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Valorização do trabalho Profissões de base atraem jovens suíços

No Brasil seria inusitado imaginar um jovem de 18 anos, recém formado, recebendo um salário de mais de R$20 mil para trabalhar como mecânico. Mas essa é a realidade da Suíça. Empregos em profissões tradicionais são valorizados e pagam bem. O segredo? Um sistema de educação focado em treinamento prático, que garante qualidade e produtividade dos trabalhadores.

eletricista em ação

Eletricistas estão entre as profissões mais procuradas na Suíça - e os profissionais da área têm seu trabalho devidamente valorizado.

(© KEYSTONE / GAETAN BALLY)

Dois em cada três jovens suíços optam por fazer uma formação de aprendizagem. Após concluírem 11 anos de educação compulsória, eles aprendem um ofício estudando por mais dois a quatro anos. Quando formados, entram pro mercado de trabalho e se posicionam com estabilidade profissional faturando mais de R$20 mil ao mês. Parece um sonho? É o sistema suíço de formação de aprendizagem.

Por meio do aprendizado prático (Lehre em alemão, 'aprentissage' em francês, geralmente chamado em português de 'ensino profissionalizante ou técnico) são ensinadas mais de 250 profissões. Ocupações como mecânico, cozinheiro, cabeleireiro, açougueiro, enfermeiro, vendedor, padeiro, operador de máquina, pintor, bombeiro e etc. são valorizadas e reconhecidas, pois atendem às demandas da economia.

Os empregos de base despertam grande interesse também porque garantem uma boa renda. Na média, esses profissionais recebem por mês algo entre R$ 21.500 e R$ 25.850 (de 5 mil a 6 mil francos suíços).

Um mecânico competente, por exemplo, ganha na média CHF 5,8 mil (R$ 24,9 mil). Um marceneiro recebe CHF 5,1 mil (R$ 22,2 mil) e um pedreiro CHF 5,5 mil (R$ 24 mil) ao mês. Nessas mesmas profissões, a média salarial no Brasil é de pouco mais de R$ 1.500 para mecânicos de automóveis e marceneiros, e R$ 1.600 para pedreiros.

É necessário levar-se em conta que o custo de vida na Suíça é alto, mas ainda assim esses rendimentos garantem ao indivíduo um padrão de consumo considerado de classe média alta no Brasil.

Menos pressão

O casal Luana Ercolin Pizzi e Rico Manuel Knecht mora em Zurique e conhece de perto o sistema educacional dos dois países. Ele é suíço e possui formação de aprendizagem em mecânica e atendimento. Ela é brasileira, graduada em letras na Universidade de Campinas, Unicamp, e atualmente conclui um mestrado na Universidade de Basileia (Unibasel).

Jovem estudante

A brasileira Luana Pizzi segue uma carreira universitária, mas seu marido é mecânico: na maioria dos países, essa diferença implica também um fosso social-cultural, mas na Suíça isso é absolutamente normal.

(Marina Wentzel)

“Eu gosto do sistema educacional da Suíça porque em outros países você precisa fazer o ginásio que leva à universidade (Matura) para poder ter uma carreira, aqui não (…) acho que é mais flexível do que em outros países”, opina Rico, que já trabalhou como mecânico ferroviário e atualmente transaciona para uma carreira em administração.

Luana concorda, “há menos pressão para se ir à universidade. Existem especializações às quais não é necessário ter o nível superior”, elogia.

O sistema

Por volta dos 15 anos os jovens suíços escolhem qual formação seguirão de acordo com o nível da escola intermediária que frequentam. Para as ocupações de base -  mecânico, padeiro, bombeiro e etc - não é necessário ter concluído o segundo-grau ginasial. 

O curso básico de aprendizagem de formação para esses ofícios dura dois anos, mas é possível estudar por três a quatro anos para receber uma qualificação avançada, o que dá acesso a uma remuneração ainda melhor.

Desafios da Educação

A diretora do departamento de estatística da UNESCO, Silvia Montoya, afirma que o desafio mundial é garantir qualidade no ensino básico.

