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Suíça de portas abertas

Uma coluna quinzenal destinada a discutir temas ligados à integração e adaptação da comunidade de língua portuguesa na Suíça.

Pensando nisso e em outras diversas questões que envolvam o tema imigração criamos a coluna "Suíça de Portas Abertas", veiculada a cada segunda semana na swissinfo.ch para a comunidade de língua portuguesa. Fique ligado todo dia 1° e dia 15 de cada mês.

Liliana Tinoco Baeckert é carioca e vive na Suíça desde 2005. Jornalista, tem mestrado em Comunicação Intercultural pela Universidade de Lugano e se especializou em imigração de brasileiros na Suíça e em treinamento intercultural para adaptação e integração de estrangeiros.

Por Liliana Tinoco Baeckert
coluna

1. de dezembro de 2016

Transmissão de valor aos filhos e festas lideram reclamações entre casais binacionais

A criação dos filhos e o conceito de divisão entre espaço privado e social são os dois maiores motivos de conflitos entre casais binacionais de origem brasileira e suíça.

Helene Labenz Gawlik consegue driblar melhor os conflitos porque pai era alemão  (swissinfo.ch)

Helene Labenz Gawlik consegue driblar melhor os conflitos porque pai era alemão 

(swissinfo.ch)

As razões estão diretamente ligadas às diferenças culturais entre os dois países, que funcionam em lados opostos em muitas categorias, como por exemplo comunicação, gestão do tempo e das finanças. Assim como outras sociedades com históricos e origens tão diversas, suíços e brasileiros têm variadas maneiras de educar e valores morais, e discordantes conceitos sobre questões triviais, como família, amizade e lar, por exemplo.

Os dados foram gerados por meio de sondagem qualitativa, realizada com 18 brasileiras casadas com suíços ou estrangeiros criados no país. A pesquisa, realizada pela swissinfo.ch no mês de outubro deste ano, perguntou às brasileiras quais seriam os maiores causadores de conflitos com seus maridos devido a diferenças culturais. O estudo inclui mulheres, com idades que variam de 22 a 60 anos, casadas ou divorciadas, moradoras dos cantões de Schwyz, Zurique, Argóvia, Solothurn e Berna.

A educação dos filhos e o conceito de vida privada empataram. Das 18 entrevistadas, sete relataram problemas com relação a esses temas. Em terceiro lugar, com seis pontos, entra a categoria "finanças", que inclui tantos gastos desnecessários, principalmente relacionados a compras exageradas de sapatos, quanto à preocupação exacerbada em economizar dinheiro para a aposentadoria. Logo após, com quatro pontos na lista, entra a divergência quanto à utilização do tempo livre: o marido quer férias na montanha, a esposa na praia; o homem acha que precisa estar em dia com as tarefas domésticas no fim de semana, a mulher quer passear.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert

Educação dos filhos - não importa a idade da prole. A celeuma inclui tanto discordâncias na educação de crianças pequenas quanto de adolescentes de 18 anos. Os pais suíços encaram a iniciação sexual dos filhos como um assunto normal, permitindo que tragam inclusive namorada para dormir em casa. As mães brasileiras, no entanto, são muito mais conservadoras nesse quesito. Segundo Ana Dias*, o marido acha normal a filha de 14 anos sair com as amigas à noite e ainda comunica a ela que pode começar sua vida sexual antes dos 18 anos. Quando se trata de crianças pequenas, eles também se mostram mais liberais. "Meu marido acha tudo normal e nada perigoso. Ele quer nossas filhas livres, subindo em árvores, enquanto eu tenho medo que elas caiam", relata Milena Bach*, uma das entrevistadas.

Mas quando o assunto é permitir que os filhos assistam televisão, os suíços se mostram mais tradicionais e contra a adoção da famosa "babá eletrônica", entrando em conflito com as esposas brasileiras. E aí que a cultura explica sua importância: o brasileiro está entre as seis nacionalidades que mais assistem televisão no mundo, de acordo com pesquisa divulgada em 2013 pela Motorola Mobility, que confirma o que já se sabia por observação. A pesquisa constatou os hábitos de cerca de 9,5 mil consumidores de 17 países. O exemplo citado é emblemático e serve para mostrar que a cultura se faz muito forte quando se trata da criação dos filhos. Na Suíça, país seguro e repleto de florestas, é comum que crianças brinquem mais na rua, tenham contato com a natureza e, consequentemente, subam em árvores.

