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Portugueses na Suíça Telmo Guerra: a arte que lhe alimenta a vida

Imigrar não significa abandonar as paixões. Telmo Guerra chegou em 2012 à Suíça em busca de uma nova chance. Psicólogo formado, o português faz gravura nas horas livres na sua garagem. Quando alguns dos trabalhos viraram até grandes murais expostos em localidades helvéticas, se sentiu reconhecido e um pouco mais integrado no novo país.

Homem ao lado de um mural

Telmo Guerra ao lado de um mural de sua autoria, feito para homenagear o poeta Luís Vaz de Camões.

(swissinfo.ch)

Quando recorda os tempos em Tortosendo, vila do concelho da Covilhã, lembra com um sorriso como foi crescer num local onde todas as pessoas se conheciam e havia um sentimento de comunidade mais vivo. Contudo, não hesita em reconhecer que o ambiente cultural era limitado, "fiz algumas exposições, mas aquilo é muito pequeno. Também não estudei artes, o que torna tudo ainda mais complicado". Ingressou no curso de Psicologia onde concluiu licenciatura e mestrado. Em Portugal, ainda trabalhou como gestor de parque eólico, mas as frequentes viagens e a ausência da família, ditaram que mudasse de emprego e de país.

Telmo não se recorda quando começou a se interessar por arte, mas foi na pintura que deu os primeiros passos. Partilha que não se teria matriculado nas Belas Artes pela maior dificuldade em encontrar estabilidade financeira no meio artístico, "vais constituir uma família, vais viver do quê? Sabes que é muito complicado viver da arte e, depois, também se torna complicado porque tens de conciliar [com outro trabalho], mas é isso que estou a tentar fazer".

Telmo Ernesto Alves Guerra é um artista português autodidata, que usa a gravura como expressão da sua arte. Reside com a sua família em Valangin, cantão de Neuchâtel, há seis anos. Trabalha como assistente social com crianças e jovens, mas é na arte que encontra a sua realização pessoal. Na Suíça, os seus murais podem ser vistos em La Chaux-des-Fonds, Valangin e Yverdon, e divulga as suas peças através do seu blogueLink externo e páginas nas redes sociais. Durante o encontro com a swissinfo.ch, demonstrou que a sua principal motivação é continuar a criar. Debaixo do mural da sua autoria, dedicado a Arthur Rimbaud, falou-nos dos tempos na sua vila natal e de como a sua emigração para a Suíça foi importante para desenvolver o seu trabalho artístico e encontrar a sua própria linguagem.

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A mudança para a Suíça, em 2012, trouxe consigo uma nova vida, mas também, a exploração da gravura enquanto linguagem artística proeminente para si, "eu costumo dizer, se calhar, foi preciso vir para a Suíça para encontrar o meu país e a mim mesmo".

O trabalho que lhe dá o sustento financeiro

O nosso entrevistado tinha amigos no cantão de Neuchâtel e, também, já tinha também visitado o país de férias. A escolha pelo país helvético surgiu-lhe como natural e decidiu mudar-se juntamente com a sua mulher e filha.

A sua companheira trabalha como educadora de infância na creche pública Le Chat Telot, em La Chaux-de-Fonds. A filha, que está a fazer a escolaridade na Suíça, sente-se plenamente integrada e Telmo realça que a oportunidade de aprender duas línguas maternas, ter diversas atividades extracurriculares e uma experiência multicultural na escola, são muito importantes. Por isso, na sua opinião, as perspectivas de futuro para a sua filha são incomparavelmente melhores do que em Portugal.

Devido à sua formação de psicólogo, Telmo trabalha como educador social na Fundação Borel. Tem a seu cargo crianças e jovens, entre os seis e 16 anos, foram vítimas de violência, distúrbios comportamentais, dependência de álcool ou droga ou submetidos a alguma exclusão social. Por diversas vezes, o seu trabalho envolve uma colaboração com a família e assistente social.

A sua função é atuar como agente provocador de mudanças, através de estratégias de intervenção educativa para que, dessa forma, fomente a inclusão social e bem-estar pessoal. Por esse motivo, as suas tarefas consistem em criar projetos educativos para cada jovem, facilitar a sua integração familiar e social e apoiá-los e orientá-los em atividades culturais, desportivas, entre outras. Telmo suspira, "não é fácil, mas temos de apoiá-los".

Mural de prédio pintado frente a uma praça

Um dos murais realizados por Telmo Guerra ana fachada de um prédio em La Chaux-de-Fonds.

