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Suíços falam da crise em Portugal


Por Filipe Carvalho, Lisboa


swissinfo.ch reencontrou-se com alguns suíços residentes em Portugal para que partilhassem a sua opinião sobre os últimos quatro anos da crise portuguesa, olhando de frente o futuro do país. Nesta análise sobre o amanhã, o sentimento é unânime: os três encaram o futuro com apreensão e cautela.

Campanha para as eleições legislativas deste domingo. (Keystone)

Campanha para as eleições legislativas deste domingo.

(Keystone)

Neste 4 de Outubro há eleições legislativas em Portugal. Segundo as sondagens publicadas, há fortes possibilidades de a coligação PSD/CDS, que governou nos últimos quatro anos, obter um novo mandato, embora sem a maioria absoluta.

Em Portugal não se antevê nenhuma hecatombe nos partidos políticos que têm governado nas últimas quatro décadas: PS, PSD e CDS. O quadro partidário do país continua semelhante, tendo apenas existido alguma subida, mesmo que ligeira, do PCP e BE. A taxa de abstenção perspectiva-se elevada, tendo no anterior ato eleitoral rondado os 40%. Portugal arrisca-se a ser um caso de exceção na Europa, já que o panorama político tem elevadas possibilidades de permanecer semelhante, não se verificando uma punição das medidas de austeridade por parte dos eleitores.

Os últimos quatro anos do país

Os suíços residentes no país não são exceção e sofreram com a recessão e forte retração do consumo interno. Bárbara Lehman resgata a frase do ex-ministro das finanças e resume a situação vivida: “a economia regrediu bastante com uma estagnação completa devido ao enorme aumento de impostos que implicou igualmente a redução do consumo.” François Vez destaca a problemática da dívida pública sufocante mas enaltece o esforço feito para melhorar a imagem de Portugal perante os credores internacionais como forma de obter “dinheiro com juros aceitáveis, o que permite investimentos na economia e baixar o custo das dívidas familiares”, apesar disso não ser bem compreendido pelos portugueses.

Os últimos quatro anos do sector profissional

No caso de Paloma Brabetz, para além do descontentamento geral da população, sentiu que no “nosso sector temos vindo a ter uma diminuição significativa das vendas causada principalmente pela redução da procura do mercado interno.” Na opinião de Bárbara, a área de design de produtos é das primeiras a sofrer quando há dificuldades; “infelizmente ainda se vê esta área como não primordial ao invés de nos maus tempos se investir no desenvolvimento de novas ideias e conceitos que ajudariam a atravessar a crise de uma forma melhor.” Segundo François Vez, o sector agrícola tem estado num bom momento, graças à procura mundial originada pelos países em vias de desenvolvimento.

O rumo seguido

O rumo que tem sido escolhido para Portugal não gera consenso. Aos três parecem acertadas as estratégias para as exportações e turismo, que têm sido as grandes bandeiras do governo português.

No entanto, Paloma considera errada a opção de vender as empresas públicas e hipotecar a participação em sectores importantes ao futuro comum. Bárbara enaltece o esforço feito pelos particulares no sentido de aumentarem as exportações e cativarem mais visitantes, porém reconhece que “não se pode crescer na exportação sem investimento e os impostos levam todo o dinheiro”. Na visão de François, perante o peso da dívida, aumentar impostos e baixar o consumo é uma solução mas “não favorece o crescimento económico que seria uma maneira de baixar a fiscalidade e diluir a divida”, reconhece.

Para Bárbara, “vive-se pior hoje do que há quatro anos”, pois os serviços públicos estão mais caros e distantes e o rendimento disponível é menor. “É difícil perceber como é possível que a maioria dos bens de necessidade corrente custem o mesmo que em qualquer país do centro da Europa e os portugueses ganham muito menos e mesmo assim vivem e comem todos os dias”, salienta.