De acordo com Marla Alupoaicei, autora de livros sobre o assunto, quando o primeiro bebê nasce, a dinâmica de um casal muda drasticamente, mas mais ainda para um casal binacional. "Além da enorme responsabilidade que acompanha a tarefa de criar um novo ser, o casal vê a tensão crescer paralelamente à incerteza sobre como proceder. Ideias culturais sobre criação das crianças são muito enraizadas, indivíduos geralmente lutam para identificar seus próprios valores e atitudes sobre o tema", explica Alupoaicei, em seu livro O seu casamento intercultural: um guia para um relacionamento saudável e feliz (em inglês: Your Intercultural Marriage: a guide to a healthy, happy relationship). Ela explica ainda que pais que enfrentam problemas na criação dos filhos estão, na verdade, batalhando sobre diferenças básicas de filosofia, valores e crenças que o casal ainda não conseguiu resolver.

Conceito de espaço privado versus social – brasileiro gosta de festa, não é nenhuma novidade. Já os suíços são muito mais reservados. Entre as reclamações dos maridos estão a presença constante de amigas da esposa em casa, o que tira a privacidade; e a necessidade de silêncio e de isolamento, principalmente quando ele visita os parentes da mulher no Brasil. "A minha família não entende porque o meu marido necessita permanecer algumas horas trancado no quarto de hóspedes quando todos estão conversando lá fora", relata Dalila Meyer*.

De acordo com Rosemary Jaggi, seu problema é que sempre foi muito comunicativa e festeira, e queria fazer dos novos amigos que conheceu na Suíça membros da família, na tentativa de repetir as reuniões de domingo com galinhada em Goiás. No caso de Rosemary, entram dois outros aspectos culturais, além do privado e social: os diferentes conceitos de domingo e de família. Em uma cultura coletivista, como o Brasil, amigos também podem fazer o papel de família. Afinal de contas, quanto mais gente melhor.

Finanças: a entrevistada Tatiana Beyer* não consegue entender a preocupação exagerada com o dinheiro para a aposentadoria. Ela compreende a necessidade de economizar para o futuro, mas acha que os suíços tomam a questão quase como uma paranoia. "Eles são muito precavidos com as finanças. A gente nem pensa nisso no Brasil. Isso não significa que eles sejam pão duros, eu acredito que eles têm prioridades diferentes, mas o jeito como levam a coisa é exagerada. Suíço gasta fortunas com bebidas, por exemplo", diz Tatiana.

Algumas das entrevistadas tiveram que conter os gastos com supérfluos, principalmente com a compra de roupas e sapatos. Segundo a brasileira Leda Pearl*, quando chegou à Suíça, ela gastava muito, comprava o que via, fato que se arrepende. Se os suíços vivem felizes com no máximo três pares de sapatos, o brasileiro se comporta de outra forma quando consome. Estudo do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) de 2013 confirma: 46% da população não controla seu orçamento. As mulheres só repetem o comportamento que já tinham no Brasil.

Jogando futebol com a torcida ao contrário

É importante mencionar que qualquer relação a dois necessita de ajustes, mas o relacionamento entre duas pessoas de culturas muito diferentes tem adicionados alguns fatores complicadores. Além de todos os motivos de conflitos citados na matéria, o estilo diferente de comunicação é o maior ponto frágil. Um dos cônjuges não irá falar a língua nativa. Há casos de casais que lançam mão de uma terceira língua, o que significa que um dos dois estará em desvantagem ou os dois se comunicarão em uma língua que não dominam 100%, porta aberta para mais mal-entendidos. De acordo com a psicóloga e pesquisadora da Universidade Católica de Pernambuco, Flávia Schuler, em uma cultura diferente, dificuldades na comunicação se ampliam, mas isso não significa que não possam ser resolvidos", explica.

