AFP

(2015) Campo de refugiados perto da cidade iraniana de Saveh

(afp_tickers)

O Irã é um dos países mais generosos no acolhimento dos refugiados, em particular dos afegãos, afirma a ONU, no momento em que os iranianos não são bem-vindos nos Estados Unidos.

O governo iraniano foi "exemplar acolhendo os refugiados (afegãos) e deixando as fronteiras abertas", afirma Sivanka Dhanapala, que dirige em Teerã o escritório da Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR). "Não se fala disso o suficiente", acrescentou.

O Irã acolhe legalmente há quase 40 anos um milhão de afegãos. As organizações não governamentais calculam que dois milhões vivem clandestinamente no país.

É a quarta população de refugiados do mundo, segundo a ONU. Era a segunda até a explosão da guerra na Síria, em 2011, que gerou o êxodo de milhões de refugiados, sobretudo à Turquia e ao Líbano.

Várias ONGs estrangeiras em Teerã consideram irônico que o Irã forme parte dos seis países com população majoritariamente muçulmana afetados pelo decreto anti-imigração do presidente americano Donald Trump quando segue acolhendo afegãos vítimas de um conflito provocado em parte pelos Estados Unidos.

- Crianças escolarizadas -

Dhanapala destaca um decreto de 2015 do guia supremo, Ali Khamenei, que impõe escolarizar todas as crianças afegãs (com ou sem documentos), o que levou à construção de 15.000 novas salas de aula.

"Também trabalhamos com o governo para integrar os refugiados em um sistema de segurança social, o que é um avanço sem precedentes", afirma a representante do Acnur.

Apesar de tudo, os afegãos têm uma vida difícil no Irã, com um índice de desemprego elevado. Ocupam empregos pouco qualificados e frequentemente temporários.

"Mesmo alguém como eu, nascido no Irã e residente aqui há 36 anos, não sou cidadão iraniano e a discriminação que enfrento na educação e no meu trabalho é asfixiante", lamenta em Teerã um afegão que pediu o anonimato.

No entanto, este trabalhador está agradecido por ter um visto de residência que renova de cada seis a 12 meses. "Nunca vi o Afeganistão, a não ser as sujas imagens mostradas pelos meios de comunicação, e tenho muito medo de ir" para lá, declara.

- Empregos precários -

Em Teerã, muitos afegãos desempenham trabalhos precários, como trabalhadores da construção, porteiros de estacionamentos ou garis.

"Que outra coisa podemos fazer?", se pergunta um afegão sem documentos de 40 anos que trabalha com limpeza em Teerã. "Tenho duas filhas e um filho no Afeganistão".

Ele renunciou ao seu status de refugiado para poder ir ao seu país vê-los e voltar com um visto de três meses não renovável. "Não vou há três anos: se fosse, precisaria de entre cinco e 12 meses para conseguir outro visto".

Segundo ele, quando os policiais iranianos "te pegam na rua, pouco importa que esteja aqui há um ou há 100 anos, te levam a um campo de detenção e te obrigam a pagar o ônibus até a fronteira".

Vários governos estrangeiros acusam, por outro lado, o Irã de enviar jovens afegãos para lutar na Síria nas milícias que apoiam o regime do presidente Bashar al-Assad.

O Irã desmente o alistamento forçado e afirma que as famílias dos afegãos mortos na Síria recebem compensações.

Em particular, os cooperantes estrangeiros criticam o tratamento dispensado aos afegãos no Irã, mas reconhecem que o país aceita acolhê-los e que neste sentido merece mais consideração.

A ONU espera que Teerã flexibilize as restrições impostas aos afegãos para ocupar empregos qualificados e pede um processo de regularização dos ilegais.

Mas, afirma Sivanka Dhanapala, "em um mundo com histórias tão terríveis sobre o acolhimento de refugiados, acredito que o Irã é realmente uma boa notícia".

AFP

 AFP