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Transparência Quem financia as mesquitas na Suíça?

As mesquitas suíças e associações muçulmanas estão sob a mira da opinião pública depois que parlamentares criticaram a opacidade do seu financiamento e possíveis influências estrangeiras.



Muçulmanos antes da reza na abertura do Centro Turco-Islâmico de Ostermundigen, em 3 de abril de 2010.

Muçulmanos antes da reza na abertura do Centro Turco-Islâmico de Ostermundigen, em 3 de abril de 2010.

(Keystone)

"É ingênuo afirmar que não há um problema com o financiamento das mesquitas suíças", afirma Doris Fiala, deputada-federal do Partido Liberal. "Não temos ideia de quem financia o quê. Não sabemos quanto dinheiro chega. Não há transparência."

Na semana passada Fiala apresentou duas moções para serem debatidas no Parlamento federal em Berna. Cada uma foi apoiada por 25 deputados. Elas cobram das autoridades medidas para melhorar o que descreveu como "total opacidade" no financiamento das comunidades religiosas na Suíça, especialmente mesquitas e associações muçulmanas.

A parlamentar suíça exige que as associações beneficiadas por recursos estrangeiros tenham registros comerciais. Isso faz com que sua contabilidade possa ser supervisionada por uma autoridade independente no cantão e auditores. Ela também quer que as fundações religiosas se tornem mais transparentes, obrigando-lhes a fornecer detalhes mais precisos sobre os objetivos declarados no registro. Também pede sanções caso elas não cumprirem suas metas.

Entre 350 mil e 400 mil muçulmanos vivem na Suíça, dos quais 12% seriam cidadãos suíços. Eles representam uma comunidade extremamente diversificada dividida por linhas étnicas e linguísticas. Cerca de 80% das pessoas vêm da região dos Balcãs e Turquia.

Cerca de 12 a 15% declaram praticar ativamente sua fé através de visitas regulares a uma das aproximadamente 250 mesquitas da Suíça. Esses centros religiosos são administrados por comunidades muçulmanas organizados como associações privadas ou, em menor número, fundações.

Enquanto os muçulmanos na Suíça são geralmente bem integrados, acusações recentes de radicalização em mesquitas de Winterthur e Genebra levaram a questionamentos sobre a vigilância de mesquitas, influências externas e seu financiamento.

Saïda Keller-Messahli, presidente do Fórum por Um Islã Progressista, afirma que a situação na Suíça é "alarmante". "Enormes somas de dinheiro da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait e Turquia estão fluindo para a Suíça", declarou ao jornal NZZ no mês passado.

Ela afirma que a Liga Islâmica Mundial, uma ONG criada pela Arábia Saudita para promover o Islã, por exemplo, apoia pelo menos trinta mesquitas albanesas. Nela o Salafismo seria disseminado aos seus fiéis.

Fenômeno "marginal"

Mas as opiniões se dividem em relação a questão do financiamento externo. "Duvido que Saïda Keller-Messahli seja capaz de fornecer qualquer prova para confirmar suas acusações em relação ao dinheiro árabe", diz Andreas Tunger-Zanetti, coordenador do Centro de Pesquisa e Religião na Universidade de Lucerna.

Tunger-Zanetti afirma que uma mesquita comum na Suíça costuma ter uma lista na entrada. Nela é possível ver nomes de indivíduos e famílias e a quantidade de dinheiro que doaram durante o ano. "Talvez existam montantes adicionais vindo de pessoas ricas na Suíça ou fontes externas, mas se você olhar como essas mesquitas trabalham e sua aparência externa, não vejo dinheiro árabe. Elas não nem um pouco ostentosas", considerou.

O pesquisador lembra que a filial de Zurique da Direção de Assuntos Religiosos da Turquia (Diyanet) supervisa 39 imames na Suíça e pagam seus salários. Mas os membros das comunidades pagam os aluguéis das salas, eletricidade e outras despesas.

Christophe Monnot, sociólogo e estudioso de religiões na Universidade de Lausanne, é membro do Grupo de Pesquisadores do Islã na Suíça (GRIS) assim como Tunger-Zanetti. Ele também acredita que o financiamento das mesquitas suíças é um "fenômeno marginal": "98% das mesquitas não têm administradores problemáticos, grupos fora do controle ou perigosos."

