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Refugiado político chileno


"Eramos jovens e idealistas"


Por Stefania Summermatter, Rancate


 (swissinfo.ch)
(swissinfo.ch)

Preso e torturado durante a ditadura de Augusto Pinochet, César Cabrera faz parte da centena de chilenos que encontraram refúgio na Suíça. Aos 72 anos, ainda acontece de acordar durante a noite, gritando, ou lendo Marx escondido no porão.

Dia 11 de setembro de 1973. Transcorreram 40 anos do golpe de Estado no Chile e portanto o tempo parece que parou. “Ve aquela foto lá em cima? Sou eu sentado ao lado de Salvador Allende”.  Muitos episódios da vida de César Cabrera estão pendurados aqui: a ordem de prisão agora amarelada, a foto tirada no dia do exílio, um diploma de professor.

“São as únicas coisas que carreguei quando fugi do Chile.  Então disse a mim mesmo que se levasse um tiro morreria com minhas fotos e meus livros”, diz ele em tom grave. Depois sorri e acrescenta: “Éramos tão jovens e idealistas...”

César Cabrera chegou à Suíça 30 anos atrás, fugindo de duas ditaduras: a militar de Pinochet e a comunista de Ceausescu.

Hoje, aos 72 anos, esse refugiado político chileno me recebe em sua casa de Rancate, no cantão do Ticino, sul da Suíça. Bermuda e camiseta, descalço, ele abre os braços em sinal de hospitalidade, como se fossemos velhos amigos.

A via chilena do socialismo

Crescido em uma família de intelectuais fortemente politizada, César Cabrera começa sua militância no Partido Socialista Chileno aos 15 anos. Desde jovem luta ao lado de mineiros e pescadores por um salário justo e ensina as crianças e ler e escreve seguindo a pedagogia da libertação.

Quando Salvador Allende chega ao poder m 1970, César Cabrera é nomeado dirigente regional. Os primeiros meses são de entusiasmo. “Allende lançou a reforma agrária, decretou o direito à instrução, nacionalizou a produção de cobre e outras matérias primas. Com o passar do tempo, no entanto, começamos a sentir os efeitos do boicote e o espectro de uma guerra civil.”

Allende foi longe demais? Cabrera é categórico: “Ainda estou convicto que era um programa democrático popular, não revolucionário. Mas é claro que ia contra os interesses das multinacionais e dos Estados Unidos, em plena guerra fria.”

A ditatura

Com o golpe de Pinochet, Cabrera entra na clandestinidade e ensina em uma escola rural. É ali que poucas semanas depois militares vêm prendê-lo em uma operação em grande estilo. “Me obrigaram a me despir e me bateram na frente dos alunos. Eu pedi que se acalmassem porque os soldados tinham ordem de atirar em qualquer um.”

De um pequeno cárcere de província. Cabrera foi transferido para o Estádio Nacional e depois para a ilhota de Quiquina, dois símbolos da repressão de Pinochet.  

“Fiquei na prisão dois anos e meio, torturado”. Sua voz treme quando conta que às vezes ainda acorda durante a noite, gritando.  As feridas ressurgem como espinhos.

"Levantavam pelos  pés, como um guindaste, e colocavam a cabeça debaixo d’ água. Para cima e para baixo, para cima e para baixo. Então davam choques elétricos, queimaduras, sepulturas cavadas à mão. ".

A fuga

O que salva César Cabrera é seu oficio de professor e um pouco sorte. “Eu era o único professor da região ainda em vida. Assim, quando o regime me pede para preparar um espetáculo de ginástica para a inauguração de um estádio, é minha primeira ocasião de fuga.”

Chegando a Santiago, procura refúgio na embaixada da Itália. “Me escondi atrás de uma árvore, esperando a troca de guarda. Então corri e pulei o muro no único espaço em que não havia arame farpado”. Atiraram nele, mas não acertaram.  

Depois de oito meses, em março de 1976, chegou o decreto de expulsão das autoridades chilenas. Destino: a Romênia de Nicolae Ceausescu, um dos poucos países do bloco comunista que tinha cortado relações com Pinochet. Cabrera tem 35 anos e um carimbo no passaporte de um L maiúsculo, “proibida a entrada no Chile.”

Comunismo e luta armada

“Agora que estou velho posso contar. Quando cheguei a Bucareste me coloquei à disposição do partido comunista chileno, política e militarmente”. Cabrera é mandado à Rússia, à Cuba, Bulgária e Alemanha Oriental para estudar marxismo e leninismo e preparar-se para a luta armada. É uma imagem de guerrilheiro difícil de conciliar com a que está à minha frente, de um antigo professor de olhar terno e modos pacatos.

Pergunto como se justifica essa escolha. César Cabrera pega um copo d’agua, olha direto nos meus olhos e prossegue. “Estava disposto a tudo para voltar ao Chile. Finalmente livre. Só com o tempo me dei conta de ter caído em um infantilismo revolucionário.”

Na Rússia, Cabrera aprende a dirigir tanques e a perseguir, em vão, o sonho de um novo Homem. Chega então a primeira ducha fria: “Com o pretexto de adquirir experiência de campo, queriam mandar-nos combater em Angola e no Congo. Nós recusamos, não era a nossa guerra.”

A crítica da União Soviética e do regime de Ceausescu, rendeu-lhe um campo  de trabalho forçado. Chegou então  o dia da fuga, a segunda. Desta fez foi acolhido na Suíça, um pais que se define “altamente democrático” e “irremediavelmente capitalista”.  Depois, “por ironia da sorte, é aqui que encontrei minha esposa e paz.”

Romper as amarras

Sentado em uma mesa no jardim, com um pedaço de tortilha chilena e um café, César Cabrera me fala de seu primeiro ano na Suíça: as dificuldades econômicas, a solidariedade da família no Ticino, o encontro com a esposa Daniela, a entrevista para um cargo de professor de adultos. “Andava vestido com o que o padre me dava. Era roupa de morto, mas elegantíssimo.”

Poder voltar a ensinar foi sua salvação, diz. “Teria aceito até um cargo de zelador para estar dentro de uma escola”. Quando era mais jovem, os estudantes vinham em seu jardim estudar as lições de espanhol, discutir historia e política. E seus compatriotas organizavam a resistência neste jardim.

Hoje César Cabrera não faz mais política, pelo menos em um partido. A seus estudantes conta sua experiência no Chile. “Para que as pessoas não se esqueçam”.  E quanto precisa de resposta, desce para o porão e abre O Capital de Marx.  Olho para ele, surpresa. Ainda acredita, depois de tudo que viu? “Não creio na ideologia politica, mas no marxismo como filosofia”. Ele abre um sorriso. “Nos chamam de idealistas românticos. Aqueles ainda creem em um mundo melhor e na necessidade que o povo consiga enfim romper as amarras.”


Adaptação: Claudinê Gonçalves, swissinfo.ch



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