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Um túnel suscita "admiração internacional


Por Doris Lucini e Andreas Keiser


Ministro Moritz Leuenberger (swissinfo.ch)

Ministro Moritz Leuenberger

(swissinfo.ch)

O novo túnel do São Gottardo será "uma grande contribuição para a melhoria da infraestrutura europeia", explica o conselheiro federal (ministro) Moritz Leuenberger em entrevista à swissinfo.ch.

Por vezes ele fica "quase sem graça" com o "reconhecimento internacional" recebido pela política suíça de transportes.

Moritz Leuenberger deixará o governo no final do ano. Eleito em 1995, ele sempre dirigiu o Ministério do Meio Ambiente, Transportes, Energia e Comunicação. O túnel do Gottardo representa uma obra importante de sua carreira.

swissinfo.ch: O que significa um túnel para o senhor?

Moritz Leuenberger: A transposição de uma montanha, mas por baixo dela, é, de alguma forma, superar por baixo. Eu poderia rir do fato de poder enxergar a luz no fim do túnel ou de como eu me tornei o ministro construtor de túneis. Na minha gestão no Ministério dos Transportes da Suíça foram construídos 115 túneis, entre ferroviários e rodoviários. Mas espero não ter adquirido uma visão bitolada, como um túnel.

Mas vamos deixar de lado as brincadeiras e observar duas coisas. Por um lado, hoje em dia o mito da luta do homem contra a montanha ainda está vivo. Os construtores de túneis falam de "ataque" e "ataques intermediários". Essa é uma linguagem de guerra onde a montanha é o inimigo e Santa Bárbara tem que protegê-los do perigo. Muitas histórias sobre diabos já foram inventadas em relação ao túnel de São Gottardo e o diabo já teria sido enganado pela população do cantão de Uri uma vez.

Por outro lado, eu observo como muitas regiões desejam um túnel. Isto fica particularmente evidente durante as visitas do Conselho Federal (governo) às escolas. Em todas as regiões que visitamos, um prefeito sempre se levanta para exigir um túnel. Essa exigência virou quase uma norma, motivada pelo fato das pessoas estarem buscando, ao mesmo tempo, a maior mobilidade possível sem perder a tranquilidade. Para muitos, a solução óbvia é passar o tráfego para debaixo da terra, eliminando assim o ruído e os gases dos escapamentos. Mas os túneis são extremamente dispendiosos e os gases não irão simplesmente desaparecer, eles sairão por outro lugar.

swissinfo.ch: Qual a importância do túnel do São Gottardo para o senhor?

M.L.: Este túnel é importantíssimo para a Suíça e uma grande contribuição para a melhoria da infraestrutura europeia. Uma construção gigantesca, uma obra ousada e, ao mesmo tempo, um risco assumido. Nestes últimos 15 anos, nos quais eu tenho defendido esse projeto no Parlamento, sempre ouvi vozes maliciosas e céticas que prediziam que o projeto não teria êxito. Somente quando se termina a perfuração é que a construção de um túnel está realmente concluída. Antes disso há muitos perigos geológicos. No entanto, bem antes do plebiscito a população foi exaustivamente alertada para esses riscos. Mesmo assim os eleitores aprovaram a construção.

swissinfo.ch: O senhor nuca teve medo do projeto vir a ser um fiasco?

M.L.: Há 15 anos, quando eu apresentei o projeto em várias palestras, praticamente ninguém acreditava que seria possível realizar uma obra tão complexa e gigantesca como essa e que necessitaria de quatro plebiscitos interdependentes. Naquela época o projeto era taxado de futurista e fora da realidade.

O trabalho na política é como navegar em um veleiro. Apesar dos ventos mudarem constantemente de direção, temos que conseguir o apoio da maioria. Mas nós conseguimos esse feito para os projetos: NEAT, LSVA, Acordo sobre os Transportes Terrestres com a União Europeia e o Fundo FinöV. Para conseguirmos isso, eu sempre tive que me reorientar e aceitar novos acordos.

swissinfo.ch: Polêmica foi principalmente a proposta “Netzvariante“, isto é, dois túneis na direção norte-sul, porém um através do São Gottardo e outro através do Lötschberg. Como o senhor opinaria hoje sobre essa proposta?

