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Uma portuguesa nos Alpes


Laura, guardadora de vacas e de sonhos


Por Filipe Carvalho, Lisboa


Como na maioria das histórias que mudam, mesmo que ligeiramente, a vida, também no caso de Laura o imprevisto materializou-se inesperadamente. 

As vacas se preparam ao combate de raínhas de junho,uma das três primeiras inalpes do Val d'Herens em Evolene. Ao fundo, a montanha do Dente Branco. (Keystone)

As vacas se preparam ao combate de raínhas de junho,uma das três primeiras inalpes do Val d'Herens em Evolene. Ao fundo, a montanha do Dente Branco.

(Keystone)

Durante a sua estadia na Dinamarca, onde esteve ao abrigo do programa de Serviço Voluntariado Europeu, conheceu uma rapariga suíça que lhe indicou que os seus tios poderiam ter algum trabalho de verão para ela, no cantão do Valais.

O seu caminho até se tornar guardadora de vacas foi mais curto do que parece, embora tenha tido diversas tarefas ao longo do trilho suíço que percorreu. Inicialmente, a sua estadia seria por três semanas que facilmente se converteram em três meses, graças à família que a acolheu e aos diversos trabalhos que encontrou. Hoje, guarda vacas nos Alpes durante o verão, repetindo uma vez mais a experiência este ano, para que no resto do ano se possam ouvir os ecos da experiência vivida e imaginada naquelas montanhas através dos seus trabalhos artísticos.

As vacas como símbolo local

A raça destas vacas é a Eringer, em alemão, ou Hérens, em francês, sendo vulgarmente conhecidas por Val de Rance, e são oriundas do Valais, mais concretamente do Val d'Hérens. Na região, as vacas são um importante símbolo de identidade local, como definição duma tradição e savoir-faire circunscritos àquela região. Após os anos 50, começou uma tendência de decréscimo do número de cabeças de gado, reflexo do êxodo rural e abandono dos animais pelos seus proprietários. Presentemente, existe uma associação de criadores para a preservação da raça Herens, acontecimento que nos faz compreender a crescente relevância que a raça voltou a adquirir localmente.

Os criadores destas vacas de combate têm outras profissões, dedicando-se apenas como actividade secundária à criação de gado, contrariamente aos tempos idos, em que ir para os Alpes com as vacas era uma prática familiar. No entanto, o seu envolvimento é total, particularmente através dos torneios onde participam diversas vacas, combatendo segundo o peso e a idade, e no final é eleita a rainha que liderará o grupo após a partida para a transumância estival. Ao longo dessa estadia na montanha, vão acontecendo reajustamentos nessa hierarquia, devido à natural apetência para combaterem, definindo-se novos papéis, particularmente nos primeiros dias.

As vacas têm uma enorme importância local, do ponto de vista folclórico, devido a estes torneios, mas, igualmente, pela produção de leite e de carne.

A subida para a montanha

Habitualmente, a subida para os Alpes acontece no último sábado de Maio ou no primeiro de Junho. A tarefa de reunir as diferentes vacas dos diversos criadores obedece a uma rigorosa organização, principalmente no horário em que cada pessoa deve levar as suas vacas. As vacas são levadas até um espaço vedado, para que elas possam ir-se conhecendo durante este dia porque, inevitavelmente, acontecem várias lutas. No primeiro Alpe que Laura fez, o Guggi Alpe, os criadores levaram-nas em atrelados. No Ill Alpe, onde se encontra agora, os proprietários são mais regrados relativamente à preservação das tradições, por isso, levam-nas a pé, pelos caminhos já traçados. Quando reúnem as vacas nesse primeiro estágio, um padre faz uma oração a interceder pela protecção dos guardadores e das próprias vacas.

O dia é festivo e, para isso, as pessoas levam cerveja e vinho do Valais para beberem e comem Raclete, convivendo entre todos. Para Laura, este dia é importante porque as pessoas fazem a transição entre si e as vacas, dando-lhe alguns conselhos para os tempos que se avizinharão na montanha. Além deste momento, não existe nenhuma adaptação às vacas e ao trabalho, sendo, por isso, importante para Laura compreender algumas tarefas porque, repentinamente, estará a sós com os animais. Aproveita, igualmente, o dia para observar as vacas e compreender os comportamentos delas.

As cabanas

Ao todo são quatro cabanas distribuídas desde os 1600 metros até aos 2400 metros de altitude. A necessidade de ir subindo a colina advém do pasto estar distribuído proporcionalmente. Quando chegam ao último patamar, fazem o percurso inverso, permitindo às vacas comerem o pasto que voltou a crescer entretanto.

No primeiro dia, quando Laura abriu a porta da cabana, percebeu que teria uma noite terrível. O interior estava gelado, devido a ter estado fechado ao longo do ano, e ela ainda não sabia fazer lume. O forno dessa primeira cabana, no Guggi Alpe, era utilizado para fazer queijo, então era mais aberto do que o normal. Até esse dia, Laura não sabia fazer lume e muito menos que era necessário começar a fazê-lo quatro horas antes da altura que pretendia ter a cabana aquecida.