A pesquisadora, que escreveu dissertação de mestrado sobre o assunto, diz que até a forma de falar do alemão, que tem uma sonoridade e um tom bem diferentes do português, causa mal-entendidos entre os casais binacionais. Além disso, some o fato de que as culturas germânicas têm uma forma mais direta de falar o que pensam. "Isso no dia a dia soa como ofensa pessoal, o que muitas vezes é somente uma forma diferente de comunicar o que se deseja", diz.

Dessa maneira, Flávia Schuler defende o esclarecimento sobre o tema cultura. Isso inclui que esposas e maridos estejam abertos a essas diferenças. "Quando a esposa migra para a Suíça, a carga de adaptação pesa mais sobre ela. É como se ela jogasse futebol com a torcida ao contrário. Por isso acredito na importância do marido e da esposa compreenderem e aceitarem que suas culturas são diferentes e entrarem em acordo", enfatiza.

*Alguns nomes foram mudados a pedidos das entrevistadas.
Os pontos de discordância, de acordo com a sondagem: 

Os pontos de discordância, de acordo com a sondagem:

 

Categorias

Suíços

Brasileiras

1

Criação dos filhos

Dão mais liberdade

Criança de 3 anos é considerada apta a brincar sozinha na rua

Permitem que filhos tragam namorados para dormir em casa

Não quer que a criança assista a TV

Iniciação sexual mais aberta

Mães precisam sair todos os dias com filos para pegarem luz do sol, mesmo quando frio

Bebês só devem tomar banho duas vezes por semana

Crianças vão à escola sozinhas

Noção diferente de perigos e riscos para crianças

Vigilância atenta aos pequenos

Maior permissividade quanto à TV

Não querem sair de casa se faz frio

·Banho todos os dias, até mesmo duas vezes

·Crianças vão à escola de carro

2

Privado e Social

Só convidam pessoas íntimas para casa

Precisa ter momentos de privacidade e se fechar no quarto, mesmo que esteja visitando a família brasileira em viagem

Poucos amigos e amizades são eternas

Fazem questão de convidar vários amigos e conhecidos para reuniões com muita comida em casa.

Muitos amigos, incluindo recém conhecidos, colegas do trabalho

3

Gerenciamento das Finanças

Preocupados em guardar dinheiro para a aposentadoria

 

·compra desenfreadamente

Aquisição de supérfluos

4

Tempo Livre

Férias na montanha

Fim de semana é ideal para colocar o trabalho de casa em dia

Domingo é dia de silêncio e de descanso

 

Férias na praia

Fim de semana foi feito para curtir com a família, festejar com amigos e não trabalhar

Domingo é dia de convidar os amigos para almoçar em casa e criar um clima de festa em família

 

5

Jeito Extrovertido

Discretos

Realista

Contido

Gosta de sossego

 

 

 

 

Ri muito e alto

Otimista

Emocional, chora e ri com facilidade

Gosta de festas

6

Conceito de família

Família é basicamente mãe, pai e filhos. Tem dificuldade de aceitar a grande quantidade de integrantes da família brasileira

Pouco contato com a família (pais, avós, tios)

O conceito de família inclui tia, tios, primos, vizinhos, amigos e até animais de estimação

Contato constante com família no Brasil

7

Organização da casa

Lixeira para dejetos biológicos

Como gosta de colocar a casa em ordem, tende a ser mais organizado

Prefere jogar tudo no mesmo lixo, sem separar

Acumula objetos

 

 

 

8

Agenda e Pontualidade

Pontual

Organização do tempo

 

Tem que aprender a ser pontual

Várias festas de uma vez só, sempre atrasada

 9

Idioma

Mal-entendido por língua diferente

Humor diferente por conta da língua

Demanda em relação à proficiencia da língua alemã

Mal-entendido por língua diferente

Acha muito difícil aprender alemão

 

 


15 de novembro de 2016

Precisamos falar sobre diversidade cultural nos casamentos

Casais binacionais deveriam se informar sobre a realidade cultural dos parceiros com o objetivo de amenizar as diferenças.

