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Crianças carentes


Em defesa de um mundo melhor


Por Dalen Jacomino


A alemã Ute Craemer passou os últimos 40 anos batalhando para que as crianças da favela Monte Azul, em São Paulo, tivessem acesso a uma boa educação. E foi muito mais longe em suas conquistas... Sua trajetória e seus projetos são tema do livro “Die Brückenbauerin”, recentemente lançado na Europa, inclusive na Suíça.

 (Monte Azul)
(Monte Azul)

Cerca de 11,4 milhões de brasileiros  (ou 6% da população) vivem em condições precárias de infraestrutura, serviços públicos, saúde e educação, segundo dados de 2011 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa população se encontra nas 6.329 favelas do país, localizadas em 323 municípios. Transformar a dura realidade dessas pessoas, principalmente das crianças carentes, tem sido o projeto de vida da pedagoga alemã Ute Craemer, 76 anos.

Ute nasceu em Weimar, Alemanha, no final da Segunda Guerra Mundial. Viveu em meio a bombas, passou fome. Emigrou com sua família para Áustria, antiga Iugoslávia, Egito e Paquistão.  Acabou desembarcando no Brasil em 1965 para um trabalho voluntário em uma favela em Londrina, Paraná. Durante essa experiência de dois anos, acabou descobrindo sua paixão pelo Brasil e sua missão profissional, que é trabalhar com crianças.

Voltou ao Brasil em 1971 com um diploma nas mãos para lecionar às crianças abastadas da Escola Waldorf em São Paulo. Como morava na periferia, acabou se deparando novamente com crianças carentes, desta vez da região da favela Monte Azul. Foi aí que deu início a uma longa jornada em que a determinação e o foco no ser humano a guiavam. No início, acolheu algumas crianças carentes em sua própria casa. Iniciou os trabalhos educacionais trazendo as brincadeiras e atividades da pedagogia Waldorf para esse grupo. Criou a Associação Comunitária Monte Azul, que hoje, depois de 40 anos, atende 1280 crianças e jovens, conta com uma escola Waldorf para 100 alunos, ambulatório, casa de parto, centro cultural, refeitório e muito mais. 

Sua história é o tema do livro “Die Brückenbauerin” (numa tradução livre, algo como “Criadora de Pontes”), da escritora alemã Dunja Batarilo. Durante o tour de lançamento da obra pela Alemanha e Suíça, em novembro, Ute falou para swissinfo.ch sobre sua trajetória, desafios, conquistas e sobre educação.

swissinfo.ch: A senhora nasceu na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Chegou a viver em meio a bombas, que caiam próximo à sua casa. Passou fome.  O que ficou desta experiência inicial de sua vida?

Ute Craemer: Toda essa minha infância e juventude fez com que eu refletisse mais sobre a miséria que existe no mundo. E o que poderia fazer com tudo isso. A miséria é enorme. Nos sentimos impotentes. Mas mesmo assim dá para fazer algo dentro da possibilidade de cada um.

Quanto às bombas, à fome que passamos, minha família conseguiu não mostrar o medo que ela sofria. Brincávamos muito em casa. Não posso falar que fui traumatizada pela guerra. Eu vi certas coisas. Mas depois refleti sobre essa experiência.

swissinfo.ch: Como a senhora foi parar em terras brasileiras?

U.C: Surgiu desse desejo de fazer algo para combater a miséria. Em 1963 foi criado na Alemanha o Deutsche Entwicklungsdienst, serviço que estimulava a ajuda a países subdesenvolvidos. Me inscrevi. E aí surgiu um projeto no Brasil, numa favela em Londrina, no Paraná. Fui para lá em 1965, fiquei morando na favela e trabalhando como voluntária. Foi aí que descobri o como é bom trabalhar com crianças. Fazíamos teatro, brincávamos com as crianças. Na verdade, ali descobri minha profissão.

swissinfo.ch: Como foi a criação da Associação Comunitária Monte Azul?

