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Projeto Wanamei


Instrumentos suíços para os garimpeiros no Peru


Por Françoise Kuenzi


Uma equipe da Escola Superior de Engenheiros de Neuchâtel desenvolve no Peru técnicas de extração de ouro menos poluentes. Os garimpeiros locais, colocados sob pressão pelas autoridades peruanas, se associaram ao projeto. 

Mineiros peruanos preparam um jato hidráulico na região de Madre de Dios, onde o governo peruano declarou ilegal todas as minas informais. (Keystone)

Mineiros peruanos preparam um jato hidráulico na região de Madre de Dios, onde o governo peruano declarou ilegal todas as minas informais.

(Keystone)

Wanamei, na mitologia dos índios Huachipæri, é a árvore da vida. Ela teria salvou seu povo da morte quando o planeta era devastado pelo fogo e pelas águas. Mas Wanamei é também um projeto conduzido pela unidade de pesquisa em antropotecnologia Edana da Escola Superior de Engenheiros Arc, em Neuchâtel, para acompanhar, sob mandato da ong Terra dos Homens Suíça, comunidades de garimpeiros peruanos no processo de legalizar sua atividade e melhorar as técnicas de produção.

Antropotecnologia? Não é necessário fugir dessa palavra complicada. De fato, a professora de ergonomia  Carole Baudin - coordenadora da Wanamei - e sua equipe não trabalham com instrumentos ou técnicas. Trata-se mais de "compreender inicialmente o contexto e as necessidades dos garimpeiros, assim como valorizar o seu saber antes de conceber, com eles, tecnologias que permitam melhorar as suas condições de trabalho e de vida", explica a profesora. 

"Eles estão no fim"

Para ela não é questão de impor aos garimpeiros peruanos conceitos-chave desenvolvidos no exterior. "Eles conhecem muito bem o ouro que exploram. Suas técnicas são fruto de uma experiência que remonta, no caso de algumas famílias, a 30 ou 40 anos de trabalho de extração na região", acrescenta Baudin. Ela realizou sua primeira missão na região amazônica de Madre de Dios em 2011. Ela efetuou inúmeras outras estadias e atualmente se encontra no local.

"Depois que o preço do ouro atingiu o pico em 2010, a região foi tomada por dezenas de milhares de garimpeiros ilegais", revela. "O meio-ambiente foi gravemente poluído e o governo está sob pressão. As organizações internacionais exigem medidas e as empresas que lidam com o ouro justo exigem técnicas de produção mais limpas".  Repentinamente as autoridades peruanas decidiram reprimir, colocando em vigor todos os tipos de leis complicadas, por vezes até contraditórias.

Os garimpeiros não sabem mais o que fazer. Eles aceitam cumprir as leis e ser reconhecidos, mas não têm mais o direito de utilizar seus aparelhos. O governo quer, por exemplo, proibir a utilização do mercúrio, tóxico tanto para os trabalhadores como para o meio-ambiente, mas não existem alternativas à técnica. "Eles estão nos seus limites. Eles têm impressão que são considerados ilegais, mesmo se maior parte são nativos desse território", contata Carole Baudin. 

A árvore da vida não morrerá nunca

O financiamento do projeto foi assegurado pela Fundação Cartier Charitable até 2015 através do programa global conduzido pela ong Terra dos Homens Suíça intitulado "Direito da criança nas zonas garimpeiras". E depois? Sua execução deve ocorrer localmente: "Uma equipe foi constituída para que o trabalho possa continuar", explica Baudin. Contatos foram realizados com a Escola Técnica de Puerto

Maldonado, a grande cidade nas proximidades, assim com o governo regional. Wanamei, como a árvore da vida, não morrerá.

Uma experiência a ser reconhecida

Primeiramente uma parte do seu trabalho foi de reconhecer a experiência dos garimpeiros. Evidente? Não necessariamente. "Eles ficaram bastante surpresos com a nossa abordagem, com o nosso desejo de conhecer mais sobre a sua experiência". Além disso, as tentativas de melhorar algumas técnicas sempre implicaram as comunidades de garimpeiros. Estes chegaram a dar a última palavra em alguns casos. Por exemplo, eles estimaram que uma das técnicas propostas para a extradição do ouro não era muito eficiente.

Razões culturais podem também explicar a recusa das novas técnicas ou a manutenção das antigas. "As comunidades têm uma outra relação com o mercúrio. A maior parte dos habitantes dessas regiões a utilizam contra a diarreia. Alguns chegam mesmo a pensar que ela pode curar os problemas da alma. Para eles não se trata do veneno que estamos descrevendo". Todavia não são completamente insensíveis aos problemas de poluição. A reciclagem das garrafas PET chega mesmo a ser praticada por alguns deles. Do lado da poluição, o mercúrio não é o único elemento poluidor: hidrocarbonetos e detergentes utilizados nos processos também causam muitos danos.

A equipe interdisciplinar de Carole Baudin, que compreende etnólogos e engenheiros, trabalhou sobre três etapas da produção: a extração da terra aurífera, a lavagem e a recuperação de ouro, com resultados encorajadores. 

Recuperar os vapores de mercúrio

Um exemplo de melhora na produção? A "retorta". Essa espécie de alambique permite recuperar os vapores de mercúrio utilizado na recuperação do ouro. De fato, a maior parte dos garimpeiros utiliza ainda o mercúrio para amalgamar o pó do ouro. O amálgama obtido é depois aquecido a 400 graus, o que leva à evaporação do mercúrio. O vapor pode ser depois destilado, ou seja, condensado e recuperado após sua evaporação nessa famosa "retorta". O problema é que o processo muitas vezes é falho e que os garimpeiros ainda respiram os vapores tóxicos que escapam.

A equipe de Carole Baudin procurou dessa forma desenvolver uma nova retorta. "Foram os próprios garimpeiros que me pediram isso para provar às autoridades que eles estão verdadeiramente se esforçando", conta a professora. A ideia foi exatamente trabalhar com o aço inoxidável e projetar uma tampa apertada, mas este metal não é encontrado facilmente na região. "Para todas as técnicas que tentamos melhorar, cada vez éramos confrontados a esse problema: a fabricação de ferramentas deve poder ocorrer com materiais que encontramos no local e que são, muitas vezes, rudimentares". Ao final, a ideia é de compartilhar o máximo possível dessas novas técnicas. 

A retorta recriada passou assim de comunidade a comunidade. Uma vez que todas as melhoras possíveis foram feitas, planos e técnicas serão compartilhadas, por exemplo, através da internet. Dessa forma, todos os garimpeiros que o desejarem poderão fabricar o instrumento. "Nosso objetivo não é obviamente de fazer negócios", sorri Carole Baudin.


Adaptação: Alexander Thoele, L'Express/L'Impartial

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