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Suíça de portas abertas

Uma coluna quinzenal destinada a discutir temas ligados à integração e adaptação da comunidade de língua portuguesa na Suíça.

Pensando nisso e em outras diversas questões que envolvam o tema imigração criamos a coluna "Suíça de Portas Abertas", veiculada a cada segunda semana na swissinfo.ch para a comunidade de língua portuguesa. Fique ligado todo dia 1° e dia 15 de cada mês.

Liliana Tinoco Baeckert é carioca e vive na Suíça desde 2005. Jornalista, tem mestrado em Comunicação Intercultural pela Universidade de Lugano e se especializou em imigração de brasileiros na Suíça e em treinamento intercultural para adaptação e integração de estrangeiros.

Por Liliana Tinoco Baeckert
Suíça de portas abertas

Conteúdo relacionado ao live blog

O seguinte conteúdo sobre este tópico foi relatado pela primeira vez ou ainda está sendo relatado ao vivo. Você encontrará os artigos mais recentes nas primeiras posições. Em seguida, siga a linha de tempo para encontrar os artigos mais antigos.

15 de agosto de 2017Pensar fora da caixa significa ir além das fronteiras de um país

Ana Cristina Kolb tem como uma das missões de vida levar aos quatro cantos a mensagem do pensamento global, seja na Suíça ou em universidades europeias, onde leciona em Escolas de Hotelaria e de Management.

Hotel Bären em Kiental, nos Alpes bernenses.

Até pequenos hotéis como o Hotel Bären, em Kiental, nos Alpes bernenses, prezam pela qualidade de serviços.

(sda-ats)

Ou no Brasil, onde coordena grupos de empresários e de líderes voltados para a globalização, como o Brazilian International Business Group, o Go Global Brazil e o Pense Global, Aja Local. Dona e fundadora da CEW Marketing Services, a mineira de Belo Horizonte é especializada em Marketing e tem no currículo experiência em algumas grandes multinacionais na Alemanha, sempre com foco no mercado internacional. Casada com um alemão, ela mora em Montreux há nove anos e há 27 fora do Brasil. 

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: A Senhora atua em várias frentes assessorando empresários brasileiros e de outros países a se tornarem globais. Quais seriam os maiores desafios dos nossos conterrâneos quando empreendem no exterior?

A.K: O brasileiro traz em sua bagagem características culturais ótimas para empreender, como coragem, criatividade e simpatia; mas alguns pecam por se aterem somente a essas qualidades quando decidem abrir negócio em um mercado tão profissional como o suíço e o alemão, por exemplo.

A maioria dos povos europeus, e os suíços estão incluídos, estuda o setor profundamente, destrincha os riscos, analisa todas as possibilidades antes de começar algo. Não tem achismo, é tudo baseado em números e fatos. 
Acredito que essa peculiaridade deles venha da época de escola, que segue um sistema mais cartesiano e linear.

O método do Brasil é, ao contrário, mais subjetivo, com leis e regras que valem para uns e não para todos. Digamos que seja mais interpretativo, com margens para entendimentos diferentes. Dessa forma, o empresário brasileiro acha que pode burlar determinadas regras porque não faz sentido agir daquela maneira. Voltando ao ambiente escolar, quem não conhece pais que argumentam com o professor que o filho pode passar de ano, mesmo que a criança não esteja pronta?

Essa particularidade traz ainda um certo narcisismo presente no inconsciente coletivo brasileiro. Esse negócio de passar na frente porque é amigo de alguém não vai funcionar no exterior. Mas volto novamente ao fato de que os pais que invertem os valores e tentam barganhar o sucesso escolar do filho não estariam contribuindo para esses princípios disfuncionais? E assim funciona a escola, o pensamento e a sociedade, que argumenta muito, mas se sente no direito de não cumprir à risca o que é estabelecido. 

swissinfo.ch: Então o sistema educacional atuaria muito profundamente nesses maus hábitos?

A.K: Totalmente. Uma coisa puxa a outra. Num país de alta especialização como a Suíça, onde para ser lixeiro tem que fazer curso e se qualificar, não dá para imaginar que alguém comece uma empresa ou ofereça um serviço sem se adaptar ao público do país, seguir as regras locais ou se profissionalizar. Não basta ser ótima cabeleireira, tem que seguir os procedimentos necessários. Vou dar um exemplo simples, que tenho visto muito por aí. 

Como brasileira e mulher, gosto de fazer minha unha e vou a salões brasileiros pelo mundo. Mas o que vejo são muitos salões de beleza de conterrâneos que funcionam exatamente como se estivessem no interior do Brasil, sem legalização e até cheio de gambiarras. São locais cheios, com várias pessoas que vão como visitantes e não para consumir, com televisão ligada no volume alto. É aquele clima de conversa, de alegria, o que é ótimo para alguns brasileiros; mas não para uma estrangeira que vá querer cortar o cabelo e vai estranhar tanto barulho e entusiasmo. É preciso entender que nem tudo que é valorizado pela nossa cultura é apreciado por outra sociedade. Por isso o primeiro ponto é o da consciência de que não se está no Brasil. 

Se entrar no ponto da pontualidade, do cumprimento de datas e prazos então... Estamos acostumados no Brasil a inventar estórias para explicar o porquê de não conseguirmos finalizar um trabalho no prazo. Aí começa a mania de perseguição, achando que o mundo está contra a gente. Já ouvi reclamações do tipo “por que eles reclamam tanto só porque atrasei uma semana?”

swissinfo.ch: Mas não é normal o brasileiro pensar que empreender no mercado da saudade, que é comprar de produtos e serviços do seu país de origem no exterior, deveria ser parecido com o que se consumia no Brasil?

A.K: Claro, mas até certo ponto. O empresário não precisa limitar o seu negócio somente a esse mercado e a esse público. Ele pode e deve expandir para outros clientes.

Ana Cristina Kolb

(swissinfo.ch)

Eu lidero um grupo voltado para a Hotelaria no Brasil que se chama Pense global, aja local. Tentamos levar a mensagem da importância dos produtos locais, do artesanato, da comida brasileira; mas adaptados a serem mostradas ao mundo, ao público internacional. 

Eu quero contribuir com meus conterrâneos. E essa é a maneira que encontrei para ajuda-los a melhorar a qualidade de vida, e expandirem seus negócios. Eu acredito que podemos escolher o que há de melhor em cada sociedade e unir o suprassumo dos mundos.

O primeiro passo é aceitar que é diferente, criar raízes onde estamos, manter as do país de origem. Isso significa entender essas diferenças e saber o caminho que queremos trilhar. Então, chega o momento de detalhar que no seu país funciona dessa maneira, no outro de uma diferente forma. Junte os melhores, acomode as duas formas e cria uma vantagem mercadológica. 

Voltando ao salão de cabeleireiro: pegue a simpatia e carinho brasileiros, adicione o profissionalismo suíço, siga as regras e trabalhe em conformidade com o mercado. É a receita do sucesso, de sair do lugar comum. 

swissinfo.ch: Qual seria a mensagem de globalização que a Senhora gostaria de passar para os migrantes de língua portuguesa e os que querem empreender na Suíça? 

A.K: Eu acho que uma das maiores riquezas que temos como migrantes é a possibilidade da expansão dos horizontes, o presente que ganhamos em termos de amplificação do conhecimento e da evolução. O problema é quando nos recusamos a mudar e vivemos em gueto. Eu acredito que viver em outro país é um exercício de se interessar pelo outro, como ele me entende, e como você compreende essa outra maneira de se expressar, de pensar. 

É preciso querer melhorar, evoluir. Não é fácil fazer a qualificação profissional no outro país, em outra língua. Mas é possível.

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1° de agosto de 2017A fantasia do paraíso deixado para trás

A saudade e o sentimento de exclusão podem transformar a mais dura das realidades em um ilusório conto de fadas.

Mulher olhando através da janela

Olhar a realidade através da janela, mas estar pensando em outro mundo. 

(swissinfo.ch)

Uma das faces perigosas da saudade é a maquiagem da realidade. Em uma tentativa de autodefesa e da manutenção de uma referência positiva, quem saiu de casa esquece os defeitos e problemas do país de origem e cai na armadilha da ilusão. Outros se apegam às adversidades da migração para amenizar a falta. Com isso, não resolvem os inconvenientes, vivem uma existência irreal e ainda abrem a guarda para ser explorado por familiares no país de origem. E o pior de todos os males, não conseguem se desapegar do passado, deixando de desfrutar da nova vida no exterior.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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A literatura sobre a relação da família com a fantasia não é muito farta. A ideia para a matéria veio quando a swissinfo.ch entrevistava brasileiras sobre saudade e ouviu espontaneamente algumas respostas do tipo: "já senti muito, mas me cansei de ser solicitada para ajudar financeiramente" ou "tento focar nos defeitos para melhorar a minha existência na Suíça". Admitir ser explorado pela família é um processo que demanda muito tempo, autoconhecimento e experiência; muitas vezes nem acontece. Mas a tendência à ilusão de uma terra ou vida perfeita quando distante existe, é fruto de diversos estudos e inerente ao ser humano.

Cuidado para não desvalorizar a cultura

A psicóloga intercultural Simone Torres Costa, que escreveu tese de mestrado sobre estratégias de adaptação, lembra que é muito importante a valorização e o respeito dos traços culturais do país de origem para que o processo de integração se torne mais consciente e, dessa forma, mais leve. Alguns migrantes, no entanto, preferem focar nas imperfeições para poderem lidar com o fato de terem ido embora.  Outro retorno ouvido, também referente ao não enfrentamento da realidade, é se apegar aos defeitos do Brasil para amenizar a saudade.

De acordo com a psicóloga intercultural Simone Torres Costa, esse tipo de constatação é muito perigosa porque é importante valorizar a memória positiva. É ela que alimenta a identidade do indivíduo e, no caso, ajuda a estimar a cultura do indivíduo. Segundo Simone, fantasiar tem seu lado negativo mas ajuda a manter a imagem positiva do passado. "É preciso dissociar a família do Brasil. O importante é saber que os parentes são apenas uma parte dessa história, mas outras referências devem ser levadas em conta. Se a pessoa tem familiares que exploram financeiramente e coloca o sentimento negativo no país como um todo, acaba por prejudicar a sua adaptação no exterior, já que ela tenderá a negar a sua cultura", diz Simone.

A saudade substituída pela decepção - Quando questionada se sentia falta do Brasil, a brasileira *Lauriana Müller disse que já tinha passado dessa fase. Após 16 anos na Suíça, aprendeu que idealizou uma família que não existia só para aplacar a saudade, mas que na verdade só se lembrava dela quando precisava comprar algo. A resposta de Lauriana é um misto de desabafo, por ter investido quantia proveniente de faxinas para ajudar vários familiares; e de arrependimento, por não ter aproveitado a renda extra para construir uma vida melhor no país de acolhida, o que inclui tanto o lado financeiro quanto o de aproveitar mais as férias para conhecer outros lugares, sem se ater tanto à sua cidade natal, Maceió.

"Eu passei 14 anos limpando casas para enviar dinheiro para minha mãe e irmãos. Canso de receber mensagens dos meus sobrinhos que querem comprar um celular novo. No final das contas, as pessoas acham que estamos ricos só porque estamos fora do país. O que não é verdade. Eu vejo também que muitos deles não querem trabalhar para melhorar de vida, acham mais fácil pedir. É preciso muita coragem para levantar e ir atrás dos nossos objetivos", diz Lauriana.

A psicoterapeuta e psicóloga Telma Witzig.

(swissinfo.ch)

Exploração e culpa

De acordo com a médica baiana *Carina Souza, que saiu de Salvador para trabalhar no Sul do Brasil, a saudade era tanta que ela recriou a imagem de uma mãe que nunca existiu. Depois de passar por várias sessões de terapia, Carina consegue hoje ver com clareza a criação de uma fantasia, porque estava distante de casa, associada ao sentimento de culpa por ter ido embora e ganhar bem. "Um dia, eu estava contando sobre a minha mãe para uma colega do hospital, que se disse impressionada pelo ótimo relacionamento que eu tinha com ela. Foi nesse momento que eu vi a dimensão da minha utopia, já que a nossa relação não era assim", explica a médica.

O blogueiro brasileiro Gustl RosenkranzLink externo postou um texto há três anos sobre o assunto. Intitulado "Brasileiros no exterior, a saudade de casa e a tirania da família no Brasil", Rosenkranz conta casos de brasileiras conhecidas que trabalham na Alemanha e se sentem obrigadas a ajudar a família. "Conheço tantos exemplos de tirania de famílias de emigrantes que poderia passar alguns dias escrevendo. Sei de casos de quem ajudou durante anos, às vezes sem nem mesmo escutar um muito obrigado. Mas quando uma pessoa que vive no exterior, já cansada de trabalhar tanto para ajudar a família, um dia corta essa ajuda, pode acontecer dela ser rejeitada, chamada de egoísta e escutar que ela é uma pessoa tão ruim que, apesar de nadar em dinheiro, nunca ajudara a família, anulando praticamente tudo que fizera até então". A tirania da saudade está sempre à espreita; o importante é agir com consciência.

*Alguns nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

Análise psicológica da realidade fantasiosa

A distância e a saudade colorem o passado e podem trair a visão do que realmente ficou para trás. A culpa também tem um papel importante nessa relação. Essa foi a opinião das três psicólogas brasileiras entrevistadas sobre o tema pela Swissinfo. Segundo a psicóloga Cristina Bandeira, as pessoas apresentam uma tendência a idealizar quando estão distantes ou quando não têm mais acesso a alguma coisa ou pessoa. Muitas vezes esse sentimento utópico é transferido aos parentes e amigos que ficaram no país de origem. "Todo mundo sonha com uma família perfeita. Nessa tentativa, muitos preferem fugir da realidade, que é infelizmente mais dura que a fantasia", explica.

A psicoterapeuta e psicóloga Telma Witzig, do alto da experiência de 15 anos de consultório em Basel, presenciou pacientes brasileiros que têm extrema dificuldade em se libertar das amarras da família, que espera receber ajuda financeira. Quando o patrocínio é cortado, alguns parentes consequentemente rompem as relações. "Esses pacientes querem acabar com a dependência financeira, porque os incomoda. Mas a assistência os libera da culpa, por estarem em uma situação muito melhor que a família no Brasil; e ainda tem um fator mais profundo: compra o amor e a atenção de entes que nem sempre deram valor a essas pessoas".

A aconselhadora psicológica Graziela Birrer explica que a saudade apaga os aspectos negativos e deixa somente a saudade. Sua experiência no atendimento a brasileiros em consultório em Luzerna e em Zurique mostra que a culpa por estar bem é outro peso carregado por esses estrangeiros, principalmente por quem tem família mais carente no Brasil. "Além do remorso, essas pessoas carregam uma sensação de dívida eterna", explica.

Análise intercultural da interdependência familiar

As categorias culturais coletivismo e individualismo são vistas por alguns treinadores interculturais como as maiores responsáveis pelo implícito sentimento de solidariedade esperado por alguns integrantes da família que ficou no país de origem. Segundo a Teoria de Dimensões Culturais de Hofstede, que analisa sociedades sob essa ótica, nos grupos mais individualistas, as crianças aprendem a tomar o caminho do outro; opiniões pessoais não contam muito. A lealdade ao grupo é extremamente valorizada e isso se estende à esperada divisão de bens.

Em seu livro Culturas e Organizações: o software da mente (em inglês Cultures and Organizations: software of the mind, de 2010), Hofstede explica que, nesse tipo de cultura, se um integrante da família tem um emprego remunerado, é esperado que esse componente ajude. Na escala de dimensão cultural, o Brasil ocupa o 38° lugar na categoria e os Estados Unidos a posição 91°, a mais alta do ranking.

A psicóloga intercultural Simone Torres Costa, no entanto, alerta para o fato de não generalizar e estereotipar o país. Autora do livro Desconstruindo o Brasil: entre carnaval, futebol e garotas em pequenos biquínis, Simone acredita que a dimensão de Hofstede não consegue explicar exatamente o Brasil, que é um país muito complexo. Ela atribui à problemática da interdependência a questão social e a região, já que esse tipo de dinâmica é menos esperado por famílias mais abastadas ou moradoras das maiores cidades. 

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17 de julho de 2017Estratégias para lidar com a emoção e transformá-la em aliada

Se tem um sentimento que todo migrante vai ter ou já experimentou é a saudade. Pode ser de casa, de um cheiro, da família, de um som, não importa. 

Saudades: um sentimento que bate sempre nas horas que o migrantes menos espera.

Saudades: um sentimento que bate sempre nas horas que o migrante menos espera.

(swissinfo.ch)

A emoção se faz democrática, não escolhe raça, cor, credo ou condição social. Traiçoeira, pode desencadear doenças nos mais suscetíveis e atrapalhar planos de carreira internacionais ou arruinar casamentos e famílias, separando casais que não vêm da mesma cidade. Vaidosa, quer ser encarada de frente, até mesmo celebrada, mas em nenhuma hipótese ignorada. Ciente dessas nuances e caprichos dessa velha e conhecida senhora, dá para enfrentar o desafio de mudar de país e amenizar o problema.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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A melancolia por estar longe de casa é sorrateira; muitas vezes difícil de expressar e às vezes até mesmo de identificar. Estudo de Dieu Hack-Polay, intitulado A saudade e estratégias sobre como lidar com problema entre trabalhadores imigrantes e expatriados, publicado no Jornal Internacional de Psicologia, sugere que o sentimento mal trabalhado pode mudar o apetite, padrões de sono, náusea e até tontura, com capacidade até de desenvolver uma depressão. Em casos extremos, tem o potencial de desencadear ataques de pânico.  Seus sintomas podem vir mascarados como problemas de concentração, desorientação, tristeza e recorrentes mudanças de humor.

Saudade da família ou de você mesmo?

A médica naturalista Patrícia Quito de Oliveira trata em seu consultório, em Zurique, inúmeros imigrantes, de variadas nacionalidades. A experiência nas consultas mostra que a saudade é uma reclamação constante e protagonista de muito sofrimento. Mal gerida alimenta a inércia e a insegurança, provocando um círculo vicioso. Muitas vezes, funciona como uma muleta para não encarar a nova realidade, levando os pensamentos do imigrante para o bem-estar confortável daquela vida antiga e do desconforto com o imprevisível.

"A saudade é também um sentimento nobre, bonito. Não deveria estar ligada somente ao aspecto negativo. Há que ter cuidado para não usar a emoção como subterfúgio de insegurança e desculpa para não agir", enfatiza Patricia. Segundo a médica, os medos e a melancolia podem facilmente se tornar muleta para que o migrante permaneça na zona de conforto. O saudosismo exacerbado está ligado também à instabilidade e à insegurança que a vida em outro país ou em outro ambiente cultural traz.

De acordo com Patrícia, muito do que se chama saudade tem a ver com medo de encarar o novo, de se desfazer dos laços com o cômodo. "Recomeçar longe de casa e sem o apoio de sua rede de contatos é muito incômodo, difícil mesmo. Eu diria que o segredo é saber aceitar a sua escolha, que te levou a essa diferente caminhada, e se conscientizar das perdas e ganhos dessa opção", explica. A incerteza faz parte da vida de um imigrante, porque deixar o país é reiniciar.