U.C.: Depois de dois anos em Londrina, na favela, voltei para a Alemanha. Fiz o seminário de formação em pedagogia Waldorf, em Stuttgart. Queria mesmo era voltar ao Brasil. Sabia da existência de uma escola Waldorf em São Paulo. Me inscrevi. Não foi muito fácil, mas acabou dando certo. Cheguei então em 1971, na época da ditadura militar, em São Paulo para trabalhar nessa escola.

Ali tive uma experiência diferente, já que as crianças eram em sua maioria descentes de alemães, holandeses, e vinham de uma classe média e média alta.   Nessa época, morava na periferia. E ali me deparei com crianças da favela  Monte Azul, que estavam mendigando. Logo entendi que era o momento de fazer uma ponte entre os alunos da escola Waldorf e aquelas crianças da favela. Esse ponto de encontro foi em minha casa. As crianças da favela brincavam, aprenderam muitas coisas com os alunos da escola e vice-versa.

swissinfo.ch: E o projeto foi crescendo...

U.C.: Como recebíamos cada vez mais crianças, resolvi fundar uma associação em 1979, a Associação Comunitária Monte Azul.  Aos poucos contamos com a ajuda de profissionais e parceiros: professores, marceneiro, cozinheiro. Começamos a oferecer um serviço de jardim da infância, um centro de juventude e atividades de marcenaria. Tudo bem simples.

swissinfo.ch: Levantar verba sempre é um desafio nesse tipo de projeto. Como foi no seu caso?

U.C.: Levantar fundos sempre foi e continua a ser um problema. Na início, com o crescimento da associação, percebi que precisávamos de um local fora da minha casa para nos estabelecer. Comecei a escrever cartas, primeiro para brasileiros, pedindo ajuda. Mas não deu muito resultado. Aí comecei a escrever a organizações internacionais. O retorno também não foi muito positivo. Um advogado em Munique viu uma dessas cartas, me escreveu de volta perguntando o que eu iria fazer com os 10 mil marcos alemães que solicitava na época. No final, ele acabou enviando o dinheiro. Com isso, conseguimos construir uma escolinha de madeira bem simples. E seguimos em frente. Começamos a participar de movimentos grandes para conseguir verbas das secretarias do estado. Foi tudo uma luta.

swissinfo.ch: E hoje, como a associação financia suas atividades?

U.C.: Metade das nossas finanças vem dos convênios com a Secretaria Social do estado. A outra metade é por captação de recursos, com pessoa física, fundações, e é geralmente limitada no tempo. Temos amigos na Alemanha, na Suíça e em outros países que colaboram com o que podem. Mais recentemente contamos também com doações que ocorrem após minha palestra.

swissinfo.ch: Quantas crianças já foram beneficiadas pela associação?

U.C.: Hoje atendemos 1280 crianças e jovens, inclusive jovens com deficiência. Temos também um ambulatório que recebe 2000 pacientes por mês. Temos um centro cultural com orquestra, aulas de línguas, grupos de teatro. Neste setor atendemos 500 crianças. Agora, mais recentemente, abrimos uma escola Waldorf, que recebe 100 crianças. Temos uma horta orgânica que está a serviço do nosso refeitório.  Servimos 3000 refeições por dia. Temos uma Casa de Parto, que oferece todo atendimento às gravidas tendo como base o parto humanizado. Oferecemos oficinas de marcenaria, informática, padaria, secretaria, jardinagem, cursos de pedagogia. Atingimos basicamente a população de duas favelas e um bairro operário.

swissinfo.ch: Todo o projeto é fundamentado na visão antroposófica. Em que isso faz a diferença?

U.C.: A diferença é que acreditamos que todo ser humano tem algo dentro de si que vale a pena respeitar e desenvolver, um cerne espiritual. Até um bandido. Ele também tem um cerne espiritual, só que ele está muito escondido, porque já se drogou muito, já roubou. Ficou algo endurecido. Dentro deste endurecimento, existe algo também valioso, um brilho, uma pérola. E apostamos nela.

swissinfo.ch: Durante esses 40 anos de Brasil, qual foi o seu maior desafio?

