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Pioneirismo


Como um inglês criou o turismo de massa na Suíça


Por Julia Slater


Vista de Lucerna, uma das cidades mais populares entre os turistas que visitam a Suíça. (Keystone)

Vista de Lucerna, uma das cidades mais populares entre os turistas que visitam a Suíça.

(Keystone)

Há cento e cinquenta anos atrás Thomas Cook ajudou a lançar o que se transformou em uma das principais indústrias suíças: o turismo. O empreendedor inglês conseguiu levar a classe média britânica para passar suas férias em um país onde antes só ricos podiam se dar o luxo de visitar.

A ideia de Cook era negociar bilhetes relativamente baratos com as empresas ferroviárias na base de viagens de grupo. Os participantes do pacote turístico que organizou em 1863 receberam passagens via Paris para Genebra. O retorno era via Lausanne e Neuchâtel.

A partir do momento em que eles chegavam à Suíça, estavam então ao próprio encargo, embora Cook os acompanhassem durante algum trecho. Para ele, essa era uma viagem experimental. Logo depois começou a oferecer passeios turísticos na França e na Itália.

Cook melhorou aos poucos a sua oferta, mas a experiência acabou marcando também a própria Suíça. Apesar dos clientes na época serem pessoas prósperas, eles não tinham muito tempo e não podiam se dar ao luxo de fazer uma viagem de lazer como os ricos. Afinal, eles precisavam retornar ao trabalho. Ao aproveitar essa chance de conhecer outro país, a indústria helvética do turismo acabou decolando. 

O turismo hoje é visto por economistas como um produto de exportação. O setor não apenas traz divisas ao país: o turismo é a quarta indústria de exportação da Suíça. Mas até que ponto o país continua a estar na mira dos turistas britânicos?

Esse grupo é hoje o segundo maior a visitar a Suíça, logo depois dos alemães. E, no entanto, paradoxalmente a Suíça está longe de ser o principal destino dos turistas britânicos.

A Suíça encabeça uma lista de mercados considerados fracos, segundo um relatório publicado pelos Correios da Grã-Bretanha sobre as vendas em moedas estrangeiras em 2012. O relatório ressaltou que a valorização do franco suíço foi de 40% em relação à libra esterlina em apenas cinco anos. Porém Heidi Reisz, representante da Suíça Turismo em Londres, contradiz: "A taxa de câmbio dificultou certamente os negócios, mas agora eles voltaram a crescer. As pessoas se acostumaram e os britânicos continuam apaixonados pelas paisagens do país."

De fato, dados oficiais do governo britânico mostram um crescimento das viagens dos seus cidadãos à Suíça em 2012, embora os números ainda estejam muito abaixo dos de 2008. De acordo com o Departamento Federal de Estatísticas, a tendência continua, com aproximadamente dez por cento a mais de pernoites de turistas britânicos em junho de 2013 em comparação com junho de 2012.

"Os ingleses sempre gostaram da Suíça", afirma Reisz. "A maior parte das nossas montanhas foram escaladas em primeiro lugar por britânicos e eles também introduziram o esqui. No ano que vem teremos o 150° aniversário do turismo de inverno introduzido pelos ingleses em St. Moritz."

Mudando de atitude

Mas quem são os turistas modernos e de onde eles vêm? O espírito de Thomas Cook ainda vive e por que eles vêm? Algumas das posições de Cook já não são mais atuais.

"Nos termos de Thomas Cook, tudo estava relacionado ao 'lazer racional'", lembra o arquivista Paul Smith. "Ele via o mundo lá fora como algo a ser explorado e pensava que se as pessoas gastassem mais tempo aprendendo sobre outros povos e outras coisas, de forma geral, elas estariam se tornando melhores pessoas e o mundo também."

"Obviamente muita coisa mudou nos últimos cento e cinquenta anos. Hoje em dia as pessoas saem de férias para pegar sol, ver o mar e curtir a areia e outros". Obviamente a Suíça não está associada com nenhum desses três elementos, com consequências inevitáveis. "Passar férias nos lagos e montanhas era algo comum até os anos 1980. Mas como principal destino para as férias de verão, a Suíça raramente é uma das alternativas", confessa Smith.

Peter Williamson trabalha como especialista de uma agência de viagem em York especializada em férias de bicicleta ou independentes. "A Suíça está entre os nossos principais destino no momento", confirma. A forte valorização do franco não é vivida como um problema em sua empresa, talvez pelas características da sua clientela. "Nossos clientes são pessoas que geralmente fazem duas vezes férias por ano. Em grande parte são aposentados, cujos filhos já saíram de casa. Assim eles têm liberdade de aproveitar mais intensamente esses anos de vida", diz. Os grupos pernoitam geralmente em "bons hotéis, aproveitam a comida e tem contatos com a população local, inclusive por estar fora dos circuitos habituais."

Reisz reconhece o apelo que a Suíça tem para os turistas das faixas etárias mais elevadas, especialmente no verão. Mas ele ressalta que os representantes da Suíça Turismo na Inglaterra se esforçam em demonstrar que as atividades de verão no país não se limitam às caminhadas de montanha. A Suíça oferece também esportes radicais como parapente, bungee jumping ou rafting em corredeiras.

Quando se trata da competição com outros destinos alpinos, ela acredita que a Suíça está na liderança. "Todos tem montanhas, mas as nossas são simplesmente mais elevadas. A Áustria tem apenas uma montanha que chega aos 13 mil pés (3.962 metros), enquanto a Suíça tem 47 picos com mais de quatro mil metros. As montanhas imperam na sua frente. É uma experiência alpina completamente diferente."

Viagens guiadas continuam existindo, mas hoje atendem um nicho do mercado em contraste à época de Cook, explica Smith. "Quando Thomas Cook levava as pessoas às férias, eles não ficavam em só um lugar. Geralmente viajavam ao redor, como um passeio. Hoje a maior parte das pessoas vai para um hotel e o utiliza como base. Eles podem sair em pequenos passeios diários, mas geralmente não vão visitar uma dúzia de diferentes cidades na Europa."

Contraste

Hoje o grupo de turistas que mais cresce são os chineses. À primeira vista eles parecem não ter muito em comum com os primeiros turistas enviados por Cook. Mas, como ressalta o diretor da Suíça Turismo, Jürg Schmid, em um artigo publicado na revista "Die Volkswirtschaft" (A Economia), eles "viajam em grupos", reservando seus passeios "através de agentes de viagem em grandes pacotes". E como o grupo de 1863, eles vão de um lugar ao outro.

A Suíça Turismo procura estratégias para persuadi-los de permanecer mais tempo no país e ir além das principais rotas turísticas. O órgão oficial de turismo do país também gostaria que os chineses começassem a fazer turismo individual, uma forma mais lucrativa para o setor.

Um século e meio depois, a experiência pioneira de Cook é ainda um ponto de partida que poderá resultar em novos desenvolvimentos.

Turismo na Suíça em 2012

O turismo gerou 15 bilhões ao país, a quarta maior indústria de exportação depois do setor químico, engenharia e a indústria relojoeira.

Em termos de pernoites, o maior grupo é o de turistas alemães: 4,6 milhões. O Reino Unido e os Estados Unidos ficaram em segundo lugar com 1,5 milhões, cada.

Mais de dois terços dos pernoites feitos por asiáticos ocorreu nos meses de verão.


Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch



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