(swissinfo.ch)

As suas criações: do papel para a gravura

Habitualmente, Telmo faz da garagem o seu atelier. Quando chegou a Valangin, começou a explorar mais a gravura, inspirando-se no trabalho de Vhils, artista português da street art. No entanto, para Telmo, "faltava qualquer coisa. Até que um dia a gravar sobre cerâmica, pensei acrescentar os motivos dos azulejos portugueses", e assim nasceu a sua assinatura artística.

Tudo aconteceu enquanto fazia a peça sobre José Saramago; decidiu acrescentar os azulejos portugueses e uma frase de um livro do autor e "pronto, achei que tinha encontrado o meu estilo", sorri-nos. Telmo cita uma frase do escritor que resume o seu percurso, "por vezes é preciso caminhar muito para encontrar o que está perto".

As suas obras nascem a partir de um desenho, antes de serem gravadas em cerâmica, madeira ou muros e "a minha fonte de inspiração é Portugal". Telmo gravou diversas caras de figuras da sociedade portuguesa, tais como: Amália, Fernando Pessoa, José Saramago, José Afonso, Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa. Para além dessas peças dedicadas a portugueses, o autor fez igualmente peças dedicadas a figuras internacionais, como: Barack Obama, David Bowie, Einstein, Nelson Mandela, entre outros.

Independentemente do rosto que queira gravar, Telmo recorre sempre ao simbolismo luso para completar as suas peças, colocando os azulejos, a cruz de Portugal e uma frase que escolhe conforme a pessoa representada, e "se alguém me perguntar porque faço assim, digo que é a identidade do meu país, o meu estilo e que estou a tentar conciliar dois países", no caso das figuras internacionais.

No país helvético, já se podem ver alguns murais de Telmo Guerra com figuras emblemáticas suíças e outras: em La Chaux-de-Fonds estão representados Le Corbusier, Monique Saint-Hélier e Blaise Cendrars. Em Valangin, está Robert Comtesse, presidente da Confederação Helvética e em Yverdon, pode ser visto Arthur Rimbaud. Telmo reconhece que a oportunidade de realizar estes trabalhos "é extremamente gratificante. E ser um português a fazê-los é espetacular".

Os convites surgiram e os murais foram ganhando vida

Em 2017, a associação Vivre La Chaux-de-Fonds, a propósito do evento Olá Portugal, que organizaram para homenagear a comunidade portuguesa, convidou-o para fazer um mural com três figuras ilustres suíças. Em Lucerna, recebeu um convite para participar na Expo Cultura Lusa e apresentar as suas peças.

Homem trabalhando com uma britadeira na parede

Não só com pincéis: o artista português durante o trabalho em um mural.

(swissinfo.ch)

A Presidente da Câmara Municipal de La Chaux-de-Fonds, apresentou uma proposta a Telmo para realizar um mural num jardim público local, que se vai batizar de Jardim da Saudade, também para homenagear as comunidades estrangeiras ali residentes. Neste momento aguarda aprovação das instituições oficiais para que possa iniciar o seu trabalho.

A esperança nos dias vindouros

"Se eu não achasse que tenho perspectivas de futuro, deixava de fazer", atira Telmo Guerra, embora reconheça ser difícil entrar no mercado da arte. Na sua opinião, um criador não está realizado apenas a criar para si e, "acabo por me sentir um bocado frustrado porque não tenho público para mostrar as obras".

Para além das escassas oportunidades, Telmo trabalha habitualmente de forma voluntária nos murais ou acaba por doar as outras peças que faz, como aconteceu com a gravura oferecida ao Presidente da República de Portugal e outra peça dedicada a Fernando Pessoa, doada à embaixada de Portugal na Suíça.

Telmo está na Suíça e pretende permanecer. Em Portugal, as oportunidades são menores e a vida mais instável, e para fazer as suas peças necessita de dinheiro para investir em material. Para si, só voltaria para Portugal se pudesse viver da arte, "voltava amanhã, nem pensava duas vezes", sorri.

Esse é o seu grande sonho: estar exclusivamente dedicado à sua arte. Telmo reitera que é difícil alcançar o patamar em que está a produzir uma peça e tem outras em espera, "tenho produzido bastante, mas apenas para me construir e me sentir bem comigo próprio". Apesar das dificuldades, Telmo Guerra está a construir o seu percurso helvético e sente-se motivado para alcançar os seus objetivos, "encontrei o meu caminho, é isto que me dá prazer".

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