Turquia: decisão judicial europeia sobre véu islâmico é 'cruzada contra o Islã'


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(Arquivo) O presidente turco, Recep Erdogan

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O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, abriu uma nova frente na crise diplomática com a UE, acusando nesta quinta-feira o Tribunal de Justiça europeu de lançar "uma cruzada" contra o Islã por decidir que uma empresa tem o direito de proibir o uso do véu no trabalho.

"Onde está a liberdade religiosa? Quem tomou esta decisão? A Corte de Justiça Europeia. Queridos irmãos, lançaram uma cruzada contra a Meia Lua", afirmou Erdogan, referindo-se ao símbolo do Islã, durante um discurso.

"A Europa está retornando paras os dias que precederam a Segunda Guerra Mundial", acrescentou.

Em uma decisão na terça-feira, o TJUE considerou que uma empresa pode proibir em seu regulamento interno o porte visível de símbolos religiosos, como o véu islâmico.

A Turquia e a UE atravessam a pior crise diplomática dos últimos anos, iniciada quando alguns países europeus não autorizaram a realização em seus territórios de comícios em favor do referendo de 16 de abril sobre o reforço dos poderes do presidente Erdgona, que chamou tais decisões de práticas nazistas.

O resultado do referendo turco se anuncia acirrado, e o governo se esforça para recolher os votos dos turcos no exterior. Além disso, segundo analistas, Erdogan quer se apresentar como um estadista forte para seduzir o eleitorado nacionalista turco.

- Inaceitáveis -

Na quarta-feira, o ministro turco das Relações Exteriores, Mevlut Cavusoglu, ameaçou anular unilateralmente o acordo migratório de março de 2016 com a União Europeia, que permitiu reduzir consideravelmente o fluxo de migrantes e refugiados na Europa, em meio às tensões com vários países da UE.

Ele acusou a UE de não ter autorizado, como previsto no pacto, a liberação de vistos para cidadãos turcos na UE.

"É um compromisso de confiança mútua, visando a produzir resultados, e nós esperamos que ambas as partes cumpram com seus compromissos", declarou nesta quinta a porta-voz da Comissão Europeia, Margaritis Schinas.

O presidente francês, François Hollande, e a chanceler alemã, Angela Merkel, consideraram "inaceitáveis" as "comparações com o nazismo e as declarações agressivas contra a Alemanha ou outros países membros".

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, disse estar escandalizado com as declarações, considerando incompatíveis com a ambição de Ancara de se juntar à UE.

- Precipício -

Se Ancara advertiu repetidamente contra a crescente islamofobia na Europa, a derrota na quarta-feira do partido de extrema-direita de Geert Wilders nas eleições legislativas a Holanda não aliviou as tensões.

"Não há diferença entre os social-democratas e o fascista Wilders, é a mesma mentalidade", disse nesta quinta-feira de manhã Mevlüt Cavusoglu.

O partido liberal de Mark Rutte venceu as eleições na Holanda com 33 assentos contra 20 assentos para o Partido pela Liberdade (PVV) de Geert Wilders, de acordo com resultados compilados pela agência de imprensa holandesa ANP com base na apuração de 97% dos votos.

"Vocês começaram a desintegrar a Europa e levá-la ao precipício", declarou Cavusoglu aos líderes europeus. "Logo, as guerras religiosas vão começar na Europa", acrescentou.

"Rutte, o seu partido pode, talvez, ter ficado em primeiro lugar nas eleições, mas você deve saber que perdeu a amizade da Turquia", afirmou Erdogan em um discurso em Sakarya, noroeste da Turquia.

O município de Istambul decidiu, por sua vez, rescindir unilateralmente na quarta-feira o seu acordo de geminação com Roterdã, que data de 2005. Este cancelamento foi decidido logo após o discurso de Erdogan clamando por essa medida.

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