"Devemos acelerar a luta contra o aquecimento do planeta"

Em cada quilo de CO2 liberado na atmosfera, de 200 gramas permanecem suspensos até mil anos. Ex-press

No fim do mês começa a Conferência da ONU sobre o Clima, em Cancún, que pretende reduzir as emissões de CO2.

Este conteúdo foi publicado em 18. novembro 2010 - 12:37
swissinfo.ch

Enquanto isso, os políticos ainda estão relutantes em cortar as emissões de gases de efeito estufa que se acumulam na atmosfera durante séculos. Entrevista com o especialista suíço Fortunat Joos.

Para o responsável do Centro Oeschger de pesquisas sobre Mudanças Climáticas, em Berna, o mundo deve absolutamente “acelerar o passo” na luta contra o aquecimento global.

A Conferência de Cancún vai discutir medidas a serem tomadas, incluindo a redução das emissões de CO2, o financiamento para o controle do clima e o futuro do Protocolo de Kyoto.

swissinfo.ch: Quais são atualmente os principais obstáculos na luta contra o aquecimento global?

Fortunat Joos: Para responder aos problemas climáticos, é necessário reduzir drasticamente e imediatamente as emissões de combustíveis fósseis. Os políticos e as pessoas mostram pouco interesse em tomar a decisão de agir. Alguns dos mais importantes países nem se quer se comprometem ou se recusam a reconhecer o problema. Os lobbies são muito fortes em semear a confusão entre o público. Além disso, a dificuldade de mudar de hábitos é típico da natureza humana.

swissinfo.ch: A pesquisa sobre mudança climática é suficiente?

FJ: Alguns fatos básicos são conhecidos há décadas ou mesmo séculos. Por outro lado, os sistemas terrestres são muito complexos. Há ainda muito a aprender sobre as interações e as reações do sistema climático, bem como o impacto da mudança na acidez dos oceanos causado pelas emissões de CO2.

Há um ponto que interessa muita gente e ainda está longe de ser esclarecido, que é compreender quantitativamente e com precisão os efeitos das mudanças climáticas a nível regional e para cada indivíduo. Para isso, temos que continuar pesquisando ainda mais.

swissinfo.ch: Com o Programa Nacional de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas e dois institutos de pesquisa, a Suíça está suficientemente equipada para desempenhar um papel decisivo na pesquisa interdisciplinar?

FJ: Tradicionalmente, a Suíça é um bastião de pesquisa nesta área. Nós colaboramos nos esforços internacionais e em novos projetos. Em termos da qualidade científica da Suíça, sei que temos um bom desempenho.

Mas, ao mesmo tempo, eu acho que nós também precisamos ser cautelosos. O Programa Nacional de Centros de Competência (PNR) "Clima - Variabilidade Climática Previsibilidade e Riscos Climáticos" terminará em 2013 e, infelizmente, não existem planos para o futuro. Isso é preocupante porque, apesar da existência do centro climático de Zurique e do Centro Oeschger aqui em Berna, precisamos também de coordenação nacional para avançar.

swissinfo.ch: O Senhor acha que o processo estabelecido pelas Nações Unidas, ajuda ou atrapalha a luta contra a mudança climática?

FJ: As emissões devem ser reduzidas localmente em todos os lugares. Incentivos e regulamentação devem vir de diferentes níveis, tais como as comunidades, cantões ou Confederação. A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima é um protocolo muito forte e eu acredito que ela define muito bem os objetivos e a direção a ser tomada.

Este protocolo exige principalmente a estabilização dos níveis das emissões de gases de efeito estufa para combater os perigos da mudança climática. Sua implementação é atualmente difícil, mas a nível internacional não vejo outra maneira de proceder. Esse processo também deve ser apoiado em outros níveis.

swissinfo.ch: O Senhor acha que será possível chegar a um acordo?

F.J.: Claro. Há sinais de que as coisas estão indo na direção certa e as pessoas estão percebendo que a luta contra as alterações climáticas é também uma oportunidade. Normalmente leva décadas para mudar a opinião pública e iniciar uma verdadeira mudança. O processo começou em 1980 e 1990 e vai demorar ainda mais.

swissinfo.ch: Será que temos tempo? A impressão é que temos de agir rapidamente ...