É só dar uma volta pelas maiores cidades suíças para confirmar os dados do Departamento Federal de Estatísticas: as brasileiras, ouvidas e vistas em vários pontos do país, estão em segundo lugar na preferência dos suíços para casar. As alemãs ocupam a liderança. De acordo com os dados do BFS, cerca de 49% dos matrimônios no país têm perfil binacional, o que significa que um dos cônjuges dispõe de outra nacionalidade. 

Diante do alto índice de casamentos entre as duas nacionalidades, uma pergunta não pode ser ignorada: será que essas brasileiras sabiam ou sabem o que significa emigrar? Elas se preparam ou simplesmente deixam o Brasil para viver um grande amor? Segundo pesquisa empírica com 15 mulheres para essa matéria, elas seguem o sonho e embarcam sem muita ou quase nenhuma informação. Isso não significa que o relacionamento não dará certo, mas pesquisa prévia garante maiores taxas de sucesso e menos frustração. Afinal de contas, qualquer união, mesmo quando inclui pessoas de uma mesma cidade, já constitui pelo menos a junção de duas culturas diferentes. Imagina quando oriundas de países tão diferentes quanto a Suíça e Brasil.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert

Um dos maiores erros é ignorar a cultura do cônjuge. De acordo com a autora do livro Your intercultural marriage (Seu casamento intercultural), Marla Alupoaicei, os casais dispendem em média muito mais tempo planejando suas festas de casamento que o matrimônio em si. De acordo com a escritora, a maioria dos jovens casais foca exclusivamente na cerimônia, agindo muitas vezes de forma inocente, idealista e romântica. A autora escreve em seu livro algo que pode ser confirmado pelas inúmeras brasileiras casadas na Suíça: casais interculturais provavelmente experimentam mais conflitos que os casais de mesma nacionalidade. Por uma razão óbvia, mas que ninguém pensa quando está apaixonado. Segundo Dugan Romano, em seu livro intitulado Intercultural Marriage: Promisses & Pitfalls (que significa Casamento intercultural: Promessas & Armadilhas), esses casais serão constantemente expostos a diferentes costumes, cerimônias, línguas e países. A exposição, entretanto, não será sentida como acontece com expatriados, por exemplo, que lidam com a diversidade cultural mais profundamente no ambiente de trabalho. Casais interculturais sentem essas particularidades nas decisões mais íntimas.

As diferenças podem aflorar já com a organização do casamento, enquanto ainda são namorados, ou estarem relacionadas a uma decisão muito íntima, que influencie a vida dos filhos, por exemplo. De acordo com a brasileira Mariane Nunes*, atitudes banais, como decisões de rotina, que não teriam a menor estranheza para um casal brasileiro, podem se transformar em incompreensão por uma família binacional. Mariane cita o exemplo da festa de aniversário do filho, que virou motivo de briga entre o casal durante dez anos, todas as vezes que o menino fazia mais um ano de vida. “O meu marido e sua família nunca entenderam que era muito importante para mim comemorar o aniversário do nosso filho como fazemos no Brasil. É uma tradição nossa, que eu valorizo muito e não quis abrir mão”, explica. 

Já a egípcia Samah Rayed*, casada com um alemão e moradora da Suíça, se viu perplexa diante da decisão de circuncisar o filho, seguindo a tradição de sua família, ou de não o fazer, deixando o menino como o pai. A egípcia, após muita reflexão e diálogo, preferiu deixar o filho se parecer com o pai a não seguir uma tradição familiar. Uma decisão como essas, no entanto, pode ser o detonador de um pavio prestes a explodir.

Culturas diferentes, valores desiguais

Os diferentes valores que regem as culturas podem funcionar exatamente como estopim para relações de diferentes culturas. O que é importante para um, soa totalmente esdrúxulo para o outro. Essa relação é totalmente proporcional ao tempo de convivência e obviamente à exposição a certas questões.

