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Juncker discursa no Parlamento sobre o Estado da União Europeia

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O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, garantiu nesta quarta-feira aos eurodeputados que o Brexit não ameaça a existência da UE, mas pediu a todos que trabalhem unidos contra o populismo.

"Respeitamos, e também lamentamos, a decisão britânica, mas isto não ameaça a UE", declarou Juncker, em seu aguardado discurso sobre o "Estado da União" na Eurocâmara, o primeiro desde o referendo sobre o Brexit de junho e dois dias antes da reunião de cúpula do bloco em Bratislava.

A União Europeia, que passa por uma série de crises desde o crash financeiro de 2008 - seja questão migratória ou de legitimidade -, enfrenta um momento chave para seu futuro com a decisão dos cidadãos britânicos de abandonar o bloco, a primeira saída de um país membro em sua história.

Juncker expressou o desejo de alcançar um acordo com Londres o mais rápido possível para sua saída, mas advertiu que não será fácil para o Reino Unido obter sua meta de permanecer no mercado interno europeu, mas sem cumprir com a obrigação de facilitar a livre circulação de pessoas.

"Temos que dar àqueles que desejam a livre circulação o que pedem em termos de mercado, mas quando também existe (livre circulação) de pessoas. Não pode existir livre circulação a la carte", destacou.

A possibilidade de que os cidadãos da UE possam trabalhar e morar em outro país do bloco de maneira livre estimulou, durante a campanha do referendo britânico, os defensores da saída da UE, uma questão que também divide outros países europeus.

Em um comunicado, a Comissão Europeia anunciou nesta quarta-feira a criação de um grupo de trabalho que preparará as negociações com o Reino Unido sobre sua saída do bloco, liderado pelo ex-comissário francês Michel Barnier, anunciou o Executivo europeu em um comunicado.

"Este novo grupo de trabalho reunirá a nata da Comissão", declarou Juncker, para quem a equipe de negociadores saberá "estar à altura deste novo desafio" e colocará em andamento "uma nova cooperação com o Reino Unido após sua saída da União".

"As divisões preparam o terreno do populismo", disse o presidente da Comissão, antes de destacar que este último "não soluciona os problemas, pelo contrário, aporta problemas".

A frase foi recebida com muitos aplausos no plenário de Estrasburgo.

- Quartel-general único -

A fórmula de Juncker para lutar contra o populismo e responder às preocupações dos cidadãos europeus na área de defesa passa por uma cooperação militar mair dentro da UE, assim como pela ampliação do plano de investimentos, para reforçar o crescimento e gerar empregos.

"Sem estrutura permanente, não podemos atuar com eficácia. Será necessário ter um quartel-general único na UE (...) e seguirmos para recursos militares comuns e complementares à Otan", disse Juncker.

A questão da segurança deve ser a mais importante na reunião de sexta-feira dos 27 governantes europeus em Bratislava, sem a presença da primeira-ministra britânica Theresa May, para refletir sobre o futuro da Europa.

A saída do Reino Unido representa a ausência de uma das principais potências nucleares e militares da UE, mas também de um dos países mais reticentes a avançar na ideia de um exército comum.

"A defensa e a segurança podem ser uma solução, mas há outras (...) A luta contra a evasão fiscal pode ser um bom princípio", disse o presidente da Eurocâmara, o social-democrata Martin Schulz, em uma entrevista à imprensa europeia.

- 'Investimento significa emprego' -

A resposta de Juncker, em seu discurso, foi clara: uma Europa mais social para lutar contra o desemprego e a otimização fiscal.

"Investimento significa empregos. Hoje proponho duplicar a duração e a capacidade de nosso fundo de investimentos", disse o presidente do Executivo europeu, que busca alcançar os 630 bilhões de euros (700 bilhões de dólares) para 2022.

O denominado Plano Juncker, que busca estimular o crescimento e o emprego na Europa, contemplava um objetivo de 315 bilhões de euros durante três anos a partir de 2015, com o Fundo para Investimentos Estratégicas financiado pelo orçamento europeu e o Banco Europeu de Investimentos (BEI), além de investidores privados.

"Certamente, com a contribuição dos Estados membros, podemos ir más rápido", disse Juncker aos eurodeputados, em um momento no qual países do bloco se mostram reticentes a contribuir economicamente.

Ao mesmo tempo, anunciou dois projetos importantes de reforma sobre as telecomunicações e os direitos autorais, que devem ser detalhados pela Comissão nas próximas horas.

E, apesar de ter negado ser um "fanático do livre comércio", defendeu a continuidade dos acordos comerciais entre a UE e outros países, apesar da atual situação de paralisia nas negociações com os Estados Unidos.

Jean-Claude Juncker usou o discurso na Eurocâmara como o primeiro passo para tentar recuperar a confiança dos cidadãos, abalada recentemente pela polêmica sobre a Apple e a controversa contratação de seu antecessor, José Manuel Barroso, pelo banco americano Goldman Sachs.

"A Comissão deve assumir a responsabilidade de ser política e não tecnocrata, e ouvir o Parlamento Europeu, os Estados membros e os cidadãos", completou.

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