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Lausanne Jardins 2014


Um laboratório para uma cidade mais verde


Por Marc-André Miserez, Lausanne


Rua da Mercerie, ao pé da Catedral, onde a capital do cantão de Vaud dá ares de campo com sua exuberância verde. (swissinfo.ch)

Rua da Mercerie, ao pé da Catedral, onde a capital do cantão de Vaud dá ares de campo com sua exuberância verde.

(swissinfo.ch)

A cidade do futuro será verde ou então não vai ter cidade. As metrópoles exploram diversas maneiras de colocar mais vegetação no centro, especialmente através das fazendas urbanas. Na Suíça, desde 1997, Lausanne Jardins, de quatro em quatro anos e no verão, torna-se um laboratório experimental, vanguardista e lúdico da cidade de amanhã. 

Não se trata de uma lenda fundadora, mesmo se a história teria tudo para ser. Christophe Ponceau e Adrian Rovero fizeram um plano para o centro de Lausanne (oeste da Suíça), e saíram pela cidade com um punhado de 15 sementes cada um. Onde jogaram as sementes, germinou um jardim. Já participantes da edição de 2009, o arquiteto e paisagista parisiense e o designer de Lausanne são novamente os comissários de Lausanne Jardins 2014, com o subtítulo “Landing”. Os jardins pousam na cidade.

“As sementes foram jogadas ao acaso e a variedade dos lugares reflete a topografia de Lausanne. Tem nas ruelas, nas praças, nos parques, nos tetos em terraços”, afirma Adrien Rovero. Sem esquecer a dimensão que não está no plano, ou seja, o relevo. Lausanne é em declive. Sobe e desce. Tem colinas, ruas escarpadas, escadas, pontos de vista que acrescentam ao charme de um centro histórico cujo traçado das ruas ainda são da Idade Média.  

Lausanne também é muito verde. Os pés no lago, a cabeça nas árvores, a cidade é cheia de parques, jardins, passeios, árvores e bastante vegetação no chão. A floresta está perto da colina da cidade velha e subsiste mesmo uma parte em pleno centro, à margem sul da esplanada do Flon, bairro pós-industrial hoje muito frequentado.  

É aí, quase num beco sem saída entre dois entrepostos de pedras centenárias recentemente renovados, que aquele que levanta a cabeça verá o jardim suspenso. Plantas em vasos amarrados em fios que correm de uma janela a outra por cima da ruela criando simbolicamente uma ligação entre vizinhos. Em Nápoles, estaria pendurada uma toalha. Aqui, a ligação é vegetal.

Cidade privilegiada

É a ideia central de Lausane Jardins: colocar verde onde normalmente não tem. Surpreender, interpelar o passante e levá-lo a se questionar sobre sua relação com a cidade e com o mundo vegetal. Um questionamento que Thierry Meyer, redator-chefe do jornal local 24 Heures, escreve: “A cidade é uma paisagem? A natureza deve ser enquadrada? O espaço disponível é imutável? Construir sempre significa destruir?”

Não há mais a dizer? “Que Lausanne é uma cidade privilegiada, o que a torna ideal para esse tipo de experiência”, afirma Christophe Ponceau. “A cada quatro ou cinco anos, os 330 jardineiros da cidade têm a possibilidade de testar ideias e confrontá-las as de outros artistas”, acrescenta. Muito investido na manifestação – inclusive para aguar que não sempre ser automatizado – o Serviço de Parques e Domínios da prefeitura de Lausanne não é o único a fornecer espaços verdes experimentais. Lausanne Jardins conta com artistas internacionais, selecionados por concurso, e estudantes em design, paisagismo e arquitetura. Para esta quinta edição, o júri selecionou 27 projetos, entre eles nove europeus e dois americanos, dos 400 apresentados.

Universal e único

Colocar o verde na cidade é uma tendência? “Claramente sim, todas as grandes metrópoles fazem tentativas a mais ou menos grade escala”, explica Christophe Ponceau. Genebra faz este ano a primeira edição de seu festival Genève, ville et champs. No entanto, Lausanne Jardins 2014 não está diretamente na linha de “urban farming”, que já tem edições anuais em Bruxelas, Praga e Montreal e sua exposição itinerante Carrot City, que oportunamente está em Lausanne neste verão.

