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Partidos jovens


O laboratório de testes da política suíça




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A ministra Doris Leuthard (esq.) recebe em 28 de maio de 2009 em Berna uma delegação de jovens políticos para debater sobre o problema do desemprego juvenil. (KEYSTONE/ Lukas Lehmann)

(Keystone)

Seja contra os altíssimos salários dos executivos, contra a fixação do preço dos livros ou a favor de mais participação na reforma da aposentadoria, os partidos jovens estão cada vez mais envolvidos na política suíça. Mas estes jovens rebeldes realmente influenciam positivamente a política suíça ou conferem ao cenário político apenas uma aparência de renovação?

Tudo poderia ser mais fácil. Bastava eles pegarem o carnê de contribuição anual do partido e seguirem fazendo política nos grandes partidos, já conhecidos e bem conceituados.

Mas Lukas Reimann e Cédric Wermuth queriam mais do que isso. Queriam ter poder de voz. E para já. "Faltava alguma coisa", afirma Reimann, nascido em 1982. Aos 15 anos, quando participava do Partido Popular Suíço (SVP), via-se cercado por pessoas que eram "50 anos" mais velhas do que ele.

Por este motivo, com alguns colegas de escola ele acabou fundando o Partido Popular Suíço Jovem (SVP – Jovem) no cantão de Saint Gallen. Assim, acabou entrando realmente para a política. "Quase que automaticamente eu passei a fazer parte do Comitê Cantonal e fiquei envolvido em várias frentes de trabalho e realizando várias campanhas." De 2000 a 2008, Reimann foi presidente do SVP Jovem de St. Gallen. Em 2007, nas eleições federais, ele foi eleito como o mais jovem parlamentar para o Conselho Nacional Suíço.

"Nunca me senti à vontade em delegar a outros a decisão de como vai funcionar o país onde eu tenho que morar", afirma Cédric Wermuth, nascido em 1986, explicando a sua motivação para entrar para a política tão jovem, como Reimann.

Por acaso, em 1999, enquanto analisava o material de votação de seus pais, chamou-lhe a atenção o prospecto de um partido jovem. "Naquela época eu ainda não sabia que existiam partidos jovens." Deste modo ele foi parar no partido Jovens Socialistas (JUSO), a ala jovem do Partido Social Democrata da Suíça (SP). De 2008 a 2011 ele foi presidente do JUSO na Suíça. Nas eleições parlamentares de 2011, foi eleito para o Conselho Nacional.

Os partidos jovens suíços em números

O Partido Popular Suíço Jovem (SVP – Jovem) tem cerca de 6.000 filiados. Limite de idade: 14 a 35 anos.

Os Jovens Socialistas (JUSO), a ala jovem do Partido Social Democrata da Suíça (SP), tem 3.300 filiados. Os jovens que são membros do Partido Social Democrata da Suíça (SP) não são automaticamente membros dos Jovens Socialistas (JUSO). Limite de idade: 35 anos.

A Juventude Liberal Suíça (JF) tem cerca de 3.000 membros. Limite de idade: 35 anos.

O Partido Popular Democrata Cristão-Jovem (JCVP) tem cerca de 2.000 filiados. Após a idade limite de 35 anos, os membros do partido jovem passam automaticamente a fazer parte do partido original CVP.

O Partido Verde Jovem (JG) tem cerca de 1.515 filiados. Não há limite de idade, mas a partir dos 30 anos os membros do partido jovem são convidados a trocar para o Partido Verde original.

(Fontes: Dados fornecidos pelas secretarias dos partidos ou pelos presidentes dos partidos, maio de 2014)

Papel importante

Em nenhum outro país os partidos jovens desempenham um papel tão importante quanto na Suíça. Nos último tempos, alguns destes partidos conseguiram chamar a atenção através de iniciativas populares ou referendos que chegaram até a votação popular. Por exemplo a Juventude Liberal Suíça com o referendo contra a fixação do preço dos livros (aprovado pelo povo, o que significa que a fixação do preço dos livros foi rejeitada) ou a iniciativa popular "1:12" dos Jovens Socialistas (JUSO) contra os altíssimos salários dos executivos (rejeitada). Atualmente os partidos jovens estão engajados na discussão sobre a reforma da aposentadoria.

"Não temos um governo que se alterne no poder", afirma Michael Hermann, especialista em Ciências Políticas, para explicar por que os partidos jovens conseguem desempenhar um papel tão importante na política suíça. "No sistema clássico de governo versus oposição, o partido fica extremamente vinculado à questão de quem vai ser Chefe de Governo ou Vice-Chanceler, é o que acontece na Alemanha, por exemplo."

Em contraste a esta organização hierárquica dos partidos, na Suíça existe uma hierarquia horizontal entre os partidos, o que proporciona "muito mais espaço de atuação". Além disso, os partidos jovens têm uma vantagem estrutural, "pois ainda não estão tão amarrados e viciados como os partidos estabelecidos. Isso faz com que eles possam direcionar as discussões e lançar novos debates", afirma Hermann.