F.J.: Sim, eu concordo. O sistema climático implica uma enorme inércia: hoje, quando emitimos um quilo de CO2, 200 gramas ficam suspensos na atmosfera durante mil anos. Por isso essa urgência em acelerar o passo. Temos que inverter esse processo, e rápido. Se não o fizermos e se continuarmos no ritmo atual, é provável que o aquecimento global aumente em vários graus até o final do século.

swissinfo.ch: O acordo sobre uma visão a longo prazo, a redução das emissões dos gases de efeito estufa, a adaptação ao aquecimento, o financiamento do controle do clima e o futuro do Protocolo de Kyoto ... o que o Senhor acha dos tópicos da agenda de Cancún?

FJ: A nível internacional, temos acima de tudo que implementar medidas para reduzir as emissões de CO2 e de outros gazes causadores do efeito estufa e estabelecer metas mais rigorosas. É claro que é necessário compartilhar a mesma visão para alcançar esse objetivo a nível mundial. Também temos de encontrar financiamento para que os países menos desenvolvidos possam implementar essas medidas e ao mesmo tempo, temos também de encontrar formas de adaptação às alterações climáticas em curso.

Eu realmente espero que as reduções das emissões serão implementadas a tempo. Pessoalmente, duvido que cheguemos a resultados concretos em Cancún, porque vários países preferem esperar até o último minuto para chegar a um acordo. Ora, o Protocolo de Kyoto expira em 2012.

swissinfo.ch: Como o Senhor responde aos céticos que relativizam a importância do aquecimento global?

FJ: Nós perturbamos o sistema climático de maneira muito rápida e intensa. Isso não é invenção dos cientistas, mas o resultado do que foi medido. Temos dados que mostram que as concentrações de gases de efeito estufa estão aumentando, que o “orçamento” energético da atmosfera está mudando e que o planeta está se aquecendo. Centenas de milhares de medições nos permitiram saber o tempo gasto pela absorção química do CO2 pelos oceanos. A mudança climática é real e está aí.

Conferência da ONU

Cancún. A próxima Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, será realizada em Cancún, México, de 29 de novembro a 10 de dezembro de 2010.

Ceticismo. O processo de negociação envolve os países signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que se reúne anualmente para acompanhar a implementação da Convenção. As discussões têm progredido em algumas áreas, antecipando Cancún, mas os organizadores estão céticos quanto a um acordo global.

Pós-Kyoto. Os tópicos abordados incluem encontrar uma visão comum a longo prazo, identificar maneiras de se adaptar aos impactos inevitáveis do aquecimento global, reduzir as emissões de gases de efeito estufa, encontrar o financiamento para o controle climático e definir o futuro do Protocolo de Kyoto.

Progresso. A Organização das Nações Unidos e o México informaram ter encontrado financiamento para encorajar os países em desenvolvimento a lutar contra o aquecimento global e para medir as emissões de gases de efeito estufa.

Kyoto. O Protocolo de Kyoto é o principal instrumento da ONU para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, que expira no final de 2012. A Conferência de Copenhague em 2009 não conseguiu chegar a um acordo entre os países desenvolvidos até 2012.

Copenhague. Mais de 120 nações concordaram, em Copenhague, em encontrar uma maneira de limitar o aquecimento global abaixo dos 2 graus, mas não chegaram a um acordo sobre a forma de alcançar esse objetivo.

Oposição. O ritmo lento das discussões no âmbito da ONU incitou especulações sobre a possibilidade que o grupo dos 20 países mais desenvolvidos chegasse a um acordo sobre medidas concretas. Alternativa vetada pela ONU e pelos países pequenos especialmente ameaçados pela mudança climática.

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O Professor Fortunat Joos

Presidente do Centro Oeschger de Pesquisas Climáticas da Universidade de Berna.

Professor do Instituto de Física do Clima e Física Ambiental, participou na 3 ª fase do Programa Nacional de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas.

Sua pesquisa enfoca o ciclo do carbono e circulação bio-geo-química.

Contribuiu em mais de 100 artigos científicos sobre o aquecimento global.

É vice-presidente do Grupo de Trabalho 1 do Grupo de Peritos Intergovernamentais sobre Mudanças Climáticas (GIEC).

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