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Museu da Comunicação de Berna


Exposição lembra pioneiros da música pop suíça




Pergunte a qualquer um quem são os pioneiros da música pop da Suíça e eles vão citar a dupla Yello e o grupo pós-industrial The Young Gods. Já as bandas que querem alcançar o mesmo sucesso hoje devem primeiro enfrentar o blues da indústria da música.

Boris Bank e Dieter Meier da banda Yello. (Museum für Kommunikation bern)

Boris Bank e Dieter Meier da banda Yello.

(Museum für Kommunikation bern)

Em uma loja de porão na cidade velha de Berna, um toca-discos toca um blues dos anos 20. Calcinhas penduradas no teto mostram slogans rock'n roll. Bíblias disputam espaço ao lado de potes de brilhantina, pilhas de camisetas e vinis. Bem-vindo ao mundo do Reverend Beat-Man, um empresário de música da Suíça.

O cantor de blues trash passou sua adolescência fazendo cassetes antes de iniciar a gravadora Voodoo Rhythm, em 1992, após ter encontrado dificuldades em divulgar sua música e ter observado outras bandas com o mesmo problema.

O rótulo, desde então, lançou centenas de discos suíços e internacionais. "Eu acho que nós já vendemos um milhão de discos. Parece muito, mas ainda somos muito pequenos", diz Beat-Man.

O empresário-artista de 46 anos divide seu tempo entre a gravadora e sua própria carreira musical. Beat-Man criou um gênero totalmente novo que funde ritmos “psychobilly” com “garage punk”. Graças ao YouTube e Spotify, o músico diz ter alcançado a fama no estrangeiro, onde faz regularmente seus shows. E na era da música por streaming e das quedas nas vendas de álbuns, é aí que o músico consegue ganhar sua vida.

"As pessoas não sabem mais o que é um produto. Elas meio que perderam isso, porque é tudo digital, você não pode pegar com as mãos. Elas vão a um show e veem a banda como uma mercadoria. Antes, isso era um produto que você podia levar para casa e ter sempre. Com o digital, se acontecer uma pane no computador, você perde tudo. Como gravadora, é difícil explicar isso para as pessoas".

Ser músico hoje não é para os fracos, de acordo com Beat-Man. Para ele, começar uma carreira significava "dormir no chão de banheiros" e tocar por quase nada durante anos. Só dez ou quinze anos mais tarde é que os cachês começaram a ficar mais “aceitáveis”.

Muitas bandas suíças têm outro trabalho. "Na Suíça, o problema é que você pode ganhar muito bem com um outro trabalho, você recebe 10 mil dólares por mês fácil aqui. Como músico, você talvez faça 2 mil dólares. Um aluguel custa 1.500 dólares, sobra 500 para viver. Por isso, muitos músicos suíços não vão tão longe. Eles provavelmente só querem uma vida mais fácil", diz Beat-Man.

Elitismo

Daniel Fontana acompanha a cena musical suíça há décadas. Sua casa de shows, o Bad Bonn, apresenta uma mistura de bandas suíças e internacionais. Durante três dias do ano, o Bad Bonn também acolhe 2.500 fãs em um festival de bandas de ponta. Os ingressos para o festival costumam esgotar em poucas horas.

Para Fontana, a música pop contemporânea é "mais uma coisa da elite", na Suíça. "Quase não há pessoas da classe trabalhadora na música. Na maioria das bandas jovens é muito raro ter alguém da rua. Em Zurique, a maioria das pessoas que eu conheço são de famílias mais ricas".

De acordo com o empresário, as bandas não estariam progredindo em duas frentes. Ou elas estão em uma situação confortável e não se movem suficiente pelo país ou para fora, ou elas sonham alto demais, exigindo altos cachês e acabando por desistir quando as coisas ficam difíceis.

"Precisamos de gente louca para fazer boa música. A maioria das pessoas não são loucas o suficiente", diz.

Yello e The Young Gods- dois grupos que conseguiram fazer sucesso fora da Suíça - começaram como bandas experimentais, sem grandes pretensões, ressalta Fontana.

No ano passado, Fontana foi um dos especialistas convidados a encontrar músicos do país para o primeiro Grande Prêmio Nacional da Música (Grand Award for Music). No final, foram selecionados 15 representantes de diversos gêneros, clássico, popular ou experimental. Franz Treichler, vocalista do The Young Gods, ganhou 100 mil francos (97 mil dólares) como prêmio por seu trabalho pioneiro na música e nas artes ao longo dos últimos 30 anos.

"Para mim, foi importante nomear pessoas que vivem o que elas fazem. Beat-Man ou Franz Treichler. Esses caras vivem a música deles. Eles não ficam achando que as pessoas devem gostar do que eles fazem, eles só fazem e pronto. O prêmio acabou sendo uma espécie de provocação para o cenário musical suíço", conta.

Pioneiros

Em sinal de reconhecimento à música pop suíça, o Museu da Comunicação de Berna organizou uma primeira retrospectiva da música pop do país.

A exposição traça a evolução desde o primeiro grupo feminino, o the Honolulu Girls, de 1960 até os dias atuais.

