O mais antigo cão do mundo pode ser suíço



Os ossos da mandíbula superior do cão Kesslerloch são muito menores do que os dos lobos (Hannes Napierala, Universidade de Tübingen)

Os ossos da mandíbula superior do cão Kesslerloch são muito menores do que os dos lobos (Hannes Napierala, Universidade de Tübingen)

O fóssil de um crânio encontrado há mais de cem anos em uma caverna nas proximidades de Schaffhausen, norte da Suíça, pode ter sido do mais antigo cão doméstico do mundo.

Pesquisadores da Alemanha conseguiram datar claramente o fragmento encontrado na caverna de Kesslerloch: ele teria entre 11.400 e 14.600 mil anos de idade.

O fragmento do crânio e dentes do cão foram encontrados após investigações que começaram na caverna em 1873, mas só recentemente foram analisadas por pesquisadores da Universidade de Tübingen, no sul da Alemanha. A descoberta acaba de ser reconhecida no Jornal Internacional da Osteoarqueologia.

O arqueólogo Hannes Napierala só pode rir quando tenta explicar como deparou com o cachorro. "Encontrei-o de uma forma nada romântica: na verdade, em uma caixa", conta à swissinfo.ch

"As escavações foram realizadas há mais cem anos e os achados ficaram guardados em Schaffhausen durante todo esse tempo. Através de um projeto iniciado nos anos 1990, esse material foi dado em empréstimo à Universidade de Tübingen. Meu trabalho era analisá-lo e escrever um relatório", diz.

As pesquisas dos anos 1870 não se mostraram muito bem sucedidas. "Eles não sabiam que se tratava de um cão, pois nessa época a arqueologia ainda não estava muito avançada. Eles não podiam imaginar que os homens da Idade da Pedra já criavam cachorros."

Caçadores e coletores

"Nesse período os seres humanos eram caçadores e coletores", explica Napierala. Ele descreve os fósseis como "outra peça no quebra-cabeças para ajudar a compreender da Era do Gelo e como as pessoas faziam para sobreviver."

"Essas peças realmente nos contam que, 14 mil anos atrás, cães já estavam bem domesticados."

Para Napierala e seu colega, Hans-Peter Uerpmann, o achado é o mais antigo vestígio acerca da existência do chamado "melhor amigo do homem". Os dois pesquisadores o comprovam através de uma evidência: os pré-molares são menores do que os dos atuais lobos ou fósseis de lobos encontrados na caverna de Kesslerloch. Os cães são uma forma domesticada do lobo.

"Existem outros achados que continuam a ser debatidos como possíveis evidências da existência de cães nessa época. O problema é que eles são discutíveis...no sentido que não nos mostram uma clara diferença dos lobos. É possível que esses fósseis tenham sido de lobos."

Fósseis

Os pesquisadores analisaram fósseis de lobos que remontam 40 mil anos atrás, assim como ossos de lobos na atualidade originados de diversas coleções.

O que eles descobriram foi que o tamanho do lobo nos últimos 40 mil anos permaneceu estável e que o cão da caverna de Kesslerloch era "claramente abaixo desse tamanho."

O próximo passo será agora tentar extrair antigo DNA dos achados.

"Queremos comparar geneticamente os lobos do sítio arqueológico e ver se esse cão tem um parentesco próximo dos lobos da região. Isso nos permitirá saber se esse cão é originado de uma população local de lobos."

"Então iremos tentar compará-lo em um contexto mais amplo com outros possíveis lobos ao final da Era do Gelo. Queremos ver de onde vem realmente esse cão", ressalta Napierala.

É tentador dizer que o achado não é realmente uma novidade em 2010. Em todo caso, ele foi descoberto nos anos 1870 e foi tema da tese de mestrado de Napierala em 2008.

Napierala filosofa sobre a questão. "Ninguém lê teses de mestrado. Essa novidade não foi publicada na imprensa ou teve reconhecimento internacional."

Robert Brookes, swissinfo.ch
(Adaptação: Alexander Thoele)

Cachorros e seres humanos

O cão (Canis lupus familiaris), no Brasil frequentemente chamado de cachorro, é um mamífero canídeo e talvez o mais antigo animal domesticado pelo ser humano.

Teorias postulam que surgiu do lobo cinzento no continente asiático há mais de 100 000 anos. Ao longo dos séculos, através da domesticação, o ser humano realizou uma seleção artificial dos cães por suas aptidões, características físicas ou tipos de comportamentos.

O resultado foi uma grande diversidade de raças caninas, as quais variam em pelagem e tamanho dentro de suas próprias raças, atualmente classificadas em diferentes grupos ou categorias. As designações vira-lata (no Brasil) ou rafeiro (em Portugal) são dadas aos cães sem raça definida ou mestiços descendentes. (Texto: Wikipédia em português)

Kesslerloch

A caverna de Kesslerloch está localizada ao norte da Suíça, apenas poucos quilômetros distante da fronteira com a Alemanha.

Ela encontra-se nas rochas calcárias do maciço do Jura, culminando a 1 720 m, e situada ao norte dos Alpes, na França, Suíça e Alemanha.

O vale no qual se abre a caverna pertence ao sistema de drenagem do rio Reno durante a época das geleiras na Era do Gelo. Depois do processo de degelo na região, Kesslerloch foi ocupado por caçadores e coletores do Magdaleniano, uma das culturas mais tardias do Paleolítico Superior na Europa Ocidental, compreendido entre c. 15000 a.C. e 9000 a.C.

As primeiras investigações arqueológicas na caverna de Kesslerloch foram realizadas em 1873 por Konrad Merk.

O paleontólogo suíço Ludwig Rütimeyer publicou o primeiro relatório dos fósseis animais encontrados no Kesslerloch em 1875.

De acordo com o arqueólogo cantonal de Schaffhausen, Markus Höneisen, o sítio de Kesslerloch ainda não revelou todos os seus segredos, mas seu departamento ainda tem suficiente trabalho para tratar dos achados espalhados em diferentes lugares.



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