Essas pequenas aprendizagens foram grandes conquistas. “Aqui (em Lisboa) é mais fácil pedir a alguém que saiba do que ir aprender a fazê-lo e ali, nos alpes, como estou sozinha, acabo por ter a necessidade de aprender a fazer.”

A Tese

Por uma razão práctica decidiu desenvolver a sua tese de mestrado em antropologia nos Alpes, junto das vacas. Inicialmente, a sua vontade era fazer um retrato dos alpes, do seu dia a dia, as festas. No entanto, após conversa com a sua orientadora de tese, começou a reflectir sobre uma abordagem da perspectiva da vaca, colocando uma Go Pro na vaca, resgatando a temática da Non Human Culture. Essa perspectiva, não sendo a óbvia, fê-la olhar para o mundo que nos rodeia como reflexivo, colocando de parte o ponto de vista humano e, por isso, espera fazer algo mais sensorial.

Adaptação à nova vida

Laura assume que há um género de “climatização” ao novo espaço, particularmente porque ainda está habituada às comodidades normais. No entanto, canaliza os seus pensamentos para a vida concreta, ou seja, realiza as tarefas diárias que tem para cumprir. Após algum tempo, a sua vida acaba por girar exclusivamente em torno das vacas, sendo elas que dizem o que é ou não preciso fazer.

Como a sua estadia é longa, de fins de Maio a meados de Setembro, admite que a certa altura tem alguma nostalgia dos pequenos prazeres diários que mantinha até subir para a montanha. Um deles, admite, é de tomar um café ou de não comer sempre a sua comida. “São coisas fúteis mas são pequenos prazeres que te dás conta que são importantes”. A impossibilidade de ir a festivais de verão é colmatada com os seus próprios festivais ao som do rádio, na cabana. Não fugindo à regra de quem vem de um país onde o verão é, efetivamente, verão, Laura também sente falta disso. Até porque, “normalmente, neva uma vez por verão. É o que dizem. Tens sempre de contar com isso.”. Contudo, e mesmo durante alguns momentos de maior sensibilidade, “aceitas aquilo que cada dia te dá, a maior parte das vezes.

Estar nos Alpes

O tempo que passa nos Alpes ajudam-na a torna-se mais confiante de que é capaz de sobreviver, socorrendo-se apenas dela própria. Essa vida solitária não lhe causa solidão, sente que aquilo que a rodeia lhe basta. Quando regressa sente que é difícil o momento de transição, havendo uma reeducação e readaptação. A partida, para si, não é o momento mais difícil porque, apesar de deixar os seus amigos em Portugal, alimenta o optimismo do reencontro, acreditando que “vai estar tudo cá quando eu voltar.”.

O seu lado criativo não hiberna durante o período em que vive no Alpe. Se, por um lado, acaba por não ter tantas oportunidades para materializar as suas ideias, por outro, é um momento de acumulação de ideias que irão ganhar vida quando regressar. Na primeira vez que fez o Alpe, lembrou-se de fazer câmaras pinhole com caixas de fósforos. Encetou a feitura duma camisola de lã, que logo a dotou de significados através das cores, “o amarelo era o pasto já comido, o azul era a represa lá de cima,  e o branco era a neve”. Porém, um dia, as vacas esconderam-se num vale contíguo ao local onde estava e quando as descobriu, viu que havia imensos miosótis azuis. Também, após essa situação, pensou em bordar uma vaca na axila da camisola, porque para encontrar ”só tens de procurar”. Começou a escrever um livro que consistia “numa guardadora de vacas que se sente afastada da manada de quem está a tomar conta e decide ir viver para cima delas. Então ela vai passando de vaca em vaca e todas essas vacas têm personalidades distintas.”

Nos momentos livres que tem, costuma dar passeios, ler, organizar a cabana e cair em qualquer lugar e dormir, “uma coisa que sinto falta aqui (em Lisboa) é a possibilidade de cair em qualquer lado e dormir.”.

*(inspirado no título do livro de Alves Redol “Constantino guardador de vacas e de sonhos”)

O Devir

“A curto prazo, voltar ao alpe no verão, também para trabalhar na tese. Vou para Berlim, depois do alpe, fazer Erasmus, para aprender melhor alemão e poder ler mais coisas sobre as vacas.” No longo prazo, o seu desejo é que os seus projectos possam envolver pessoas e arte, tanto na música como nas artes visuais.

Uma rapariga disse-lhe uma vez: “You will never leave Switzerland”. Laura, assume que por agora, sim, continuará a fazer parte dos planos. No entanto, admite que, “Não sei se viveria lá, há coisas que não sei se me conseguiria habituar, mas das vezes que tenho ido lá, têm me recebido muito bem. E não só estas pessoas (com quem trabalha), também da experiência de viajar um pouco à boleia”.


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