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Um terço da população suíça sofre de doenças mentais


Por Patricia Islas



Depressão, estresse, ansiedade, estafa, borderline, são doenças comuns do campo da psiquiatria. (Keystone)

Depressão, estresse, ansiedade, estafa, borderline, são doenças comuns do campo da psiquiatria.

(Keystone)

O sofrimento psíquico será o primeiro desafio para a saúde na próxima década no país alpino. A falta de tratamento adequado agrava ainda mais a situação, alerta Alain Malafosse, responsável da unidade de psiquiatria genética da Universidade de Genebra.

O especialista propõe o desenvolvimento de tratamentos mais específicos para compensar o atraso no assunto.

Os problemas psíquicos afetam um em cada três habitantes da Suíça em algum momento de sua vida, disse Jean-Nicolas Despland, diretor do Instituto de Psicoterapia do Centre Hospitalier Universitaire Vaudois (CHUV), no oeste da Suíça.
 
Mas as estimativas variam. Segundo o relatório 2012 do Observatório Suíço da Saúde (Obsan), uma instituição que reúne autoridades federais e estaduais sobre o assunto, "é possível que 17% da população apresente, do ponto de vista clínico, distúrbios psíquicos".

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Em setembro passado, o Colégio Europeu de Neuropsicofarmacologia (ECPN) divulgou um estudo englobando 30 países, incluindo a Suíça, que determina uma média anual de 38,2% de pessoas mentalmente doentes em todo o continente.
 
Este número não é exagerado se comparado com os de vários relatórios realizados em várias partes da Suíça, confirma Alain Malafosse, em entrevista à swissinfo.ch

swissinfo.ch: 38% da população afetada é preocupante.

Alain Malafosse: É mesmo. Confirmo as conclusões do estudo europeu. Há estudos mais profundos, como o do Professor Martin Preisig, da Universidade de Lausanne, que mostram que entre 30 e 35% da população sofre de doença mental.
 
No que diz respeito a patologias graves, que causam uma deficiência significativa, como a psicose maníaco-depressiva, entre 5% e 6% da população suíça são afetados, é um grave problema de saúde pública.

swissinfo.ch: A Suíça dispõe de meios suficientes para lidar com esse fenômeno?

AM: Se você quer dizer financeiramente, há altos investimentos em um dos países que melhor responde ao problema, inclusive no campo da prevenção.
 
O essencial é melhorar a formação dos clínicos gerais, porque hoje 90% das pessoas com patologias depressivas, ansiosas, não recebem os cuidados de um especialista.
 
Uma das grandes dificuldades é que os médicos já instalados em seus consultórios não recebem treinamento contínuo para aplicar os avanços da medicina.

swissinfo.ch: E apesar dos altos investimentos, os tratamentos continuam sendo muito superficiais.

AM: No campo da medicina, a psiquiatria está muito aquém em estratégias de tratamento mais especializadas, o que é indispensável. Nós precisamos compreender melhor as doenças mais comuns para desenvolver tratamentos mais eficazes. A pesquisa ainda é insuficiente, e não apenas na Suíça, se for comparado com o que se desenvolve em relação ao câncer ou às doenças cardiovasculares.

swissinfo.ch: Por que esse atraso?

AM: Por várias razões, por exemplo sociológicas: A doença mental provoca medo, com isso o enfermo demora a procurar ajuda médica para ser tratado. A sociedade deverá evoluir em relação a esses males, como tem feito com o câncer ou a epilepsia, para evitar a rejeição, o que claramente favorece o desenvolvimento de tratamentos.

Estes mesmos problemas são predominantes entre as autoridades de saúde. E no setor especializado também há conflitos entre as diferentes concepções psicológica, fisiológica, biológica, etc. Tudo isso contribui para o atraso.

swissinfo.ch: O senhor anunciou uma descoberta epigênica que relacionada ao abuso infantil gera estresse na idade adulta, o que pode contribuir muito para o desenvolvimento de tratamentos mais específicos.

AM: Absolutamente. Muitos transtornos psiquiátricos são doenças causadas por fatores biológicos, fatores genéticos e da própria vida, como um trauma sofrido muito cedo, ainda no útero. Esta abordagem busca entender como esses fatores modificam a expressão genética e influenciam todos os transtornos psiquiátricos.

swissinfo.ch: Isso significa que a pesquisa epigenética vai mudar nossa concepção de saúde mental através de uma melhor compreensão dos mecanismos genéticos que compõem ou transformam nosso comportamento?

AM: Espero que sim. A epigênese permite que os pesquisadores e os especialistas vejam a doença mental de forma diferente. A ideia de que ambos fatores biológicos e sociais sejam os causadores da doença mental é assim mais facilmente admitida. Compreender os mecanismos epigenéticos pode contribuir para a compreensão da integração de todos esses fatores e mudar a maneira como profissionais consideram e tratam o paciente.

swissinfo.ch: E na sua prática, qual é a principal preocupação que permeia o cotidiano dos especialistas?

AM: Em um país como a Suíça, as doenças expressas por impulsividade ou violência estão se tornando inquietantes. Do ponto de vista clínico e social, este aspecto associado com transtornos mentais tornou-se muito importante.
 
Além disso, há outro grande problema: as drogas. A dependência piora todas essas doenças mentais: transtornos delirantes, de personalidade, depressivos, de ansiedade, são doenças que favorecem o consumo destas substâncias que, por sua vez, agravam o nível da doença. Esses são os dois principais problemas que confrontamos cada vez mais.

Desafio

Autoridades da saúde da Europa dizem que as doenças psicológicas são o maior desafio da saúde no continente.

Estima-se que os transtornos mentais serão a principal causa das doenças nos países desenvolvidos em 2020 ou 2025.

Até 90% dos pacientes tratados em clínicas psiquiátricas usam algum tipo de droga, legal ou ilegal.

A descoberta de Malafosse

Cientistas da Universidade de Genebra, entre eles o especialista em psiquiatria Alain Malafosse, descobriram que o abuso infantil modifica a regulação de genes envolvidos no controle do estresse na vida adulta, o que pode causar o desenvolvimento de várias doenças.
  
O objetivo final desta pesquisa é melhorar o diagnóstico e o tratamento dos distúrbios mentais.

Por Patricia Islas, swissinfo.ch
Adaptação: Fernando Hirschy



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