Your browser is out of date. It has known security flaws and may not display all features of this websites. Learn how to update your browser[Fechar]

Lixo nuclear


Suíços divergem sobre locais de estocagem


Por Chantal Britt


Uma haste de combustível nuclear apresentada no documentário "Journey to the safest place on earth". ()

Uma haste de combustível nuclear apresentada no documentário "Journey to the safest place on earth".

O filme tem todos os atributos de um thriller: imagens cativantes, música dramática e personagens intrigantes. Mas é um documentário que apresenta o desafio de armazenar o lixo nuclear com segurança e que relança um interminável debate na Suíça.

O documentário do suíço Edgar Hagen, Journey to the Safest Place on Earth, exibido recentemente na capital Berna, põe o dedo numa antiga ferida dos países produtores de energia nuclear, a questão de como lidar com o lixo atômico.

O problema do armazenamento de lixo atômico na Suíça não desapareceu. Embora os cantões não tenham mais o direito de vetar a criação de locais de estocagem em seu território, o governo federal ainda tem a tarefa impopular de convencer a sociedade, já que tal projeto precisa de amplo apoio.

A Suíça planeja construir um depósito profundo para estocar seu lixo nuclear. Até agora foram identificadas seis regiões que cumprem os requisitos de profundidade.

Os suíços provavelmente acabarão votando sobre a questão em um plebiscito por volta de 2023, no mínimo.

"Tornou-se claro, após um programa de eliminação de 30 anos, que a participação de amplos setores da população é uma necessidade", declarou a Secretaria Federal de Energia em um documento de 130 páginas sobre este processo participativo. "Hoje, já não é mais possível prosseguir com uma estratégia sigilosa, é preciso adotar uma abordagem mais transparente, compreensível e participativa".

Essa foi uma lição importante para a Cooperativa Nacional de Eliminação de Resíduos Radioativos (Nagra).

O projeto do governo

A Secretaria Federal de Energia da Suíça é responsável pela seleção de dois locais de estocagem geológicos. O governo suíço aprovou em 2012 seis áreas que atendem aos requisitos, de acordo com a Nagra, a maioria delas ao norte de Zurique, perto da fronteira alemã.

Por volta de 2020, um local será escolhido, mas terá ainda que ser aprovado pelo Conselho de Ministros, o Parlamento e, provavelmente, pela população em um referendo. Em seguida, começaria a construção do depósito que seria enchido gradualmente de lixo nuclear e eventualmente selado para sempre. Nesse ponto, seria muito difícil e caro tentar recuperar o lixo.

Campanha de persuasão

Segundo a porta-voz da Nagra, Jutta Lang, a estratégia não seria a de doutrinar as pessoas de cima para baixo, mas tentar responder perguntas e anseios. "O problema é que sobre este tema emocional raramente há uma resposta fácil para uma pergunta fácil", disse.

Só em 2012, a Secretaria Federal de Energia (FOE, na sigla em alemão) organizou 175 seminários e mesas redondas para discutir as propostas da Nagra com autoridades regionais, grupos de interesse e residentes. As regiões afetadas são convidadas a expressar suas preocupações e apresentar propostas viáveis.

Desde a fundação da Nagra, em 1972, o governo suíço gastou mais de 1,3 bilhão de dólares em seu programa de eliminação de resíduos radioativos.

Soluções reversíveis

O governo federal pretende criar um novo local de estocagem para 100 mil metros cúbicos de resíduos, mas os adversários querem primeiro que todas as questões relativas à segurança sejam respondidas. O primeiro depósito - previsto inicialmente para 1985 – só deve abrir em 2050, no melhor dos casos.

"A maioria do público e dos políticos percebem que é uma necessidade, mas ninguém quer o lixo perto deles", diz Charles McCombie, consultor em lixo nuclear da MCM Partners. "A maioria dos cientistas concorda que pode ser feito com segurança, mas essa visão é contestada por uma minoria ativa de pesquisadores", diz.

Entre os adversários do projeto, a ex-deputada Ursula Wyss, que foi membra da comissão federal de ecologia, desenvolvimento e energia.

"É um enorme legado que vamos deixar para nossos filhos e netos. O problema ultrapassa as nossas possibilidades técnicas e nosso senso de responsabilidade e é impossível de entender", disse Wyss, na ocasião da projeção do documentário em Berna.

"Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer em 10 mil ou muito menos em um milhão de anos, com todos esses latões de aço enterrados no chão. É por isso que acreditamos que a Suíça precisa de soluções reversíveis temporárias em vez de soluções aparentes para a eternidade", disse Jürg Buri, diretor da Swiss Energy Foundation (SES), um grupo antinuclear suíço, durante o debate realizado após a apresentação do filme.

Métodos de eliminação

As operadoras das usinas nucleares são responsáveis pelo lixo nuclear gerado na produção de energia e o governo pelo lixo nuclear gerado pelos setores de saúde, indústria e pesquisa. O lixo deve ser armazenado em solo suíço. A exportação só é possível se o destinatário estiver em conformidade com a lei suíça.

A Suíça já considerou a possibilidade de lançar o lixo no espaço, de guardá-lo em camadas de gelo e de injetá-lo em poços profundos. O país também fez parte do projeto Pangea, que visa a eliminação de resíduos de alto nível na Austrália, um país que nunca teve uma usina de energia nuclear.

De 1969 a 1982, a Suíça despejou 5341 toneladas de resíduos de nível médio-baixo no Atlântico, menos do que a Grã-Bretanha e a Rússia, mas mais do que qualquer país comparável. Os resíduos de alto nível foram encaminhados à Grã-Bretanha e à França para serem reprocessados.

Os despejos nos oceanos foram sendo gradualmente proibidos e, em 1976, a Inglaterra e a França decidem mandar de volta os resíduos para os países de origem, obrigando a Suíça a iniciar um programa de eliminação.

A Suíça atualmente armazena seu lixo nuclear em compartimentos secos nas instalações provisórias da Zwilag (veja a galeria de fotos).

(fonte: Nagra, Secretaria Federal de Energia)

Sem alternativa

Poucas pessoas na plateia mostraram alguma simpatia por Michael Aebersold, responsável do programa de eliminação de resíduos atômicos da Secretaria Federal de Energia. Aebersold defendeu os projetos de depósitos de lixo nuclear do governo, dizendo que os resíduos só estarão em segurança se estiverem confinados em algum ponto inacessível.

As posições radicais de ambos os lados destacam a complexidade do problema do armazenamento do lixo nuclear. Suas implicações éticas também vão além dos conceitos de tempo e imaginação.

"Não é possível deixar de lado a ética e precisamos de transparência", diz Jürg Schacher, físico nuclear da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear e professor da Universidade de Berna. "Não queremos uma solução conveniente barata onde os resíduos são enterrados no esquecimento", explica.

Segundo Markus Fritschi, chefe do programa da Nagra, não há plano B para os próximos 10 anos, caso os suíços rejeitem o local de estocagem proposto pelo governo.


Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch



Links

×

Destaque