Patricia Quito Oliveira 

(swissinfo.ch)

A vulnerabilidade gerada pelo processo de aculturação ainda tem o poder de maquiar a sensação, nomeando-a de saudade da vida antiga. Mas na verdade, muitos carregam o pesar de ter se perdido após ter emigrando. Na prática, é saudade delas mesmas, do que eram, e da insatisfação com o que ainda não se tornaram. 

A falta do alguém ou de algo também tem um outro mérito. Segundo a médica naturalista, o vazio alerta para o valor das pessoas e até mesmo aproxima os familiares, que muitas vezes se falam com menos frequência quando vivem próximos.

Como amenizar a saudade:

• Converse com amigos, com um psicólogo ou com um coach intercultural sobre como se sente

• Mantenha contato com os que ficaram

• Encoraje a visita de amigos e familiares

• Aceite que sente saudades. É normal; pessoas precisam ter uma rede de contatos que dê suporte

• Seja realista sobre expectativas sobre a nova vida ou fase

• Conheça pessoas por meio de associações ou clubes de esportes

• Valorize os recém-adquiridos amigos e esteja aberto a esses novos conhecimentos

• Dê a si mesmo tempo para se adaptar; não seja tão duro consigo mesmo

• Escreva três novidades ou aspectos dos quais você deveria ser grato todas as noites e três pontos que se esteja esperando com ansiedade ou que queira vivenciar

• Dê-se crédito pelo que está fazendo, pelo que irá almejar ao sair de sua zona de conforto que era a sua casa. Principalmente porque saudade pode afetar a sua autoestima

• Permita-se gostar do novo lugar, mesmo que sinta falta do seu antigo lar

• Visitar a família ou telefonar frequentemente tem dois lados: pode ser bom ou ruim. Experimente para descobrir qual se encaixa melhor no seu perfil

• Cuide do seu bem-estar físico; não se negligencie. Isso significa dormir e comer bem, além de se exercitar

• Prepare-se antes de sair do país para os desafios que ser um estrangeiro

Fontes: Universidade de Warwick, Universidade de Cambridge

Típicos sintomas emocionais e físicos da saudade:

• Perda de concentração

• Choro e tristeza

• Dificuldades para dormir ou comer

• Ondas de emoção

• Ciclo menstrual interrompido

• Náusea, dores de cabeça ou tontura

• Tremedeira, sensação de calor ou frio

Fontes: Universidade de Warwick

Padrões de pensamento de quem sofre com a saudade:

• Eu sinto muita falta dos meus amigos

• Eu tenho que voltar para casa, ou pelo menos falar ao telefone ao máximo que eu puder

• Eu quero estar com a minha família

• Eu não estou conseguindo cuidar de mim

• Eu não sei quem eu sou aqui

• As pessoas desse lugar não gostam de mim

• Esse local é como uma prisão. Eu não pertenço a esse local

• Eu tenho vontade de chorar, especialmente quando estou só

• Todos parecem legais. Por que eu pareço o estranho fora do ninho?

Fontes: Universidade de Warwick

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3 de julho de 2017A saudade que machuca o cidadão globalizado

O sentimento se mostra tão arrebatador que pode comprometer os planos de uma vida plena longe do país de origem.

Mulher olhando o filho em uma fotografia

Saudades: um sentimento que acompanha o migrante em todos os seus momento.

(swissinfo.ch)

Saudade é uma emoção com diversas faces. Segundo especialistas, até um determinado estágio, funciona como sintoma de vida bem vivida. Quando demasiadamente fantasiosa, maquia a realidade e remete a um passado inventivo, mas não necessariamente verdadeiro. Se exagerada e paralisante, pode se transformar em doença ou em uma série de problemas de cunho psicológico. A sensação atinge pessoas de todo mundo e com mais força viajantes menos experientes. De tão traiçoeira, desafia os ideais de uma filosofia cosmopolita que prega um mundo sem fronteiras, onde pessoas deveriam se sentir em casa em qualquer lugar do globo terrestre.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Segundo o dicionário Aurélio, saudade significa lembrança grata de pessoa ausente ou de alguma coisa de que alguém se vê privado. Pode ser definida por pesar e mágoa que essa privação causa e boas lembranças ou recordações. De acordo com a página de internet da Universidade inglesa de Warwick, que tem seção dedicada a minorar a dificuldade, o ser humano nasce com necessidade de fazer ligações emocionais com pessoas, coisas e lugares. Gradualmente, essas conexões se acumulam para formar um ambiente confortavelmente estável.

"Quando saímos de casa, experimentamos um real senso de perda, como uma tristeza pela perda da morte de um amigo. O problema é que muitos ficam paralisados ou sentem de forma muito intensa", relata a autora do texto opinativo intitulado O novo globalista sente saudades (em inglês The New Globalist is Homesick), publicado no jornal americano The Times em 2012. A autora do artigo, Susan J. Matt é professora de história da Universidade Estadual de Weber, nos Estados Unidos, e autora do livro Saudades: uma história americana. Ela argumenta que outro obstáculo para quem vive a situação é a tendência ao duro autojulgamento, porque acredita-se que deveria ser capaz de lidar com o transtorno, mas não pode. Ela afirma que saudade não é sinal de fraqueza.

A necessidade de se estabelecer laços - Segundo Susan Matt, a intensa mobilidade dos dias de hoje tem custos psicológicos, mas poucos apresentam coragem de assumir. "As pessoas abraçam a visão cosmopolita que dita que indivíduos podem e devem sentir-se em casa em qualquer parte do mundo e que não há necessidade de se estabelecer laços em nenhum lugar", escreve a autora.

O problema já foi considerado mais comum em crianças ou em jovens que se mudam para estudar em universidades. Com o aumento das migrações e funcionários expatriados, o sentimento está sendo cada vez mais ligada a adultos. De acordo com estudo do psicólogo Terence Hannigan, no livro Aspectos Psicológicos de Mudanças Geográficas (em inglês Psychological Aspects of Geographical Moves), a saudade está mais relacionada à proficiência da língua do país de acolhida e também o quão distante a nova cultura se apresenta em relação à antiga. Dessa forma, conclui-se que brasileiros e portugueses na Suíça, principalmente na parte alemã, devam sofrer com o problema. As duas culturas de origem são muito diferentes; e a língua germânica bem mais difícil de ser aprendida, ao contrário da francesa e italiana.

O desafio dos expatriados – As estatísticas constatam que o mundo moderno estará cada vez mais habitado pelo sentimento. Pesquisa pelo Instituto Gallup em 2012, 1.1 bilhão de adultos no mundo querem se mudar temporariamente para outro país para encontrar um trabalho mais rentável. O Brasil, por exemplo, vive um momento parecido: a crise econômica leva a uma saída recorde de brasileiros: entre 2011 e 2015, houve um aumento de 67% no total de Declarações de Saída Definitiva do País. Muitos, no entanto, gostariam de emigrar, mas não sabem como.

O estudo do acadêmico Hack-Polay realizado em 2012, confirma que mudanças de lar sempre levaram pessoas a sentir saudade. Mais que isso, a pesquisa provou que a questão não é tão simples – em entrevistas feitas em 15 companhias com 30 expatriados demostrou que todos provaram do sentimento em algum momento, até mesmo os que já tinham experiência com a vida no exterior, ou que tinha noções básicas da língua do país ou que contavam com a presença da família.  E o pior, foi tida como causa de problemas psicológicos e rupturas sociais em imigrantes.

Impossível fugir do sentimento - Estatísticas sinalizam que cerca de 70% dos estudantes irão experimentar nostalgia nos mais recentes dias da universidade. Estudo conduzido pela agência de pesquisa voltada para o público jovem, a britânica YouthSight mostra que a sensação atinge pelo menos um terço de todos os universitários britânicos, que se sentiram deprimidos ou com tristeza por estar longe de casa.

A carioca Carolina Peixoto Monteiro veio diretamente da Austrália, onde ficou por dois anos e meio, para Wettingen, na Suíça. Há cinco meses no país, diz que hoje tem saudades do Brasil e da Austrália. Quando estava na Oceania, sentia falta da sua vida no Rio de Janeiro. O sentimento de Carolina ilustra bem o significado do sentimento de estar fora de casa. A gaúcha Flavia Loureiro, que vive na cidade de St. Gallen há um pouco mais de um ano, diz que tem saudades da família e dos amigos, do churrasco, do feijão que sua mãe cozinha e dos lanches que faziam em uma lanchonete especial de sua cidade. Para compensar a falta de tudo que deixou para morar com o marido na Suíça, ela trouxe a sua cachorrinha Mel. "Ela é um presente na minha vida, uma companheira que já me abriu várias portas. Além de nos exercitarmos em longas caminhadas, com ela acabo ainda conhecendo várias pessoas, pois sua beleza e doçura chamam a atenção", explica.

O lado bom da saudade

"Você já parou para pensar que sentir saudades é um dos bens mais preciosos da alma? Se você pretende morar em outro país, prepare-se: ela será uma das primeiras a dar boas-vindas em seu novo lar. Sentir a ausência de casa, de alguém, de momentos, cheiros e gostos ou do nosso canto é, certamente, um indicador de uma vida "bem vivida". Se você sente muito a falta de alguém querido, é sinal de que tem o coração cheio de amor e de que muitas pessoas especiais já passaram pela sua vida deixando marcas. Isso deve ser motivo para sentir muita gratidão.

Um coração vazio, que não chora a ausência de algo especial, que não se reporta a uma memória confortável e ao desejo de ter aquilo perto de novo, me dá a impressão de um coração desatento e preguiçoso para as coisas mais simples e bonitas da vida. É dolorido acordar com aquele desejo, que não pode ser atendido.

Gabriela Broll Ribeiro

(swissinfo.ch)

A saudade faz parte de nossa existência. Mas, claro, todas as sensações que ela traz são potencializadas quando estamos em terras estrangeiras… fisicamente bem longe de tudo aquilo que nos referencia. Do outro lado do oceano, é fácil se pegar com um olhar distante, num buraco profundo, com uma ferida aberta.

Para tornar a saudade mais palatável, é preciso se dar conta de como você pensa sobre ela. Não tenha medo e nem lute contra. O sentimento quer dizer que você dá valor às suas conquistas ao longo da vida: sejam pessoas, espaços e, principalmente, ao significado à sua existência. Portanto, quando a saudade chegar, tente comemorar as lembranças e depois congele em um arquivo na mente, para não se paralisar.

Onde quer que você esteja, é essencial criar estratégias para ter uma rotina agradável e com sentido. O melhor a fazer, pelo seu bem-estar e saúde mental, é deixar as ausências de lado e passar a valorizar mais o que está perto no momento atual.

Quanto mais apreciamos o que está ao redor, maiores são as nossas fontes de alegria e satisfação. Por mais que as pessoas amadas e lugares adorados estejam longe, seu dia a dia terá mais sentido se criar laços no ambiente onde se está. Recomendo alimentar o lado da gratidão pelo acesso ao novo. Mas sabe o que é mais importante? Abrir os olhos e saber que existe gente amada por perto – que eu posso tocar, olhar nos olhos e dar um abraço. Como psicóloga intercultural, tenho o dever de alertar os que estão longe: a adaptação ao novo é proporcional ao se desligar do que ficou para trás. Porque depois, e de qualquer modo, outras e outras ligações e religações serão feitas. O verdadeiro lar é onde nos sentimos bem, e, principalmente, onde fazemos os outros se sentirem bem com nossa presença.

Depoimento de Gabriela Broll Ribeiro, que é psicóloga intercultural, com mestrado em Comunicação Intercultural pela Universidade de Lugano. Ela vive em Londres atende migrantes há 11 anos.

www.interculturando.com.br

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19 de junho de 2017O Brasil não é só corrupção

Uma psicóloga intercultural fala sobre a importância de não deixar a crise manchar o orgulho nacional, principalmente quando se mora no exterior.

Duas malas e uma bandeira do Brasil

Quando a vontade de retornar à pátria é prejudicada pelas más notícias publicadas na imprensa.

(swissinfo.ch)

Muitos brasileiros estão vendendo tudo, fazendo as malas e indo para o aeroporto só com uma passagem de ida. A maioria dos veículos de comunicação já noticiou o fenômeno, que não para de crescer. A Revista Exame, em artigo publicado em junho deste ano, noticia que pouco mais de 18,5 mil pessoas deixaram o país em definitivo no último ano, mais do que o dobro dos quase 8 mil que foram viver no exterior em 2011, de acordo com dados da Receita Federal. São cidadãos com carreiras consolidadas, alto nível educacional, mas que vão embora desiludidos com o país.

Ruim para o Brasil, que perde cérebros importantes; tampouco ideal para os que deixam a pátria com a sensação de vergonha. Esse desencontro com a própria cultura atrapalha a adaptação no exterior. A crise atravessada nesse momento traz à tona algumas mazelas da cultura, e uma delas é, com certeza, a corrupção. Levando-se em consideração que a valorização da identidade nacional é imprescindível para adaptação em outro ambiente cultural, fica a pergunta: como manter essa boa relação quando tudo conspira contra? 

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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A psicóloga intercultural Simone Torres Costa defende a manutenção desse brio por uma questão de saúde psicológica. Vivendo no exterior há 18 anos (EUA, Suécia, Polônia e Itália), é especialista no tema: escreveu tese de mestrado sobre o assunto e é autora do livro Deconstructing Brazil beyond Carnaval Soccer and Girls in Small Bikinis – Desconstruindo o Brasil: entre Carnaval, futebol e garotas em pequenos biquínis. Pelo seu currículo, Simone foi convidada pela Swissinfo para falar sobre o desafio ir embora sem perder a dignidade. 

swissinfo.ch: Se a Senhora e outros interculturalistas defendem a valorização da cultura nacional para melhor adaptação em outro país, como um brasileiro, nesse momento de crise moral, pode ainda carregar o orgulho de sua bandeira?

Simone Torres Costa: Em primeiro lugar, temos que diferenciar entre ter orgulho da nossa cultura e saber discordar dos defeitos da sociedade brasileira. Temos que dissociar esse respeito do estágio de desenvolvimento do Brasil. Ter uma relação saudável com a própria cultura implica em ver e aceitar qualidades e defeitos, e também entender o contexto histórico e sócio econômico da nossa sociedade. Ter orgulho da própria cultura, independentemente de crise e indicadores sócio econômicos, quer dizer respeitar o que somos de uma maneira adulta e realista.

Somo um país emergente apenas começando a questionar seriamente as relações coloniais onde a corrupção sempre se fez presente. Estar surpreso e em choque com as notícias da crise brasileira atual demonstra certa ingenuidade e um esquecimento da nossa história, que teve escravidão, ditadura militar e muita corrupção desde o início. Uma coisa é ficar indignado e desapontado com a situação atual do país e a outra é manter sua identidade brasileira psicologicamente saudável.

Encarar os defeitos da nossa sociedade é positivo, mas não necessariamente temos que reprovar nossas qualidades. Existem evidências científicas que comprovam que ter uma identidade saudável e equilibrada da nossa cultura de origem ajudar a nos adaptarmos melhor em outras culturas. Nossa identidade funciona como um pilar invisível, precisamos dele para saber como nos comportar socialmente. A minha pesquisa recente, trabalho da tese de mestrado que escrevi, comprova isso. Eu entrevistei 708 participantes em 69 países, e apresentei na conferência Families in Global Transition (FIGT 2017) - Famílias em Transição Global, em português - em março, na Holanda.

swissinfo.ch: Se a corrupção é uma cultura institucionalizada e embrenhada na sociedade brasileira, como os brasileiros que moram no exterior devem agir para se defender dessa imagem negativa?

S.T.C.: Esta pergunta é muito relevante e foi exatamente por isso que escrevi meu livro Deconstructing Brazil beyond Carnaval Soccer and Girls in Small Bikinis. Depois de 18 anos no exterior ainda luto para manter imagem equilibrada com minha própria identidade. Para isso precisamos conhecer melhor nossa história colonial e reavaliar nossos próprios conceitos sobre quem somos. A identidade brasileira é geralmente distorcida, pois aprendemos desde cedo a negar nossas origens africanas e indígenas e também nosso contexto histórico. Enquanto não valorizarmos e respeitarmos estes dois terços da nossa cultura fica difícil alcançar uma autoconfiança estável. Fora do Brasil somos diariamente confrontados com estereótipos e precisamos ter lucidez para nos desvincular deles.

swissinfo.ch: Lucidez em que sentido?

S.T.C.: Para não tomar somente os pontos negativos da nossa cultura. Todas têm pontos positivos e negativos. Muitas sociedades, hoje no topo do ranking das economias mais avançadas, já tiveram passados sombrios. Eu digo que é importante ter discernimento para saber que a corrupção não integra a prática de toda uma nação e que o Brasil, culturalmente falando, tem aspectos maravilhosos expressados em nossos comportamentos sociais (amigável, caloroso, aberto e carismático) e na capacidade de sobreviver e improvisar (muito comum entre os empresários brasileiros) que faz de nós um país tão apreciado em todo o mundo.

Simone Torres Costa.

(swissinfo.ch)

swissinfo.ch: O que a Senhora diria para um brasileiro que é questionado sobre a situação de seu país? O que ele deveria dizer, sem entrar na questão política e partidária?

S.T.C.: A polarização de opiniões que acontece hoje no Brasil demostra uma imaturidade política típica de sociedades onde as pessoas têm pouco envolvimento político. As pessoas reclamam, mas não sabem ainda como participar mais ativamente de processos decisórios importantes para o país. Existe uma distância grande entre a sociedade civil e a política no que se refere à participação, monitoramento e engajamento. Estamos aprendendo isso agora, precisamos exercitar o pensamento político e saber discutir estas questões sem desrespeito à opinião do outro.

O essencial aqui é focar nas decisões que precisam ser tomadas e não em partidos.  Moro atualmente na Suécia e aprendo muito sobre comportamentos dos jovens na política. É lindo ver o engajamento deles e como uma discussão pode ser acalorada e intensa, mas com respeito. É possível aprender a agir assim, mas precisamos de maturidade. Eu diria a quem sai do país decepcionado que não é necessário amar o Brasil, porque o amor advém naturalmente do respeito e da admiração. Mas há que se preservar a dignidade.

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01 de junho de 2017O difícil equilíbrio entre manter a cultura dos pais e a do país de acolhimento

Muitos pais que criam seus filhos fora do país de origem vivem um paradoxo: querem garantir uma identidade brasileira ou portuguesa, mas ao mesmo tempo adaptada ao local onde vivem. 

Família na mesa durante a janta

Muitas famílias preocupam-se em transmitir a cultura materna (ou paterna) às crianças.

