Your browser is out of date. It has known security flaws and may not display all features of this websites. Learn how to update your browser[Fechar]

Impeachment no Brasil


"A esquerda na América Latina perdeu a credibilidade"




Para o correspondente no Brasil do Neue Zürcher Zeitung (NZZ), um dos jornais mais tradicionais da Suíça, o impeachment iminente da presidente Dilma Rousseff é mais uma reação à crise econômica e os casos de corrupção do que os motivos alegados pela oposição.

Manifestação contra o impeachement e a coorrupção. (swissinfo.ch)

Manifestação contra o impeachement e a coorrupção.

(swissinfo.ch)

Na entrevista a seguir, Tjerk Brühwiller considera que a crise política só pode terminar a partir das eleições em 2018. 

swissinfo.ch: O processo de impeachment foi aprovado na Câmara dos Deputados por uma maioria de 367 votos. O que isso significa para o Brasil?

Tjerk Brühwiller: No momento é muito difícil dizer. Tudo mudava no Brasil quase que diariamente nessas últimas semanas. O que a votação mostrou é que a coalizão governamental do PT chegou ao seu fim. Todos os parceiros mais importantes mudaram de opinião e viraram-se contra a presidente Dilma Rousseff. Ela está politicamente isolada, mesmo se conseguir evitar a sua deposição no Senado. O fato da situação ter se tornado tão rapidamente contrária ao governo mostra o quão frágil era a coalizão de Rousseff. Já no governo Lula ela não se baseava em fundamentos ideológicos, mas sim de pragmatismo. E, dessa forma, defendia interesses contraditórios.

swissinfo.ch: Na ótica de um correspondente estrangeiro, existe fundamento na decisão dos parlamentares?

T.B.: A fundamentação é fraca. Nós podemos interpretar as "pedaladas" como um delito, mas nesse caso o veredito do impeachment é duro demais, ou podemos até dizer, chega aos seus limites nesse caso. Todavia não se tratou aqui da "responsabilidade fiscal", como a votação mostrou. Ela é simplesmente uma desculpa, mas não a razão pelo impeachment. A opinião pública mudou frente a crise econômica e o escândalo da Petrobras. Para os oportunistas, foi o momento ideal para mudar de lado sem ser julgado pela população.

swissinfo.ch: Os partidários da presidente Dilma Rousseff falam em golpe de Estado. Isso tem fundamento?

T.B.: A base para o impeachment é fraca, mas não falaria em golpe de Estado. O procedimento é previsto pela Constituição e o Supremo Tribunal Federal (STJ) indeferiu o recurso impetrado contra o procedimento (n.r.: a pedido da Advocacia Geral da União) e aceitou os argumentos apresentados pela comissão especial. Todavia, a Justiça e as mídias não deram uma impressão de atuar nas últimas semanas de forma neutra e, finalmente, incentivaram a dinâmica que, afinal, levou ao impeachment. Isso estimulou as teorias de conspiração e, portanto, também a acusação de ter ocorrido um "golpe".

swissinfo.ch: Frente à crise, como você considera a atuação das diferentes instituições?

T.B.: O caso mostra que o Brasil ainda é uma jovem democracia. Cada uma das instituições luta com os seus próprios problemas. Na minha opinião, enquanto a polícia e a Justiça se tornaram muito fortes e independentes no passado recente - a Lava Jato é a melhor prova -, especialmente o sistema político enfrenta grandes problemas. Um parlamento com 28 partidos não pode funcionar, assim como também um governo formado por mais de dez partidos. O Brasil necessita de reformas políticas. A clausula de barreira de 5%, por exemplo, poderia mudar bastante a situação.

swissinfo.ch: Há pouco o Brasil era um dos cinco países emergentes que iriam dominar o século 21. Hoje vive uma das suas piores crises econômicas das últimas décadas. O que ocorreu?

T.B.: A política econômica do governo de Lula da Silva não tinha uma visão de longo prazo. Enquanto em fases de crescimento passadas a indústria brasileira foi reforçada, na última década ocorreu exatamente o contrário. Apostou-se tudo nas matérias-primas e no consumo interno. Agora que o boom das matérias-primas acabou, os lares brasileiros estão endividados e a indústria não é mais competitiva, já que o governo decidiu proteger o mercado e subvencionar a indústria. Um dos problemas do Brasil é que o país só se compara com si próprio e não com outros países. 

swissinfo.ch: Com a aprovação do processo de impeachment na Câmara, quais as perspectivas para o Brasil nos próximos meses?

