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Saúde Ceticismo em relação à vacinação é fenômeno de país rico

Mão segurando seringa

Vacinar ou não? O debate é acirrado na Suíça entre os defensores e os contrários às vacinas.

(Keystone / A4642/_lukas Schulze)

Alguns pais na Suíça não vacinam os filhos, impedindo assim a erradicação de doenças. Quais são seus motivos?

No início de fevereiro uma escola na Suíça viveu um surto de sarampo. As autoridades solicitaram então que 60 crianças não vacinadas ficassem em casa para que a doença não se propagasse.

Masern Biel

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Não foi a primeira vezLink externo que uma das escolas da rede Waldorf foi vítima de uma epidemia de sarampo. Um porta-voz do governo declarouLink externo à mídia que o aumento no número de casos em escolas Steiner não tinha sido apenas uma coincidência. Estas escolas ensinam de acordo com uma pedagogia inspirada nas teorias do filósofo austríaco Rudolf SteinerLink externo (1861-1925). O fundador da antroposofia não via com bons olhosLink externo as vacinas. Por isso alguns pais de crianças inscritas nessas escolas tendem a não vacinar seus filhos.

Sarampo

O sarampoLink externo é uma doença infeciosa altamente contagiosa. A transmissão ocorre através de infeção por gotículas quando o doente tosse ou espirra. O maior risco no sarampo são suas possíveis complicações como pneumonia e encefaliteLink externo. As epidemias ocorrem periodicamente na Suíça. Depois de o sarampo ter sido quase erradicado em algumas regiões, o número de casos voltou a aumentarLink externo em todo o mundo.

Fonte: Departamento Federal de Saúde Pública

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No passado era comum que famílias adeptas à filosofia de Rudolf Steiner de organizar encontros para permitir que o maior número possível de crianças se contaminasse com diferentes microrganismos para então se imunizar das doenças infantis. «Essas festas para a promoção de infecções eram realizadas até os anos 1990", confirma Thomas Didden, diretor da AssociaçãoLink externo Suíça de Escolas Rudolf Steiner, completando. "Mas não soube de nenhuma que tivesse sido realizada. Em todo caso, eu não recomendaria participar delas."

Didden não sabe dizer quantas das crianças são vacinadas nas escolas que administra. Elas não fazem estatísticas e não recomendam vacinações específicas aos pais. "Somos educadores e não médicos", explica Didden.

Doença como oportunidade de desenvolvimento

Para entender o fenômeno do grande número de crianças não vacinadas inscritas nas escolas Steiner, questionamos um médico antroposófico (n.r.: porém nem todos os paisLink externo se declarem antroposóficos). Segundo o pediatra Bernhard Wingeier, da Clínica Antroposófica de ArlesheimLink externo, a filosofia do movimento vê o humano de uma forma mais ampla do que um simples ser vivo.

Essa imagem diferente do ser humano também muda a compreensão de doença na medicina antroposófica: "Acreditamos nos poderes de auto-cura e sabemos como ativá-los", defende Wingeier. "Na medicina antroposófica, a doença é vista não só como um mal a ser eliminado, mas também com uma forma de desenvolvimento, especialmente para as crianças. Através da febre e das doenças infeciosas a criança aprender a superar essas situações de crise, o que promove seu desenvolvimento e o do sistema imunológico.

Essa menina de sete anos no cantão de Schwyz estava sofrendo em 2003 de sarampo.

(Keystone / Urs Flueeler)

Ao contrário das pessoas que se opõem integralmente a vacinas, os médicos antroposóficos abrem exceções. Bernhard Wingeier sempre recomenda a vacinação contra o tétano. No caso de doenças infantis, ele prefere aconselhar os pais de forma individual. "Na antroposofia é fundamental reconhecer a individualidade."

