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100.000 mortos


A Síria sufoca sem vencedor nem vencido


Por Frédéric Burnand, Genève


Alep, umas das frentes mais importantes da guerra síria, tonou-se uma cidade fantasma depois dos violentos ataques das forças do regime el-Assad. (AFP)

Alep, umas das frentes mais importantes da guerra síria, tonou-se uma cidade fantasma depois dos violentos ataques das forças do regime el-Assad.

(AFP)

Enquanto se aguarda uma conferência sobre a Síria em Genebra, as perspectivas de paz são ínfimas. A rebelião e as força governamentais tentam consolidar suas posições com o apoio dos países da região. Na entrevista a seguir, o ex-diplomata suíço no Oriente Médio Yves Besson fala do jogo de interesses em torno do conflito.

Vinte e oito meses de guerra, 100 mil mortos e nenhuma perspectiva de paz, apesar da hipótese de uma reunião internacional sobre a Síria em Genebra, cujas chaves estão em Moscou e Washington. A aspiração inicial do levante popular contra o regime autocrático do presidente Bachar el-Assad, foi sufocada no sangue.

Um dos cenários estabelecidos no final de junho pelo Grupo Internacional de Crise (ICG, que visa a prevenção e a resolução de conflitos armados) se confirma. “Uma quarta opção em que os países aliados dão às duas partes o suficiente para sobreviver, mas não para vencer, só faria perpetuar a guerra por procuração com os sírios como principais vítimas. É o estado atual e a previsão mais provável num futuro previsível”, sublinha o ICG em um relatório intitulado Syria’s Metastasising Conflicts.

Essa constatação é a mesma de Yves Besson, ex-diplomata no Oriente Médio, sempre em contato com a região através da Associação Suíça pelo Diálogo Euro-árabe-muçulmano  (ASDEAM).

swissinfo.ch:Alguma coisa está acontecendo no plano diplomático?

Yves Besson : Os países ocidentais não intervêm, a não ser um pouco no plano humanitário. As diplomacias ocidentais querem a saída de Bachar-el-Assad, sem isso iriam entregar armas aos rebeldes, mas isso fracassou. O presidente sírio continua no poder e poucas armas foram fornecidas aos rebeldes.

Até agora, a política americana na região está mal definida ou é incoerente, como vimos com a deposição do presidente egípcio Mohamed Morsi, que provocou críticas aos Estados Unidos de todas as correntes da política egípcia.

A comunidade internacional e suas instituições estão portanto completamente bloqueadas. Quem intervém na Síria é a Rússia, o Irã e a China. Rússia e Irã apoiam militarmente Damasco. Rússia e China bloqueiam os ocidentais no Conselho de Segurança da ONU.

Quem socorre os refugiados sírios?

Na Síria, 7,8 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária e quase metade são crianças.

Atualmente, 1,8 milhão de sírios são acolhidos nos países da região. Em média, 6.000 pessoas deixam a Síria diariamente, segundo o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (HCR).

O Líbano registrou um aumento de 460% no número de refugiados sírios desde o início deste ano. Até o fim de 2013, o número de refugiados sírios – além de outros refugiados acolhidos no Líbano – deverá chegar a 1.229.000 pessoas, ou seja, um quarto da população libanesa, segundo as autoridades libanesas.

O Iraque, apesar da situação econômica tensa, já doou 50 milhões de dólares de ajuda às consequências da guerra na Síria. As despesas da Turquia até agora são de 1,5 bilhão de dólares, segundo seus respectivos representantes.

As autoridades jordanianas estimam em 1 milhão o número de sírios em seu território, incluindo refugiados e residentes que viviam no país desde o início do conflito em março de 2011.

Em 18 de julho, o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (HCR), António Guterres,  denunciou as graves lacuna na proteção aos Sírios que chegam na Europa. Ele pediu um visão mais generosa e coerente dos países da União Europeia em matéria de asilo.

“É crucial que a Europa dê exemplo”, declarou Guterres. Ele acrescentou que número dos pedidos de asilo depositados por sírios resta gerável, de um pouco mais de 40.000 desde o início da guerra em março de 2011.

 

Fonte: ONU

swissinfo.ch :Quais são as consequências desse fracasso ocidental ?

Y.B. : Os atores regionais estão livres para intervir diretamente, enquanto no passado eles seguiam a linha imposta pelas grandes potências.

Do lado sunita, a política do Catar de apoio à Irmandade Muçulmana fracassou, o último episódio sendo o golpe militar contra Mohamed Morsi.

O Catar, onde o antigo emir Cheikh Hamad ben Khalifa Al Thani acaba de abdicar em favor de s eu filho Cheikh Tamim, se alinha em parte a outras monarquias do Golfo dominadas pela Arábia Saudita.

O novo chefe da oposição síria, ou seja, o presidente da Coalisão Nacional Síria (CNS), Ahmad Assi Jarba, foi instalado pelos sauditas. Ele é chefe da confederação dos Chammar, uma tribo instalada do norte da Arábia Saudita ao sul do Iraque e da Síria. Isso é possível porque a comunidade internacional está paralisada.

No terreno sírio, ocorre portanto um conflito entre o Irã e a Arábia Saudita, cuja saída só pode ser um empate com consequências humanas catastróficas. Cada uma das partes busca o esgotamento da outra. Foi assim aliás que terminou a guerra civil libanesa  (1975-1990). Por esgotamento, as partes em conflito acabaram chegando a um acordo.

Por outro lado, não podemos esquecer que essa guerra também é um conflito de classe. Boa parte da burguesia síria (alauítas, sunitas e cristãos) continua a apoiar o presidente Bachar el-Assad.

swissinfo.ch : O Líbano sofre as consequências diretas da guerra no vizinho. Ele também não pode entrar em guerra?

Y. B. : O Líbano atravessa uma crise governamental, com um executivo que administra os assuntos correntes. A classe política faz politicagem, enquanto o barco libanês está quase afundando. O Líbano (ndr: como a Jordânia e a Turquia) está repleto de refugiados sírios. As fronteiras libanesas são uma peneira, mas a fronteira com Israel.

Dito isto, o Estado libanês subsiste. Eu não vejo o Líbano entrar em guerra porque as forças políticas libanesas sabem muito bem que isso pode ir muito longe. Grande apoio de Damasco, o Hezbollah, ao participar ativamente da retomada da cidade síria de Qousseir, sentiu que foi longe demais. Desde então, o movimento xiita libanês recuou um pouco em seu apoio a Damasco. O Hezbollah não quer aparecer como um partido contrário aos interesses fundamentais do Líbano.

swissinfo.ch: Se as linhas de frente se estabilizam, haverá uma partição da Síria?

Y.B.: Eu acho que não. Para estabilizar duradouramente a região, deveria haver um acordo regional global que só uma grande conferência internacional – como a de Versalhes (1919-1920) que dividiu o Oriente Médio sobre as ruínas do império otomano – poderia concluir.

Hoje, todas as bolas estão de novo no ar, mas não há malabarista. Os ocidentais gostariam de redesenhar o mapa geopolítico da região. Só que o Irã não quer abandonar suas posições na Mesopotâmia, depois da intervenção americana no Iraque. Resultado: essa guerra está escapando ao próprios sírios, com intervenção cada vez mais maior de combatentes estrangeiros.


Adaptação: Claudinê Gonçalves, swissinfo.ch



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