As medidas genéricas para Portugal

Novamente, a exportação é apontada por todos como a via mais indicada para ajudar o país a ultrapassar a crise. No entanto, como realça François, essa solução é igualmente frágil devido à redução do custo do trabalho e à dependência da saúde económica dos outros países.  Para ele, o Estado deveria cortar na despesa tendo em conta o retorno de cada euro investido, reduzindo serviços que lhe parecem desnecessários, assim como as poupanças pontuais, por exemplo com a energia. Sobre a fiscalidade, François assume que é necessário baixar os impostos sobre o trabalho e aumentar a taxação do capital, visto que não é estimulante trabalhar com um nível fiscal global superior a 25%.

Bárbara salienta que “não se pode descurar a educação. A saúde e a justiça também não podem ser tão caras que as pessoas não consigam recorrer-lhes”, devendo o Estado coordenar os seus serviços e limitar as exigências feitas a pessoas e empresas já que elas se convertem num custo administrativo considerável; “quase apetece dizer que o melhor é estar quieto”, desabafa. Para Paloma, para além das exportações, dever-se-ia importar menos e aumentar a produção interna de forma a estimular o consumo desses bens e gerar emprego.

A visão sobre a área profissional

Para construir uma melhor cooperação entre Estado e agricultores, as regras feitas por tecnocratas deveriam ser revistas, uma vez que estão distantes da realidade no campo, não trazendo benefícios nem para o ambiente nem para agricultura, segundo François. Ele assume que, particularmente na área de regadio abastecida pela barragem do Alqueva, o agrobusiness está a prosperar, ameaçando a agricultura familiar. Este é um dos riscos de querer atrair investimentos, não importa como. Na fábrica de papel gerida pela família Brabetz, o know-how está todo lá, havendo apenas a necessidade de apoiar e simplificar os mecanismos para a exportação, que sempre foi um caminho por eles seguido. Apesar de todas as condicionantes, Bárbara destaca a falta de consciência de que para criar a imagem integrada de uma empresa é necessário ter pessoas com formação, assim como o custo que existe com licenças de software. Na sua opinião, apenas colocando a exigência em primeiro lugar é que se pode dar oportunidade aos bons profissionais do sector e combater o trabalho desleal e a contrafação.

Visão do amanhã

Não existem medidas simples para a saída da crise e, habitualmente, estas não têm efeitos imediatos. Como Bárbara enfatiza, “Portugal não vive isolado. O seu futuro está assim indelevelmente ligado ao dos seus parceiros e se a Europa conseguir resolver minimamente os seus problemas, Portugal também terá um futuro melhor e mais risonho”. Na sua visão, é preciso que em Portugal se seja mais organizado para que se possam concretizar “objectivos de negócios e de vida que, com trabalho, tempo e energia se conseguem”. François assume que alterar a consciência dos portugueses e a gestão política demorará tempo. Por esse motivo, parece-lhe que no ranking económico Portugal ficará na mesma posição mas em termos de felicidade poderá mesmo baixar. Paloma assume igualmente a necessidade de haver tempo para alterar algo nas raízes e, por isso, não está otimista. “Vamos ver nas próximas eleições em que direção o povo quer ir, se realmente quer uma mudança e altera a direção ou se fica tudo igual”, conclui Paloma.

Apesar de todas estas dificuldades com que o país se vê confrontado, com maior participação na vida colectiva e consciência do caminho que se ambiciona trilhar, será possível criar condições para construir um futuro conjunto melhor.

Que são os entrevistados?

Bárbara Lehman – Art Director e sócia-gerente na empresa Besign.

http://besign-design.com/site/besign.html

François Vez- Produtor de frutas, nozes e especialista em enxertos.  Juntamente com a mulher gere a queijaria Tradiserpa, onde produz e vende queijo de Serpa.

Paloma Brabetz – Em conjunto com o marido gere a Fábrica de Papel Fontes, pertencente à família Brabetz.

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