um responsável da torcida e policiais presentes nos trens, mas isso não é suficiente para evitar problemas", explicou à swissinfo.ch o porta-voz da CFF, Frédéric Revaz.

Interesse político

Os políticos do país também estão acompanhando de perto a situação.

Christoph von Rotz, do Partido do Povo Suíço (SVP, na sigla em alemão), acha que "como uma empresa de ônibus privada, as operadoras de transporte público devem poder recusar às pessoas determinados serviços".

O presidente do Partido Socialista, Christian Levrat, disse ter viajado duas vezes com o trem cheio de torcedores da Suíça alemã.

"Jamais teria ousado entrar no trem com crianças", comentou. "E percebi rapidamente que não valia a pena discutir ou tentar acalmar as pessoas. Eu entendo a posição da Companhia Ferroviária Federal".

"Mas não estou certo de que a rede ferroviária federal possa escolher o que ela quer fazer e quem ela quer transportar."

Karin Keller-Sutter, presidente da Conferência dos Secretários Estaduais de Justiça e Polícia, declarou no site de notícias 20 Minuten que estava frustrada com o ritmo da mudança.

"Estou desapontada em ver que as autoridades têm investido muito em troca da pouca motivação da Federação Suíça de Futebol. O engajamento dela tem que ser maior, por exemplo, na questão das passagens combinadas trem-estádio", disse.

Tráfego em risco

A federação, entretanto, minimiza os problemas relacionados com futebol nos trens, garantindo que já coopera na questão.

"A situação não está assim tão ruim como alguns políticos andam dizendo. No entanto, estamos muito conscientes de que precisamos encontrar formas mais eficientes para lidar com o vandalismo e a violência", disse o porta-voz da federação Roger Müller à swissinfo.ch.

"Estamos discutindo as diferentes opções e medidas com a rede ferroviária federal. Como temos competências limitadas fora dos nossos próprios estádios, não tem como avançar sem a cooperação de todas as organizações envolvidas."

Enquanto isso, os danos causados aos trens continuam aumentando a cada ano que passa, com bancos rasgados, vagões e banheiros destruídos, e até garrafas e assentos jogados nos trilhos – pondo, assim, em risco o tráfego.

Torcedores de araque

No entanto, Domenicangelo Massimo, diretor do FC Sion, continua sendo contra as medidas do tipo passagens combinadas.

"Quando a Companhia Ferroviária Federal propõe um bilhete combinado para um show do U2, ela não exige que U2 pague os eventuais danos causados nos trens", declarou no jornal Le Matin Dimanche.

Os problemas não são causados pelas torcidas organizadas, mas por torcedores ocasionais que descarregam suas frustrações durante os grandes jogos, explicou o líder da organizada “Sion Ultras”.

"Estamos pensando em criar uma organização para administrar os deslocamentos das torcidas de trem. Assim, podemos controlar melhor os torcedores com um pessoal especialmente formado para supervisionar cada vagão."

Vandalismo no futebol suíço

A Suíça vem sofrendo com o vandalismo no futebol desde o início da década de 1980.

Houve incidentes graves em intervalos regulares. Especialistas dizem que o vandalismo no futebol agora afeta quase todas as equipes da primeira divisão, embora seja difícil contar todos os incidentes menores. O problema se fragmentou e os confrontos são difíceis de prever e controlar.

Em junho de 2006 a Federação Suíça de Futebol anunciou medidas mais duras contra hooligans. Os clubes são agora mais responsáveis de suas torcidas quando jogam fora de casa, o que significa que eles têm que organizar a venda de ingressos em outros estádios por si mesmos.

O clube da casa também tem que ter dados pessoais de seus torcedores, bem como fornecer alguém do clube para acompanhar as torcidas e controlar os incidentes violentos. Uma campanha anti-violência e câmeras móveis, financiadas pela federação, também foram introduzidas.

Estas são as principais iniciativas de uma série de medidas “anti-hooligan” aprovadas pelo Congresso suíço em 2006 para reprimir os torcedores violentos na ocasião do Campeonato Europeu 2008, realizado na Suíça e na Áustria. Elas incluíam uma base de dados nacional dos hooligans, restrições de viagem para encrenqueiros conhecidos, proibição de acesso aos estádios, obrigação de manter delegacias de polícia nos dias de jogos e 24 horas de prisão preventiva.

Estas modificações, que foram introduzidas com urgência na legislação federal de segurança interna, passaram a fazer parte das legislações estaduais em janeiro de 2010.

Em junho de 2010, mais medidas anti-hooligans foram anunciadas. Um acordo assinado entre os governos estaduais, a polícia e as autoridades futebolísticas especifica quem é responsável pela segurança dentro e ao redor dos estádios, determina as medidas que têm de ser tomadas e, principalmente, distribui os custos.

O plano inclui restrições à venda de bebidas alcoólicas, a instalação de câmeras de vigilância, o envio de observadores policiais e aumenta o banco de dados dos hooligans.

Os clubes terão de elaborar um conceito para acabar com o uso de fogos de artifício e foguetes e evitar atos de violência e racismo.


Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch



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