Tunger-Zanetti, no entanto, considera que um grupo reduzido de mesquitas como as de Genebra, Winterthur e as mesquitas Faisal na Basileia necessitam um "olhar mais atento para esclarecer o que está dando errado."

"Não é uma ameaça"

Porém conseguir informações independentes sobre o financiamento é extremamente difícil. Não existem estatísticas cantonais ou federais sobre o tema. "O governo federal não tem números relativos ao financiamento das associações muçulmanos e mesquitas. Não é de sua competência recolher esses dados, a não ser em circunstâncias excepcionais como riscos para a segurança nacional", escreveu o governo suíço em resposta a uma recente questão parlamentar.

"No entanto é de conhecimento público que organizações governamentais e particulares recebem doações do exterior. Mas os serviços federais de inteligência não dispõem de informações que possam sugerir que o financiamento externo das mesquitas possa ter consequências para a segurança do Estado."

Fiala, que trabalhou com advogados e juízes em suas moções parlamentares, defende suas reivindicações por mais transparência, mas sabe que irá enfrentar uma batalha árdua para mudar a situação: na Suíça, a liberdade de associação, consciência e religião são consideradas direitos fundamentais. Pequenas associações sem objetivos econômicos não estão obrigadas a ter registros comerciais ou declarar suas condições financeiras.

O recente relatório do Grupo de Ação Financeira (FATF) sobre a Suíça descreveu que as medidas de transparência aplicadas a pequenas associações são "insuficientes". Mas o governo declarou em julho: "Adaptar os regulamentos das associações iria restringir a liberdade de associação, o que necessitaria uma nova base legal. Esse tipo de restrição teria de ocorrer em interesse público e proporcional ao objetivo final."

Fundações

Enquanto isso, a situação das fundações continua evoluindo de forma lenta. Desde o início de janeiro de 2016, todas as religiões e fundações familiares devem ter um registro comercial, o que significa que suas contas possam ser auditadas corretamente. Elas têm cinco anos para fazê-lo.

Até agora muitas fundações religiosas deixaram de cumprir as novas exigências. Uma exceção notável é a Fundação Cultural Islâmica de GenebraLink externo, responsável pela mesquita de Genebra. Ela abriu suas contas ao controle cantonal e auditores no final de 2014. Uma autoridade cantonalLink externo controla o fluxo de recursos e se a sua utilização está correspondendo aos objetivos firmados nos estatutos.

A maior mesquita da Suíça foi construída graças a fundos originários da Arábia Saudita e inaugurada em 1978 pelo antigo rei Khaled Ben Abdulaziz.

Ao sofrer críticas dos fiéis sobre a administração da mesquita, o diretor-geral da fundação, Ahmed Beyari, refeita as acusações. Ele declarou à rádio pública (RTS) no final do mês passado que a fundação era independente e não recebe fundos da Arábia Saudita.

No entanto, tais detalhes ainda permanecem difíceis de serem verificados por observadores externos. Dados e discussões compartilhadas com as autoridades permanecem estritamente particulares devido às leis suíças.

Investigações em andamento

Em 18 de dezembro de 2016, o jornal NZZ am Sonntag informou que o escritório suíço da Procuradoria-Geral estava investigando vinte pessoas por denúncias de suposto financiamento do terrorismo. Alguns deles têm ligações com fundações religiosas ou associações na Suíça.

Seis processos penais estão em curso pelo "apoio a uma organização criminosa". Eles incluem pessoas ligadas a uma fundação no cantão de Genebra a uma associação em Berna, como detalhou o NZZ am Sonntag.

Ainda não foram abertos processos contra associações ou fundações, confirmou o gabinete do procurador-geral. Embora essas organizações "desempenhem um papel" no contexto mais amplo do financiamento do terrorismo, as autoridades estão preocupadas nessa fase dos trabalhos apenas com os representantes ou membros, disse o porta-voz.

De acordo com o recente relatório do Grupo de Ação Financeira (FATF), a Suíça tem um "pequeno número de redes" que financiam organizações terroristas. 

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Adaptação: Alexander Thoele

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