(sda-ats)

O medo de criar crianças desconhecidas até deles mesmos passa pela cabeça desses genitores e está longe de ser uma preocupação infundada. O respeito às características da procedência foi um ponto fundamental a ser seguido, mencionado por todos os entrevistados, tanto mães quanto especialistas. É fato: quem não valoriza suas raízes, tem problemas para se integrar em novos ambientes culturais. Mas estima à cultura do país estrangeiro também é imprescindível: por isso a necessidade de os pais se integrarem ao novo lugar, falar a língua e, definitivamente, se sentir bem nessa nova sociedade.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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O possível desencontro de gerações - Outro fator complicador nessa relação é a própria diferença entre gerações, conhecido como gap geracional. Filhos e pais são distintos mesmo simplesmente pelo fato de terem nascido em épocas variadas. Em sua tese intitulada Gerações e famílias: Polissemia, mudanças históricas e mobilidade, o professor Parry Scott explica que a migração - uma mobilidade que frequentemente resulta em deslocamentos geográficos e sociais - apresenta um desafio para os estudos sobre família no tempo, já que leva a inserções em novas realidades de interpretações e de relações que precisam ser equacionadas para se entender as transformações e os mecanismos que dão continuidade ao sentimento de pertencimento a grupos familiares e de parentesco em espaços diferenciados. Scott é professor associado do Departamento de Ciências Sociais, Programas de Pós-Graduação em Sociologia e em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco.

A importância da língua portuguesa - O próprio governo suíço está ciente da necessidade da valorização do idioma do país de origem como promotora de integração e até na melhoria do idioma estrangeiro, tanto que criou o projeto Conte-me uma Estória – Family Literacy. O programa nasceu em 2006 na Suíça com o objetivo de apoiar a leitura nas famílias migrantes. O tema foi publicado na coluna Suíça de Portas abertas no dia 2 de maio.  Conte-me um Estória consiste no oferecimento gratuito de sessões de contar de estórias na língua do imigrante para pais e crianças de dois a cinco anos. A proposta é baseada em estudos que mostram que experiências variadas com a escrita e a oralidade, além de domínio da primeira língua, são fatores fundamentais que facilitam a eficiente aprendizagem da segunda língua e, posteriormente, do mecanismo da leitura na escola e desenvolvimento dos bons hábitos de leitura. 

Carmen Dragoni, do Rio de Janeiro, que vive há 33 anos na Suíça e criou dois filhos já adultos, dá o seu recado às mães mais jovens: "Tem que falar português. Não tem jeito. Como você vai se exprimir com a criança em uma língua que não é sua, que não expressa corretamente a sua emoção? E pior, ainda com erros e ensinando errado", explica. Além de falar a língua, a especialista Miriam Müller Vizentini, coordenadora Pedagógica da Associação Brasileira de Educação e Cultura (ABEC), ressalta que é imprescindível demonstrar orgulho em relação ao país de origem. 

Carmen Dragoni complementa: "a sua cultura é você. Se a mãe fala mal do local de onde vem, as crianças criadas na Suíça podem ficar confusas e até desenvolverem vergonha de sua hereditariedade. Já vi meninos que não queriam convidar os amiguinhos para brincar em casa porque os pais falavam mal do seu país de origem", conta Carmen.

Por um outro lado, não se deve criticar os hábitos dos suíços simplesmente para mal dizer. Isso também pode gerar confusão na cabeça dos mais jovens e acaba por criar um sentimento de inadequação nesses cidadãos de segunda e terceira geração.

Carmem Dragoni

(swissinfo.ch)

Íntimo dos filhos ainda que com outra criação – O grande desafio de criar família no exterior é se deparar com uma sociedade de valores muito diferentes dos seus. A interação com o novo ambiente cultural é a chave que vai propiciar a aproximação com esse filho. De acordo com a psicóloga brasileira Raquel Motta, que vive em Dubai há nove anos, se os pais estrangeiros não conseguem se inserir no novo contexto, irão perder esse lado da identidade de suas crianças. Com experiência em liderar movimento voluntário de ajuda a mulheres brasileiras naquele país, Raquel explica que famílias que emigram formam descendentes de identidade híbrida. "O meu filho namora uma jovem da Coréia. Se eu me isolar no meu mundo brasileiro, não vou conseguir entender os dilemas dele, os valores que ele carrega, que são fruto dessa sociedade, o que certamente irá me afastar dessa pessoa que tanto amo", explica. Raquel utiliza o horário do projeto A Hora do Conto de Dubai, quando crianças ouvem estórias em português, para trabalhar a psicologia de migração com mulheres brasileiras naquele país.

A brasileira Sonia Jordi, há 35 anos na Suíça, já criou quatro filhas e agora se delicia com netos. Do alto de sua experiência como genitora e como treinadora de cursos de integração na cidade de Zurique para migrantes de língua portuguesa, ela reforça o aprendizado do alemão e o respeito às duas culturas como pontos fundamentais na felicidade do imigrante, na sua integração na sociedade estrangeira e como importante ferramenta de educação das crianças. De acordo com Sonia, ela procura passar para as famílias a importância de se dominar o idioma estrangeiro. "Se os pais não dominam a língua local, não irão conseguir conversar com os amigos dos filhos, não entenderão se as crianças utilizam vocabulário apropriado, se usam palavras de baixo calão, se seguem as regras de educação. A falta de fluência na língua reduz o papel destinado aos pais, que é o de educar", diz.

Para as famílias que têm medo de terem crianças sem identidade do país de origem, Sonia dá o seguinte recado: "há filhos que vão sempre querer ser brasileiros, outros nem tanto. Uns irão até procurar voltar a sua vida profissional para o Brasil ou Portugal. Mas a escolha será sempre deles. "É um direito individual de cada um escolher o que quer ser ou seguir. Mas permita que cada um goste da sociedade onde habita. É uma escolha mais saudável para todos. No entanto, os costumes da casa serão sempre uma referência. Não tem como ignorar esse fato". Parece que o respeito às diferenças, seja à cultura ou ao seu filho criado no exterior, são a resposta a muitas das inquietações.

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15 de maio de 2017Programa de boas-vindas à Suíça

O curso de integração de Zurique é uma porta de entrada para entendimento do país e melhor integração.

Sonia Jordi é uma das instrutoras do curso oferecido pela prefeitura de Zurique.

Sonia Jordi é uma das instrutoras do curso oferecido pela prefeitura de Zurique.

(swissinfo.ch)

A vida na Suíça funciona de maneira muito diferente da rotina do Brasil ou de Portugal. Além dos incompreensíveis costumes, quem emigra ainda tem dificuldade adicional em entender novos processos e leis por conta da língua. Para reduzir a dificuldade, a Prefeitura de Zurique criou há mais de dez anos o curso de integração denominado Viver em ZuriqueLink externo. O programa, disponível em 15 idiomas, é pioneiro e único no país; outras prefeituras ou cantões oferecem brochuras em PDF com informações práticas em português e em outros idiomas.

Informação de Qualidade - De acordo com a cidade de Zurique, em sua página na internetLink externo, vivem na cidade mais de dez mil pessoas que tem como língua materna o português, sem contar os naturalizados suíços. Ainda que a maioria possa facilmente comunicar-se e informar-se em alemão, a prefeitura considera muito importante que todos estejam bem informados.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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O curso é oferecido a mulheres imigrantes de língua portuguesa e aborda lições sobre diversos assuntos que facilitam à integração no país e na cidade, como por exemplo, ensinamentos sobre o sistema de saúde, separação de lixo, história, cultura, datas festivas, política do país, sistema escolar ou organização do lixo. A iniciativa é única no país e parece seguir a boa máxima da integração: promover o empoderamento feminino por meio da informação.

Autoestima e autoconfiança - Durante três meses, toda manhã de quarta-feira, imigrantes aprendem questões práticas, fazem visitas à Câmara de Vereadores de cidade de Zurique, ao de reciclagem de lixo e ainda têm oportunidade de estabelecer contato com outras mulheres que emigraram há pouco e partilham do mesmo interesse: se integrar e aprender sobre a Suíça. De acordo com uma das instrutoras do curso, a paulistana Sonia Jordi, o curso promove um bem muito importante, o da autonomia e consequentemente a autoestima e autoconfiança. "Muitas mulheres deixam as questões do dia a dia por conta dos maridos suíços, já que o alemão é complicado. Mas se esquecem de um detalhe essencial: eles não dominam todos os assuntos e ignoram sobretudo às questões relativas às mulheres migrantes", explica.

Como informação é poder, o curso se torna válido para quem já vive no país há mais tempo, mas continua com dúvidas sobre alguns aspectos ou gostaria de ampliar seus conhecimentos sobre a história ou a política da cidade e país. Segundo Sonia Jordi, imigrantes recém-chegados normalmente vivem por um estresse muito alto devido à adaptação e a necessidade de absorção de tantas informações. Dessa forma, é uma boa ideia também aguardar caso a mulher se sinta sobrecarregada.

Ana Carolina Pires, de Tocantins, frequentou o curso assim que chegou ao país. Na sua opinião, as aulas a ajudaram a entender diversos detalhes da vida em uma cidade tão diferente. "Como meu marido também é brasileiro, nós dois não tínhamos ideia do que nos esperava em termos de regras, rotinas e sistema escolar. Escutamos muitas opiniões e conselhos, mas queríamos começar de forma correta, sem maus entendidos. Compreender sobre a coleta de lixo, por exemplo, foi muito bom, me evitou muitos problemas com vizinhos. Após o treinamento, eu tive a prova da importância da informação correta ao ver pessoas que já moravam aqui há anos e andavam com bilhete errado no bonde por desconhecimento. E o melhor, todas as explicações foram dadas na nossa língua", explica Ana Carolina.

A voz da experiência

Sonia Jordi, instrutora do Curso Viver em Zurique, reside há 35 anos na cidade e divide seus conhecimentos com as brasileiras recém-chegadas há cerca de dez anos. Com formação em jornalismo e uma vida e família já estabelecida, a brasileira tem muito a acrescentar. Sonia se diz muito agraciada pela experiência de mestra devido à oportunidade de aprendizado mútuo. "As minhas alunas não são as únicas que levam informação para casa, eu também ganho muito", explica.

A primeira lição aconteceu ao ter que estudar para ministrar as aulas. Segundo Sonia, ao preparar o conteúdo, aprendeu tanto que sabia mais sobre o país que seu marido suíço. Dessa constatação veio outra importante lição, a de que só porque a família do esposo é local que vai saber questões que interessam à imigrante. "Nem todo suíço sabe como se separa o lixo ou detalhes sobre o sistema de aposentadoria. Então não deixe seus interesses nas mãos de outras pessoas", diz. 

Outro grande ensinamento foi conhecer o Brasil como um continente e ter contato com conterrâneos das mais remotas regiões e diversidade cultural que não se tem contato quando está no país de origem.  A troca de experiências garante, dessa maneira, o aprendizado das duas culturas e de realidades diferentes. E melhor, que se encontram com o mesmo objetivo.

Programa do curso:

O programa do cursoLink externo acontece geralmente duas vezes por ano: de março a junho e de setembro a dezembro, em 15 sessões todas as quartas-feiras, sempre de 8:45 às 11:15 da manhã.

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1° de maio de 2017A literatura além da fronteira

Ler na língua de origem promove identidade cultural e melhora a integração do emigrante e de seus filhos

Filhos de brasileiros encontram literatura em português em muitas bibliotecas na Suíça. 

Filhos de brasileiros encontram literatura em português em muitas bibliotecas na Suíça. 

(swissinfo.ch)

O hábito de ler não deveria ser interrompido na travessia de uma fronteira. Com essa frase, a professora de português Denise Castro chama a atenção para a importância, nem sempre percebida, da literatura em vários aspectos na vida do migrante. De acordo com Denise, se os livros têm o poder de construir e reproduzir a mentalidade de uma época, eles conseguem também resgatar e conceber a memória poética de um povo, reforçar uma identidade cultural e até mesmo ajudar na integração dos filhos de imigrantes.

“Quando vivi em Portugal, eu ouvia muitas brasileiras relatarem que liam os livros comprados naquele país, mas que sentiam falta de algo que elas não sabiam explicar. Refleti muito sobre o tema, porque eu também vivia essa perturbação interna, até que eu descobri o que era: a necessidade de textos que nos trouxessem a nossa memória cultural, estórias que se passassem em ambientes brasileiros e que nos fizessem, pelo menos na imaginação, viajar de volta para casa”, explica Denise, que ensina português como língua de herança para filhos de brasileiros na Associação Linguarte em MuniqueLink externo, na Alemanha. 

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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A doutora em Linguística, Andreia Moroni e a doutora em Didática e Organização Educativa, Juliana Azevedo Gomes explicam, na Revista de Estudos Brasileiros, que a expressão Língua de Herança (LH) pode ser utilizada para definir uma língua diferente da dominante na sociedade local. Embora seja um idioma vivo no ambiente doméstico, repleto de história e significados para a família, não é o de comunicação oficial e nem o ensinado na escola formal, o que pode acarretar a perda de domínio e de sentido no uso com o passar do tempo. Dessa forma, o português ganha uma missão além da comunicação, torna-se a língua pela qual se transmite um legado cultural de brasilidade. Seus falantes muito provavelmente serão bi- ou multilíngues, e podem ter maior proficiência no idioma do país de residência que no português como língua de herança (PLH).

Memória cultural – Nesse cenário paradoxal de intimidade e distância, a professora Denise fala do valor e da dimensão que a obra literária na língua materna pode ter na vida dos filhos desses emigrantes. Se a leitura interfere no emocional e funciona muitas vezes como um alento para o adulto; para as crianças exerce a função de construtora de uma memória poética e cultural, trazendo a intimidade dos lugares do país de um dos pais, e trabalhando ao mesmo tempo a fluência da língua de herança.

Apaixonada por leitura desde criança, Denise explica que o livro é uma excelente ferramenta para entrar em contato e promover intimidade com costumes locais. A viagem proporcionada por um bom texto, segundo ela, leva até à sensação de cheiros e cores, estando onde for. “É importante que o filho de um brasileiro se sinta também pertencente à cultura dos pais e não tenha sua brasilidade expressa só no passaporte”, explica a professora.

Mas como fazer para consumir literatura brasileira ou portuguesa na Suíça? A forma mais fácil e barata seria frequentar bibliotecas internacionais, que oferecem obras em vários idiomas, inclusive em português. A aquisição de exemplares brasileiros pode ser feita em sites de vendas como Amazon e Fnac, na Europa; e até em lojas virtuais no Brasil, que entregam no continente mediante pagamento de frete. Na Suíça, os brasileiros e portugueses podem frequentar as bibliotecas interculturais, que oferecem livros em outros idiomas, inclusive em português.

Falar a língua de origem com os filhos, entretanto, é uma decisão pessoal de cada imigrante. Denise explica que não há regra nem obrigatoriedade. A professora de português como língua de herança, Miriam Müller Vizentini, diz que a resolução pelo português favorece a integração da própria criança, já que reforça sua autoestima ao mostrar a ela onde estão suas raízes. “Ninguém pode valorizar aquilo que não conhece”, explica Miriam, que tem experiência de 20 anos no ensino da PLH na região de Baden, Suíça.

Contar estórias na língua de origem melhora a proficiência do alemão 

O projeto Conte-me uma Estória – Family Literacy – nasceu em 2006 na Suíça com o objetivo de apoiar a leitura nas famílias de origem migrante. O programa consiste no oferecimento gratuito de sessões de contar estórias na língua do imigrante para pais e crianças de dois a cinco anos. A monitora convida famílias do idioma específico para o encontro, no qual pais e filhos são convidados a cantar, a fazer jogos e trabalhos manuais simples. A proposta é baseada em estudos que mostram que experiências variadas com a escrita e a oralidade, além de domínio da primeira língua, são fatores fundamentais que facilitam a eficiente aprendizagem da língua alemã e, posteriormente, do mecanismo de leitura na escola, ou seja, promove um desenvolvimento dos bons hábitos de leitura. 

Ana Amelia, contadora de estórias em língua portuguesa da Biblioteca de Aarau. 

(cortesia)

O projeto parte do princípio de que os pais são os principais avaliadores e uma referência indispensável da criança no processo de aprendizagem da língua e no seu desenvolvimento. Dessa forma, o programa apoia os pais na promoção do desenvolvimento da linguagem, fomentando o gosto pelos livros e a criação dos hábitos de leitura nas famílias de origem migrante, incentivando-as a cuidar e a valorizar o seu idioma.

O programa foi criado pelo Instituto Suíço de Meios de Comunicação para Crianças e Jovens (SIKJMLink externo, na sigla em alemao). Após dois anos de implantação, ganhou prêmio Alpha da Comissão Suíça da UNESCO para a Luta contra o Analfabetismo e em 2010 foi agraciado com o prêmio Orange da UNICEF para a Promoção do Diálogo Intercultural. O SIKJM para língua portuguesa está presente em 15 cidades, de acordo com uma página da internet. O objetivo, no entanto, é ampliá-lo para todo o país e com o maior número de línguas possível. Dependendo da região, há sessões de leitura em albanês, alemão, árabe, curdo, bósnio, sérvio, espanhol, francês, português, tamil e turco.

A paulistana Ana Amélia Pace participa do programa de língua portuguesa e conta estórias para crianças na biblioteca de Aarau. Além de livros, ela utiliza uma técnica japonesa de narrativa chamada Kamishibai, na qual as figuras ilustrativas são colocadas numa espécie de janela, isto permite que o narrador passe as ilustrações e tenha maior interatividade com o público.

De acordo com Ana Amélia, o projeto a cativou porque tem uma característica muito especial: o fato de as atividades serem feitas entre pais e filhos. “No passado, não se tinha essa ideia, mas hoje sabe-se que, para a integração, é fundamental a participação dos pais”, explica a contadora de estórias, que é professora de português e francês e trabalha voluntariamente no projeto há um ano.

A contadora leva sempre o filho de três anos às sessões. O menino é a prova viva de que leitura ajuda a desenvolver a linguagem. No sábado em que a swissinfo.ch visitou a sessão, o clima entre as crianças era de entusiasmo e entrega, todas muito participativas, falando um português igual a qualquer outro brasileirinho que viva no Brasil. Vale a pena investir no aprendizado do idioma dos pais, mesmo que dê um pouco mais de trabalho.

Mais informações sobre Conte-me uma estória: http://www.sikjm.chLink externo

Bibliotecas Interculturais na Suíça têm à disposição livros em várias línguas: http://www.interbiblio.ch/interbiblio/karte.htmlLink externo

Aulas de português: http://www.abec.chLink externo

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18 de abril de 2017É preciso desmitificar o Brasil para viver em paz em outros países

Ela é brasileira mas escreveu um livro em inglês para contar aos estrangeiros como funciona o Brasil. A ideia surgiu da necessidade de explicar essa complexa sociedade, mas acabou por ajudá-la a fortalecer sua identidade nacional. Simone Torres Costa é mestre em psicologia e coach intercultural e vive no exterior há 17 anos.

Muitas vezes é necessário explicar como funcionam os brasileiros.

Muitas vezes é necessário explicar como funcionam os brasileiros.

(sda-ats)

O livro Deconstructing Brazil: Beyond Carnival, Soccer and Girls in Small BikinisLink externo (em português "Desconstruindo o Brasil: entre carnaval, futebol e garotas em pequenos biquínis"), desmitifica crenças de um país multicultural e reforça a importância de se estabelecer uma relação mais saudável com a história e identidade do país de origem, primordial para driblar melhor o processo de adaptação, ajudar na construção da segurança psicológica e uma consequente vida mais feliz no exterior.  