M.L.: Ela foi um sucesso muito grande. Antes da votação os críticos alegavam que a Suíça não necessitava de um túnel sob o Lötschberg. Hoje, três anos após a sua inauguração, ele já está com quase três quartos de sua capacidade saturada e, com o aumento do tráfego de mercadorias, atingirá em breve os cem por cento. Esse túnel mudou a vida de muitas pessoas. Hoje está fácil morar em uma cidade e viajar para trabalhar em outra, Berna e Brig estão mais próximas. O túnel do São Gotardo vai aproximar Bellinzona e Lucerna, mudando assim a estrutura social da Suíça e valorizando decisivamente a parte sul do país.

swissinfo.ch: Sempre ouve e sempre haverá vozes dizendo que os investimentos nunca poderão ser amortizados.

M.L.: A motivação para o voto dos eleitores nunca foi a viabilidade econômica dos dois túneis, mas sim a necessidade de aproximação das regiões e a gestão sustentável da crescente mobilidade.

Um dos nossos principais objetivos é a transferência do tráfego das estradas para as ferrovias. Se as pessoas e as mercadorias transitassem somente pelas rodovias nacionais, teríamos hoje, como na China, um engarrafamento permanente. Precisaríamos para isso concretar o país com novas estradas. Porém não existem mais espaços disponíveis.

swissinfo: O túnel do São Gotardo sairá mais caro do que o inicialmente previsto.

M.L.: Sim, mas não porque perdeu-se o controle dos custos. Todas as despesas adicionais surgiram principalmente a pedido do Parlamento, que, com base nas recentes informações, aprovou novas medidas de segurança e exigiu novas construções. Por exemplo, por motivo de segurança, no túnel do monte Ceneri serão construídas duas galerias ao invés de uma.

swissinfo.ch: O túnel é uma das construções do século. Como os países vizinhos reagiram?

M.L.: Com uma admiração sem limites, que às vezes, me deixa quase sem graça. E não é somente por causa dos novos túneis, mas também em função do fundo de infraestrutura, a partir das receitas dos impostos da gasolina, com o qual nós financiamos os sistemas de trens S-Bahn e os projetos rodoviários nas áreas urbanas. Isso significa que temos uma política de transportes que se auto financia, enquanto em outros países a política de transportes é motivo de constantes discussões entre o ministro dos transportes e o ministro das finanças. Esta é também uma conquista inovadora.

Obra do século

Os túneis de base do Gottardo (conclusão no final de 2017) e do Ceneri (2019) terão uma linha ferroviária ultramoderna, com altitude máxima de 550 m (1150 atualmente).

O trajeto norte-sul da Suíça será mais plano, mais curto de 40 km e, portanto, mas rápido. Os trens de carga poderão ser mais longos, duas vezes mais pesados do que atualmente (4 mil toneladas) e duas vezes mais rápidos (16 km/h).

Juntamente com túnel de base do Lötschberg (aberto em 2007), esses dois túneis são o elemento central das Novas Linhas Ferroviárias Transalpinas e um dos maiores canteiros de obras do mundo.

O custo total deverá ser de 18 a 20 bilhões de francos suíços (9,74 bilhões somente para o Gottardo).

Breve biografia

Moritz Leuenberger nasceu em 21 de setembro de 1946 em Bienne. Ele cresceu em Bienne, Basileia e Zurique. Após os estudos de direito, ele abre seu escritório de advocacia em Zurique, do qual se ocupa de 1972 até 1991.

Em 1969, ele entra no Partido Social-Democrata da Suíça. De 1972 até 1980, ele é presidente do partido na sua seção de Zurique, onde também exerce um mandato de vereador de 1974 a 1983. De 1886 até 1991, ele também é presidente da Associação Suíça de Locatários.

Em 1979, Leuenberger foi eleito ao Conselho Nacional (Câmara dos Deputados na Suíça). Ele se destaca na comissão de investigação criada após a demissão da ministra Elisabeth Kopp, prelúdio ao primeiro caso das fichas realizadas pelos serviços secretos helvéticos.

Em 1991, foi eleito ao governo do cantão de Zurique, onde tomou posse de um assento antes ocupado pelo partido União Democrática do Centro (UDC).

Em 1995, o Parlamento federal o elegeu ao posto de ministro no Conselho Federal. Até então, ele já ocupou duas vezes o cargo de presidente da Confederação Helvética (em 2001 e 2006).


(Adaptação: Alexandre Maestrini), swissinfo.ch



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