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Genebra


Um cardápio de cultura e alimentação equilibrada


Por Nelson Pereira


Os restaurantes e as livrarias não costumam andar pelos mesmos caminhos. Se por acaso se instalam na mesma rua, não se falam. A carioca Patrícia Coelho quis juntar na mesma casa actividade cultural, mobilização cívica, responsabilidade social e alimentação saudável.

Concertos musicais fazem parte do programa oferecido no Les Recyclables.  (swissinfo.ch)

Concertos musicais fazem parte do programa oferecido no Les Recyclables

(swissinfo.ch)

Na livraria-café Les Recyclables, em Genebra, convivem espectáculos musicais, um restaurante de gastronomia equilibrada e livros em segunda mão, tudo regido pelos princípios do desenvolvimento sustentável.

Chegou do Rio de Janeiro há 13 anos, com amor à música brasileira e um diploma em Zootecnia. Agarrou no emprego que encontrou em Genebra, longe dos estudos que fizera: trabalho num bar. No segundo ano, assumiu a gerência de um restaurante com comida do Brasil: “Estava localizado na zona de Paquis, que faz lembrar Copacabana. Foi aí que comecei a introduzir música, tinha muito samba. Funcionou muito bem, consegui criar um ambiente muito brasileiro.”

Sublinha que gosta muito do seu país, mas acrescenta que se adaptou à Suíça sem grande dificuldade. “Estou bem aqui. Saí do Brasil com vontade de conhecer um lugar diferente e aprendi a gostar da Suíça.”

Alimentação equilibrada

Após uma breve tentativa de desenvolver o mesmo modelo noutro bar, decidiu fazer uma formação numa área próxima dos estudos de Produção Animal que tinha feito no Brasil, desta vez voltada para a sustentabilidade e protecção do meio ambiente. Foi o ponto de viragem: “Tive sempre muito interesse pela parte ambiental e o que aprendi ali deu força ao plano de criar um espaço como este, com um menu de alimentação equilibrada, iniciativas sociais e eventos culturais, e uma gestão segundo os princípios do desenvolvimento sustentável e protecção da natureza.”

Patrícia Coelho sonhava com um espaço onde desenvolver iniciativas que encorajassem a participação cívica e o envolvimento associativo, queria ir ao encontro daqueles que pensassem assim, propor um cardápio de alimentação equilibrada num quadro cultural. “Percebi que para mudar o que está mal no mundo você tem de começar lá onde está, com acções concretas no quotidiano. Se você quer proteger o meio ambiente, não fazer tanto lixo, não utilizar tanta energia e outros recursos, não dá sempre para fazer grandes acções ou partir para a China, mas pode fazer ao nível local.”

Depois de um período de gestão de uma pizzaria, onde os clientes estavam habituados a outro tipo de comida e não muito abertos ao menu que queria, no Les Recyclables encontrou o lugar onde era possível pôr em prática tudo o que sonhava.

Atividades culturais

O restaurante partilha o espaço com uma livraria e acolhe palestras e concertos de música. Com uma participação crescente da música brasileira desde que Patrícia assumiu a gestão há quatro anos. O lugar adquiriu uma faceta mais cultural. “As pessoas que têm o hábito de vir, apreciam muito o facto de termos a livraria no mesmo espaço. Estamos perto do IFAGE, tem a escola aqui ao lado, tem o infantário, a universidade. Por isso vêm aqui muitos estudantes.”

O objectivo que continua a nortear este projecto é reunir uma série de referências que criem um local com incentivos ao contacto social, explica Patrícia: “Organizamos aqui eventos culturais – palestras, conferências, apresentação de livros, vernissages, exposições de arte. Todas as segundas-feiras tem música brasileira, às quintas e sextas tem rock, jazz, música do mundo, jazz manouche.” 

Os concertos são das 19h00 às 22h00. Numa segunda-feira vem uma banda tocar Chorinho, na seguinte há uma noite de jam, aberta a artistas amadores. Quando há música brasileira, o menu propõe habitualmente comida do Brasil. O público faz deste lugar um cantinho cheio de calor humano e boa convivência, com a música e os livros pelo meio. Quando há música do Brasil nunca faltam clientes brasileiros e portugueses, mas não são poucos os suíços e outros estrangeiros. E mesmo os mais discretos tamborilam o ritmo na mesa.

Na opinião de Patrícia, a tecnologia está a afastar as pessoas, “uma tendência que observamos não só aqui, porque também vejo isso entre a juventude no Brasil, que não tem o mesmo grau de contacto humano e laços comunitários que tinha na minha geração.” Está convencida de que locais como este contrariam essa tendência de isolamento, pois “criam oportunidades de convivência”.

A mudança no quotidiano

Fala com entusiasmo de um projecto que ganha corpo todos os dias graças a uma equipa empenhada e clientes que são os primeiros a defender os princípios aqui propostos: “Fazemos a triagem dos desperdícios, o que é facilitado pela cidade de Genebra, permitindo separar vidro, plástico, óleo. Igualmente importante é reduzir a utilização – procuramos utilizar menos recursos, água, energia, electricidade, aquecimento. Apostamos também muito na área da alimentação, preocupamo-nos em propor ao cliente uma alimentação saudável, preparando pratos variados.”

No restaurante onde trabalhou antes era muito difícil, porque os clientes, “apesar de serem desportistas de um clube de ténis não queriam pratos bio ou tisanas, só hambúrgueres e bebidas energéticas com muito teor de açúcar, era muito desanimador. Aqui são os próprios clientes que pedem e escolhem pratos saudáveis equilibrados, com os produtos da estação.”

O menu do Les Recyclables tem a recomendação de Fourchette Verte, a etiqueta atribuída aos locais que servem alimentação equilibrada. Os clientes sabem que aqui encontram produtos frescos da estação, cozinha caseira, pequenos pratos dietéticos.

Manter um menu assim não é fácil e surgem por vezes dilemas, confessa a carioca: “O comerciante está condicionado pela oferta no mercado e pelos preços. Os produtos locais são por vezes muito mais caros, mas o cliente aqui é exigente, não aceita facilmente que usemos produtos de fora. Uma vez usámos frango do Brasil, que era 10 francos mais barato, mas os clientes reclamavam. Queríamos uma clientela assim, trabalhámos para isso, mas fazer tudo só com produtos locais seria muito mais caro, seria difícil.”

Projeto social

Os princípios do desenvolvimento sustentável têm implicações de tipo ecológico, social e financeiro. O aspecto social tem a ver com toda a interacção que é criada pelos eventos culturais, mas também com as condições laborais dos empregados, ressalva Patrícia Coelho: “As pessoas que trabalham aqui não têm sobrecargas horárias. Um dos aspectos do desenvolvimento sustentado é também garantir a necessidade social dos empregados de terem tempo livre para a vida privada, para poderem ocupar-se dos filhos. Temos quatro pessoas empregadas que trabalham entre seis e sete horas, não chegam a trabalhar 40 horas por semana, e dividem entre si os horários para que não seja demasiado pesado para ninguém.”

Ao longo do ano acontecem aqui os mais variados eventos. A gerente carioca faz questão de sublinhar que o espaço está aberto a qualquer proposta cultural: seja a apresentação de um livro, uma conferência, uma exposição de arte, um concerto ou um debate filosófico. 

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