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Por que a Senhora decidiu escrever um livro sobre o Brasil e em inglês?

Simone Torres Costa: Porque era muito frustrante para mim ver que o Brasil tem uma imagem tão deturpada no exterior. Eu observei que, ao conduzir meus treinamentos interculturais, eu precisava explicar o que é o nosso país e o quão complexo se apresenta para nós mesmos e para os outros povos. E eu realmente não queria apresentar essa sociedade de forma muito superficial, então eu pesquisei história, li antropólogos como Darci Ribeiro e entrevistei outros profissionais. Esse livro, então, foi mais dirigido aos estrangeiros, mas é de importante ajuda nossos conterrâneos também.

Pesquisar sobre o Brasil me ajudou a fortalecer a minha identidade enquanto brasileira migrante. Apesar de psicóloga, também vivencio os desafios de morar fora. E não é fácil para nós brasileiros vivermos ao Norte do mundo, onde a cultura é tão diferente. Emigrar engloba um processo de mudanças internas muito profundas e conhecer e valorizar a nossa cultura devem fazer parte desse fenômeno.

swissinfo.ch: O que mais surpreendeu a Senhora ao tomar conhecimento de fatos históricos antes ignorados?

S.T.C.: Foi primeiramente o nosso desconhecimento, enquanto povo brasileiro, em relação aos indígenas e às influências sofridas por esses predecessores em nossa vida contemporânea e também nosso “esquecimento seletivo” sobre a escravidão e seus impactos na nossa cultura. Não por nossa culpa, mas por terem maqueado tanto a realidade histórica daquela época.

O livro demorou quatro anos para ficar pronto. Nesse processo, conheci o historiador e arqueólogo Edson Gomes, que é um profundo conhecedor dos indígenas. Ele tem um museu particular em Campinas sobre essas culturas, morou na Amazônia e já visitou mais de 200 aldeias no país. E o mais curioso é que o público frequentador desse local são os estrangeiros; os brasileiros praticamente o desconhecem. Nós infelizmente não fomos estimulados a nos interessar pela cultura indígena e a dos negros. Quem nos contou a nossa história foram os colonizadores; nesse processo, muita coisa se perdeu.

Eu comecei a pesquisa para entender de onde vínhamos e acabei por descobrir a riqueza de uma cultural nativa, a enorme influência que esses povos tiveram e têm na nossa vida hoje e que sequer sabemos. Para dar um exemplo do quanto ignoramos isso, pergunto como é formada a etnia dos nossos antepassados? Nós não sabemos. Até onde foi a influência dos povos indígenas na nossa vida? Tão pouco temos certeza devido à borracha que foi passada nesse período, o que é uma lástima para nossa identidade nacional.

swissinfo.ch: O capítulo cinco descreve a herança colonial que formou a nossa sociedade e nos fez sermos hierárquicos, por exemplo. Relacionado a isso, a Senhora explana sobre a utopia de que somos um povo aberto à diversidade cultural. Poderia explicar um pouco mais?

S.T.C.: Vivemos há séculos com a crença de que somos um caldeirão multicultural. Na verdade, pertencemos a uma sociedade que dificilmente se mistura. Basta olhar para a nossa diferenciação de classes, para o racismo, para a negação das nossas origens, tanto indígena quanto africana. Ninguém quer dizer que tem um negro na família, mas o tataravô europeu é comemorado. Não somos dividimos em ricos e pobres simplesmente, mas subdivididos em diversas faixas econômicas e sociais.

Eu mostro no livro a foto de um escravo descalço, que representa exatamente essa diferenciação de status, que já teve início naquela época. A classe mais baixa de escravos era a dos recém chegados, que ainda não falavam o português, depois vinham os que falavam a língua da corte, uma classe acima era a dos nascidos em território nacional e assim sucessivamente.

Com a Abolição, eles se tornaram a classe mais baixa do país como um todo, já que foram morar no que é conhecido como a primeira favela brasileira. Ao ignorarmos essa forte característica da nossa sociedade, nos enganamos e estranhamos o fato de que em outros países as pessoas não funcionam dessa maneira. Em pensar que a nossa primeira constituição de 1924 não ter mencionado a escravidão já mostra o quanto a nossa história foi contada de maneira diferente da realidade.

swissinfo.ch: Então a Senhora acredita que essa visão errônea da nossa história pode nos atrapalhar no processo de aculturação em outro país?

S.T.C.: Eu respondo essa pergunta baseada na minha dissertação de mestrado em psicologia pela Universidade de Lund que concluí. Estudos demonstram que, quando o imigrante mantém e valoriza a sua cultura, ele se adapta melhor psicologicamente. Esse é, inclusive, o grande dilema da adaptação: para eu poder melhor me adaptar naquele país, preciso negociar comigo até que ponto estou preparada para incorporar a nova cultura e manter a minha própria. Obviamente esse é um processo muitas vezes inconsciente.

Torna-se saudável, nesse caso, manter o equilíbrio entre manter nossa identidade nacional e, ao mesmo tempo, que assimilar novas culturas. Este equilíbrio é essencial e se faz necessário cuidar para que este dilema não se converta em algo conturbado, doído. Esse tipo de desajuste pode trazer até doenças como depressão. 

Simone Torres Costa.

(swissinfo.ch)

O processo de aculturação, que é quando imigramos e somos “convidados” a incorporar alguns pontos da cultura do país estrangeiro, não é fácil. Com ele, vem o dilema de manutenção do seu antigo mais o novo que precisa entrar. E então fica a pergunta interna: o quanto eu mantenho da minha cultura de origem e o quanto eu assimilo a cultura nova? Por uma questão de “espaço interno”, a pessoa começa a negociar consigo mesma como será essa redistribuição. Tem gente que se sai bem, incorporando um pouco da nova e mantendo suas raízes. Outras não. E uma coisa é certa, quanto mais o imigrante renega as suas origens, mais conflitos de identidade terá nessa fase.

A negação da nossa história prejudica, já que a falta de reflexão sobre quem somos interfere na nossa identidade e nos atrapalha no momento da aculturação. Pois eu então aconselho: tenha convicção de quem você é sem vergonha, aliás com muito orgulho. Se eu venho de um país pobre e vou para um mais desenvolvido, vou levar isso na minha bagagem. Mas algumas pessoas, de uma forma inconsciente, fazem um tremendo esforço para ficar igual ao outro. Isso atrapalha a performance dessa pessoa, porque ela não é igual a outra, ela é única. Dessa maneira, muitos imigrantes tornam-se inseguros quando chegam próximos a um europeu, por exemplo. O resultado é que se colocam em dúvida, com a identidade nacional colocada à prova também. Eu mesma já vi clientes brasileiros, com currículos valorizados no mercado internacional, se sentirem muito inseguros quando trabalham fora do Brasil.

swissinfo.ch: Quais seriam os maiores ensinamentos que desse livro para um brasileiro?

S.T.C.: Com certeza seria a importância da consciência cultural e das reflexões necessárias a esse respeito. É importante se questionar sobre qual a verdadeira imagem que temos de nós mesmos e qual estamos engolindo só porque interessa a um determinado grupo. Repensar a nossa história enquanto nação e repensar alguns pontos obscuros e paradoxais em relação à nossa identidade são essenciais. Por exemplo, será que eu tenho mesmo que esticar os meus cabelos só para negar uma possível associação com escravos, e ao mesmo tempo sair espalhando aos quatro cantos que somos uma nação que aceita a diversidade?

Isso atrapalha a nossa autoimagem. Mas conhecer a nossa história e aceitar nossa identidade, pelo contrário, ajuda a nos reconhecermos na nossa sociedade ou fora dela. Porque a identidade é o nosso pilar psicológico e guia o nosso comportamento. Se eu acho que minha cultura é feia, por que eu falaria português com meus filhos, por exemplo, se estivesse morando no exterior? 

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3 de abril de 2017A solidão que ronda o brasileiro no exterior

A Suíça, por ser uma sociedade individualista e focada na administração do tempo, pode aumentar a sensação de falta de contato interpessoal

Solidão é um sentimento que atinge não só idosos. 

Solidão é um sentimento que atinge não só idosos. 

(Keystone/V. Schulz)

No vilarejo de Dielsdorf, no cantão de Zurique, existe uma casinha de estilo boneca, com cortinas de renda e corações, onde funciona o Café Mit Hertz. Mais que um restaurante, é um local onde pessoas se encontram para trocar ideias e conversar. Ali, rodeadas por uma lareira, artesanato, bebida quente, waffles e bolinhos, elas são estimuladas a dividir a mesa e a interagir. E o melhor, pagam o quanto acham que devem. Não há preço fixo, somente contribuições.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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O lugar, idealizado por Lidia Vitkovsky, faz parte de uma associação chamada Ein Herz für Mitmenschen e tem como objetivo a promoção do contato interpessoal. No local, só trabalham voluntários. O dinheiro vem das contribuições à associação, dos artesanatos produzidos por donas de casa e pessoas que também frequentam o café para fazer amizades. De acordo com Lídia, após passar por uma crise de estresse, o chamado burnout, percebeu a carência de aproximação humana que acomete as pessoas na Suíça. Após se recuperar, ela teve a ideia de abrir um espaço onde as pessoas pudessem se aproximar sem ter que pagar, o que não funcionaria em um café normal, onde cada um se senta em sua mesa individual. "A gente só percebe a falta de diálogo quando tem um problema. Quando falamos sobre nossas dificuldades, nos damos conta de que existem outras pessoas carentes, ávidas por dividir seus medos, mas que muitas vezes não têm coragem de mostrar suas fragilidades", explica.

A teoria de Lídia se confirmou na apuração dessa matéria: assim que o tema solidão foi levantado e jogado em um grupo de discussão, inúmeras mensagens de brasileiras residentes na Suíça surgiram, a maioria relatando que já se sentiram sozinhas desde que vieram morar no país. A sondagem qualitativa perguntava se elas já haviam vivenciado solidão e em que situação eram mais fortemente confrontadas com o problema. Das 15 respondentes, três disseram não ter a sensação; mas 12 relataram que a percepção de isolamento ronda suas vidas em várias situações. A segunda confirmação veio por meio dos agradecimentos: elas relataram satisfação em poder dividir seus medos e inseguranças no grupo e em saber que haviam outras com as mesmas questões.

Doença e pouco bate-papo

Falta de apoio emocional em diversas situações e dificuldades com amizade foram as campeãs da pesquisa, com dez e oito pontos respectivamente; logo atrás veio o quesito Festas e Comemorações, que de certa forma também estaria ligada à distância da família (seis entrevistadas); a falta de identidade cultural e as condições climáticas – no caso inverno longo e rigoroso (duas respostas cada) e, por último, com apenas um ponto, a mudança hormonal. A ocupação profissional foi dita por duas entrevistadas como razões para não se sentirem sós; uma disse que a religião e o contato com a comunidade da igreja ajudam a lidar com a questão.

A situação na Suíça

Diante dos depoimentos, estudos e diferenças culturais calcadas maior ou em menor proporção nas relações interpessoais, não há como negar que o isolamento ronda a vida do estrangeiro. Na Suíça, entretanto, a situação é especial e, algumas evidências mostram que até mesmo os locais gostariam de ter mais contato humano. Não fosse assim, a criação de um espaço dedicado à formação de amizades não teria sido necessária.

Lidia Vitkovsky frente ao Café Mit Hertz.

(swissinfo.ch)

Mais que isso, o país é considerado, de fato, difícil para os estrangeiros, apesar de apresentar altos níveis de qualidade de vida e segurança, além de salários competitivos. Relatório do Observatório de Saúde da Suíça (ObsanLink externo, na sigla em alemão), atesta que cerca de um terço dos suíços se sentem sozinhos, em uma escala que vai de esporadicamente até praticamente todos os dias.

De acordo com o levantamento com expatriados feito pelo grupo HSBC em 45 países do mundo, o Expat Explorer SurveyLink externo, a Suíça ocupa o quinto lugar no ranking. A pesquisa, realizada pelo nono ano, tem o objetivo averiguar as melhores nações para vivência internacional.  As categorias avaliadas são divididas em Economia, Experiência e Família. Entretanto, quando julgados alguns critérios referentes à Experiência, que integra a análise das esferas Integração e Possibilidade de se fazer amigos, a nota cai e a Suíça passa a ocupar 42° lugar.  Exatamente nesses quesitos as avaliações do Brasil sobem consideravelmente, o que mostra a discrepância e as evidentes diferenças entre as duas culturas.

A carioca Camila Brum, entrevistada pela enquete qualitativa feita pela swissinfo.ch, achava que por ser muito sociável e comunicativa, faria amigos facilmente. Moradora de Berna, ela diz que a expectativa se mostrou um ledo engano. "Os círculos de amizade são muito fechados. Quantos domingos passei sentindo falta de mais contato humano. Eu ligava para casa e a família estava toda reunida. Melhorou muito depois que minhas filhas nasceram", diz.

De acordo com a advogada *Paula Soares, também residente em Berna, ela se sente só quando enfrenta um problema particular e não consegue dividir suas inquietações. "As pessoas são muito individualistas. Ninguém tem tempo de te ouvir, a não ser que seja para negócios ou trabalho", lamenta. Lídia, a fundadora do Café Mit Herz, teve a inspiração baseada justamente nessa sensação. "Quem não conhece o sentimento de ir a uma loja e se perguntar o que eu fiz à vendedora que não fala um oi?  Parece que há um medo de trocar experiência", diz Lídia, que nasceu no país, mas tem ascendência espanhola.

A brasileira Priscila Wolf reclama que se sente sozinha em várias situações do dia a dia: nas duas vezes em que engravidou, quando voltou para casa com os filhos após o nascimento deles, quando está doente ou até feliz, em tomadas de decisões, quando gostaria de mais cabeças culturais parecidas para trocar ideias. "Mas no momento, a minha solidão se chama inverno", explica Priscila, que deu essa entrevista em um dia muito frio.

Imigração e desintegração dos relacionamentos

De acordo com o estudo Imigração: destruição e reconstrução do eu, do psicólogo Renu Narchal, a migração, que é uma viagem do conhecido para o desconhecido, provoca uma mudança no espaço pessoal, ancestral e cultural. Uma das consequências é a desintegração dos relacionamentos construídos ao longo da vida, que é extremamente dolorosa e gera um sentido de tristeza quando interrompido. As narrativas do estudo, que investigaram como estudantes imigrantes sentiam solidão na Austrália, mostram que, com adultos, a angústia é experimentada diante de uma separação inexplicável e no sofrimento com a perda de uma base segura. A imigração é acompanhada, em muitos casos, também por sentimento de supressão da língua nativa e da própria identidade.

O livro holandês Aspectos Psicológicos de Mudanças Geográficas, de Miranda Van Tilburg e Ad Vingerhoets, uma compilação de 14 artigos científicos sobre o assunto, sugere que o suporte social está diretamente relacionado ao aumento de velocidade e qualidade da adaptação, ajudando a desconectar o processo do estresse e doenças. Dessa maneira, todos os tipos de amparo (emocional, financeiro e informativo) têm uma importância crucial nesse processo e no sentimento de bem-estar do imigrante, já que ele perde exatamente isso quando sai do seu país.

Abra as portas do novo mundo e saia do seu isolamento

O psicólogo brasileiro Vivaldo de Oliveira Júnior explica que é preciso diferenciar solidão de depressão, em primeiro lugar. Depressão é uma patologia e dura tempo, acometendo a pessoa de tristeza e outros sintomas por semanas seguidas. Solidão é um momento passageiro e pode acontecer com qualquer estrangeiro, principalmente quando se vem do Brasil. Em uma cultura como a brasileira, a pessoa está acostumada a ter mais contato com o outro, a comer um bolo na casa do vizinho, por exemplo, sempre de forma espontânea, situação mais rara aqui na Suíça.

Para driblar a solidão, no entanto, Vivaldo diz que é essencial abrir as portas, conhecer gente nova, ou seja, tentar criar uma nova rede de contatos. "Sentir-se sozinho ou não está em suas mãos. É você quem vai quebrar essa barreira e recriar o que você tinha no antes no seu país de origem. Se você se mudasse de cidade, seja no Brasil ou em Portugal, também não teria que fazer isso?", explica o psicólogo, que cita Freud para explicar que é necessário se desapegar do que ficou para começar uma nova fase.

De acordo com Vivaldo, isso não significa que seja necessário esquecer do passado ou das amizades anteriores. Pelo contrário, é preciso acrescentar ao que já existia. "Muitas vezes temos medo de incomodar e telefonar para um amigo ou conhecido. Mas devemos tentar sair da zona de conforto mesmo", diz. Outra lição de Vivaldo para lidar com a imigração é lembrar-se sempre de que somos como as borboletas, seres em transmutação, em desenvolvimento e que, às vezes, precisamos encarar um estágio de solidão para crescermos enquanto seres humanos.

*Alguns nomes foram modificados a pedido das entrevistadas.

Os maiores causadores do sentimento de solidão

 

 

Falta de apoio

Em casos de doença

Tomadas de decisão

Pessoas muito ocupadas e sem tempo de ouvir

Gravidez e nascimento dos filhos

Distância da família

 

 

11 entrevistadas

 

 

 

Amizade

Falta das amigas da infância para falar e rir

Vontade de conversar com quem conhece há anos

Dificuldade de fazer amizade na Suíça

Poucas mentalidades culturais similares

 

 

 

10 entrevistadas

Celebrações de festas e comemorações

A falta da família em épocas especiais

 

6 entrevistadas

Condições climáticas

Inverno longo e rigoroso

2 entrevistadas

 

Identificação cultural

Falta de identidade com cultura local, que aumenta a sensação de ser estrangeira

Não entendimento de brincadeiras, piadas

 

 

2 entrevistadas

 

Mudança hormonal

Os ciclos interferem no humor e consequentemente na sensação de solidão

 

1 entrevistada

 

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16 de março de 2017Imigrantes viram empresários para driblar o fechado mercado suíço

Se as empresas não me aceitam, eu crio a necessidade lançando o meu produto. Esse pensamento resume um perfil de pessoas que busca uma colocação profissional na Suíça: a de pessoas que emigraram.

Capacity Zurich auxilia estrangeiros que queiram começar um negócio ou estabelecer uma iniciativa cultural e social no país. 

Capacity Zurich auxilia estrangeiros que queiram começar um negócio ou estabelecer uma iniciativa cultural e social no país. 

(swissinfo.ch)

Com permissão para trabalhar e muitas vezes qualificados, ficam presos no bloqueio do fechado mercado suíço. Abrir o próprio negócio pode ser a única opção para muitos deles diante dos inúmeros obstáculos que impedem a inserção no mundo corporativo. O empreendedorismo, dessa forma, apesar de ser uma chance de inserção ao mesmo tempo muito instigante e promissora, pode se tornar uma alternativa mais arriscada, por ser tocada por estrangeiros em terras parcialmente desconhecidas.

Na última década foram criadas cerca de 400 mil empresas na Suíça (algumas estatísticasLink externo). Cerca de 70 por cento desses negócios pertencem a suíços e 30% a estrangeiros, oriundos de diferentes países. De acordo com estudoLink externo preparado pela Crif para o jornal suíço Tages-Anzeiger, publicada em outubro de 2016, a estatística sugere que os estrangeiros teriam um perfil mais arrojado do que o povo local, o que não é surpresa, já que imigração denota risco e coragem para enfrentar novidade.