É inédito na Europa que a democracia direta, como existe na Suíça, possibilite que pequenos grupos, como os partidos jovens, possam usar os instrumentos políticos e "lançar projetos que divergem ou que são independentes do partido original".

Mas Hermann também chama a atenção para as desvantagens: "Um partido jovem também pode ser um obstáculo. É difícil de controlar e pode desenvolver uma vida própria, que funciona muito bem na lógica dos meios de comunicação."

Philipp Müller, presidente do Partido Liberal Democrata da Suíça (FDP), tem certeza de que os partidos jovens vão desempenhar um papel ainda mais importante. "Eles alcançam um segmento dos eleitores que nós do FDP mal temos acesso ou não alcançamos", afirma ele. Os jovens liberais constituem uma parcela considerável da organização como um todo. "É bom que os jovens liberais tomem as rédeas de vez em quando."

Ascensão no século XXI

Na década de 1990, os partidos jovens praticamente não tinham peso algum. Após a queda do Muro e a dissolução da União Soviética, não havia mais debates de base, afirma Hermann. "Comparar modelos definidos de sociedade ou concepções de mundo tornou-se ultrapassado." Isso reduziu o poder de atratividade dos partidos jovens.

"Na primeira década do novo milênio, a crise financeira e econômica – a queda do socialismo real já estava consumada – possibilitou que a geração mais jovem voltasse a conduzir um debate de base." Os partidos jovens perceberam que "aquele era o momento exato para isso".

Mais liberdade

Wermuth e Reimann sentiam-se livres em seus partidos jovens. "Certamente temos uma visão política mais livre, menos institucionalizada, mais arrojada e também um pouco mais radical, pois ainda não fomos espremidos pelas famosas circunstâncias condicionantes", afirma Wermuth.

E, no partido jovem, Reimann vivenciou o dinamismo da juventude: "São jovens que ainda têm o futuro pela frente, que se engajam de coração pelo futuro do seu país e não estão ali para conseguirem um mandato e encherem seus próprios bolsos."

Os dois políticos saíram da vida política dos partidos jovens para a política nacional. Ambos são membros do Conselho Nacional pelos seus partidos de origem, o Partido Popular Suíço (SVP) e o Partido Social Democrata Suíço (SP). E ambos estão convictos de que o início através do partido jovem acelerou o processo.

Mesmo ficando no último lugar da lista, Reimann relata que foi eleito para o Conselho Cantonal com 21 anos, quando era presidente do Partido Popular Suíço Jovem. "Graças a ações do SVP Jovem, eu já era conhecido. Tudo isso me ajudou muito, claro."

Wermuth ressalta que não foi pensando em fazer carreira na política que ele ingressou no JUSO, a ala jovem do Partido Social Democrata da Suíça. "Mas, no meu caso, claro que foi uma bela plataforma. Através do partido jovem eu ingressei no partido oficial e obtive reconhecimento popular."

Blackbox Partidos Jovens

Não há estudos abrangentes sobre os partidos jovens na Suíça. O tema não é considerado suficientemente interessante para os pesquisadores na área de Ciências Políticas.

"Não existe uma tradição de estudos científicos sobre o debate político dos partidos jovens", esclarece o cientista político Michael Hermann.

Para ele a explicação é que os cientistas políticos publicam em revistas internacionais. E este tema, restrito ao território suíço, não chega a ser relevante internacionalmente. 

Fábrica de temas e de talentos

Nem todos os jovens políticos conseguem fazer essa passagem para a política tradicional, afirma Hermann. "Há muita gente ativa no partido jovem e que depois desaparece." Muitas vezes eles não conseguem passar para a política tradicional, "pois são necessárias outras habilidades".

Para Hermann, o papel do partido jovem também é o de ser uma fábrica de temas para o partido-mãe. Wermuth e Reimann acreditam que o papel de descobridor de talentos também é muito importante.

Müller define a Juventude Liberal Suíça como sendo constituída de dois terços como "fábrica de futuros políticos" e um terço como "fundo de novos temas e posicionamentos coerentes". E isso é "uma boa base para novas ideias, para um desenvolvimento duradouro do partido como um todo".

Controvérsia em relação aos jovens

Quanto ao desinteresse dos jovens pela política, discussão que se intensificou após a votação de 9 de fevereiro de 2014, eles têm opiniões e interpretações diversas.

Reimann, em suas várias visitas a escolas, percebe uma juventude "interessada na vida política". Os jovens não se interessam pelos mecanismos políticos, mas sim por temas.

Wermuth, por sua vez, acredita que hoje em dia a política não é mais vista "como uma força social importante".

O fato de que o número de filiados aos partidos jovens aumente muito lentamente não surpreende Hermann, que detaca que, nos partidos-mãe, também apenas uma minoria é realmente engajada. Os partidos jovens não são um retrato de toda a juventude, salienta ele.

Muito jovens não veem mais sentido em um engajamento político, pois estão satisfeitos e têm "uma grande confiança no sistema". A abstenção do voto frequentemente é interpretada como expressão de descontentamento. "Mas também pode ser o contrário, ou seja, que a vida esteja muito boa e que por isso não seja necessário politizar nada."


Adaptação: Fabiana Macchi

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