U.C.: No fundo, o maior desafio é a indiferença da classe mais abastada. Ninguém queria saber da favela. Dentro da favela existem também bandidos que se escondem por ali. Mas a maioria é trabalhadora. Muitos construíram prédios, estradas, o metrô da cidade. Só que depois tinham que ir morar em favelas por falta de recursos. Lidar com essas duas forças dentro da favela é também um desafio.

Ficha Técnica

Livro: Die Brückenbauerin

Autora: Dunja Batarilo

Editora: Scoventa Verlag

swissinfo.ch: A reação da sociedade brasileira em relação às favelas, às crianças e famílias carentes mudou nos últimos anos?

U.C.: Uma parte da classe intelectual construiu, sim, um Brasil mais moderno, fundamentado nos direitos humanos. Darcy Ribeiro e muitos outros pensadores e pedagogos conseguiram montar uma das melhores constituições que existem no mundo, um estatuto da criança e do adolescente que realmente protege esses grupos. A outra parte da classe média, média alta, reage quase sempre se protegendo. Toda essa indústria da segurança cresceu demais.  Antigamente, não haviam tantos condomínios, muros, carros blindados. Tudo isso foi criado para proteger essas pessoas. É claro, cada um tem que ver como se protege. Mas é preciso contrabalancear com o fato de que tudo isso é resultado de uma história e de uma política do país. Cada um poderia, dentro da sua possibilidade, fazer com que essa situação de insegurança, que tem a ver com a desigualdade econômica, possa ser amenizada com o tempo. Não só se proteger, mas fazer algo.

swissinfo.ch: Parte dessa criminalidade vem de uma situação de desigualdade. Mas de uns anos para cá temos assistido mais casos de violência exacerbada, em que a vida humana vale pouco. Concorda?

U.C.: Essa violência tem muito a ver com a droga. A droga não começou na favela. O álcool sempre existiu nas populações mais pobres. Mas a droga veio da classe alta para média e desceu para a favela. Por exemplo, um ponto de droga é geralmente na favela. Por quê? Porque é mais fácil. A polícia também, muitas vezes, é corrompida e acaba deixando que os pontos de distribuição funcionem. Esse esquema, é claro, também contaminou quem vende. Com isso, existem cada vez mais viciados na favela. O problema é que se você consome e não paga, você será morto. Com isso, começam os pequenos assaltos nas ruas.  Além disso, muito do que se vê nas mídias e na internet acaba incentivando essa violência exacerbada. Nesses jogos eletrônicos, por exemplo você aprende a matar sem dó. Afinal, você atira, a pessoa cai e se levanta novamente.

swissinfo.ch: Em que o livro “Die Brückenbauerin” é diferente dos outros livros seus já publicados?

U.C.: O livro é de autoria de Dunja Batarilo e relata a minha história, desde a minha infância, passando pela criação da Monte Azul e inclui também outros projetos dos quais faço parte, como a Aliança pela Infância. A obra é escrita em alemão e voltada ao público estrangeiro. Mas eu escrevi outras obras ao longo de minha carreira, tais como  “Crianças entre luz e sombras” e “Favela Kinder”. O livro “Transformar é possível” foi escrito por mim e outros autores da Monte Azul.  O “Favela Monte Azul” também foi produzido com colaboradores.

swissinfo.ch: Como foi o tour de lançamento na Europa?

U.C.: Foi muito bom. Combinamos a leitura de passagens do livro com apresentação musical dos dois violonistas brasileiros,  Eduardo Macedo e Marcelo Miguel,  que são ex-alunos da Monte Azul, e que agora vivem na Europa. 

Para quem quer contribuir

Para quem estiver interessado em contribuir com o projeto, seja com doações ou trabalho voluntário, acessar diretamente o website da Associação Comunitária Monte Azulwww.monteazul.org.br ou www.monteazul.de

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