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15 de novembro de 2016


Precisamos falar sobre diversidade cultural nos casamentos


Por Liliana Tinoco Baeckert

Casais binacionais deveriam se informar sobre a realidade cultural dos parceiros com o objetivo de amenizar as diferenças.

É só dar uma volta pelas maiores cidades suíças para confirmar os dados do Departamento Federal de Estatísticas: as brasileiras, ouvidas e vistas em vários pontos do país, estão em segundo lugar na preferência dos suíços para casar. As alemãs ocupam a liderança. De acordo com os dados do BFS, cerca de 49% dos matrimônios no país têm perfil binacional, o que significa que um dos cônjuges dispõe de outra nacionalidade. 

Diante do alto índice de casamentos entre as duas nacionalidades, uma pergunta não pode ser ignorada: será que essas brasileiras sabiam ou sabem o que significa emigrar? Elas se preparam ou simplesmente deixam o Brasil para viver um grande amor? Segundo pesquisa empírica com 15 mulheres para essa matéria, elas seguem o sonho e embarcam sem muita ou quase nenhuma informação. Isso não significa que o relacionamento não dará certo, mas pesquisa prévia garante maiores taxas de sucesso e menos frustração. Afinal de contas, qualquer união, mesmo quando inclui pessoas de uma mesma cidade, já constitui pelo menos a junção de duas culturas diferentes. Imagina quando oriundas de países tão diferentes quanto a Suíça e Brasil.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert

Um dos maiores erros é ignorar a cultura do cônjuge. De acordo com a autora do livro Your intercultural marriage (Seu casamento intercultural), Marla Alupoaicei, os casais dispendem em média muito mais tempo planejando suas festas de casamento que o matrimônio em si. De acordo com a escritora, a maioria dos jovens casais foca exclusivamente na cerimônia, agindo muitas vezes de forma inocente, idealista e romântica. A autora escreve em seu livro algo que pode ser confirmado pelas inúmeras brasileiras casadas na Suíça: casais interculturais provavelmente experimentam mais conflitos que os casais de mesma nacionalidade. Por uma razão óbvia, mas que ninguém pensa quando está apaixonado. Segundo Dugan Romano, em seu livro intitulado Intercultural Marriage: Promisses & Pitfalls (que significa Casamento intercultural: Promessas & Armadilhas), esses casais serão constantemente expostos a diferentes costumes, cerimônias, línguas e países. A exposição, entretanto, não será sentida como acontece com expatriados, por exemplo, que lidam com a diversidade cultural mais profundamente no ambiente de trabalho. Casais interculturais sentem essas particularidades nas decisões mais íntimas.

As diferenças podem aflorar já com a organização do casamento, enquanto ainda são namorados, ou estarem relacionadas a uma decisão muito íntima, que influencie a vida dos filhos, por exemplo. De acordo com a brasileira Mariane Nunes*, atitudes banais, como decisões de rotina, que não teriam a menor estranheza para um casal brasileiro, podem se transformar em incompreensão por uma família binacional. Mariane cita o exemplo da festa de aniversário do filho, que virou motivo de briga entre o casal durante dez anos, todas as vezes que o menino fazia mais um ano de vida. “O meu marido e sua família nunca entenderam que era muito importante para mim comemorar o aniversário do nosso filho como fazemos no Brasil. É uma tradição nossa, que eu valorizo muito e não quis abrir mão”, explica. 

Já a egípcia Samah Rayed*, casada com um alemão e moradora da Suíça, se viu perplexa diante da decisão de circuncisar o filho, seguindo a tradição de sua família, ou de não o fazer, deixando o menino como o pai. A egípcia, após muita reflexão e diálogo, preferiu deixar o filho se parecer com o pai a não seguir uma tradição familiar. Uma decisão como essas, no entanto, pode ser o detonador de um pavio prestes a explodir.

Culturas diferentes, valores desiguais

Os diferentes valores que regem as culturas podem funcionar exatamente como estopim para relações de diferentes culturas. O que é importante para um, soa totalmente esdrúxulo para o outro. Essa relação é totalmente proporcional ao tempo de convivência e obviamente à exposição a certas questões.

Dessa maneira, a autora Marla Alupoaicei aconselha que casais conversem, ou que pelo menos estejam conscientes, de que temas morais podem divergir, até mesmo quando os parceiros tenham a mesma religião. Por isso, é importante checar o que poderia ser motivo de discordância:

- Aborto, contracepção, gravidez, tratamento de infertilidade e decisão sobre o número de filhos

- Álcool e uso de drogas

- Batismo

- Circuncisão

- Corte de cabelo, maquiagem, uso de joias e estilo de vestimenta

- Dança

- Namoro

- Morte (incluindo cremação e rituais de enterro) e questões relacionadas, como eutanásia

- Sexualidade

- Doença e tratamentos

- Como educar os filhos

- Comida e refeições

Conflitos podem ocorrer devido a diferenças culturais

Assim como dimensões culturais são levadas em conta no mundo profissional, deveriam ser consideradas também em relações matrimoniais. Dimensões culturais são usadas para categorizar e explicar os comportamentos de cada cultura. Existem inúmeras, mas Alupoaicei sugere que dimensões como tempo, por exemplo, seja considerada para que casais não se esqueçam de que vêm de origens diferentes. Em culturas como a brasileira, em que o tempo é flexível, atrasos são permitidos. De acordo com Richard Lewis, criador do Modelo de Comunicação Intercultural e autor de inúmeros livros sobre o tema, em culturas onde o tempo é linear, pessoas medem o tempo em horas, minutos e segundos. É quase uma obsessão com o tempo. Só essa característica já é suficiente para inúmeras brigas entre um casal de brasileira e suíço.

Em culturas individualistas, como a Suíça, por exemplo, o conceito de família é diferente. Família basicamente significa pai, mãe e filhos. Já na cultura brasileira, que é coletivista, esse conceito se amplia e pode significar até o vizinho. Outra razão para conflitos em casamentos binacionais. Outras categorias importantes devem ser observadas nesse processo. A coluna trará, na próxima edição, mais informações a respeito de possíveis conflitos. 

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