Empreendedorismo de mãos dadas com imigração - A pesquisa realizada em 2013 pelo Serviço de Informações Econômicas da Consultoria Bisnode D&B diz que 40% das empresas e 75% das startups de alta tecnologia na Suíça são fundadas por pessoas de outros países, número ainda maior que o estudo da Crif. O estudo confirma que os estrangeiros mostram uma grande abertura para fundar suas próprias empresas.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Infelizmente não é exclusividade da Suíça o fato de os cidadãos de outras nacionalidades serem ignorados quanto ao reconhecimento da importância na geração de renda. Basta acompanhar a polêmica do presidente Donald Trump e demonstrações pela Europa sobre a contribuição dos imigrantes para com a prosperidade mundial, com a criação de postos de trabalho e com diversidade de ideias para países que precisam de novidades.

De acordo com Peter Drucker, autor do livro Inovação e Espírito Empreendedor (1987), esse perfil de pessoas sempre inova e a renovação constitui-se em instrumento especifico desse espírito, que tem a nova capacidade de criar riquezas. E existe algo mais ligado à reinvenção que a emigração?

Os pontos fortes em se abrir o próprio negócio são óbvios para qualquer um: geração de renda, de emprego para o indivíduo e para o meio onde vive, além da realização pessoal. Os pontos sensíveis estariam em detalhes como visão enviesada do mercado, enxergado com olhos da antiga cultura; no desconhecimento da língua, na falta de apoio e aconselhamento técnico e na reduzida rede de contatos. Dessa forma, vale a pena o preparo, porque há um enorme mercado esperando por novas ideias.

Visão cultural ampliada

Desconhecimento do mercado e visão enviesada da realidade cultural do país de acolhida devem ser evitados a todo custo. A treinadora intercultural e especialista em recolocação executiva internacional Anne Claude Lambelet explica que esse é um ponto suscetível importante, principalmente no caso de pessoas de outras nações. De acordo com Lambelet, muitos imigrantes avaliam o país de acolhida sob a ótica que trazem de suas nações. A consultora tem experiência de mais de 25 anos em ajudar estrangeiros a buscar emprego ou montar negócio, tem sua própria empresa da ACL consultoriaLink externo e é presidente da Sociedade para Educação, Treinamento e Pesquisa Intercultural – SIETAR/Suíça, sigla em inglês para Society for Intercultural Education, Training and Research.

A consultora conta a experiência de uma cliente, que queria importar dos Estados Unidos para Genebra lâmpadas e decoração de natal que ela achava que não havia na Suíça. "Tentei convencê-la de que apesar de funcionar maravilhosamente na América, isso não iria vingar aqui. As pessoas iriam reclamar dos custos da decoração, repassados aos cidadãos em forma de imposto. A proposta não era ecológica, já que usava muita energia elétrica, um recurso limitado. Além disso, a cidade compraria uma vez, mas não renovaria a decoração anualmente, já que o consumismo não é um fator preponderante na Suíça", explica Anne-Claude, ao falar da perspectiva baseada somente na cultura de origem e a necessidade de ter o olhar de peixe, que é a capacidade de ver em 360 graus, sob todos os ângulos.

Anne-Claude Lambelet alerta para os riscos de visão limitada sobre a cultura do país de acolhida.

(swissinfo.ch)

Dessa maneira, a especialista aconselha: contrate um coach, um especialista que possa guiar e ajudar na tomada de importantes decisões, faça um estudo detalhado do mercado, uma investigação dos concorrentes, dos hábitos de consumo, das oportunidades reais de nicho e, sobretudo, um plano de negócios, o conhecido "business plan". 

Quando o dinheiro é curto mas o projeto interessante

Apoio técnico e aconselhamento custam caro. Mas não é por isso que o estrangeiro precisa desistir. Se a ideia é boa e viável, existem organizações sem fins lucrativos que têm como objetivo a inserção de pessoas com experiência de imigração e asilo, com visto de trabalho no mercado suíço. A Capacity Zurich, localizada em Zurique, é um exemplo e foca nesse público específico. Com o slogan "Apoiando o potencial humano", a organização auxilia estrangeiros que queiram começar um negócio ou estabelecer uma iniciativa cultural e social no país.

Oportunidade - Com o apoio de parceiros como UBS, Cantão de Zurique e Impact HUB, a Capacity Zurich abre as inscrições para o segundo ano do programa de mentoring, que vai de maio a novembro de 2017. Durante esse período, um time de especialistas irá guiar os futuros empresários, seja em encontros individualizados ou sessões de trabalho regulares. Além disso, esses imigrantes terão a oportunidade de participar de workshops conduzidos por especialistas de companhias suíças e eventos para expandir redes de contato.

A Capacity Zurich ofereceu atendimento a 11 imigrantes no ano de 2016. Desse total, três conseguiram abrir suas empresas. A história de sucesso da Organização, no entanto, não deve ser medida somente pelo êxito financeiro dos participantes. De acordo com a idealizadora da Organização, a britânica Emily Adams, muitas pessoas disseram que só o fato de terem ganhado a experiência e conhecimento com o programa já foi uma vitória considerável em suas vidas.

A ideia de iniciar o programa surgiu, há quase dois anos, após conversar com uma amiga psiquiatra que trabalha com imigrantes vítimas de tortura e guerra. Além disso, Emily, que é bióloga e tem doutorado em Geografia Humana, também carregava a frustração de saber que seu diploma e profissão não eram aceitos na Suíça.

"Se quisermos viver uma sociedade aberta a novas coisas, onde cada indivíduo possa alcançar seu potencial, e onde a diversidade seja vista como uma força, é preciso apoiarmos o encontro entre pessoas de diversas origens. O mais interessante no Capacity Zurich é que os suíços participam desse processo como treinadores", explica a fundadora. O objetivo da Organização é apoiar pessoas como refugiados e migrantes para que desenvolvam novos modelos de cooperação e interação, para que alcancem seu pleno potencial na sociedade suíça.

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08 de março de 2017swissinfo.ch agora na Rádio Lora de Zurique

O programa "Pausa Café", da Rádio Lora, passou a transmitir a partir de 7 de março matérias da coluna Suíça de Portas Abertas. 

A autora do blog, Liliana Tinoco Baeckert (esq.) e a jornalista Thaís Aguiar.

A autora do blog, Liliana Tinoco Baeckert (esq.) e a jornalista Thaís Aguiar.

(swissinfo.ch)

Dirigido à comunidade de língua portuguesa em Zurique, o programa é veiculado toda terça feira, de oito às nove da manhã. Idealizado e apresentado pela jornalista Thaís Aguiar e pelo documentarista Marcio Jeronimo, o Pausa CaféLink externo traz entrevistas em forma de bate papo, música, notícias, reflexão e cultura brasileira, tudo isso numa pausa para um café.

A Rádio LoraLink externo de Zurique é mais antiga emissora alternativa da Suíça e funciona desde 1983. Cerca de 300 pessoas trabalham no espaço, que é voltado para comunidades de imigrantes de vários países produzirem programas e levar a comunicação às suas comunidades específicas. Transmite em 23 idiomas e dá suporte sobretudo a questões de direitos humanos dividas em três pilares: o do não ao racismo, ao sexismo e ao comercial.

O convite de veicular a coluna Suíça de Portas AbertasLink externo na Rádio Lora partiu de Thaís Aguiar, após entrevistar a jornalista Liliana Tinoco Bäckert sobre questões de migratórias e sobre as matérias escritas para a coluna. Como os artigos da Suíça de Portas Abertas são publicados todo dia primeiro e décimo quinto de cada mês pela swissinfo.ch, o Pausa Café trará dois novos assuntos a cada 30 dias. A Rádio Lora pode ser encontrada no 97,5 MHz ou pela internet.

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01 de março de 2017Uma boa rede de contatos vale ouro na Suíça

A perda da rede de contatos é uma das principais desvantagens da imigração. Por um motivo óbvio, quem deixa seu círculo de conhecidos vai precisar começar tudo de novo, assim como acontece quando se muda de escola na infância.

Construir uma rede de contatos é importante, considera Angela Weinberger. 

Construir uma rede de contatos é importante, considera Angela Weinberger. 

(cortesia)

Trazendo a situação para a Suíça, dois fatores dificultam ainda mais o processo: a língua alemã e a reserva do povo, considerado difícil de se enturmar até para os vizinhos alemães que dominam o idioma. O problema é que, na condição de humanos, todos nós precisamos estabelecer contato para arrumar emprego, tocar um projeto ou até mesmo conseguir o telefone de um médico no novo país.

Pesquisa realizada recentemente pela empresa de contratação Catho Online – portal de soluções em Recursos Humanos da América Latina - mostra que 44% dos profissionais conseguem emprego graças à indicação de conhecidos.

Investir na rede de contatos consiste na prática de desenvolver e explorar a sua rede de relacionamentos, conhecida pela palavra inglesa network. São aquelas pessoas conhecidas: amigos, colegas de escola e faculdade, colegas de trabalho, ex-empregadores, clientes, fornecedores e até mesmo parentes. Além da rede já existente, é imprescindível fazer novos contatos, que podem informar sobre vagas de trabalho interessantes ainda desconhecidas pelo público. 

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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O uso do networking como ferramenta de recrutamento tem se intensificado. Hoje é bastante comum encontrar empresas que premiam funcionários que ajudam a preencher vagas abertas indicando amigos e conhecidos. Se antes o fator “QI” (quem indica) tinha um caráter negativo, pois geralmente se aplicava àquela contratação de um amigo ou parente do chefe, hoje ele é bem visto e considerado em todas as esferas do mundo corporativo.

Dá para aprender

O comportamento do suíço, no entanto, complica a prática. Eles são conhecidos por serem mais fechados e menos reativos à tentativa de contatos com estranhos. Diante da importância das conexões, o desafio então é saber como transpor essa barreira e conseguir ganhar a confiança deles. De acordo com a treinadora e coach Intercultural em Carreiras Angela Weinberger, ao contrário do que se pensa, é difícil fazer amizade com suíços. Mesmo os expatriados, que se mudam com emprego garantido, sentem falta de uma boa conexão. “Externamente, a Suíça parece muito aberta. Afinal de contas, é um país onde se fala quatro idiomas, com uma grande comunidade internacional e sede de várias organizações mundiais, mas a realidade não se mostra dessa maneira”, explica Angela.

Os suíços são fechados

Alemã, ela fala com experiência de viver em Zurique e em outros países. Angela promove cursos de como formar uma rede de contatos profissionais na Suíça. De acordo com a consultora, o histórico do país explica em parte a cultura e o jeito como a população local lida com estranhos. A forma como a Suíça foi criada, por exemplo, com a combinação de três cantões para se protegerem dos inimigos explica o porquê de considerarem estranhos como quase inimigos.

“Mesmo assim, vale a pena tentar. É preciso construir confiança para criar um círculo nesse país. A questão é como, já que a conquista da credibilidade se dá de diferentes formas dependendo da cultura”, explicou Angela, durante palestra no Clube Americano de Mulheres (American Women’s Club of Zürich), para cerca de 30 mulheres estrangeiras interessadas em aprender como se faz contatos no novo país.

A americana e responsável por eventos Hollyn Keller diz que decidiu trazer o tema por demanda própria e das integrantes do grupo. Mesmo casada com um suíço e no país há quatro anos, relata que sente dificuldade em conhecer pessoas em Zurique. Na platéia, mulheres de várias partes do mundo atentas aos ensinamentos da especialista. Em comum, o interesse em aprender a ganhar a confiança dos locais. Sumathi V Selvaretnam vem de Singapura e está de mudança para a Suíça com seu marido alemão. Jornalista, deixou seu emprego de editora de uma revista de negócios, e agora quer iniciar uma nova rede de contatos e conseguir um emprego.

Hollyn Keller, responsável pelos eventos profissonais no Clube Americano de Mulheres (American Women’s Club of Zürich).

(cortesia)

Entre cocos e pêssegos

A primeira lição ensinada por Angela Weinberger para entrar no coração de um suíço é aceitar que ele é coco, e não pêssego.  A categoria cultural de analogia às frutas foi criada para explicar a forma com que culturas lidam com comunicação e distância interpessoal. A brasileira, de fácil acesso, é pêssego. Isso inclui comportamento como sorrir para estranhos e engajamento em conversas informais. Mas o interior se mostra mais duro como uma semente de pêssego, tornando dificuldade para se fazer amizade mais sólida.

Já o suíço, assim como o povo alemão, é coco. De casca muito dura, a fruta tem difícil acesso e corte, o que significa a dificuldade de quebrar a primeira barreira, mas assim que se consegue, conte com amizade para a vida toda. Estereótipos à parte, a correlação ajuda a entender um comportamento generalizado.

Altruísmo é chave 

Outra lição muito importante é praticar o altruísmo. Além de ser realmente positivo para a sociedade, ajuda a criar uma relação de confiança. De acordo com a especialista, a receita é simples: conheceu alguém em um evento, acha que esse contato vale a pena, ajude essa pessoa se for o caso. “Auxiliar, nesse caso, significa descobrir os interesses do outro e, quem sabe, conectá-lo com alguem que o interesse. Pode ser também simplesmente com o envio de uma reportagem interessante. Atitudes simples, mas que façam diferença e acabam por criar uma relação de longo prazo e de mais confiança”, explica Angela Weinberger.

A treinadora ensina também os quatro P’s da rede de contatos: Propósito, Preparação, Presença e Promessa. O primeiro P, de propósito, significa pensar na razão de se interessar por aquele contato. A Preparação serve para lembrar da necessidade de ler sobre o outro, de informar e de deixar muito claro o porquê do encontro, mais propício para um encontro que seja propositado. A Presença, entretanto, refere-se à importância de se estar presente no diálogo, de ouvir o que o outro diz. Já a Promessa remete ao cumprimento do que foi dito durante o primeiro encontro.

“A verdadeira presença na conversa vai te dar um motivo para entrar em contato novamente, criando uma relação. Mas a promessa irá manter esse contato. Se você conheceu alguém interessante e prometeu enviar uma informação, faça. Eu encorajo sempre a redefinir o seu conceito de construção de rede contatos”, ensina Angela Weinberger.  

Como melhorar sua rede de contatos profissional:

- Suíços são cocos, têm casca dura. Não tome a sisudez como algo pessoal.

- Procure organizações, Vereins, grupos de mulheres, sejam profissionais ou ligados a esportes, música, qualquer coisa que seja do seu interesse. É importante conhecer pessoas.

- Vá a eventos, coquetéis (conhecidos como aperos na Suíça).

- Converse com pessoas das mais variadas origens e mencione que você busca um emprego.

- Troque número de telefones.

- Cartões pessoais não estão fora de moda, use.

- Não dê seu cartão imediatamente, faça somente no final da conversa.

- Exerça o altruísmo: ajude os outros com informaçães interessantes, apresente seus contatos a outros que façam sentido. Essa é uma boa maneira de se construir relações sólidas.

- Aposte na regra dos quatro Ps da rede de contatos: Propósito, Preparação, Presença e Promessa.

Contato Angela Weinberger: http://globalpeopletransitions.com/Link externo

American Women’s Club Zurich - http://www.awczurich.org/Link externo

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15 de fevereiro de 2017Desenvolvimento da competência intercultural é imprescindível para se viver no exterior

Decepcionados, brasileiros emigram; despreparados, podem não tolerar a mudança cultural e ver o sonho ir por água abaixo.

As perspectivas ao emigrar para um outro país muitas vezes não são correspondidas.

As perspectivas ao emigrar para um outro país muitas vezes não são correspondidas.

(Keystone)

Muito tem se falado sobre as consequências das crises econômica e política no Brasil, que têm levado muitos brasileiros ao exterior. Segundo dados da Receita Federal, entre 2011 e 2015 houve um aumento de 67% no total de Declarações de Saída Definitiva do País, o documento apresentado ao Fisco por quem emigra. Junto com a experiência profissional e o diploma, alguns brasileiros levam na mala o emprego garantido, a maioria vai com a família, mas em comum, todos fogem da crise e carregam sonhos de uma vida melhor. Só que a maioria desconhece um item que não deveria faltar na bagagem: competência para lidar com diferenças. Sem isso, a tão esperada oportunidade de fazer uma carreira internacional e de mudar de vida pode dar errado.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Leitura sobre o país de destino e treinamento são uma das maneiras de melhorar essa habilidade. De acordo com estudo da Unesco, publicado em 2015, competência intercultural refere-se ao conhecimento adequado sobre culturas particulares, assim como conhecimento geral sobre diversas questões que possam acontecer devido a essas interações, além de atitudes receptivas que encorajem o contato com grupos diferentes dos seus. Já o termo Sensibilidade Intercultural refere-se à capacidade de fazer diferenciações perceptivas complexas entre os padrões culturais.

A competência e a sensibilidade intercultural são habilidades que podem e devem ser aprendidas e treinadas. Existem diversos cursos e treinamentos no mercado direcionados ao público em vias de emigrar ou já quando estabelecido no país estrangeiro. Existem também treinamentos para esposas e famílias, que podem ajudar no período de adaptação. O objetivo é criar uma consciência mais aberta às diferenças e permitir que pessoas consigam entender melhor atitudes tão diversas, nunca esperadas por um brasileiro, por exemplo. O problema é que muitos brasileiros nunca ouviram falar nessa possibilidade e acreditam que emigrar vai resolver todos os problemas que tinham no Brasil.

Treinamento e informação ajudam imigrantes - O que isso significa na prática? Pessoas têm maneiras diferentes de fazer as coisas, palavras têm conceitos distintos em outras nações. A brasileira *Ellen Pires, que passou por treinamento intercultural pago por sua empresa antes de ser expatriada para a Suíça, relata que foi de grande valia, já que teria se sentido mal se não soubesse que os suíços geralmente não conversam enquanto trabalham, ao contrário dos brasileiros. "Eles deixam para trocar ideia na hora do cafezinho, pontualmente às 9h30min. Depois disso, foco total no trabalho e conversa só se for sobre assunto profissional. Se eu não tivesse sido treinada sobre essas diferenças, teria achado que era pessoal contra mim.  Ainda bem que fui orientada, porque essas diferenças sutis fazem toda a diferença no dia a dia”, conta.

Quem deixa o seu país de origem sem se preparar para viver com pessoas tão dissemelhantes pode não tolerar o choque cultural e até entrar em depressão. Especialistas no assunto relatam já terem visto muitos executivos de alto escalão não conseguirem lidar com pessoas de diferentes culturas, simplesmente porque em outros locais liderança é exercida de uma outra maneira ou pelo distanciamento entre a vida privada e profissional, abrindo espaço para muitos mal-entendidos.

O mundo é muito maior que a sua cidade - Trocando em miúdos, aumentar a sensibilidade intercultural seria preparar o indivíduo para abrir a mente e imaginar que o mundo é muito mais que a sua cidade, seu bairro ou casa. Isso envolve praticamente tudo, porque a cultura é ampla e acompanha o ser humano em suas atividades mais básicas, que vão desde a sua alimentação, passando pelo horário da refeição, noções de higiene, idioma, tom de voz, distanciamento entre interlocutores, música e muito mais.