Segundo dados da UNESCO:

- No mundo todo de cada dez alunos, seis não são capazes de demonstrar o mínimo de conhecimentos em leitura e matemática.

- Globalmente existem 617 milhões de crianças iletradas.

- “São três vezes a população do Brasil sendo incapaz de ler e de demonstrar conhecimentos de matemática", alerta.

- No Brasil, há 1,5 milhão de crianças e jovens que estão fora das escolas

- As crianças brasileiras que não estudam são 772 mil ausentes da educação primária e 740 mil na educação secundária.

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A teoria é intercalada com a prática. É nos próprios estabelecimentos dos futuros empregadores que o treinamento acontece. Fábricas, construtoras, restaurantes, supermercados, lojas, oficinas, laboratórios e hospitais são as “salas de aula” de fato. As empresas dividem com os governos local e  federal a responsabilidade em implementar o currículo.

Normalmente os alunos bem-sucedidos já recebem uma oferta de emprego na formatura mesmo. Se depois quiserem mudar de profissão ainda é possível seguir para a universidade, mas esse é um caminho difícil. Os exames para ascender são rigorosos e demandam anos de estudo.

Um outro ponto é que a triagem educacional acontece bastante cedo. Já na sexta série do ensino fundamental as crianças passam por exames para definir se frequentarão escolas intermediárias que as levarão à universidade (Gymnasium), ao ensino técnico ou à formação de aprendizagem.

Vantagens

Uma das vantagens do sistema de aprendizado é a baixíssima taxa de evasão. Cerca de 90% dos inscritos conseguem concluir com sucesso, porque já estão inseridos ativamente na economia, ou seja, não precisam “desistir” dos estudos porque têm que trabalhar.

No Brasil o nível de evasão escolar juvenil Link externoé um dos maiores desafios. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que quase quatro em cada dez estudantes (36.5%) não completa o ensino médio.

Como na Suíça o trabalho em si já é o estudo, os estudantes recebem salários enquanto completam o aprendizado. Com efeito, a taxa de desemprego entre a população jovem da Suíça é de apenas 4%.

Enquanto isso, dados do IBGE de 2017 quantificam em 25,1 milhões o número de jovens chamados "nem-nem”, indivíduos de 15 a 29 anos de idade que não alcançaram o ensino superior completo e não estavam “nem” estudando, “nem” trabalhando.

Na Suíça atualmente 220 mil pessoas cursam uma aprendizagem profissionalizante. A maior parte deles (205 mil) está em cursos que têm de três a quatro anos de duração.

Segundo a OCDE (Organização para o Desenvolvimento e Cooperação Econômica), o país é uma das nações europeias com maior número de adultos qualificados por meio de prática profissionalizante.

A força de trabalho do país (adultos de 25 a 65 anos) está composta assim: 46,2% tem formação profissionalizante secundária, 41,2% têm formação avançada terciária (universidade) e 12,6% concluíram apenas o ensino fundamental.

Refugiados em uma aprendizagem de cozinha

O sistema de aprendizagem também é uma forma de facilitar a integração de refugiados, como neste curso profissionalizante de ajudante de cozinha no cantão de Lucerna.

(Hotel & Gastro Formation)

Calibrar a economia

O professor e pesquisador de economia na universidade de Berna Stefan Wolter vê no sistema a qualidade de “calibrar” o mercado de trabalho, fornecendo a quantidade adequada de profissionais às necessidades do país. Há uma “coordenação” entre oferta e demanda, de modo que o desemprego é minimizado, explica.

Segundo Wolter o excesso de pessoas com formação superior seria ruim, pois leva não apenas ao desemprego, mas também deprecia o salário dos que estão ativos no mercado. “Não adianta ter um monte de filósofos, quando o que se precisa é de torneiros mecânicos”, exemplifica.

Dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revelam que 44,2% dos jovens graduados no Brasil não atuam na área na qual se formaram. Além disso, o excesso de profissionais com terceiro grau mostra que 74% deles não são remuneradosLink externo de acordo com todo o potencial do diploma que possuem.

O que se vê no Brasil “é um desperdício de talento”, lamenta o Professor Wolters.​​​​​​​

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