Professor suíço ensina política para brasileiros

Rolf Rauschenbach no ambiente universitário.

Rolf Rauschenbach no ambiente universitário.

(swissinfo.ch)

A participação dos cidadãos suíços na política do país não é um tema que costuma ser abordado nas salas de aula do curso de Ciências Sociais, no Brasil.

Esse ano foi diferente...graças à ajuda de um professor visitante na USP em São Paulo.

O professor suíço, originário da Basileia, Rolf Rauschenbach desembarcou em São Paulo graças a uma bolsa de pós-doutorado. Logo depois de se instalar, já com o domínio do idioma, começou a preparar o curso ministrado aos alunos de Ciência Política da Universidade de São Paulo. Falar sobre democracia para estudantes brasileiros se tornou um desafio que resultou em alunos se acotovelando nas salas de aula da USP para entender como funcionam os mecanismos de participação política no país helvético. Mais do que isso – o contexto político que proporciona a reflexão sobre cada questão apresentada em votações e a teoria de do filósofo Jürgen Hebermas. Em bom português.

swissinfo.ch: Como surgiu a ideia de vir para o Brasil?

Rolf Rauschenbach: Eu já conhecia o Brasil. No ano 2000 passei seis meses no Rio de Janeiro. Estudei na na Universidade de St. Gallen, e fiz doutorado na área de Ciência Política. Já havia estudado na França, na Bélgica, nos Estados Unidos e cheguei a trabalhar na França e na Alemanha. Recebi uma bolsa do governo suíço para fazer pós-doutorado e a exigência era a de que eu saísse do país. Essa foi a minha oportunidade.

Me dei conta que o Brasil era um país interessante na área da política, eu já falava português e já tinha contatos na USP. O convite acabou saindo.

swissinfo.ch: Qual é o tema de sua pesquisa atual?

R.R.: Proposta de comparação entre orçamento participativo e referendum financeiro da Suíça.

swissinfo.ch: O que o senhor ensina para os alunos?

R.R.: Essa foi a primeira vez que eu dei um curso completo, para os alunos de graduação. Foram 14 aulas de três horas e meia de duração, para uma disciplina optativa, nos períodos vespertino e noturno. Muito diferente dos padrões suíços. Eu esperava 30 ou 40 alunos por turma, mas foram quase cem, o que aumentou imensamente meu trabalho. Foram duas provas, além dos questionários e trabalhos para corrigir. O curso teve uma parte teórica sobre o pensamento político de Jürgen Habermas (ver box) e uma parte empírica. Habermas é um autor muito importante,nesse caso sobretudo por causa de sua teoria no campo de estudo da democracia. Meus alunos ainda não haviam tido muito contato com as ideias dele.

swissinfo.ch: Como foi a parte prática?

R.R.: Foi a teoria de Habermas aplicada. Fiz uma apresentação sobre o sistema político suíço e a participação dos cidadãos na democracia, no Brasil e na Suíça.

Claro que o foco na apresentação sobre o sistema político da Suíça foi a democracia direta, mas a geografia, o contexto e o sistema político também foram comentados.

Organizei uma simulação de uma iniciativa popular, como fazemos na Suíça, para a suspensão fictícia de uma aula. Depois traduzi toda a documentação oficial que cada cidadão recebe antes da votação sobre a iniciativa popular sobre a proibição da construção dos minaretes, em novembro de 2009, para uma nova simulação. Preparei até um envelope com o nome de cada aluno, contendo toda a informação para a votação.

swissinfo.ch: Como foi a resposta dos alunos ao que o senhor ensinou?

R.R.: Os alunos acharam muito interessante o fato de o governo enviar a todos os cidadãos o material contra e a favor à iniciativa. Eles acharam estranho o fato de a oposição dispor de um espaço, nesse mesmo material, para apresentar os argumentos. Para eles foi muito mais fácil entender como se dá o processo de votação depois de terem escutado sobre as teorias de Habermas e sobre a cultura política suíça.

No próximo curso, vou fazer uma simulação, utilizando o sistema de votação da Califórnia, que não funciona muito bem, por causa da cultura jurídica, bem oposta a da Suíça. A Suíça, portanto é um modelo positivo nesse aspecto, e existe muita literatura sobre como formular questões para os referendos. Na Suíça as questões são muito bem delineadas, porém às vezes criticamos a lentidão do processo. Na Califórnia as questões são, em alguns casos, tão técnicas que só um advogado é capaz de compreender. Além disso, os prazos são muito curtos para que as pessoas tomem decisões.

swissinfo.ch: Qual foi o resultado, na USP?

R.R.: O resultado foi de 98% contra a proibição da construção dos minaretes. (Na Suíça, o resultado foi a favor da proibição)

swissinfo.ch: Os alunos brasileiros são aplicados?

R.R.: A fama da USP é grande, o que atrai muita gente. Notei que muitos alunos trabalham 100% do tempo, e depois da aula ainda viajam uma ou duas horas de ônibus para chegar em casa. Além disso, muitos fazem dois cursos universitários ao mesmo tempo, como por exemplo Direito e Ciências Sociais. Assim, as circunstâncias para estudar são péssimas e o desempenho dos alunos é ruim. Acredito que metade da turma fez as provas sem estudar praticamente nada. A maioria deles não quer seguir uma carreira acadêmica.

swissinfo.ch: Qual a percepção deles sobre a Suíça?

R.R.: Tive uma expriência muito boa com os alunos brasileiros. Eles colaboraram muito e se interessaram pelo conteúdo. Eu tentei mostrar uma imagem positiva do meu país. Mas temos muitos problemas. Eles acharam um grande absurdo a questão dos minaretes. Foi muito difícil explicar a posição a favor da proibição. Os temas que mais chamaram a atenção deles foram a crise do UBS, a questão das drogas e os minaretes. Mas em geral acham que a Suíça é um país avançado e organizado.

swissinfo.ch: Que outras atividades você tem agora, enquanto não está dando cursos?

R.R.: Continuo estudando e dando palestras em outros cursos, como na USP Leste, na faculdade de Direito da USP e na Unip (Universidade Paulista). Uma das principais questões abordadas é a neutralidade.

Jürgen Habermas

Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão, nascido em 1929, fez contribuições importantes no campo da Ciência Política, criando uma teoria baseada na comunicação como ferramenta. Para o filósofo existem várias formas de se comunicar politicamente, portanto é crucial o peso e a qualidade da comunicação no jogo político, no discurso e na deliberação.

Escute os comentários

Após as eleições, Rolf Rauschenbach também fez comentários sobre a política brasileira. Ouça a opinião do professor suíço sobre a campanha eleitoral das últimas eleições e o que ele acha que pode acontecer nos próximos quatros anos, com a vitória de Dilma Rousseff. (CLIQUE NOS ÁUDIOS ACIMA)

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