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Letras lusitanas Fazendo os miúdos sonhar na língua de herança

Mariana Mendes posa com livros infantis na biblioteca de Nyon

Mariana Mendes à vontade entre os livros infantis na biblioteca de Nyon: a contadora de estórias é, ela mesma, uma sonhadora.

(Filipe Carvalho)

Mariana Mendes vive há 10 anos em Nyon. As suas leituras de histórias nas escolas locais, nas aulas de português em diversas cidades suíças e a sua rubrica As Estórias da Mariana no programa Portugalidades da rádio Cité Genève, têm contribuído para a divulgação do conto infantil em português pela Confederação Helvética.

A swissinfo.ch encontrou a leitora de histórias Mariana Mendes na Biblioteca de Nyon – Jovens Públicos, para uma conversa animada sobre estes 10 anos de vida helvética e do seu reencontro com os livros e contos infantis que a continuam a fazer sonhar, e da sua vontade em partilhá-los com os emigrantes na Suíça.

Mariana Mendes sempre viveu na capital portuguesa até os 40 anos, altura em que se mudou com o marido e os dois filhos para Nyon. Ao contrário de muitos emigrantes portugueses na Confederação Helvética, que são oriundos de vilas e pequenas cidades do interior de Portugal, a nossa entrevistada sentiu um grande contraste com o estilo de vida numa pequena cidade como Nyon, mesmo sendo a cidade dos festivais.

Contudo, não se demoveu e procurou envolver-se o mais possível nas atividades da comunidade local. Tirando partido da idade dos seus filhos, um de 4 anos e outro de apenas meses da idade, começou a frequentar a hora do conto todas as quartas-feiras na biblioteca de Nyon. Da mesma forma, também se envolveu com as tricoteiras da cidade, ou as Tricol’euses como se chamam, para a fabricação dos gorros que são vendidos em seu stand no festival Les Hivernales desde 2013, onde ainda hoje Mariana é voluntária.

Esse grupo é constituído, na sua maioria, “por senhoras de idade, e eu achei interessante tricotar os gorros e conhecer mais pessoas da cidade”. O projeto dos Quartiers Solidaires fez igualmente parte das projetos sociais e voluntários onde participou. 

Ainda traduziu em português, a pedido da escola primária de Nyon, o caderno de boas-vindas para os alunos com o português como língua de herança. Na Maison du Quartier contou histórias e prestou outro tipo de apoio voluntário a crianças e idosos. Ainda trabalhou como voluntária na bilheteira e bar da Usine à Gaz, em Nyon, e, dessa forma, tinha acesso às peças de teatro infantis.

Realidade teatralizada

A mudança para a Suíça trouxe consigo uma nova realidade pessoal para esta licenciada em relações internacionais. “Quando aqui cheguei há 10 anos, não havia cantinas escolares, as mães iam buscar os miúdos à hora do almoço, isso implicava que as mães não pudessem trabalhar a tempo inteiro. E não havia creches”. Por isso, acabou por se dedicar a tempo inteiro a cuidar dos seus filhos.

Nos recentes anos, essa realidade alterou-se e já existem diversas creches e cantinas escolares na cidade. “Muitas portuguesas jovens estão nesta profissão de educadora infantil, precisamente porque é uma coisa recente e elas conseguiram aproveitar essa oportunidade”. Tal como Mariana, que trabalha regularmente numa creche e é substituta em outras duas, em virtude da grande rotatividade da atividade. 

A sua experiência em trabalho social contribuiu para que tivessem boas referências suas e esta oportunidade surgisse. No seu trabalho com as crianças procura teatralizar as histórias que conta e desenvolver atividade manuais. “A sensação que tenho é que gostam das nossas ideias, mas gerem de maneira diferente esta nossa expansividade”, sorri-nos.

Rompendo clichês

No primeiro ano em que se mudou com a família para a Suíça e ainda estavam a conhecer a região, Mariana Mendes encontrou no Castelo de Prangins uma placa alusiva à antiga proprietária Emílie de Nassau. 

Após sua morte, sua filha Maria Bélgica ficou proprietária do baronato de Prangins. Emílie de Nassau foi sepultada na catedral de Saint Pierre, em Genebra. Por seu turno, Maria Bélgica, que foi uma figura importante no cantão de Vaud, marca presença na toponímia em Prangins, Vevey, Lausanne e em uma placa em sua memória em Genebra. 

