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Música improvisada


Suíços Superterz provocaram insónias aos portugueses


Por Filipa Soares, Porto


A convite da artista portuguesa Sandra Gil, os irmãos suíço-indianos Marcel e Ravi Vaid (Superterz) trouxeram ao Porto as Insomnia Sessions. Foram três concertos, ou melhor, três sessões de arte, música improvisada e performance em três noites, as quais, fazendo jus ao nome do projecto, os artistas terão passado em claro, testando as suas performances ao longo de 48 horas sem dormir.

Apresentação do Superterz no Porto, Portugal. (Filipa Soares )

Apresentação do Superterz no Porto, Portugal.

(Filipa Soares )

Nesta passagem por Portugal, os Superterz contaram com os músicos que os acompanham, habitualmente, o músico japonês Koho Mori-Newton e o baterista suíço Simon Berz, assim como alguns convidados: o conceituado músico português de jazz e música improvisada Carlos Zíngaro, a trompetista suíça Hilaria Kramer, o baixista luso João Madeira, a artista performativa Beatriz Albuquerque e os artistas Luc Gobyn e Sandra Gil.

Na primeira noite, os músicos foram entrando um a um na pequena sala do Maus Hábitos, um espaço que se caracteriza por uma forte intervenção cultural na cidade do norte de Portugal. O japonês Koho Mori-Newton levava um pau de incenso na mão, com o qual efectuou uma espécie de ritual a algumas das pessoas que se lhe cruzaram no caminho.

Lá dentro, envolvidos por um leve cheiro a ganza, os espectadores contavam-se pelos dedos das mãos. E alguns acabaram por sair, quando os músicos começaram a arrancar sons brutais aos instrumentos, conjugados com os computadores. Em alguns momentos pareceu ouvir-se sons de animais na sala. Mas eram apenas os Superterz e os convidados, completamente mergulhados num transe, que durou mais de uma hora.

“O que fazemos é música, apenas barulho ou o que é?”, pergunta Simon Berz, antes de passar à descrição: “Não há um ritmo claro, harmonias claras, é uma confusão de sons, é animalesco. Nós damos ao techno uma forma completamente diferente. Percebemos que podemos improvisar estes instrumentos da cena techno, é só uma questão de como os programamos e isso para mim é o futuro. O que o Ravi está a fazer com a electrónica não é normal”.

Relação amor - ódio

Simon Berz foi convidado para tocar com os Superterz há seis anos. O convite aconteceu depois de uma discussão com Ravi Vaid, a quem disse, cara a cara, que não tinha gostado do seu filme Dachkantine – We Miss You So Much!, “sobre um clube muito bom e importante em Zurique”. “Eu estive envolvido neste clube. Fizemos lá música experimental, com uma atitude transbinária, o que significa que trabalhámos com visuais, dança, techno, improvisação livre. Eu vi o filme do Ravi e não havia nada sobre isso. Falava só sobre a cena techno e eu não fiquei contente”, explica, antes de acrescentar: “Discutimos e apaixonámo-nos ao mesmo tempo, porque eu percebi que ele era um tipo porreiro”. 

“O que eu faço com a minha bateria é amplificá-la. Faço muitas manipulações, usando mal, digamos, a minha bateria, indo mais além”, explica Berz, que toca com os Superterz há seis anos, mas faz questão de dizer que não é os Superterz. Falemos então com eles.

 A origem das insónias

“Se quiser ver um pouco onde é que a música electrónica ou o jazz está neste momento tem que olhar para este projecto. É avant-garde. Há 20 anos que trabalhamos nesta linguagem musical”, diz Ravi, orgulhoso do percurso dos Superterz.

Há dez anos, ele e o irmão tiveram a ideia de “criar um happening com artistas de todo o mundo”. Decidiram chamar-lhe Insomnia Sessions, inspirados pelo documentário “Goodnight Nobody”, para o qual Marcel compôs uma música. O filme conta a história de quatro pessoas, em diferentes partes do mundo, que sofrem de insónias. 

Uma mais-valia, que é ao mesmo tempo “um risco”, como lembra Marcel: “Já aconteceu não ter funcionado com os artistas que convidámos e é muito importante que nós façamos a nossa própria música, o som dos Superterz, o que significa que nem toda a gente pode tocar connosco. O que fazemos é ver o trabalho das pessoas dos sítios onde vamos e tentamos encontrar as pessoas certas para nós”. Uma questão de “pesquisa e networking”, como refere Ravi.

As Insomnia Sessions realizam-se uma a duas vezes por ano em diferentes partes do mundo, com “muita energia e emoção” e, claro, “insónias”, acrescenta Ravi, que gostaria de as levar à América. Para o ano vão voltar ao Japão. “Há muitas possibilidades com este projecto”.

Uma trip

Depois de há dois anos terem lançado “Insomnia”, os Superterz trabalham agora num novo CD, que deve sair na próxima Primavera. Um trabalho que tem como ponto de partida a palavra “rausch”, ou seja, trip, mais uma vez inspirado por um filme, The Green Serpent, sobre “os espaços para onde as pessoas ‘viajam’ depois de beberem, para além da conta, vodka”. O som do CD será, segundo Marcel, “um claro statement contra tudo o que é comercial, contra automatismos”.

As Insomnia Sessions contam com o apoio da Fundação Suíça para a Cultura Pro Helvetia. A trompetista, Hilaria Kramer, que vive há dois anos entre a Confederação Helvética e Portugal, destaca a sorte dos músicos suíços: “No meu país temos grandes infra-estruturas que sustentam grande parte dos músicos, não só a elite. Recebemos dinheiro, mesmo que sejamos um profissional desconhecido, para realizar este tipo de projectos”.

Hilaria entre Portugal e a Suíça

Hilaria Kramer, que participou nas Insomnia Sessions, no Porto, vive entre Portugal e a Suíça. A trompetista continua a trabalhar muito no país natal, em Itália e na Alemanha, mas está “a tentar ser integrada no panorama musical do jazz e da música improvisada em Portugal”. Apaixonada pela cultura e pela história de Portugal, nomeadamente pelas influências celtas e árabes, Hilaria tem um projecto de música improvisada em terras lusas, chamado Sopa da Pedra, em que também participa João Madeira, baixista convidado pelos Superterz.  

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