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Reações ao massacre em Paris


"Caricaturas como as do Charlie Hebdo devem chegar aos limites"




O jornalista, cartunista e diretor do semanário Charlie Hebdo, Stephane Charbonnier, está entre as vítimas do ataque em Paris. (Reuters)

O jornalista, cartunista e diretor do semanário Charlie Hebdo, Stephane Charbonnier, está entre as vítimas do ataque em Paris.

(Reuters)

O ataque à redação do seminário satírico Charlie Hebdo em Paris, no qual morreram quatro ilustradores e mais oito pessoas, causou comoção mundial. A diretora do Museu da Caricatura na Basileia, Anette Gehrig, defende que não haja tabus para as caricaturas, mesmo quando tratam de temas polêmicos.

O museu é um dos poucos na Europa a se voltar para a arte satírica. A diretora Anette Gehrig lida diariamente com obras que provocam em muitas pessoas o riso, mas em outras indignação ou raiva.

swissinfo.ch: Como a senhora avalia o ataque ocorrido em Paris?

Anette Gehrig: Estou chocada e emocionalmente muito atingida. Não apenas pelo fato de conhecer a revista, mas também por já ter encontrado pessoalmente os caricaturistas Cabu e Wolinski (duas das vítimas dos ataques).

swissinfo.ch: A Charlie Hebdo é conhecida pelas suas caricaturas provocadoras, que muitas vezes abordam também o islamismo radical. O Museu da Caricatura já exibiu algumas dessas ilustrações?

A.G.: O museu também trata desses temas críticos. Dentre outras, já organizamos exposições como a do ilustrador alemão Ralf König, que abordou no seu trabalho a controvérsia das caricaturas.

swissinfo.ch: Alguns muçulmanos ficaram ofendidos em sua crença através dessas caricaturas. Qual a sua opinião?

A.G.: É preciso se perguntar fundamentalmente onde essas caricaturas foram publicadas. Se uma revista satírica você espera humor. O Charlie Hebdo está fortemente enraizado na cultura francesa. A revista tem uma história por trás. Seu público espera que ela trate também desse tema. É um espaço muito diferente de um museu.

swissinfo.ch: Qual é a diferença?

A.G.: A sátira também faz parte do nosso programa, mas de um museu espera-se mais a abordagem do contexto, uma análise do tema. Em alguns deles como a religião, onde o clima político já está bastante encrespado, então é obviamente polêmico de tratá-lo em uma exposição. Como curadora tenho a preocupação de apresentá-lo no seu contexto, com material de base.

swissinfo.ch: A senhora compartilha da opinião que existam limites para a sátira, limites que não poderiam ser ultrapassados?

A.G.: Em uma revista satírica como a Charlie Hebdo não deveria haver fronteiras, mas no contexto de um museu sim. O museu tem outro objetivo. Nele são feitas outras abordagens, nos quais os temas são discutidos e apresentados de forma mais ampla para permitir uma melhor compreensão.

swissinfo.ch: Ao levar em consideração a sensibilidade de determinados públicos, o museu não corre o risco de autocensura ou estar limitando o direito de liberdade de opinião.

A.G.: Isso não é o que quis dizer. A liberdade de opinião deve ser protegida de todas as formas. Mas em um museu é possível criar um ambiente para facilitar o acesso às pessoas que têm dificuldades de aceitar emocionalmente alguns temas polêmicos.

swissinfo.ch: O museu apresentaria ou não as caricaturas críticas ao Islã do Charlie Hebdo?

A.G.: No nosso caso elas seriam incluídas e comentadas, mas estaria fora de questão simplesmente pendurá-las.

swissinfo.ch: Mas uma caricatura não deveria ser um pouco desrespeitosa e mexer com as pessoas?

A.G.: Existe uma diferença entre algo que mexe com as pessoas e o respeito. Um caricaturista coloca-se na situação, mas também no estado mental das pessoas. Ele se aproxima muito delas e quer que sua caricatura cause uma impressão. A arte máxima de um caricaturista é se equilibrar entre esses dois polos.

swissinfo.ch: Depois do ataque em Paris o museu fará mais atenção na escolha das caricaturas expostas ou, ao contrário, irá procurar também chegar aos limites?

A.G.: Algo de impensável acaba de ocorrer, algo que precisamos ainda processar. É preciso fazer uma avaliação profunda da situação. Mas o museu sempre está testando os limites. Precisamos nos questionar quais são os temas importantes para a sociedade e é isso o que continuaremos a fazer.

Imprensa suíça considera atentado como uma declaração de guerra

A imprensa suíça ecoa em uníssono a indignação e o choque estampado nos jornais franceses.

O “Le Temps” fala de uma “Guerra à democracia no coração de Paris”. Para o jornal, o ato terrorista “tinha dois objetivos, além do massacre planejado de civis: assassinar a liberdade de expressão e aniquilar os valores da democracia. Os terroristas queriam, neste 7 de janeiro, não só cometer um ato desumano, mas também criar o caos”.

Por sua vez, o “24 Heures” diz ser necessário “derrotar o fascismo e o obscurantismo pela lei e a consciência”. O jornal também fala de “batalhas perdidas todos os dias no mundo” para a razão e o pensamento livre e diz que “não pode haver meio termo. A liberdade de pensamento é incondicional”.

Na região de língua alemã, a consternação com o atentado também está em todas as manchetes dessa quinta-feira, 8 de janeiro.

O “Tages Anzeiger”, de Zurique, se preocupa com as medidas de segurança cada vez mais necessárias para a democracia e entrevista um especialista alemão em terrorismo, Guido Steinberg, que questiona as medidas de segurança tomadas pelo pasquim francês.

O “Neue Zürcher Zeitung” fala de “Jihad em seu próprio país”, enquanto divulga as fotos dos terroristas procurados pela polícia francesa, lembrando que os assassinos, os irmãos Kouachi, já eram conhecidos pela polícia há anos.



Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch

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