Muitos estudos se desdobraram em desvendar os motivos pelos quais expatriados preferem desistir e voltar ao país de origem antes do prazo. Os números de insucesso ficam na casa de 16% a 40%, segundo estudos internacionais. De acordo com pesquisa feita pelos consultores em Liderança Stewart Black e Hal B. Gregersen, retornos prematuros acontecem por falta de ajuste transcultural por parte dos expatriados, de suas esposas e famílias. Black e Gregersen conduziram estudo em 1997 que indica que entre 10 a 20 dos expatriados americanos de um grupo de 100 enviados a outros países retornam prematuramente por insatisfação com seus trabalhos e choque cultural. E um terço dos que conseguem fechar o ciclo não têm a performance esperada pelas suas organizações, justamente por essa inadequação.

A psicóloga intercultural Andrea Sebben prepara expatriados brasileiros

(swissinfo.ch)

De acordo com a psicóloga intercultural Andrea Sebben, diretora da Equipe Andrea Sebben, autora de diversos livros sobre o tema e treinadora de expatriados, à luz da Psicologia Intercultural, que define as personalidades migratórias, existem pessoas que são naturalmente bem-sucedidas na migração por terem facilidade em criar vínculos, em experimentar coisas novas, em adquirir um novo idioma e, principalmente, por que conseguem participar de grupos muito facilmente. "Fazer parte de uma comunidade e vincular-se ao país hospedeiro são cruciais para o expatriado”. Segundo Andrea, a outra personalidade é aquela que sofre com a separação, que tem dificuldade em criar vínculos, em sentir-se parte do grupo, em aprender um novo idioma e em experimentar novos alimentos. Esse tipo sofre na partida, durante a expatriação e quando volta, pois uma vez que se estabelece na cultura estrangeira, sofre demais também ao retornar ao país de origem.

Brasil e Suíça são como água e vinho

Deixar o Brasil e viver especificamente na Suíça é um grande desafio. Os países são muito diferentes um do outro em termos culturais. Entre as várias categorias desenvolvidas por antropólogos e estudiosos do tema no mundo, os dois países, embora pertencentes ao Ocidente, diferem muito e geralmente estão nas extremidades opostas dos gráficos de comparações entre as duas culturas. E para piorar a situação, muitos dos brasileiros nunca tiveram qualquer contato com treinamento intercultural e precisaram aprender a duras penas que a vida pode sim ser muito estranha à realidade conhecida.

Na tese de mestrado sobre Barreiras Culturais enfrentadas por Mulheres Brasileiras na Suíça Alemã, escrita por mim em setembro de 2016 pela Universidade de Lugano, ficou comprovado que somente uma brasileira, das dez entrevistadas, conhecia treinamento intercultural. Do total de mulheres, três eram casadas com brasileiros, que emigraram como expatriados. Deles, nenhum teve qualquer preparação para viver no exterior; um recebeu um livro sobre o país. As barreiras culturais enfrentadas por essas mulheres, gerando problemas para as famílias, estão totalmente atreladas à falta de consciência intercultural e preparo para uma mudança tão grande em suas vidas.

As diferenças - A grosso modo pode-se dizer que um é água e o outro é vinho. Se a Suíça é um país extremamente individualista, o Brasil encontra-se no grupo dos coletivistas. Família, para culturas individualistas, engloba pai, mãe e filhos. Para outras mais coletivistas, inclui até mesmo tios de primeiro, segundo e terceiro graus.

Quanto o assunto é gerenciamento do tempo, de novo as diferenças são gritantes. Enquanto os suíços levam o assunto pontualidade como quase uma religião, como explica o interculturalista Richard Lewis, autor de diversos livros sobre o assunto. Já para o brasileiro, o tempo é relativo e pontualidade não é sua característica mais forte. Na categoria tolerância à incerteza, a Suíça está ocupa posição de destaque no gráfico. O brasileiro, ao contrário, está acostumado a viver na corda bamba. Esse tipo de diferença, no dia a dia, traz muitos problemas. Mas se os dois grupos culturais estivessem a par da normalidade na diferença de comportamento e de valores, certamente não haveria tanta desarmonia e estresse desnecessário.

*O nome da entrevistada foi modificado para preservar sua identidade.

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1° de fevereiro de 2017O guarda-roupa como aliado na reconstrução da identidade

Além de aprender um idioma diferente e outros códigos de conduta, imigrantes precisam adaptar a imagem pessoal ao país estrangeiro sem perder a essência.

Renata Ajonas recomenda bom senso e o uso do estilo pessoal para adaptar o visual ao do país estrangeiro.

Renata Ajonas recomenda bom senso e o uso do estilo pessoal para adaptar o visual ao do país estrangeiro.

(Divulgação)

Renovar o guarda-roupa pode estar entre as mudanças que imigrantes têm pela frente, dependendo do país de destino. Isso acontece com brasileiros que emigram para a Suíça. O clima frio do Hemisfério Norte e a diferença cultural interferem na maneira de se vestir e podem dificultar o processo de adaptação. A cultura influencia nos trajes e até mesmo na interpretação da moda. Então, esse imigrante que sempre soube combinar peças de roupa e se vestia com autoconfiança, hesita com hábitos tão diferentes.

Não se trata de uma ode à moda ou estímulo ao consumismo, mas é importante falar sobre o abalo pessoal sofrido com a perda da referência ao mudar-se de ambiente cultural e da conexão com o estilo da vestimenta que todos têm. Imagem privada e autoconfiança andam de mãos dadas, por isso a dobradinha encontro do novo visual e adaptação serem processos que acontecem simultaneamente. Na realidade de imigrante, esse sentimento é ainda mais forte. Afinal de contas, como pertencem a uma categoria minoritária, têm mais dificuldade em passar confiança ao morador local, que segue outros valores e padrões. O psicólogo americano Albert Mehrabian, especialista em comunicação não verbal, confirma a que apenas 30 segundos são suficientes para que o outro julgue e seja julgado.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Um dos primeiros choques culturais dos brasileiros é constatar que até no verão suíço pode fazer mais frio que o pior dos invernos brasileiros. A imensa quantidade de shorts e camisetas, por exemplo, não terá mais serventia. Outro desafio é saber usar e combinar as peças de inverno e montar, dentro desse novo cenário, um guarda-roupa que aqueça e promova autoestima. Para homens, essa questão é mais fácil, já que as peças são básicas e praticamente iguais no mundo inteiro.

Para as mulheres não. Entre vários exemplos de inseguranças e insatisfações, muitas brasileiras reclamam que se cansam de usar roupas de tons escuros e fechados e sentem falta de cores mais comuns em países tropicais. O antropólogo Edward Hall explica essas diferenças categorizando nações em conceitos como policromático e monocromático, do inglês Polychronic e Monochronic. Países mais frios, onde o cinza é constante e os cidadãos são guiados pelo trabalho árduo e pontualidade extrema, pertencem à categoria monocromática. A Suíça está obviamente inserida nesse grupo.

Imigrar significa repaginação

A psicologia da imigração explica que todo imigrante precisa passar pela reconstrução de seu eu e se reinventar. E esse período de reinvenção é árduo, com perda de referências pessoais e reelaboração de valores próprios. De acordo com a estilista pessoal e consultora de imagem Tsitaliya Mircheva-Petrova, a reelaboração do estilo faz parte desse processo. “Funciona como uma repaginação. Se você fosse uma marca, teria certamente que adaptar sua logo a essa nova realidade”, explica Tsitaliya, que também escreve no blog Mums in Heels sobre moda e estilo de vida para mães na Suíça.

A consultora de moda e estilo Renata Ajonas diz que a roupa precisa ter a identidade do dono. “Se você não está vestido de você mesmo, ou seja, usando uma peça que não combine com o seu eu, vai se sentir insegura” explica Renata, que é brasileira e já morou na Noruega e vivenciou a realidade de imigrante. A estilista de Moda Kathy Patellis-Schmidt afirma que estilo tem a ver com quem você é e tem que vir de dentro, externalizando o bem estar. Kathy é canadense e mora na Suíça.

A escritora e consultora de moda Gloria Khalil, em seu livro Chic: Um Guia Básico de Moda e Estilo, explica que “o estilo manifesta sua identidade social e sinaliza para os outros de que modo você quer ser tratada. No livro britânico Porque moda importa (Why Fashion Matters), Frances Corner, que é diretor da Universidade Londrina de Moda, explica que ela está conectada com a arte de se adornar, com a apresentação visual para o mundo. “O que nós escolhemos vestir reflete como nós vemos o entorno e como queremos ser vistos pelas pessoas”, conclui.

Cultura influencia  

Mesmo no verão, as roupas europeias têm corte geralmente mais comportado, com decotes menos generosos. Dessa maneira, muitas brasileiras se sentem inseguras quanto ao uso de uma roupa trazida do Brasil que mostre um pouco mais que as vestimentas suíças, por exemplo. Adicione a esse caldeirão de questionamentos o fato de muitas estrangeiras temerem sofrer preconceito devido a vestimenta, principalmente por saberem que carregam a fama de erotizadas.

Juliana Petraglia diz está cansada e usar roupa escura.

(Divulgação)

A alagoana Juliana Petraglia reclama que, desde que saiu de Alagoas, sentiu que seu guarda-roupa se tornou triste e fechado. No entanto, ela tem medo de ousar e usar tons mais alegres e coloridos, temendo ser alvo de olhares. Outro componente cultural é a forma como a mulher suíça expressa sua feminilidade. As roupas precisam ser práticas, fáceis de passar. É bem raro vê-las com a quantidade de bijuterias que uma brasileira usaria, unhas pintadas ou salto alto. Em geral, o figurino básico é calça jeans, camiseta de malha e jaqueta para frio, na maioria das vezes com cores leves ou fechadas. Esse novo papel social confronta e confunde a brasileira, que fica sem saber como expressar sua feminilidade na vestimenta. Como brasileira, Renata Ajonas entende o medo de errar na escolha da roupa, mas a questão passa novamente pelo autoconhecimento. “Se a mulher se encaixa no perfil mais discreto, vai evitar roupas com transparências, decotes e fendas exageradas. Conhecendo seu estilo pessoal, poderá fazer escolhas mais coerentes e confiantes”, diz Renata.  

Feminilidade à prova

Clima frio, cultura diferente, mulheres que pouco expressam feminilidade na vestimenta, poucas estampas, paleta de cores limitada. Essas são apenas algumas das dificuldades encontradas pelas brasileiras na Suíça, principalmente na parte alemã. A redefinição de seu papel enquanto mulher, a escolha de uma roupa que não atraia a atenção ou a escolha de um modelo que revele a sensualidade mesmo com temperaturas abaixo de zero são desafios. Questões sobre como fazer para manter o estilo mais colorido no longo e escuro inverno? É possível manter a feminilidade, mesmo vivendo em um país no qual as mulheres se vestem de forma mais masculina?

Sim, é possível e essencial manter as preferências das roupas, mesmo que o clima e a cultura sejam totalmente diferentes da do país de origem. Tsitaliya recomenda que as brasileiras ou qualquer outra imigrante jamais percam a identidade e a maneira individual de se vestir. “Não existe erro, existem alguns códigos, mas expresse quem você é e não mude sua essência”. Kathy Patellis-Schmidt confirma: “mantenha sua autenticidade”.

De acordo com a consultora de Moda e Estilo Renata Ajonas, é essencial que a mulher conheça as preferências, o que irá nortear os próximos passos nesse ambiente tão diverso como a Suíça. Renata fala com propriedade, já que conhece bem o país. Afinal de contas, o importante, segundo todos os especialistas, é o bem estar. 

Já pensou sobre seu estilo?

Existem sete estilos, segundo estudos universais da mulher: romântica, esportiva, clássica, contemporânea, dramática, sensual e étnica.

- Clássico: compre casacos atemporais e de qualidade, cortes elegantes e cores mais discretas

- Sensual: as costas de fora não funcionam devido ao frio, mas vale uma saia com fenda, por exemplo

- Contemporânea: vai buscar texturas e cores diferentes nos casacos. Essa mulher quer seguir a tendência na moda

- Dramática: vai usar e abusar da criatividade nos gorros, bolsas e com as cores.

- Romântica: pode trazer estampas florais para blusas, cachecóis e até casacos em tons de bege e branco.

- Esportiva: que prima pelo conforto, pode e deve vestir o seu jeans e tênis, desde que componham o visual com elegância

- Étnica: mantém o estilo com os acessórios como com uma faixa na cabeça, brincos e colares, além de roupas com estampas fortes e meia calça por baixo. 

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15 de janeiro de 2017Conhecer direitos e deveres promove integração

A advogada Fernanda Pontes Clavadetscher criou o projeto Saber Direito em 2012, que tem como objetivo de levar gratuitamente consciência forense à comunidade da língua portuguesa residente na Suíça. O assunto é abordado por meio de palestras itinerantes e informações na internet. 

(Liliana Tinoco Baeckert)

Seu trabalho com imigrantes mostrou na prática a forte conexão entre cidadania e conhecimento. De acordo com a advogada, a desinformação ajuda a criar mitos e crendices na área de direito, e em casos extremos pode até camuflar episódios de violência doméstica. Recomeçar na Suíça não foi fácil, todo residente estrangeiro no país sabe dos percalços para validar diploma e trabalhar, mas o caminho do trabalho voluntário mostrou os atalhos.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Para muitos o reinicio em outro país é muito difícil. Como foi seu recomeço na Suíça?

Fernanda Pontes Clavadetscher: Em 2008, eu e meu marido decidimos que já era a hora de criar nossos filhos aqui na Suíça, pois seria uma grande oportunidade para eles. Mas quando cheguei e me instalei definitivamente, vi que a realidade era diferente. Uma coisa é você vir a passeio e outra é morar aqui. Os três primeiros anos foram os mais difíceis e acredito que isso acontece com muitos estrangeiros que vêm para cá. Outro clima, outra cultura, outras regras. Com certeza a minha fé foi essencial para o meu recomeço na Suíça e fez com que, aos poucos, eu fosse acreditando que aqui, definitivamente, é o meu lugar.

swissinfo.ch: Como você fez para exercer a sua profissão na Suíça?

F.P.C: Num primeiro momento parecia impossível atuar novamente na área jurídica. Mas, aos poucos fui percebendo que eu poderia trabalhar como consultora jurídica do Direito local e ao mesmo tempo continuar advogando, já que eu tenho as minhas inscrições na Ordem dos Advogados de Portugal e do Brasil. Posso dizer que eu já era apaixonada pela informação como instrumento de trabalho desde os tempos que ainda morava no Brasil. Eu era professora de Direito Civil na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, quando em 2008 decidimos nos mudar para a Suíça. Atualmente, estou cursando mestrado em direito pela Universidade de Zurique para me reciclar. Estudar é sempre muito positivo.

swissinfo.ch : O que te motivou a criar o projeto Saber Direito?

F.P.C. : Na verdade tudo começou no meu meio social logo que cheguei na Suíça. Conforme eu ia fazendo novas amizades, percebi que os imigrantes de língua portuguesa careciam de informações jurídicas básicas, o que me fez refletir sobre essa situação e traçar uma estratégia para solucionar ou pelo menos amenizar esse problema. Com a minha experiência como professora universitária e palestrante no Brasil escrevi um projeto de palestras itinerantes, cujos temas abordavam principalmente o direito suíço. Com a minha entrada no Conselho de Cidadania, tive a oportunidade em apresentar essa ideia ao Consulado-Geral do Brasil em Zurique. Por entender ser um projeto que atenderia uma necessidade latente da nossa comunidade, os ciclos de palestras foram iniciados em junho de 2012, em Lugano, com o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

No mesmo ano comecei a escrever um blog com informações jurídicas sobre as principais dúvidas dos brasileiros e portugueses residentes na Suíça - www.juridiconasuica.blogspot.chLink externo. Eu estou convencida de que a falta de informação além de limitar a integração, contribui para aumentar imbroglios que poderiam ser facilmente resolvidos. Eu queria que as informações jurídicas importantes para os estrangeiros estivessem ao alcance de todos os imigrantes da língua portuguesa. 

As barreiras causadas pelo entendimento da língua local, alemão principalmente, é o maior obstáculo para o acesso a essas informações. Textos específicos sobre o assunto são muito complexos e a desinformação tende a criar mitos e crendices. É impressionante como a consciência dos seus direitos e deveres contribui diretamente para uma melhor integração e qualidade de vida dos imigrantes na Suíça.

swissinfo.ch:  O que vocês exatamente fazem no Saber Direito?

F.P.C.: Nós levamos informação jurídica à população portuguesa e brasileira, seja por meio das palestras, pré-atendimento pelo site, e-mail e nas principais redes sociais. As postagens são atualizadas constantemente e quem tiver uma dúvida, pode entrar em contato conosco por meio de formulários de atendimento disponíveis no site e até por telefone, em caso de urgência. O Saber Direito ganhou forças com o tempo. Recebeu a participação de outros profissionais, e o que a princípio era um projeto se tornou uma instituição. Hoje o Saber Direito presta informações jurídicas em português por meio do nosso site www.saberdireito.chLink externo e das mídias sociais. Além disso, as palestras itinerantes continuam a acontecer por toda a Suíça e em Liechtenstein.  

Hoje são mais de 10 mil seguidores no Facebook, sendo 71% mulheres, na sua maioria entre 25 a 44 anos. Em quatro anos, o Saber Direito já realizou mais de 20 eventos informativos na Suíça.

Eu preciso dizer que sem a participação de outros profissionais não seria possível atender todas as demandas dos imigrantes que nos procuram. Por isso, contamos com uma equipe multidisciplinar de voluntários. Patrícia Mutzke, por exemplo, é uma parceira ativa que também escreve o blog Brasil na Suíça.blogspot.chLink externo e tem especialização em direito migratório pela Universidade de Berna. Eu também com a colaboração da profissional de comunicação Adriana Hepper Bailoni, que vai me ajudar a ampliar a presença do projeto nas mídias sociais.

swissinfo.ch : Qual a importância do Saber Direito para você e para a comunidade?

F, P. C.: O Saber Direito é a concretização de um projeto no qual acredito. Através das informações que são prestadas em português, o imigrante tem a oportunidade de não só resolver ou se precaver de problemas como também de se sentir acolhido em um país que não é o dele. Pessoalmente, hoje eu sinto uma grande satisfação em auxiliar pessoas que desconhecem seus direitos e deveres, principalmente por saber o quanto isso pode ajudar na melhoria da qualidade de vida de qualquer cidadão. Para mim é uma missão.

swissinfo.ch: Em que sentido o desconhecimento do direito pode atrapalhar a vida de um imigrante?

F. P. C.: Por mais incrível que pareça, o desconhecimento mostra a sua pior face quando o assunto diz respeito à mulher imigrante e, em alguns casos, camufla até violência doméstica. Infelizmente ainda existem esposas que ignoram o fato de que o marido transgride a lei quando agem com agressividade física e psicológica. Elas não sabem o que fazer quando diante da crueldade, aguentam caladas porque têm medo de serem separadas dos filhos e, como acontece com muitos imigrantes, perdem a referência por não saberem se comunicar.

