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"Não queremos que o governo restrinja nossa liberdade de se vestir"

Com os eleitores suíços prontos para decidir uma controversa "proibição da burca" em 7 de março, Anila Noor e Maria Khoshy explicam porque elas - como feministas muçulmanas e refugiadas - se opõem à ideia.

Este conteúdo foi publicado em 26. fevereiro 2021 - 15:30
Anila Noor & Maria Khoshy

Nós somos feministas, ativistas dos direitos das mulheres e líderes em nossas comunidades. Também somos muçulmanas. Uma de nós é refugiada recente do Paquistão para a Holanda. A outra fugiu do Afeganistão para a Suíça quando tinha treze anos de idade.

Em nossos países de origem, nossos governos determinavam o que usávamos para restringir nossos direitos humanos básicos. Não queremos que o mesmo aconteça na Suíça, uma nação democrática que se orgulha de seu respeito aos direitos humanos e do Estado de direito. É hora do governo e das pessoas no poder pararem de nos dizer como devemos nos vestir.

Opressão

"Mantenha suas duppata (lenço de cabeça) em sua cabeça corretamente, use seu hijab!" Essas são palavras com as quais cresci no Paquistão. Grupos conservadores frequentemente invocam um famoso ditado para impor o hijab ou a burca: o lugar apropriado de uma mulher é em seu "chadar aur char diwari" - ou seja, velada e dentro das quatro paredes de sua casa. No Afeganistão, assim como no Paquistão, muitas mulheres foram mortas em nome da "honra" ou em retaliação pela afirmação de nossos direitos básicos da mulher como direitos humanos.

Iniciativa opressora

Deixamos nossas casas para fugir da opressão, incluindo a perseguição baseada no gênero. Portanto, é profundamente irônico que nos encontremos agora lutando contra as violações de nossos direitos humanos em nosso local de refúgio.  No Paquistão e no Afeganistão, e agora na Suíça, o governo está sob pressão das forças conservadoras para restringir a autonomia básica das mulheres e a liberdade de vestuário.

O fato da Suíça considerar juntar-se a outros países europeus na proibição de formas de vestuário é particularmente irônico, dado seu forte compromisso com a neutralidade e a liberdade de religião. Também é irônico dado que apenas algumas poucas dezenas de mulheres em um país de quase nove milhões de pessoas usam a burca.

É doloroso para nós que as pessoas afirmem que a iniciativa protege os direitos das mulheres sem se preocupar em perguntar às mulheres mais diretamente afetadas pela proibição - imigrantes muçulmanas, visitantes e turistas de certos países do Oriente Médio, e feministas muçulmanas e defensoras da igualdade de gênero. A New Women Connectors reúne mulheres refugiadas em toda a Europa, muitas das quais fugiram de regimes repressivos no Oriente Médio ou da Síria devastada pela guerra. Algumas das mulheres muçulmanas do nosso grupo usam o hijab; outras não. Isso não importa, pois é a escolha delas. Como muçulmanas na Europa, não tendemos a usar biquínis na praia. Não tatuamos nossos braços nem nossos rostos. No entanto, não nos opomos à liberdade de outras pessoas fazerem isso.

Se uma mulher que prefere usar burca se juntasse ao nosso grupo, nós a receberíamos de braços abertos. Nós, pessoalmente, não usamos burcas ou niqabs, mas como feministas, não somos ameaçadas ou incomodadas por quem usa. Mais fundamentalmente, estamos profundamente preocupadas com o que vai acontecer com o pequeno número de mulheres na Suíça que usam burca ou niqab. Será que a ameaça de multas as obrigará a ficar em casa, e que impacto isso terá sobre a saúde mental delas e de seus filhos?

Limitações e estereótipos

Durante a crise da Covid-19, nos perguntamos por que as roupas femininas ganharam tanta atenção quando há tantas questões mais urgentes enfrentadas pelas mulheres refugiadas na Europa, incluindo a Suíça. A pandemia teve um impacto econômico devastador em muitos setores da sociedade, mas as mulheres têm sido as mais atingidas. 

Como líderes e organizadoras comunitárias, conhecemos as barreiras sistemáticas à igualdade e inclusão enfrentadas pelas mulheres refugiadas na Suíça: restrições no mercado de trabalho, discriminação no emprego e até mesmo no acesso a oportunidades. Enfrentamos a falta de respeito ou reconhecimento por nossas realizações educacionais ou habilidades profissionais, simplesmente porque construímos nossas carreiras em países em desenvolvimento. Enfrentamos ostracismo social.

Enfrentamos limitações em nossa capacidade de ter acesso à educação, de conseguir empréstimos para iniciar negócios e de encontrar serviços de cuidado infantil acessíveis para nossos filhos, para que possamos trabalhar. Enfrentamos acusações de que não estamos "dispostas a aprender a língua local" quando, de fato, trabalhamos muito para isso, e já demonstramos nossa capacidade de dominar várias outras línguas. Frequentemente enfrentamos violência doméstica em casa e comportamentos ameaçadores ou insultuosos nas ruas. Enfrentamos estereótipos nos meios de comunicação que nos retratam como vítimas passivas da opressão e não como corajosas defensoras dos direitos humanos que somos. Enfrentamos a acusação de que nossos valores estão de alguma forma em desacordo com os da Europa, quando somos nós que fugimos de nossos lares para ter uma chance de justiça e liberdade aqui na Europa. Lutamos pelos "valores europeus" como liberdade religiosa, autonomia e igualdade de gênero com muito mais garra do que muitos europeus, ainda mais porque sabemos o que é crescer sob regimes opressivos.

É doloroso querer pertencer e ainda assim ser tratada eternamente como a "outra" - culpada por nossas próprias "falhas de integraçãoLink externo" - quando nós, assim como as mulheres europeias, trabalhamos muito duro.  Iniciativas odiosas como a proibição da burca e do niqab são apenas mais um lembrete de que não importa o quanto tentemos, nunca pertenceremos totalmente aqui; nunca poderemos realmente nos tornar suíças.

Ao defender o direito das mulheres refugiadas e imigrantes de ter "um lugar na mesa", procuramos também promover a igualdade de gênero para nossas colegas nascidas na Europa. Barreiras institucionais e estruturais à igualdade de gênero - como discriminação no mercado de trabalho, violência doméstica e falta de cuidado infantil acessível - afetam também as mulheres nascidas na Suíça. A Suíça ocupa o 26º lugar de 29 no "índice de teto de vidro" da Economist: estas questões afetam tanto as mulheres suíças nativas quanto as imigrantes.  Nossos interesses não se opõem aos interesses das mulheres suíças: estamos do mesmo lado.

Anila Noor, ativista de direitos humanos, palestrante do TEDx e refugiada do Paquistão na Holanda, é uma especialista em questões de gênero e migração, parte do Grupo de Especialistas da Comissão Europeia sobre os pontos de vista das migrantes, e co-fundadora da GIRWL e diretora administrativa da New Women Connectors. @nooranila

Maria Khoshy é estudante de estudos comerciais e representante de refugiados e ativista na Suíça. @mariakhoshy

As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente das autoras, e não refletem necessariamente as opiniões de SWI swissinfo.ch.

Série de opiniões

SWI swissinfo.ch publica artigos de opinião de colaboradores que escrevem sobre uma ampla gama de temas - assuntos suíços ou que impactam a Suíça. A seleção de artigos apresenta uma diversidade de opiniões destinadas a enriquecer o debate sobre as questões discutidas. Se você gostaria de enviar uma ideia para um artigo de opinião, por favor envie um e-mail para english@swissinfo.ch.

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Adaptação: Fernando Hirschy

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