T.B.: É difícil prever. A crise não terminará rapidamente. Se Temer (n.r.: atual vice-presidente do Brasil) assumir o poder, ele pelo menos poderia conseguir uma maioria e tornar o governo viável. Assim seria possível uma reviravolta de um ponto de visa econômico. Mas quem sabe o que vai ocorrer amanhã? O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pode cassar da chapa Dilma-Temer. E ainda assim as investigações da Lava Jato ainda estão em curso. Elas não terminarão se a presidenta Dilma Rousseff for afastada do poder. Muitas surpresas ainda poderão ocorrer no Brasil. Em minha opinião, o final da crise política só irá ocorrer a partir das eleições em 2018, no mínimo.

swissinfo.ch: Por que a esquerda tem sofridos derrotas eleitorais em diversos países na América Latina?

 T.B.: Muita coisa tem a ver com a situação econômica. A esquerda teve um momento ideal na América Latina. O boom das matérias-primas permitiu-lhe conduzir uma política populista, expandir os programas sociais e ter, dessa forma, sucesso nas urnas. Enquanto o dinheiro estava disponível, o governo podia recorrer a recursos quase ilimitados. O problema é que muita coisa estava orientada somente para a manutenção do poder. Além disso, o poder acabou também desgastando a esquerda. Os governos esquerdistas da Venezuela, Argentina e Brasil se tornaram corruptos e, dessa forma, perderam a credibilidade. Porém, a mudança de governo nesses países é um sinal positivo para a democracia. A alternância faz parte disso e é saudável para a democracia. O problema é que a esquerda na América Latina não preparou em muitos países o retorno à oposição. Muitos governos vieram para permanecer no poder. E esse é um problema que ocorre também aqui no Brasil.

swissinfo.ch: Que papel tiveram grupos de mídia como a Rede Globo na formação da opinião popular? Grupos de apoio da presidenta Dilma acusam esse canal de manipulação.

T.B.: As mídias têm uma grande responsabilidade em uma democracia livre. Se sua credibilidade é questionada, a democracia também está em perigo. É correto dizer que a Globo tem uma posição muito dominante. Porém, considero pessoalmente uma acusação violenta dizer que a Globo manipula. Se a Globo é tão contrária ao Partido dos Trabalhadores (PT) como os seus partidários dizem, como foi possível que o presidente Lula da Silva tivesse obtido um apoio de 80% dos eleitores durante o seu governo? A influência da mídia é muitas vezes superestimada. A formação da opinião pública ocorre muito mais em um contexto privado e, dessa forma, fortemente nas redes sociais. As mídias têm um papel mais catalizador: opiniões já formadas são reforçadas e confirmadas através do consumo de mídia. O importante é que as mídias tenham liberdade e que impere a diversidade. 

swissinfo.ch: A crise política poderá prejudicar a realização das Olimpíadas?

T.B.: Eu não acredito. A Copa do Mundo foi um dos melhores exemplos do que o Brasil é capaz de aproveitar-se de um evento desse porte para dar uma pausa na crise. O que mais preocupa em relação às Olimpíadas é a situação econômica. O Rio de Janeiro não consegue atualmente mais pagar pontualmente os seus funcionários, pois o governo estadual não tem mais dinheiro. Se esse problema piorar nos próximos meses, seguramente isso terá influencia na organização do grande evento. Porém, em situações parecidas, o Brasil sempre dá um "jeito", ou seja, encontra uma saída. Essa é a grande força desse país. 

Biografia

Tjerk Brühwiller nasceu em 1979 em Chur, capital do cantão dos Grisões, sudeste da Suíça.

Estudou ciências da mídia, história e ciências políticas na Universidade de Zurique.

Iniciou sua carreira em 1999 no jornal Zürichsee Zeitung. Desde 2009 vive em São Paulo, onde trabalha como correspondente do NZZ para o Brasil e outros jornais de língua alemã.

Desde julho de 2013, faz a cobertura internacional de toda a América do Sul para o jornal NZZ, de Zurique.

É casado e tem uma filha.

swissinfo.ch

×

Destaque