Após pesquisa histórica em Portugal e Suíça, Mariana escreveu o artigo intitulado Princesas portuguesas em Prangins (Suíça) no séc. XVII, publicado no jornal Gazeta LusófonaLink externo.

A sua contribuição para quebrar estereótipos da comunidade portuguesa se dá promovendo a diversidade profissional das mulheres portuguesas, expondo o rosto feminino de uma comunidade que é numerosa e diversificada. 

“Nós conseguimos 40 profissões diferentes. Obviamente que continuamos a ter uma maioria ligada às limpezas, mas o objetivo era mostrar diversidade e promover a integração das mulheres portuguesas nas diversas áreas”. 

A exposição fotográfica intitulou-se Au-delà des clichés: Portraits de Femmes Portugaises à NyonLink externo, e contou com 165 mulheres fotografadas. A exposição integrou a semana contra o racismo de Nyon e foi totalmente financiada pela cidade. Ao longo de dois anos, esta exposição esteve patente em diversas cidades suíças, como Genebra, Berna, Friburgo, Lucerna, entre outras. Este trabalho foi organizado por Catarina Antunes e Mariana Mendes com fotografias de Nadir Mokdad e Carla da Silva.

Conto e estórias

A paixão da nossa entrevistada pela leitura de contos levou-a a promover autores lusófonos em escolas e biblioteca de Nyon, e também a fomentar o gosto pela leitura e despertar, ainda mais, o lado sonhador. Apesar de já ter feito leituras encenadas em francês, é em português que se sente mais confiante e consegue imprimir uma maior expressividade.

Na biblioteca pública de Nyon começou a apresentar diversos autores lusófonos, alguns deles traduzidos em francês, para que constassem nas estantes e pudessem ser requisitados. Através das aulas de língua e cultura portuguesa, promovidas pelo Instituto Camões, também teve oportunidade de realizar leituras em Nyon, Zermatt e outros lugares no país. Esse é um dos locais privilegiados onde Mariana gostaria de poder continuar ler as suas histórias infantis.

Através da sua página 'Mariana Storyteller' tem recebido diversos convites para realizar leituras de histórias e declamação de poesia, em eventos públicos ou de autor, “porque há aqui uma comunidade portuguesa que gosta de escrever poesia, têm vontade de se exprimir, e uma série de autores que têm publicado”.

Quando se apercebeu que os portugueses não têm o hábito de ler, decidiu apresentar uma proposta a Cristina Rodrigues do programa de rádio Portugalidades e iniciar uma rubrica quinzenal intitulada As Estórias da MarianaLink externo. Dessa forma, conseguiu abranger um público mais amplo, mantendo uma emissão regular desde há cerca de dois anos. 

Habitualmente, “eu faço a divulgação dos programas na minha página e recentemente, coloquei um agradecimento a todos os autores e ilustradores que já entrevistei, que são 14, e li 71 livros infantis na rádio”.

Esse papel de divulgadora cultural é visível no entusiasmo que exterioriza. “Apenas divulgo o trabalho de outras pessoas e incentivo outros à leitura. Estou a fazer a minha leitura, com alguma animação, é a minha interpretação, mas é apenas para que se torne mais apelativo”. O programa pode ser escutado na rádio Cité Genève em 92.2 fm, quinzenalmente às quintas-feiras.

As próximas estórias

A vida reserva páginas em branco para que cada um continue a registar o seu caminho. Mariana Mendes está a esboçar os primeiros traços nas novas páginas que começa a preencher. “Gosto muito de fazer atividades relacionadas com cultura e língua. Estou à espera de uma nova inspiração”, sorri, não esquecendo que as emissões na rádio e as leituras infantis irão continuar.

Quando a questionamos se pretende voltar a Lisboa, diz que já pensou diversas vezes nisso mas, “com 10 anos de Suíça e 2 filhos que cresceram e se sociabilizaram aqui, dificilmente querem voltar. Vamos ficando até ver”. Por isso, iremos continuar a escutar estórias contadas pela Mariana Mendes na Suíça.

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