Este ano, de fato, Lausanne tem somente um lugar produtivo, uma estufa de tomates, instalado em um prédio do final dos anos 1950. No mais “nos concentramos mais na forma do jardim do que na necessidade do jardim na cidade. Era uma outra temática que nos interessava para esta edição. Se comparamos com outros festivais, tendência urbain faming, somos, pela dimensão e pelo fato da manifestação durar quatro meses, praticamente únicos no mundo”, explica o arquiteto francês.

“Aqui, estamos realmente no jardim urbano. O que nos interessa é de ir onde existe um pouco mais um desafio de instalar a vegetação”, acrescenta Adrien Rovero. É também o que a grande diferença entre Lausanne Jardins e um festival como o de Chaumont-sur-Loire, na França, onde os jardins, mesmo os mais vanguardistas, são instalados no meio dos jardins.

Em Lausanne, ao contrário, alguns parecem realmente caídos do céu, enquanto outros florescem em espaços que já são verdes. Tem ainda o totalmente inesperado como uma fachada neoclássica literalmente repleta de grama em que tufos crescem entre suas colunas. A imagem é, ao mesmo tempo, engraçada, insólita e ligeiramente apocalíptica, como se as plantas reinassem na cidade.

Pesquisa e desenvolvimento

“Não era essa nossa concepção corrige Christophe Ponceau. Queremos explorar novas maneiras de utilizar ou trazer o vegetal para a cidade, mas numa cidade habitada. Aqui, eu vejo como uma resposta diferente às outras propostas que existem de jardins verticais.”

O arquiteto e o designer

Christophe Ponceau é arquiteto diplomado pela escola Boulle em Paris, mas também paisagista e diretor artístico em design, fotografia e grafismo. Em 2000, ele participou da exposição “O Jardim Planetário”, Grande Halle de la Villette. Também foi o autor do pavilhão francês na Exposição Internacional de Saragosse, em 2008. Mais recentemente, trabalhou no jardim do novo Fundo Regional de Artes Contemporâneas em Orléans (França) e desenvolveu projetos associando arquitetura efêmera, fotografia e paisagem em Detroit (Estados Unidos).

Adrien Rovero tem um Master en Design Industrial pela Escola de Arte Lausanne (ECAL). Ativos nos setores mobiliário, luminárias e de cenografia, ele abre seu escritório em 2006 em Lausanne. Desde então, ele desenha e concebe objetos para editoras em toda a Europa e instituições que o solicitam para projetos cenográficos como o Centre Pompidou em Paris, o Grand-Hornu Images na Bélgica ou o Museu de Artes Aplicadas Contemporâneas (mudac) de Lausanne, três instituições que adquiriram suas obras para suas coleções.

Jardins verticais, fachadas vegetais, uma moda em que o arquiteto tem certas reservas: “Isso pode se justificar como integração na paisagem ou para questões térmicas ou de isolação, mas quando é só decoração ou vontade de impressionar, é mais discutível, principalmente por consome muita água”. Querem de qualquer maneira vegetal vertical “pode ser uma heresia”, opina Adrien Rovero. Para ele, a grama entre as colunas “funciona muito bem numa manifestação que dura um tempo limitado, mas não deveria ser perenizada.”

No entanto, certas ideias serão perenizadas, como foi o caso depois de cada edição de Lausanne Jardins. Ainda é cedo para dizer quais, mas os dois comissários pendem por uma nova forma recipiente para flores modulável que, depois de uma primeira amostra em uma rua pedestre do centro, poderia florescer em toda a cidade.

É esse aspecto experimental que Adrien Rovero gosta particularmente na aventura. “Fala-se em laboratório de pesquisa e desenvolvimento, é bem mais do que decoração urbana. Com uma centena de exposições, conferências colóquios, Lausanne Jardins é uma manifestação cultural da qual as pessoas se lembram – porque ela ocorre a cada quatro ou cinco anos – e esperam a próxima edição”. Tradicionalmente, os jardins são muito frequentados e muito pouco vandalizados, mesmo nos bairros reputados como “quentes”.

“Eu também acho muito positivo que todos os futuros designers e arquitetos que trabalharam em Lausanne Jardins tiveram que refletir ao trabalho com plantas”, acrescenta Rovero. “Elas aprenderam a respeitá-las, a considerá-las como algo vivo e não simplesmente como elemento decorativo.”


Adaptação: Claudinê Gonçalves, swissinfo.ch

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