Embora não seja nosso papel fazer esse tipo de atendimento, para isso existem órgãos competentes, nós encaminhamos essas pessoas às entidades que poderão ajudá-las, não sem antes e informá-las que agressão é um ato criminoso. A primeira recomendação é que elas sempre, em qualquer hipótese, chamem a polícia.

swissinfo.ch : Quais são os maiores mitos e crendices com relação a direitos e deveres por parte dos imigrantes de língua portuguesa?

F. P. C.: Com certeza a falta de informação colabora para o surgimento de muitos mitos, principalmente quando o assunto está ligado ao Direito de Família, já que cada caso é um caso e, por isso, cada situação deve ser analisada individualmente. Pensão alimentícia, por exemplo, é um clássico. Outro tema que vemos muito no Saber Direito é o medo da perda da guarda dos filhos. Também existem outras questões que chegam até nós relativas a registro do casamento e ao divórcio.

swissinfo.ch: Que dicas você daria para quem está recomeçando sua profissão na Suíça?

F. P. C.: Antes de qualquer coisa, tenha fé e acredite no seu potencial! A pessoa tem que confiar no recomeço. Informe-se sobre como poderá atuar na sua profissão na Suíça. Se for preciso, volte para os bancos da faculdade ou faça cursos profissionalizantes. Procure se integrar. A conexão com a população local é muito importante e lhe fará bem. Saiba como funcionam as leis e as regras do país, pois assim evita uma série de transtornos.  

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1° de janeiro de 2017Medo e insegurança são portas de entrada para doenças nos imigrantes

Aumento de peso, problemas hormonais e no aparelho locomotor são muito comuns em quem deixou o país de origem e sofre com a adaptação. Tomar rédeas da sua vida e enfrentar o mundo podem ser uma ótima resolução para 2017.

Estresse e depressão: problemas que afetam muitos imigrantes na Suíça. (foto simbólica).

Estresse e depressão: problemas que afetam muitos imigrantes na Suíça. (foto simbólica).

(Ex-press)

A médica natural Patricia Quito OliveiraLink externo acredita que migrantes são muitas vezes acometidos por doenças devido ao alto grau de estresse que vivem por deixarem seu país.

A experiência de oito anos de consultório em Zurique dá autoridade à médica da cidade de Santos. Sua clientela é formada, na maioria, de pacientes da América Latina, Brasil e Portugal; muitos que chegam com uma dor generalizada, mas que após uma conversa mais profunda revelam problemas de adaptação na Suíça transformados em enfermidades. Formada pela Paracelsus Schule, em Zurique, a médica defende a importância de se prestar atenção na integração cultural dos estrangeiros.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Você acha que problemas com a integração podem influenciar a saúde dos imigrantes, principalmente da mulher?

Patrícia Quito Oliveira: Com certeza, e não somente da mulher latina. Qualquer estrangeira que venha morar na Suíça ou em qualquer lugar e não tenha conseguido driblar os problemas da imigração corre esse risco. Uma das primeiras barreiras pode ser a língua. O alemão não é fácil e o suíço alemão dificulta ainda mais. A pessoa, que ainda não está totalmente integrada, tenta praticar o idioma e se frustra, já que ouve uma coisa e aprende outra.

Pela minha experiência de oito anos de consultório em Zurique, mulheres que ainda não se encontraram têm mais problemas com integração. Isso significa que elas já trazem de suas origens conflitos internos não resolvidos e, diante de uma fase mais complexo, como a da imigração, desenvolvem novas fraquezas. Geralmente são pessoas indecisas, que têm problemas para tomar iniciativa. Eu defendo a ideia de que se você está bem consigo mesma, estará em paz em qualquer lugar do mundo.

swissinfo.ch: É como se a mudança de país enfraquecesse ainda mais a pessoa?

P.Q.O.: Sim. É preciso estar sempre em contato com o seu interior, principalmente em momentos mais difíceis como os de mudança de país. É importante lutar para aprender a língua e não deixar que as primeiras barreiras te enfraqueçam. A falta de integração cultural debilita porque a pessoa se sente incapaz. E isso é uma forma de desencontro com seu eu interior. Com o tempo, desencadeia uma série de outros distúrbios, que acabam por se transformar em doença. A cultura influencia muito a vida de todos. Dessa forma, torna-se ainda mais importante não lutar contra a nova cultura, mas absorver os novos aprendizados e inseri-los aos antigos trazidos do país de origem.

O aprendizado da língua, nesse contexto, torna-se essencial. Existe algo que mais enfraqueça uma pessoa do que não poder ou saber se comunicar? Dessa maneira, o não aprendizado do alemão acaba por colocar os imigrantes a parte da sociedade em que vivem. É como se elas não tivessem mais vontade própria, já que não podem se expressar.

Cada pequena dificuldade dá a pessoa a sensação de ter voltado a ser criança novamente, como uma regressão, afastando-a novamente do seu eu.

swissinfo.ch: Quais seriam as doenças mais comuns que acometem esse público?

P.Q.O.: Essa é uma pergunta bem interessante. Atendo pacientes que reclamam de problemas com o fígado, mas basta eu abordar o lado emocional que já puxo o fio da meada. Essa é uma grande vantagem da medicina natural; o médico tradicionalista não tem muito tempo para avaliar questões mais profundas. Muitas pacientes vêm aqui para poderem desabafar. No entanto, muitas das doenças que desenvolvemos têm origem psicossomática. Essa linha da medicina acredita que as patologias se manifestam em primeiro lugar nas dimensões energética, emocional e só depois aparece no corpo. Muitas enfermidades são criadas como defesa própria, como um escudo de proteção.

Há casos de pacientes que, após mudarem de país, começaram a ter rachadura nas mãos, outro exemplo de doença psicossomática. São geralmente pessoas que alimentam medo da língua e de sair de casa para lutar pelo que querem. A rachadura das mãos torna-se a desculpa perfeita. Faço analogia com o fato de colocar a mão na massa e fazer acontecer, ou até mesmo abrir a porta de casa e não poder porque as mãos estão machucadas. 

Patricia Quito Oliveira 

(swissinfo.ch)

A dor no joelho e outras doenças do aparelho locomotor também são emblemáticas: te impede de buscar o que quer, funciona como a perfeita desculpa para o medo de andar para a frente, de enfrentar seus objetivos. A fibromialgia, por exemplo, é muito comum nessa dinâmica. Nós, seguidores da medicina natural e chinesa, acreditamos que os bloqueios energéticos causados por esses conflitos internos mal resolvidos geram doenças como essa. Infelizmente as pessoas se podam muito psicologicamente. O medo exagerado e incontrolado, inclusive, aumenta os casos de síndrome do pânico ou até mesmo síndromes de ansiedade, depressão ou transtorno bipolar. 

Outro problema muito comum são as doenças hormonais. Há uma alta incidência também de hipotireoidismo. Para a medicina natural, o bloqueio no chacra da laringe, justamente pela perda do poder de expressão, bloqueia a energia naquele local e transforma o obstáculo em patologia. A prisão de ventre também é outro inconveniente e tem a ver com o fato de as pessoas se fecharem em situação como a de imigrante. O ganho de peso é um dos sintomas mais comuns. Um corpo maior oferece a falsa sensação de maior proteção. As enfermidades do aparelho gastrointestinal também são muito comuns. 

swissinfo.ch: E como o imigrante pode se proteger dessas doenças, principalmente em situações em que é normal estar mais vulnerável?

P.Q.O.: Estando aberto para mudanças, disponível a aceitar que as coisas podem ser diferentes. Algumas pessoas se colocam em uma posição irredutível, são muito radicais em suas opiniões. Adaptar-se não significa se anular, mas simplesmente deixar espaço para o novo, aceitar que o diferente entre na sua vida. O segredo é ter disposição. Há casos de pessoas que não querem que o filho aprenda os costumes do país hospedeiro. Alguns indivíduos não querem abrir mão de suas verdades, mas o que é a verdade? A única que se sabe é a que existem várias e talvez nenhuma, mas somente maneiras diferentes de se fazer as coisas.

Se eu puder aconselhar alguém, vou dizer que procure o caminho do meio, o ponto de equilíbrio. Aceite a nova cultura sem abrir mão da sua, segredo para viver bem em qualquer lugar. É difícil, mas não impossível. Invista nesse reencontro com seu eu, com o seu poder interior. Faça cursos de alemão, estude, se reinvente, aceite o desafio e se cuide. Use as ferramentas que você ache necessárias para lidar com seus medos internos; seja um profissional de psicologia, um curso intensivo de alemão ou qualquer outra ideia. Vá em frente e coragem. 

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15 de dezembro de 2016Sonhando com um príncipe encantado nos Alpes

A falta de esclarecimento, no entanto, pode estragar o sonho das desavisadas...

Uma união entre duas culturas diferentes: por vezes um desafio.

Uma união entre duas culturas diferentes: por vezes um desafio.

(swissinfo.ch)

A fantasia da felicidade eterna no casamento com um homem estrangeiro ainda faz parte de um considerável número de brasileiras que emigram. Elas se apaixonam ou vêm para trabalhar, de forma legal ou ilegal e se casam. O fato é que deixam família e emprego no Brasil para se casarem com um suíço. 

Organizam a festa, algumas famílias viajam e se conhecem, mas um detalhe fica esquecido: a informação. No calor das emoções, quem pensa em procurar dados sobre o país de destino, quem participa de um treinamento de interculturalidadeLink externo, que prepararia para a vida em uma nova cultura? Praticamente ninguém. A maioria acha que está a caminho do paraíso do Primeiro Mundo. Resultado: conflitos desnecessários, falta de comunicação e muitos mal-entendidos, podendo terminar até em divórcio.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Esclarecimento é, portanto, a palavra chave. De acordo com a psicóloga e pesquisadora da Universidade Católica de Pernambuco, Flavia de Maria Gomes Schuler, que escreveu a dissertação de mestrado Casamento intercultural e suas peculiaridades: um estudo sobre brasileiras na Suíça, informação é fundamental, tanto para o processo de adaptação ao novo país quanto para entender o companheiro de uma outra cultura. "Relação a dois não é conto de fadas, muito menos quando o casal é formado por pessoas de mundos tão diferentes. Não pense que eu seja contra esse tipo de relacionamento. Só dissemino a ideia de que as brasileiras precisam vir com consciência de que irão encontrar uma nova realidade", explica Flavia Schuler.

A psicóloga vive hoje em Recife, é casada com um suíço-brasileiro, mas morou na Suíça durante 17 anos. A motivação para escrever sobre o tema veio quando trabalhava na organização não-governamental MEOSLink externo, na Basiléia. Foi prestando assistência psicológica a mulheres de língua portuguesa que ela percebeu as dificuldades daquelas pessoas em lidar com o diferente, a falta de esclarecimento sobre o país e sobre o que significa ser uma estrangeira. "Eu percebi que elas idealizavam aquele país lindo, mas que com a convivência com o parceiro e com os problemas da adaptação, os sonhos desmoronavam", diz. 

Para a dissertação, escrita sob a orientação da Profa. Dra. Cristina Maria de Souza Brito Dias, Flavia Schuler entrevistou 20 brasileiras moradoras dos cantões de Argóvia, Zurique e Basiléia, algumas no país de forma ilegal. As entrevistas foram realizadas em 2010. A constatação veio de encontro ao que ela já desconfiava: ao migrarem, de modo geral, não estavam conscientes das dificuldades que seriam enfrentadas ao deixar o seu país. Elas, inicialmente, só percebiam as facilidades que teriam ao deixar o Brasil, pois migraram acalentando vários sonhos, mas a realidade do dia a dia, no entanto, se mostra bem diferente.

Se informar é preciso

Exatamente nesse ponto entra a importância da informação. Sem a consciência sobre o que significa viver em outro país e até que ponto isso pode afetar a vida, as pessoas se desiludem muito e algumas até desistem ou desenvolvem uma depressão.

Dificuldades encontradas no novo contexto: Neste item, as falas das participantes destacaram como principais dificuldades encontradas: língua, solidão, saudade, ilegalidade, deixar os filhos (quando fruto de uma união anterior e precisam ficar no Brasil), a mentalidade suíça e o preconceito.

De acordo com a dissertação de Schuler, para o migrante a chegada ao novo país marca o início das interações com a nova cultura e com a população. Esta é, sem dúvida, a etapa mais longa da migração e, para algumas pessoas nunca acabará, ou seja, o sentimento de estar sempre em contato com o estrangeiro, com o estranho, com o que não é familiar, pode durar toda uma vida no país de acolhimento.

O estudo afirma que mesmo que as condições de vida, para essas mulheres, se apresentem melhores por certo prisma, haverá sempre um choque cultural e um duro processo de adaptação, daí ser importante estudar as condições de integração no país de destino. As dificuldades encontradas por essas mulheres são inúmeras. De acordo com o estudo, uma das grandes dificuldades é a língua. Muitas pessoas se veem reduzidas quase a uma criança, pois elas têm que aprender tudo de novo.

"A língua é a mais complicada que eu já ouvi e por isso eu não queria ficar aqui, mas como minha mãe estava doente, eu tinha que trabalhar para mandar dinheiro para ela. Eu saía de casa muda e voltava calada. Eu tinha saudade de tudo que eu tinha lá e não tinha aqui. Isso foi o mais difícil", diz Lilian, uma das entrevistadas de Flávia Schuler.

A mentalidade suíça também é apontada como uma das dificuldades, porque culturalmente o brasileiro e o suíço são muito diferentes. O relato seguinte afirma:

"Quando eu cheguei à casa de minha tia foi muito difícil para tomar conta do meu sobrinho, para ela poder trabalhar fora. A convivência com o marido dela foi impossível! Ele é bem suíço mesmo. Tudo tem que ser sempre do mesmo jeito, como um desenho, nada pode mudar. Eu vivia triste, não me acostumava, mas precisava ajudar minha família", relata Gil, outra entrevistada.

Nem tudo está perdido

De acordo com a pesquisadora, o relacionamento entre casais binacionais pode dar certo sim. Mas para que todo o processo de adaptação e a convivência ocorra de forma mais suave, é importante ficar atento a algumas dicas:

Aprender a língua do país
Não se isolar no seu mundo brasileiro
• Não fazer amizades somente com brasileiras. Conecte-se com suíços também. Muitos maridos reclamam que as esposas não querem conhecer pessoas de outras nacionalidades
• Se prepare para deixar o país e para enfrentar uma nova cultura
• Casamento não é conto de fadas, muito menos com um estrangeiro. As duas culturas são muito diferentes e cada um tem um modo de ver o mundo
Não se feche para a cultura do (a) parceiro (a)
• Esteja ciente de que conceitos como família, amizade, trabalho, dinheiro etc. são muito diversos
• Abra seu coração

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1. de dezembro de 2016Transmissão de valor aos filhos e festas lideram reclamações entre casais binacionais

A criação dos filhos e o conceito de divisão entre espaço privado e social são os dois maiores motivos de conflitos entre casais binacionais de origem brasileira e suíça.

Helene Labenz Gawlik consegue driblar melhor os conflitos porque pai era alemão 

Helene Labenz Gawlik consegue driblar melhor os conflitos porque pai era alemão 

(swissinfo.ch)

As razões estão diretamente ligadas às diferenças culturais entre os dois países, que funcionam em lados opostos em muitas categorias, como por exemplo comunicação, gestão do tempo e das finanças. Assim como outras sociedades com históricos e origens tão diversas, suíços e brasileiros têm variadas maneiras de educar e valores morais, e discordantes conceitos sobre questões triviais, como família, amizade e lar, por exemplo.

Os dados foram gerados por meio de sondagem qualitativa, realizada com 18 brasileiras casadas com suíços ou estrangeiros criados no país. A pesquisa, realizada pela swissinfo.ch no mês de outubro deste ano, perguntou às brasileiras quais seriam os maiores causadores de conflitos com seus maridos devido a diferenças culturais. O estudo inclui mulheres, com idades que variam de 22 a 60 anos, casadas ou divorciadas, moradoras dos cantões de Schwyz, Zurique, Argóvia, Solothurn e Berna.

A educação dos filhos e o conceito de vida privada empataram. Das 18 entrevistadas, sete relataram problemas com relação a esses temas. Em terceiro lugar, com seis pontos, entra a categoria "finanças", que inclui tantos gastos desnecessários, principalmente relacionados a compras exageradas de sapatos, quanto à preocupação exacerbada em economizar dinheiro para a aposentadoria. Logo após, com quatro pontos na lista, entra a divergência quanto à utilização do tempo livre: o marido quer férias na montanha, a esposa na praia; o homem acha que precisa estar em dia com as tarefas domésticas no fim de semana, a mulher quer passear.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert

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Educação dos filhos - não importa a idade da prole. A celeuma inclui tanto discordâncias na educação de crianças pequenas quanto de adolescentes de 18 anos. Os pais suíços encaram a iniciação sexual dos filhos como um assunto normal, permitindo que tragam inclusive namorada para dormir em casa. As mães brasileiras, no entanto, são muito mais conservadoras nesse quesito. Segundo Ana Dias*, o marido acha normal a filha de 14 anos sair com as amigas à noite e ainda comunica a ela que pode começar sua vida sexual antes dos 18 anos. Quando se trata de crianças pequenas, eles também se mostram mais liberais. "Meu marido acha tudo normal e nada perigoso. Ele quer nossas filhas livres, subindo em árvores, enquanto eu tenho medo que elas caiam", relata Milena Bach*, uma das entrevistadas.

Mas quando o assunto é permitir que os filhos assistam televisão, os suíços se mostram mais tradicionais e contra a adoção da famosa "babá eletrônica", entrando em conflito com as esposas brasileiras. E aí que a cultura explica sua importância: o brasileiro está entre as seis nacionalidades que mais assistem televisão no mundo, de acordo com pesquisa divulgada em 2013 pela Motorola Mobility, que confirma o que já se sabia por observação. A pesquisa constatou os hábitos de cerca de 9,5 mil consumidores de 17 países. O exemplo citado é emblemático e serve para mostrar que a cultura se faz muito forte quando se trata da criação dos filhos. Na Suíça, país seguro e repleto de florestas, é comum que crianças brinquem mais na rua, tenham contato com a natureza e, consequentemente, subam em árvores.

De acordo com Marla Alupoaicei, autora de livros sobre o assunto, quando o primeiro bebê nasce, a dinâmica de um casal muda drasticamente, mas mais ainda para um casal binacional. "Além da enorme responsabilidade que acompanha a tarefa de criar um novo ser, o casal vê a tensão crescer paralelamente à incerteza sobre como proceder. Ideias culturais sobre criação das crianças são muito enraizadas, indivíduos geralmente lutam para identificar seus próprios valores e atitudes sobre o tema", explica Alupoaicei, em seu livro O seu casamento intercultural: um guia para um relacionamento saudável e feliz (em inglês: Your Intercultural Marriage: a guide to a healthy, happy relationship). Ela explica ainda que pais que enfrentam problemas na criação dos filhos estão, na verdade, batalhando sobre diferenças básicas de filosofia, valores e crenças que o casal ainda não conseguiu resolver.

