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Opinião


Uma economia que se adapte aos fatos


Por Barry Eichengreen, Cambridge


A profissão de economista foi provavelmente a primeira vítima da crise financeira global 2008-2009. Afinal de contas, os seus profissionais não conseguiram antecipar a calamidade e muitos pareciam incapazes de dizer qualquer coisa útil quando chegou a hora de formularem uma resposta. Mas, como acontece com a economia global, há motivos para se ter esperança de que a disciplina está em recuperação.

Ponto de vista (swissinfo.ch)
(swissinfo.ch)

Os modelos econômicos convencionais foram desacreditados pela crise, porque eles simplesmente não admitiam a sua possibilidade. E praticar essa técnica tornada prioritária acima da intuição, e a elegância teórica acima da relevância no mundo real, não preparou os economistas para serem capazes de fornecer o tipo de aconselhamento político prático necessário em circunstâncias excepcionais.

Alguns argumentam que a solução é regressar aos modelos econômicos mais simples do passado, que renderam receitas políticas que evidentemente foram suficientes para evitar crises semelhantes. Outros insistem que, pelo contrário, as atuais políticas em vigor exigem modelos cada vez mais complexos que podem capturar mais plenamente a dinâmica caótica da economia do século XXI.

Esta discussão ignora o essencial. Os modelos simples têm o seu valor. Eles são úteis para criar questões sérias, mas contraintuitivas, que distinguem a macroeconomia de outros campos de análise econômica. Confiamos em tais modelos para explicar, por exemplo, “o paradoxo da poupança”, segundo o qual as decisões individuais para aumentar a poupança podem, diminuindo os gastos e o rendimento, resultar na população como um todo com menos poupança.

Ao mesmo tempo, os modelos complexos podem ser úteis para ilustrar casos especiais e para nos lembrar que o mundo é um lugar desleixado.

Nenhum dos modelos é útil, todavia, para fornecer conselhos práticos que os governantes necessitam numa crise. Ambos são muito estilizados para terem utilidade, quando analisados em abstrato. Para torná-los úteis, são necessárias provas.

Barry Eichengreen

é professor de Economia na Universidade da Califórnia, em Berkeley;  professor de História e Instituições na Universidade de Cambridge e ex-conselheiro sênior de políticas do Fundo Monetário Internacional. Seu mais recente livro, Hall of Mirrors:The Great Depression, the Great Recession, and the Uses – and Misuses – of History, acaba de ser publicado pela Oxford University Press.

Na verdade, sem o amplo conhecimento dos protagonistas neste debate sobre modelos, uma revolução probatória já está em andamento. Enquanto os membros da velha guarda do sistema estabelecido da economia continuam a debater o mérito dos quadros analíticos concorrentes, os economistas mais jovens estão a criar importantes provas novas sobre como funciona a economia.

Por exemplo, um debate de longa data na macroeconomia centrou-se no modo como os preços reagem às notícias sobre a economia, e se as empresas seguem as alterações dos consumidores nos preços de importação que resultam de movimentos cambiais. Hoje, o “grande volume de dados” promete melhorar a nossa capacidade de compreender e até de prever tais respostas. Uma aplicação desta abordagem, o Projeto Bilhão de Preços (Billion Prices Project) no Instituto MIT, usa milhares de milhões de observações provenientes de web sites para seguir a inflação.

Uma segunda abordagem baseia-se não no grande volume de dados, mas sim nos dados novos. Os economistas estão a utilizar rotinas de extração de informação automatizada, ou “bots”, para juntarem arduamente pedaços de informação invulgar sobre decisões econômicas proveniente da World Wide Web. Os web sites, onde artistas comerciais apresentam esboços para logotipos de empresas e onde editores independentes oferecem serviços para autores, prometem lançar uma nova luz sobre questões como as causas determinantes da inovação.

Uma terceira abordagem recorre a evidências históricas. Alguns comentadores constataram que a crise financeira mundial era benéfica para a história econômica, porque dirigia a atenção para as crises anteriores e para os conhecimentos que se poderiam extrair através do seu estudo. Na verdade, a história econômica nunca deixou de desempenhar o seu papel na pesquisa econômica. Mas a crise financeira foi um lembrete útil de que a história está repleta de acontecimentos semelhantes e com evidências sobre quais são as respostas políticas que funcionam.

Esta tomada de consciência coincidia então com a disponibilidade de dados históricos mais abrangentes sobre o funcionamento da economia. Historiadores econômicos reuniram bastante informação sobre registos paroquiais, recenseamentos da população e demonstrações financeiras das empresas. Mas trabalhar em arquivos empoeirados tornou-se mais fácil com o advento da fotografia digital, o reconhecimento mecânico de caracteres tipográficos e serviços remotos de entrada de dados. Conjuntos maiores de dados estão a permitir que historiadores econômicos abordem questões-chave – por exemplo, como é que as condições econômicas dos agregados afetam as decisões de participação da mão de obra em diferentes épocas e lugares – mais eficazmente do que nunca.

Esta referência a diferentes épocas e lugares aponta para o quarto e último foco da nova pesquisa empírica: as instituições. Os modelos macroeconômicos tendem a negligenciar o papel das instituições, oscilando entre sindicatos e associações patronais, e regimes de direitos de propriedade e mecanismos de redistribuição. Encará-los seriamente significa considerar longos intervalos de tempo históricos, uma vez que as instituições mudam lentamente e variam significativamente apenas ao longo do tempo. A atenção renovada permite, assim, que os economistas tenham em consideração, de uma forma mais sistemática, o papel das instituições nos resultados macroeconômicos.

Estes desenvolvimentos equivalem a uma mudança radical na economia. Há apenas algumas décadas, a análise empírica era informada por conjuntos de dados relativamente pequenos e limitados. Indubitavelmente, os quadros analíticos são ainda necessários para a lógica dos dados. Mas agora, há motivos para esperar que, no futuro, as conclusões dos economistas e da assessoria política serão moldados não pela elegância desses quadros, mas pela sua capacidade de se adaptarem aos fatos.

(Artigo originalmente publicado no site Project Syndicate)

Ponto de vista

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