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Sinos olímpicos


Badalares suíços para as pistas de corrida


Por Alexander Thoele, La Chaux-de-Fonds


Mesmo a mais moderna tecnologia não substitui tradições olímpicas como os sinos utilizados para marcar a última rodada em algumas modalidades esportivas. Os vinte e um sinos que participarão da Rio-2016 vêm de um pequeno vilarejo nas montanhas suíças. swissinfo.ch visitou o ateliê. 

Serge Huguenin com um dos sinos oficiais da Rio-2016 em sua oficina em La Chaux-de-Fonds. (swissinfo.ch)

Serge Huguenin com um dos sinos oficiais da Rio-2016 em sua oficina em La Chaux-de-Fonds.

(swissinfo.ch)

A rua estreita leva diretamente ao centro de La-Chaux-de-Fonds, cidade de 40 mil habitantes ao noroeste da Suíça. Nela encontra-se um antigo prédio, cuja fachada não foi pintada há anos. O reboco até começa a cair. Se não fosse a pequena placa pendurada no alto, poderia se pensar que se trata de uma garagem. O ateliê "R. Blondeau" é um dos últimos fabricantes de sinos da Suíça.

Penetrar nesse ambiente é como viajar no tempo. As paredes foram escurecidas pela fuligem. Sinos em diversos tamanhos estão empilhados em prateleiras. Garfos de metal com ornamentos e letras diversas foram perfilados ao lado de outras ferramentas. Latões abrigam barras ou sobras de metal. Ao fundo, escuta-se o barulho ensurdecedor da fornalha, que expele uma chama viva de um orifício superior, como a turbina de um avião.

Esse é o ambiente de trabalho de Serge Huguenin, 52 anos. Com sua estatura de pugilista, cabelos brancos e barba por fazer, ele corresponde a imagem que temos das pessoas que trabalham com o fogo e o metal. Em suas mãos, o motivo do orgulho profissional: um dos vinte e um sinos que ele acaba de fabricar por encomenda do fabricante suíço de relógios Omega para os Jogos Olímpicos de Verão no Rio de Janeiro. As peças serão utilizadas junto com outros equipamentos de cronometragem de alta precisão para marcar a última volta nas provas de corrida de longa distância, atletismo e até dentro dos velódromos, nas competições de ciclismo.

Mais de trinta anos de Olimpíadas

Para Huguenin, a honra de ser fornecedor olímpico não é uma novidade. Já nas Olimpíadas de Moscou (1980), Los Angeles (1984), Seul (1988), Atlanta (1996) e Sydney (2000) a pequena fundição suíça havia fabricado os sinos de marcação, uma tradição que perdura desde os primórdios dos jogos em 1896. "Só nos jogos de Barcelona não fizemos os sinos, pois os organizadores haviam escolhido uma outra empresa de cronometragem", explica o fundidor.

Enquanto conversa, o suíço se prepara para voltar ao trabalho. Ele veste as luvas de amianto e os óculos de proteção e abre a fornalha, onde joga algumas peças de cobre e estanho. Depois de fechar a tampa, aumenta a força do fogo. O processo de fabricação de um sino é simples e praticamente não mudou ao longo dos séculos. O modelo do sino é feito com areia importada de Paris. Depois entra em uma forma, na qual será jogada uma liga de metal - 80% de cobre e 20%, estanho - a 1.100 graus centígrados. Depois de esfriar, o sino é retirado da forma e trabalhado em um torno até perdes arestas e ganhar o brilho tradicional.

Sinos pertencem ao passado

A fundição R. Blondeau foi fundada em 1830 por imigrantes italianos da região do Piemonte. Em 1966 ela foi comprada por Raymond Blondeau dos descendentes. O principal produto sempre foram os sinos para vacas, mas também comemorativos. A passagem para a geração seguinte só ocorreu em 1987, quando seu genro, Serge Huguenin voltou à Suíça após uma longa viagem e encontrou-se sem trabalho. "Eu e minha esposa tínhamos ido de carro até a Costa do Marfim, na África. Ao retornar, não sabia o que fazer. Então meu sogro propôs trabalhar com ele na fundição", lembra-se. Em 1990 o suíço nascido em La-Chaux-de-Fonds e sua esposa, Christine, assumiram a empresa familiar. O sogro tem 81 anos, mas ainda não abandonou a profissão. "Sempre que possível ele vem nos ajudar", afirma.

A Suíça modernizou-se e as tradições mudaram com o tempo. Hoje Huguenin já não vive integralmente do trabalho na fundição. "Infelizmente muitos agricultores já não fazem mais questão de colocar um sino em cada vaca ou pendurá-los nas casas. Os mais jovens não valorizam isso", lamenta. Ao longo dos anos, foi obrigado então a demitir até o último dos oito funcionários e hoje só trabalha duas vezes por semana. „Na verdade, vivo hoje da locação de imóveis e transações imobiliárias.

A tradição das fundições de sinos morre aos poucos na Suíça. Hoje só seis empresas familiares ainda atuam: duas na parte germanófona da Suíça e quatro na parte francófona. Os sinos são produzidos hoje para as lojas de souvenires. Os preços vão de 60 francos para os pequenos modelos até 180 para os maiores. "Porém fazemos também edições especiais, maiores ou personalizadas, que podem custar muito mais", ressalta Huguenin.

Clientes famosos

Dentre os seus clientes mais famosos, Jacques Chirac, primeiro-ministro da França em duas legislaturas. "Ele até me enviou um cartão postal em 2003", mostra orgulhoso o documento pendurado na pequena loja ao lado da fundição. Outro encontro famoso foi com Alberto Granado, o amigo com o qual Che Guevara percorreu a América do Sul de moto. "Ao visitar a Suíça, uma associação deu-lhe de presente um sino feito por mim. Então nós nos conhecemos."

Questionado sobre as Olimpíadas, Serge Huguenin afirma que não irá viajar ao Brasil, mas que pretende acompanhar muitas competições pela televisão. Ele já esteve no país em 1985. "Fiz uma viagem de três meses e conheci várias cidades como Brasília, Rio de Janeiro e até a floresta amazônica. Foi uma experiência inesquecível", diz. Apaixonado pelo tênis, sua esperança é ver o mais conhecido atleta suíço, Roger Federer, subir ao pódio com a bandeira suíça. Porém admite que estará de olho nas competições de corrida. "Eu nunca me esqueço das Olimpíadas de Los Angeles em 1984, quando vi pela primeira vez o sino feito por mim sendo utilizado na corrida de 100 metros. Imagine: era o mundo inteiro assistindo", conta orgulhoso.

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