Dessa maneira, a autora Marla Alupoaicei aconselha que casais conversem, ou que pelo menos estejam conscientes, de que temas morais podem divergir, até mesmo quando os parceiros tenham a mesma religião. Por isso, é importante checar o que poderia ser motivo de discordância:

- Aborto, contracepção, gravidez, tratamento de infertilidade e decisão sobre o número de filhos

- Álcool e uso de drogas

- Batismo

- Circuncisão

- Corte de cabelo, maquiagem, uso de joias e estilo de vestimenta

- Dança

- Namoro

- Morte (incluindo cremação e rituais de enterro) e questões relacionadas, como eutanásia

- Sexualidade

- Doença e tratamentos

- Como educar os filhos

- Comida e refeições

Conflitos podem ocorrer devido a diferenças culturais

Assim como dimensões culturais são levadas em conta no mundo profissional, deveriam ser consideradas também em relações matrimoniais. Dimensões culturais são usadas para categorizar e explicar os comportamentos de cada cultura. Existem inúmeras, mas Alupoaicei sugere que dimensões como tempo, por exemplo, seja considerada para que casais não se esqueçam de que vêm de origens diferentes. Em culturas como a brasileira, em que o tempo é flexível, atrasos são permitidos. De acordo com Richard Lewis, criador do Modelo de Comunicação Intercultural e autor de inúmeros livros sobre o tema, em culturas onde o tempo é linear, pessoas medem o tempo em horas, minutos e segundos. É quase uma obsessão com o tempo. Só essa característica já é suficiente para inúmeras brigas entre um casal de brasileira e suíço.

Em culturas individualistas, como a Suíça, por exemplo, o conceito de família é diferente. Família basicamente significa pai, mãe e filhos. Já na cultura brasileira, que é coletivista, esse conceito se amplia e pode significar até o vizinho. Outra razão para conflitos em casamentos binacionais. Outras categorias importantes devem ser observadas nesse processo. A coluna trará, na próxima edição, mais informações a respeito de possíveis conflitos. 

01. de novembro de 2016

Fazendo as pazes com o alemão

A linguista Cristina Schumacher explica os porquês dos problemas com a língua

Além de todas as dificuldades enfrentadas por um brasileiro imigrante na Europa, a língua alemã vem culminar como um dos principais problemas apontados por quem vive em países germânicos. De aparência tão incompreensiva, o aprendizado se faz árduo e vagaroso, a ponto de muitos se dizerem traumatizados com a língua.

Na Suíça, a situação se complica devido à importância atribuída aos dialetos pela população local, fazendo com que os estrangeiros se sintam deslocados e aparte da sociedade onde vivem. Afinal de contas, eles aprendem um idioma nas escolas e se deparam com uma realidade linguística totalmente diferente nas ruas, tornando o que já era complexo em algo quase inacessível.

Para falar sobre o assunto, a linguista Cristina Schumacher, autora de mais de 30 títulos sobre o aprendizado de línguas e do livro Alemão Urgente para Brasileiros, destrincha a problemática com o idioma germânico e incentiva brasileiros e portugueses a darem mais uma chance à língua de Goethe.

swissinfo.ch: Na dissertação em que eu escrevi sobre mulheres brasileiras na Suíça, percebi que existe uma relação quase traumática entre o público brasileiro e o alemão. O que a Senhora atribuiria a essa isso?

C.S: Como eu explico no meu livro Alemão Urgente para Brasileiros, devido a sua fama de idioma difícil e inacessível, o alemão acaba sendo alvo de aprendizagem apenas das pessoas, cuja motivação para conhecê-lo se prova muito concreta. As dificuldades geradas por essa fama, mal fundamentada, ainda são acrescidas da suposta “antipatia” que o seu sistema fonético costuma evocar em ouvidos de falantes de outras línguas. É lamentável, contudo, que impressões dessa natureza venham a constituir barreiras ao contato ou conhecimento de um instrumento de comunicação de tão raras exatidão e beleza.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert

Eu acredito, no entanto, que esse fenômeno que acomete os falantes do português possa ser explicado com base em três dimensões. A primeira seria a dimensão formal da língua, que é baseada na dissimilaridade dos sistemas, que passam pelos traços dos sistemas de sons, de organização das palavras e até mesmo conceituais. Por exemplo, ao lidar com as duas línguas é possível perceber que um conceito em alemão pode precisar de um parágrafo para ser explicado, enquanto a mesma ideia em português precise ser explicada de uma outra. Muitas vezes esse conceito nem pode ser explicado, gerando uma expressão vazia. Português e alemão não são lentes simultâneas, mas bem diferentes.