Conceito de espaço privado versus social – brasileiro gosta de festa, não é nenhuma novidade. Já os suíços são muito mais reservados. Entre as reclamações dos maridos estão a presença constante de amigas da esposa em casa, o que tira a privacidade; e a necessidade de silêncio e de isolamento, principalmente quando ele visita os parentes da mulher no Brasil. "A minha família não entende porque o meu marido necessita permanecer algumas horas trancado no quarto de hóspedes quando todos estão conversando lá fora", relata Dalila Meyer*.

De acordo com Rosemary Jaggi, seu problema é que sempre foi muito comunicativa e festeira, e queria fazer dos novos amigos que conheceu na Suíça membros da família, na tentativa de repetir as reuniões de domingo com galinhada em Goiás. No caso de Rosemary, entram dois outros aspectos culturais, além do privado e social: os diferentes conceitos de domingo e de família. Em uma cultura coletivista, como o Brasil, amigos também podem fazer o papel de família. Afinal de contas, quanto mais gente melhor.

Finanças: a entrevistada Tatiana Beyer* não consegue entender a preocupação exagerada com o dinheiro para a aposentadoria. Ela compreende a necessidade de economizar para o futuro, mas acha que os suíços tomam a questão quase como uma paranoia. "Eles são muito precavidos com as finanças. A gente nem pensa nisso no Brasil. Isso não significa que eles sejam pão duros, eu acredito que eles têm prioridades diferentes, mas o jeito como levam a coisa é exagerada. Suíço gasta fortunas com bebidas, por exemplo", diz Tatiana.

Algumas das entrevistadas tiveram que conter os gastos com supérfluos, principalmente com a compra de roupas e sapatos. Segundo a brasileira Leda Pearl*, quando chegou à Suíça, ela gastava muito, comprava o que via, fato que se arrepende. Se os suíços vivem felizes com no máximo três pares de sapatos, o brasileiro se comporta de outra forma quando consome. Estudo do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) de 2013 confirma: 46% da população não controla seu orçamento. As mulheres só repetem o comportamento que já tinham no Brasil.

Jogando futebol com a torcida ao contrário

É importante mencionar que qualquer relação a dois necessita de ajustes, mas o relacionamento entre duas pessoas de culturas muito diferentes tem adicionados alguns fatores complicadores. Além de todos os motivos de conflitos citados na matéria, o estilo diferente de comunicação é o maior ponto frágil. Um dos cônjuges não irá falar a língua nativa. Há casos de casais que lançam mão de uma terceira língua, o que significa que um dos dois estará em desvantagem ou os dois se comunicarão em uma língua que não dominam 100%, porta aberta para mais mal-entendidos. De acordo com a psicóloga e pesquisadora da Universidade Católica de Pernambuco, Flávia Schuler, em uma cultura diferente, dificuldades na comunicação se ampliam, mas isso não significa que não possam ser resolvidos", explica.

A pesquisadora, que escreveu dissertação de mestrado sobre o assunto, diz que até a forma de falar do alemão, que tem uma sonoridade e um tom bem diferentes do português, causa mal-entendidos entre os casais binacionais. Além disso, some o fato de que as culturas germânicas têm uma forma mais direta de falar o que pensam. "Isso no dia a dia soa como ofensa pessoal, o que muitas vezes é somente uma forma diferente de comunicar o que se deseja", diz.

Dessa maneira, Flávia Schuler defende o esclarecimento sobre o tema cultura. Isso inclui que esposas e maridos estejam abertos a essas diferenças. "Quando a esposa migra para a Suíça, a carga de adaptação pesa mais sobre ela. É como se ela jogasse futebol com a torcida ao contrário. Por isso acredito na importância do marido e da esposa compreenderem e aceitarem que suas culturas são diferentes e entrarem em acordo", enfatiza.

*Alguns nomes foram mudados a pedidos das entrevistadas.
Os pontos de discordância, de acordo com a sondagem: 

Os pontos de discordância, de acordo com a sondagem:

 

Categorias

Suíços

Brasileiras

1

Criação dos filhos

Dão mais liberdade

Criança de 3 anos é considerada apta a brincar sozinha na rua

Permitem que filhos tragam namorados para dormir em casa

Não quer que a criança assista a TV

Iniciação sexual mais aberta

Mães precisam sair todos os dias com filos para pegarem luz do sol, mesmo quando frio

Bebês só devem tomar banho duas vezes por semana

Crianças vão à escola sozinhas

Noção diferente de perigos e riscos para crianças

Vigilância atenta aos pequenos

Maior permissividade quanto à TV

Não querem sair de casa se faz frio

·Banho todos os dias, até mesmo duas vezes

·Crianças vão à escola de carro

2

Privado e Social

Só convidam pessoas íntimas para casa

Precisa ter momentos de privacidade e se fechar no quarto, mesmo que esteja visitando a família brasileira em viagem

Poucos amigos e amizades são eternas

Fazem questão de convidar vários amigos e conhecidos para reuniões com muita comida em casa.

Muitos amigos, incluindo recém conhecidos, colegas do trabalho

3

Gerenciamento das Finanças

Preocupados em guardar dinheiro para a aposentadoria

 

·compra desenfreadamente

Aquisição de supérfluos

4

Tempo Livre

Férias na montanha

Fim de semana é ideal para colocar o trabalho de casa em dia

Domingo é dia de silêncio e de descanso

 

Férias na praia

Fim de semana foi feito para curtir com a família, festejar com amigos e não trabalhar

Domingo é dia de convidar os amigos para almoçar em casa e criar um clima de festa em família

 

5

Jeito Extrovertido

Discretos

Realista

Contido

Gosta de sossego

 

 

 

 

Ri muito e alto

Otimista

Emocional, chora e ri com facilidade

Gosta de festas

6

Conceito de família

Família é basicamente mãe, pai e filhos. Tem dificuldade de aceitar a grande quantidade de integrantes da família brasileira

Pouco contato com a família (pais, avós, tios)

O conceito de família inclui tia, tios, primos, vizinhos, amigos e até animais de estimação

Contato constante com família no Brasil

7

Organização da casa

Lixeira para dejetos biológicos

Como gosta de colocar a casa em ordem, tende a ser mais organizado

Prefere jogar tudo no mesmo lixo, sem separar

Acumula objetos

 

 

 

8

Agenda e Pontualidade

Pontual

Organização do tempo

 

Tem que aprender a ser pontual

Várias festas de uma vez só, sempre atrasada

 9

Idioma

Mal-entendido por língua diferente

Humor diferente por conta da língua

Demanda em relação à proficiencia da língua alemã

Mal-entendido por língua diferente

Acha muito difícil aprender alemão

 

 


Por

15 de novembro de 2016Precisamos falar sobre diversidade cultural nos casamentos

Casais binacionais deveriam se informar sobre a realidade cultural dos parceiros com o objetivo de amenizar as diferenças.

Casamento: uma união para a vida inteira, apesar das diferenças?

(Keystone)

É só dar uma volta pelas maiores cidades suíças para confirmar os dadosLink externo do Departamento Federal de Estatísticas: as brasileiras, ouvidas e vistas em vários pontos do país, estão em segundo lugar na preferência dos suíços para casar. As alemãs ocupam a liderança. De acordo com os dados do BFS, cerca de 49% dos matrimônios no país têm perfil binacional, o que significa que um dos cônjuges dispõe de outra nacionalidade. 

Diante do alto índice de casamentos entre as duas nacionalidades, uma pergunta não pode ser ignorada: será que essas brasileiras sabiam ou sabem o que significa emigrar? Elas se preparam ou simplesmente deixam o Brasil para viver um grande amor? Segundo pesquisa empírica com 15 mulheres para essa matéria, elas seguem o sonho e embarcam sem muita ou quase nenhuma informação. Isso não significa que o relacionamento não dará certo, mas pesquisa prévia garante maiores taxas de sucesso e menos frustração. Afinal de contas, qualquer união, mesmo quando inclui pessoas de uma mesma cidade, já constitui pelo menos a junção de duas culturas diferentes. Imagina quando oriundas de países tão diferentes quanto a Suíça e Brasil.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert

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Um dos maiores erros é ignorar a cultura do cônjuge. De acordo com a autora do livro Your intercultural marriage (Seu casamento intercultural), Marla Alupoaicei, os casais dispendem em média muito mais tempo planejando suas festas de casamento que o matrimônio em si. De acordo com a escritora, a maioria dos jovens casais foca exclusivamente na cerimônia, agindo muitas vezes de forma inocente, idealista e romântica. A autora escreve em seu livro algo que pode ser confirmado pelas inúmeras brasileiras casadas na Suíça: casais interculturais provavelmente experimentam mais conflitos que os casais de mesma nacionalidade. Por uma razão óbvia, mas que ninguém pensa quando está apaixonado. Segundo Dugan Romano, em seu livro intitulado Intercultural Marriage: Promisses & Pitfalls (que significa Casamento intercultural: Promessas & Armadilhas), esses casais serão constantemente expostos a diferentes costumes, cerimônias, línguas e países. A exposição, entretanto, não será sentida como acontece com expatriados, por exemplo, que lidam com a diversidade cultural mais profundamente no ambiente de trabalho. Casais interculturais sentem essas particularidades nas decisões mais íntimas.

As diferenças podem aflorar já com a organização do casamento, enquanto ainda são namorados, ou estarem relacionadas a uma decisão muito íntima, que influencie a vida dos filhos, por exemplo. De acordo com a brasileira Mariane Nunes*, atitudes banais, como decisões de rotina, que não teriam a menor estranheza para um casal brasileiro, podem se transformar em incompreensão por uma família binacional. Mariane cita o exemplo da festa de aniversário do filho, que virou motivo de briga entre o casal durante dez anos, todas as vezes que o menino fazia mais um ano de vida. “O meu marido e sua família nunca entenderam que era muito importante para mim comemorar o aniversário do nosso filho como fazemos no Brasil. É uma tradição nossa, que eu valorizo muito e não quis abrir mão”, explica. 

Já a egípcia Samah Rayed*, casada com um alemão e moradora da Suíça, se viu perplexa diante da decisão de circuncisar o filho, seguindo a tradição de sua família, ou de não o fazer, deixando o menino como o pai. A egípcia, após muita reflexão e diálogo, preferiu deixar o filho se parecer com o pai a não seguir uma tradição familiar. Uma decisão como essas, no entanto, pode ser o detonador de um pavio prestes a explodir.

Culturas diferentes, valores desiguais

Os diferentes valores que regem as culturas podem funcionar exatamente como estopim para relações de diferentes culturas. O que é importante para um, soa totalmente esdrúxulo para o outro. Essa relação é totalmente proporcional ao tempo de convivência e obviamente à exposição a certas questões.

Dessa maneira, a autora Marla Alupoaicei aconselha que casais conversem, ou que pelo menos estejam conscientes, de que temas morais podem divergir, até mesmo quando os parceiros tenham a mesma religião. Por isso, é importante checar o que poderia ser motivo de discordância:

- Aborto, contracepção, gravidez, tratamento de infertilidade e decisão sobre o número de filhos

- Álcool e uso de drogas

- Batismo

- Circuncisão

- Corte de cabelo, maquiagem, uso de joias e estilo de vestimenta

- Dança

- Namoro

- Morte (incluindo cremação e rituais de enterro) e questões relacionadas, como eutanásia

- Sexualidade

- Doença e tratamentos

- Como educar os filhos

- Comida e refeições

Conflitos podem ocorrer devido a diferenças culturais

Assim como dimensões culturais são levadas em conta no mundo profissional, deveriam ser consideradas também em relações matrimoniais. Dimensões culturais são usadas para categorizar e explicar os comportamentos de cada cultura. Existem inúmeras, mas Alupoaicei sugere que dimensões como tempo, por exemplo, seja considerada para que casais não se esqueçam de que vêm de origens diferentes. Em culturas como a brasileira, em que o tempo é flexível, atrasos são permitidos. De acordo com Richard Lewis, criador do Modelo de Comunicação Intercultural e autor de inúmeros livros sobre o tema, em culturas onde o tempo é linear, pessoas medem o tempo em horas, minutos e segundos. É quase uma obsessão com o tempo. Só essa característica já é suficiente para inúmeras brigas entre um casal de brasileira e suíço.

Em culturas individualistas, como a Suíça, por exemplo, o conceito de família é diferente. Família basicamente significa pai, mãe e filhos. Já na cultura brasileira, que é coletivista, esse conceito se amplia e pode significar até o vizinho. Outra razão para conflitos em casamentos binacionais. Outras categorias importantes devem ser observadas nesse processo. A coluna trará, na próxima edição, mais informações a respeito de possíveis conflitos. 

Por

01. de novembro de 2016Fazendo as pazes com o alemão

A linguista Cristina Schumacher explica os porquês dos problemas com a língua

(swissinfo.ch)

Além de todas as dificuldades enfrentadas por um brasileiro imigrante na Europa, a língua alemã vem culminar como um dos principais problemas apontados por quem vive em países germânicos. De aparência tão incompreensiva, o aprendizado se faz árduo e vagaroso, a ponto de muitos se dizerem traumatizados com a língua.

Na Suíça, a situação se complica devido à importância atribuída aos dialetos pela população local, fazendo com que os estrangeiros se sintam deslocados e aparte da sociedade onde vivem. Afinal de contas, eles aprendem um idioma nas escolas e se deparam com uma realidade linguística totalmente diferente nas ruas, tornando o que já era complexo em algo quase inacessível.

Para falar sobre o assunto, a linguista Cristina Schumacher, autora de mais de 30 títulos sobre o aprendizado de línguas e do livro Alemão Urgente para Brasileiros, destrincha a problemática com o idioma germânico e incentiva brasileiros e portugueses a darem mais uma chance à língua de Goethe.

swissinfo.ch: Na dissertação em que eu escrevi sobre mulheres brasileiras na Suíça, percebi que existe uma relação quase traumática entre o público brasileiro e o alemão. O que a Senhora atribuiria a essa isso?

C.S: Como eu explico no meu livro Alemão Urgente para Brasileiros, devido a sua fama de idioma difícil e inacessível, o alemão acaba sendo alvo de aprendizagem apenas das pessoas, cuja motivação para conhecê-lo se prova muito concreta. As dificuldades geradas por essa fama, mal fundamentada, ainda são acrescidas da suposta “antipatia” que o seu sistema fonético costuma evocar em ouvidos de falantes de outras línguas. É lamentável, contudo, que impressões dessa natureza venham a constituir barreiras ao contato ou conhecimento de um instrumento de comunicação de tão raras exatidão e beleza.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert

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Eu acredito, no entanto, que esse fenômeno que acomete os falantes do português possa ser explicado com base em três dimensões. A primeira seria a dimensão formal da língua, que é baseada na dissimilaridade dos sistemas, que passam pelos traços dos sistemas de sons, de organização das palavras e até mesmo conceituais. Por exemplo, ao lidar com as duas línguas é possível perceber que um conceito em alemão pode precisar de um parágrafo para ser explicado, enquanto a mesma ideia em português precise ser explicada de uma outra. Muitas vezes esse conceito nem pode ser explicado, gerando uma expressão vazia. Português e alemão não são lentes simultâneas, mas bem diferentes.

A dimensão cultural, entretanto, também influencia o aprendizado. Isso significa toda forma de lidar com o convívio entre essas duas culturas, que são muito diferentes, por meio da língua. O idioma nos serve e se adapta à forma como vivemos.

Eu explicaria esse fenômeno também pela dimensão ritual e literal da língua. A Portuguesa, pelo seu caráter mais ritual, vai permitir que a pessoa diga “Passa lá em casa”, como uma forma de ritual de conversa, como maneira de estender um diálogo, ou até mesmo de mostrar uma simpatia, mas não um literalmente convite. O germânico, no entanto, entenderia como uma solicitação de presença. Fazendo uma ligação com o sócio cultural e o sistema de convívio, fica óbvio que essa relação vai exigir um certo preparo para ser compreendida.

Na língua ritual, como é a nossa, os códigos são sobrepostos. É necessária, dessa maneira, uma decifração dos códigos sociais para entender. Saindo dessa ótica e indo para a língua alemã, representante da conduta literal direta, fica então fácil perceber como o desconhecimento sobre a cultura própria e a alheia gera julgamento de valor e, consequentemente, pode trazer um componente de rejeição que vai atrapalhar seu aprendizado.

Muitos brasileiros percebem o alemão como grosseiro, mas na verdade, isso é somente uma outra forma de se expressar, de olhar o mundo. A língua não determina, mas conduz a um determinado ponto de vista. Ela tem um papel de manter um jeito de se relacionar com a realidade. Essa subjetividade, no entanto, é uma zona obscura, difícil de se alcançar. Por isso gera sofrimento. Portanto, esses fatores, todos juntos, se retroalimentam.

swissinfo.ch: Existem outras dificuldades?

C.S: Os dois idiomas apresentam contrastes de pronúncia e de estrutura. O rigor estrutural do alemão se contrapõe à flexibilidade do português. A pronúncia alemã, que tem suas consoantes explodidas pela tensão, é contrária às consoantes relaxadas do português. O jeito leve de dizer bonita é muito diferente do jeito marcado e duro do idioma germânico, que é tenso.

swissinfo.ch: Tenho a impressão de que suíços e alemães não têm muito problema para aprender o português...

C. S.: Quem teve acesso a uma língua de tão rígida estrutura como o alemão, que permite análises mais profundas, vai conseguir falar uma língua mais flexível como o português mais facilmente. Dessa forma, é comum encontrar alemães e suíços que aprendam a língua portuguesa mais rapidamente, situação que nem sempre se repete ao contrário.

swissinfo.ch: E o dialeto, onde entraria nessa questão?

C. S.: O termo dialeto surgiu com as grandes navegações europeias na América. Por si próprio, já traz inconscientemente uma relação de poder. A crença era a de que o Português, língua de dominação, seria superior às línguas faladas pelos povos locais.

Dialeto remete à sub língua, o que pode causar mais um bloqueio ao brasileiro que esteja tentando aprender. Isso não acontece somente com o alemão suíço, mas com outros “dialetos”. Dessa maneira, eu não gosto de usar a palavra dialeto, prefiro o termo variedades da língua. É importante remover o peso da situação.

swissinfo.ch: E qual a conclusão disso tudo? Vale a pena aprender alemão?

C.S.: Mas é claro. Aprender um outro idioma significa lançar mão de um recurso exploratório de outras culturas. Funciona como exercício de perspectivas, ver o mundo de outras formas. Isso te permite construções diversas, explorar as coisas com completitude.

Assim como explicou no meu livro, o alemão constitui, na verdade, um surpreendente meio de enriquecimento linguístico. O idioma germânico é precipitadamente julgado por muitos como uma complicação desnecessária. Aprender uma nova língua é como ocupar uma nova casa, com outra disposição de ambientes, orientação solar, colocação de aberturas, mobília etc. Nos tempos de hoje, quando os povos precisam conviver mais que nunca, é preciso ampliar as realidades de cada um. Portanto, não desistam e aproveitem essa oportunidade maravilhosa que têm em descobrir e participar de um outro mundo.  

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