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Opinião


A máfia do futebol


Por Ian Buruma, Project Syndicate , Nova York


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A única surpresa em torno da detenção de sete dirigentes da FIFA em um hotel suíço, na manhã de 27 de maio, é justamente que tenha ocorrido a detenção. A maioria dentre nós pensávamos que esses homens privilegiados, em ternos de seda, que evoluem nas instâncias dirigentes da federação internacional de futebol, estavam acima das leis.

Ponto de vista (swissinfo.ch)
(swissinfo.ch)

Qualquer que seja a natureza do rumores ou relatórios publicados aqui ou acolá revelando supostas propinas, trucagens eleitorais e outras práticas duvidosas, o presidente da FIFA Joseph Blatter e seus colegas e associados pareciam até o presente escapar ilesos.

Até agora, 14 indivíduos masculinos, entre eles nove dirigentes atuais e antigos da FIFA (Blatter não está na lista), são acusados de fraude e de corrupção nos Estados Unidos, onde a acusação os denuncia, entre outros, de ter embolsado nada menos de 150 milhões de dólares de propina. A justiça federal suíça também se interessa nos acordos duvidosos que envolveram a escolha das Copas do Mundo de 2018 e 2022, respectivamente na Rússia e no Catar. 

Ian Buruma

É professor de Democracia,l Direitos Humanos e Jormalismo no Bard College. É autor de város livros, entre eles Murder in Amsterdam: The Death of Theo Van Gogh and the Limits of Tolerance e, mais recentemente, Year Zero: A History of 1945.

É claro que existe uma longa tradição de extorsão no universo do esporte profissional. A máfia americana, por exemplo, intervém amplamente no mundo do boxe. Até no universo do “cricket”, antigamente um esporte de cavalheiros, está infiltrado de redes de apostas e outros atores corrompidos. A FIFA constitui simplesmente a fonte mais generosa e poderosa do mundo.

Assim, alguns comparam atualmente a FIFA à máfia, qualificando Blatter de “Don Blatterone”, ele que nasceu em um vilarejo suíço. Porém, essa comparação não é inteiramente correta. Nada prova até agora que qualquer contrato de assassinato jamais foi concluído na sede da FIFA em Zurique. Contudo, a natureza secreta da organização, a intimidação exercida sobre seus dirigentes por certos rivais, subornos e transferências de dívidas, representam paralelos perturbadores com o universo do crime organizado.

Claro que seria preferível considerar a FIFA como uma organização em disfunção e não como uma empresa criminal. Mas, mesmo nesse cenário mais clemente, a maioria dos danos são a consequência direta da ausência absoluta de transparência. Seu funcionamento é integralmente regido por um grupo de colaboradores masculinos muito próximos (as mulheres não têm nenhum papel nesses negócios sombrios), todos subordinados ao chefe.

Essa situação não data do reino Blatter. Foi seu predecessor, o brasileiro João Havelange, que transformou a FIFA em um império de corrupção e de abundância financeira, integrando cada vez mais os países em desenvolvimento, cujos votos em favor dos chefes foram comprados através de todas as transações lucrativas imagináveis no setor de marketing e da mídia.

Montanhas colossais de dinheiro de empresas como Coca-Cola e Adidas vieram inundar o sistema, até os bolsos profundos de poderosos do terceiro mundo e, segundo alguns, até os bolsos do próprio Havelange. Coca-Cola tornou-se parceiro oficial da Copa do Mundo da Argentina em 1978, país na época dirigido por uma violenta junta militar.

Blatter, no entanto, está longe de compartilhar a brutalidade de Havelange. Ao contrário do brasileiro, Blatter não se associa abertamente a mafiosos. Sua potência também é fundada nos votos de países fora da Europa Ocidental, cuja lealdade repousa ainda na promessa de direitos de televisão e franquias comerciais. No caso do Catar, esse sistema autorizou uma Copa do Mundo num clima insuportável, em estádios construídos por trabalhadores estrangeiros mal pagos e privados de quase todos os direitos.

As queixas mais detalhadas formuladas pelos europeus geralmente são respondidas com acusações de atitudes neocolonialistas, até racistas. Isso faz de Blatter um homem tipicamente ancorado em seu tempo. É um gestionário implacável que se apresenta como defensor dos países em desenvolvimento e os interesses dos africanos, asiáticos, árabes e sul-americanos contra o Ocidente arrogante.  

Os tempos mudaram desde a época em que atores cúpidos dos países pobres recebiam propinas para favorecer os interesses políticos ou comerciais do Ocidente. O fenômeno continua, mas as somas são cada vez mais colossais e frequentemente obtidas fora do Ocidente, seja na China, no Golfo Pérsico ou na Rússia.

Homens de negócios, arquitetos, artistas, reitores de universidades e diretores de museus ocidentais – quem procura liquidez importantes para financiar projetos caros – devem doravante solicitar déspotas não ocidentais. Evidentemente acontece a mesma coisa com os políticos eleitos democraticamente. Basta pensa em todos, como Tony Blair – que fazem carreira depois da vida política.

O fato de ceder aos regimes autoritários e de sucumbir aos interesses comerciais opacos, distancia de toda atitude sadia. As alianças que fazem atualmente os interesses ocidentais – tanto no esporte como nas artes e na educação superior – como ricas potências não democráticas implicam compromissos suscetíveis de causar danos às reputações mais estabelecidas.

Uma das maneiras de desviar a atenção consiste em adotar velhos discursos imperialistas de esquerda. Assim, os negócios concluídos com ditadores e barões velhos são apresentados não como cupidez, mas como atitude nobre. Da mesma maneira, a venda de franquia de uma universidade ou de um museu a um Estado do Golfo, a construção de imensos estádios na China ou a acumulação de somas colossais graças aos favores futebolísticos consentidos à Rússia e ao Catar, são apresentados como decisões progressistas, antirracistas e como triunfo da fraternidade planetária e dos valores universais.

Esse é um dos aspectos mais irritantes do comportamento da FIFA que Blatter dirige. Corrupção, compra de votos, sede absurda de dirigentes do futebol em vista de um prestígio internacional, peito estufado e decorado de medalhas e outros ornamentos são fenômenos correntes. Antes de mais nada, é a hipocrisia que exaspera.

É inútil deplorar o reequilíbrio atual da influência e das potências mundiais frente a feudos de distância da Europa e da América. Também é impossível prever como exatidão as consequências políticas desse redesenho. Mas se o triste episódio da FIFA deve nos ensinar alguma coisa, é que, qualquer que sejam as formas de governo, o dinheiro continua soberano.

Ponto de vista

A nova série da swissinfo.ch acolhe doravante contribuições exteriores escolhidas. Tratam-se de textos de especialistas, observadores privilegiados, a fim de apresentar pontos de vista originais sobre a Suíça ou sobre uma problemática que interessa à Suíça. A intenção é enriquecer o debate de ideias.

As opiniões expressas nesses artigos são da exclusiva responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião de swissinfo.ch.


Adaptação: Claudinê Gonçalves

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