A dimensão cultural, entretanto, também influencia o aprendizado. Isso significa toda forma de lidar com o convívio entre essas duas culturas, que são muito diferentes, por meio da língua. O idioma nos serve e se adapta à forma como vivemos.

Eu explicaria esse fenômeno também pela dimensão ritual e literal da língua. A Portuguesa, pelo seu caráter mais ritual, vai permitir que a pessoa diga “Passa lá em casa”, como uma forma de ritual de conversa, como maneira de estender um diálogo, ou até mesmo de mostrar uma simpatia, mas não um literalmente convite. O germânico, no entanto, entenderia como uma solicitação de presença. Fazendo uma ligação com o sócio cultural e o sistema de convívio, fica óbvio que essa relação vai exigir um certo preparo para ser compreendida.

Na língua ritual, como é a nossa, os códigos são sobrepostos. É necessária, dessa maneira, uma decifração dos códigos sociais para entender. Saindo dessa ótica e indo para a língua alemã, representante da conduta literal direta, fica então fácil perceber como o desconhecimento sobre a cultura própria e a alheia gera julgamento de valor e, consequentemente, pode trazer um componente de rejeição que vai atrapalhar seu aprendizado.

Muitos brasileiros percebem o alemão como grosseiro, mas na verdade, isso é somente uma outra forma de se expressar, de olhar o mundo. A língua não determina, mas conduz a um determinado ponto de vista. Ela tem um papel de manter um jeito de se relacionar com a realidade. Essa subjetividade, no entanto, é uma zona obscura, difícil de se alcançar. Por isso gera sofrimento. Portanto, esses fatores, todos juntos, se retroalimentam.

swissinfo.ch: Existem outras dificuldades?

C.S: Os dois idiomas apresentam contrastes de pronúncia e de estrutura. O rigor estrutural do alemão se contrapõe à flexibilidade do português. A pronúncia alemã, que tem suas consoantes explodidas pela tensão, é contrária às consoantes relaxadas do português. O jeito leve de dizer bonita é muito diferente do jeito marcado e duro do idioma germânico, que é tenso.

swissinfo.ch: Tenho a impressão de que suíços e alemães não têm muito problema para aprender o português...

C. S.: Quem teve acesso a uma língua de tão rígida estrutura como o alemão, que permite análises mais profundas, vai conseguir falar uma língua mais flexível como o português mais facilmente. Dessa forma, é comum encontrar alemães e suíços que aprendam a língua portuguesa mais rapidamente, situação que nem sempre se repete ao contrário.

swissinfo.ch: E o dialeto, onde entraria nessa questão?

C. S.: O termo dialeto surgiu com as grandes navegações europeias na América. Por si próprio, já traz inconscientemente uma relação de poder. A crença era a de que o Português, língua de dominação, seria superior às línguas faladas pelos povos locais.

Dialeto remete à sub língua, o que pode causar mais um bloqueio ao brasileiro que esteja tentando aprender. Isso não acontece somente com o alemão suíço, mas com outros “dialetos”. Dessa maneira, eu não gosto de usar a palavra dialeto, prefiro o termo variedades da língua. É importante remover o peso da situação.

swissinfo.ch: E qual a conclusão disso tudo? Vale a pena aprender alemão?

C.S.: Mas é claro. Aprender um outro idioma significa lançar mão de um recurso exploratório de outras culturas. Funciona como exercício de perspectivas, ver o mundo de outras formas. Isso te permite construções diversas, explorar as coisas com completitude.

Assim como explicou no meu livro, o alemão constitui, na verdade, um surpreendente meio de enriquecimento linguístico. O idioma germânico é precipitadamente julgado por muitos como uma complicação desnecessária. Aprender uma nova língua é como ocupar uma nova casa, com outra disposição de ambientes, orientação solar, colocação de aberturas, mobília etc. Nos tempos de hoje, quando os povos precisam conviver mais que nunca, é preciso ampliar as realidades de cada um. Portanto, não desistam e aproveitem essa oportunidade maravilhosa que têm em descobrir e participar de um outro mundo.  

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