Portanto, tudo depende da situação dos pais. Uma mãe solteira, que necessita trabalhar, pode ser menos possibilidades de cuidar de uma criança com febre alta. "Mas sé é possível para os pais de uma criança lidarem com o sarampo, então eles poderiam esperar até a puberdade antes de vaciná-la". Todavia o médico recomenda uma vacinação para adultos por causa de complicações possíveis advindas da doença.

Individualismo vs. saúde pública

Essa posição especial em relação às vacinas se tornou popular na Suíça mesmo entre os não adeptos da antroposofia. "O fato de muitas pessoas questionarem recomendações oficiais, seja de médicos ou das autoridades, poderia ser visto com um sinal dessa era que vivemos, a da medicina pós-moderna e personalizada", avalia Philip Tarr, médico-chefe no Hospital Cantonal da Basileia-campo, responsável pelo programa nacional Link externode pesquisa sobre pais e médicos céticos às vacinas. 

A medicina individualizada contrapõe os esforços da Organização Mundial de Saúde (OMS) de erradicar determinadas doenças do mundo, dentre elas o sarampo. Segundo os especialistas, os grupos contrários às vacinas se tornaram uma ameaça global. 

O segundo problema é que as pessoas não vacinadas colocam em risco outras pessoas que não podem ser vacinadas como recém-nascidos, grávidas ou pessoas, nas quais as vacinas não fazem mais efeitos. Na Suíça, por exemplo, um homem vacinado morreu de sarampo em 2018 depois que seu sistema imunológico foi enfraquecido através de uma quimioterapia. O individualismo também colide com o princípio da solidariedade.

Quem são e porquê?

A questão é saber por que alguns pais não vacinam seus filhos e entender suas razões. Um estudo científico Link externomostra, por exemplo, que as taxas de vacinação em algumas regiões ricas na Alemanha são extremamente baixas.

Também nos Estados Unidos, um número considerável de crianças não vacinadas vem de famílias brancas da classe média e instruídas. Porém há casos também entre famílias afro-americanas, com baixo nível de educação e residentes em bairros urbanos desfavorecidos. A razão estaria mais no acesso dificultado à saúde. Outro grupo atingido pelo problema são os que vivem em comunidades isoladas nos meios rurais como os mórmons ou amish.

A situação na Suíça é semelhante: "Constatamos que até pais com bons níveis educacionais recusam-se a vacinar seus filhos", explica Mark Witschi, responsável pelas campanhas de vacinação no Departamento Federal de Saúde Pública. A não vacinação seria um típico fenômeno da prosperidade vivida no país. Essa posição é bastante comum entre esotéricos, seguidores da medicina alternativa e apaixonados pela natureza.

No entanto, o grupo integralmente contrário às vacinas corresponde apenas a 1 a 3 por cento da população do país. Seus militantes Link externoalertam constantemente contra a indústria farmacêutica e os supostos danos causados pela vacinação. "Seus argumentos são muito diversos. Eles manifestam desde dúvidas em relação à segurança das vacinas e seus aditivos, até defendem uma abordagem mais 'natural' da vida, afirmando que um sistema imunológico fortalecido naturalmente seria melhor do que um formado através de vacinas", explica Tarr.

As taxas de vacinação variam nos diferentes cantões (estados) da Suíça. Isso se explica não apenas pela ideologia - os suíços de língua alemã tendem a ser mais conservadores do que os de língua francesa e italiana - mas também a facilidade de acesso às vacinas: nos cantões com programas de vacinação escolar, as taxas são mais elevadas.

Segundo Witschi, muitos suíços se esquecem de vacinar até por simples negligência. Outros consideram simplesmente desnecessárias as vacinas contra algumas doenças, mesmo o sarampo.

Vacinação obrigatória impensável

A vacinação não é obrigatória na Suíça, ao contrário de países como Itália, França e Estados Unidos. Também não há planos de introduzi-la. Assim como na Alemanha, as chances são muito reduzidas de encontrar apoio político. "A liberdade de escolha, garantida na Constituição suíça, é o argumento mais forte contra a vacinação obrigatória", conclui o médico.


Adaptação: Alexander Thoele

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