A impressão geral é que os músicos suíços foram, em grande parte, influenciados pela música de outros lugares. Alguns, no entanto, decidiram trilhar por outros caminhos.

O The Young Gods chegaram a inspirar músicas de David Bowie e do U2. Kurt Cobain citou o grupo punk rock Kleenex como uma influência. Hoje, as canções desse grupo feminino (que acabou tendo que mudar o nome para LiLiPUT após ser ameaçado pelo fabricante de papel Kleenex) estão sendo retomadas pelo grupo americano Deerhoof. Já a banda Celtic Frost é considerada uma das bandas pioneiras do Black metal e ficaram conhecidos por influenciar fortemente os gêneros do metal extremo.

A dupla Yello foi pioneira da música eletrônica e inspirou a dance music com seus eletrônicos e o uso de samplers, conta Paul Hartnoll, da dupla britânica Orbital: "Eu diria que eles estão entre os cinco pioneiros do ritmo eletrônico que me influenciaram. Lembro-me de ouvir Yello e me perguntar o que é isso, o que eles estão fazendo, como é que isso acontece?"

"Eles fazem parte de toda essa onda de música que teria influenciado a house music. Yello sempre teve esse lado eletrônico. Com isso, eu diria que eles foram realmente uma grande influência para toda a cultura dance. Eles criaram a coisa à sua maneira, mais cedo", diz Hartnoll.

A ideia de fazer uma retrospectiva da música pop suíça foi do músico e compositor Sam Mumenthaler. Grande colecionador, Mumenthaler forneceu boa parte do acervo exposto. Olhando para trás, nos últimos 60 anos, ele distingue dois grandes momentos da cultura pop suíça: os shows dos Rolling Stones e Jimi Hendrix de 1967 e 1968, em Zurique, e um show, mais tarde, de Bob Marley.

"Em 1968, no show de Hendrix, os policiais estavam bastante agressivos, pois havia tido muito tumulto em 1967 com os Stones. Em 1968, a polícia pegou pesado e isso levou aos protestos do movimento de 1968 em Zurique", conta Mumenthaler. "Em 1980, também tivemos um movimento bastante forte de jovens na Suíça, que também esteve muito relacionado com um concerto que Bob Marley deu em maio de 1980. ‘Get up stand up’, cantava ele. Obviamente, os jovens suíços entenderam muito bem a mensagem".

Dilema linguístico

Hoje, a música pop suíça não deve passar por grandes mudanças, de acordo com o jornalista Benedikt Sartorius, especialista em música do país. "Em nenhum outro lugar há uma grande revolução na música pop. É difícil falar sobre a cena musical suíça. Há muitas cenas dentro dela, há muitas redes, mas elas são locais, regionais", diz.

Contribuindo para isso, a mistura de idiomas falados na Suíça, que necessariamente torna difícil a difusão em nível nacional. A língua da maioria, o dialeto suíço-alemão, conseguiu um espaço na sua região. Há muito tempo renegado em favor do inglês, Polo Hofer quebrou esse status quo na década de 1970 com sua banda Rumpelstilz e bandas populares como Züri West seguiram o exemplo. A escolha da língua para cantar ainda é um dilema para as bandas, muitas optam pelo inglês, na esperança de atrair mais ouvintes dentro e fora do país.

Mas, de acordo com Sartorius, o dialeto continua se impondo em bandas como King PepeJeans for Jesus e Stahlberger. "Agora eu acho que é um bom momento para cantar em suíço-alemão. Este ano é um ano bom, há uma nova geração com letras muito boas e novos fundos musicais. É uma nova abordagem que também tem a ver com o hip hop", comenta.

Não tem havido nenhum grande movimento na música pop dos últimos 10-15 anos, mas "nos cantinhos do mundo da música algo está crescendo e isso nunca vai parar", se entusiasma Ane Hebeisen, crítica de música do jornal de Berna Der Bund.

"Com tantas novas tecnologias, novas ideias, novas loucuras, com essa força que tem a juventude, não sou tão pessimista com relação à música pop. A cada ano acho coisas que me surpreendem. Mesmo na Suíça. E não são apenas cópias, há coisas muito originais acontecendo", garante.

Principais momentos da música pop suíça

1957: Primeiro rock instrumental, “Chimpanzee Rock” dos Hula Hawaiians

1960: Honolulu Girls, primeiro grupo feminino da Suíça

1967: A polícia oprime uma multidão no concerto dos Rolling Stones no Hallenstadion, em Zurique

1967: Primeiro Montreux Jazz Festival

1968: Protestos contra o tratamento da polícia no show de Jimi Hendrix, em Zurique, provoca uma agitação social

1968: Lançamento da revista de música underground “Hotcha", poster desenhado por HR Giger

1970: Criação da agência de concertos Good News

1975: Polo Hofer e sua banda Rumpelstilz lança seu primeiro álbum em suíço-alemão

1975: Criação da banda Krokus. A banda suíça de maior sucesso internacional com 14 milhões de álbuns vendidos

1979: Formação da dupla Yello

1985: Formação da banda The Young Gods


Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch

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