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"Tenho muita admiração pela Suíça"

Mario Vargas Llosa é um dos mais conhecidos escritores da América Latina. swissinfo.ch

Mario Vargas Llosa participa de um debate literário com o escritor suíço Jacques Chessex, durante um evento organizado em Berna.

Este conteúdo foi publicado em 10. novembro 2004 - 16:10

O autor de livros como o “A Cidade e os Cachorros” e "Pantaleão e as visitadoras" volta para a Suíça, um país com o qual tem laços afetivos.

Mario Vargas Llosa é não apenas um dos escritores mais conhecidos no mundo, mas também um intelectual comprometido.

Ele recebeu diversos prêmios pela sua obra, como o Prêmio Cervantes (1994), um das mais prestigiosas distinções da literatura de língua espanhola. Há pouco tempo o escritor publicou o livro “A tentação do impossível”, ensaio no qual se adentra numa das obras-primas da literatura do século XIX: "Os Miseráveis", do escritor francês Victor Hugo.

Durante uma noite em Berna, Mario Vargas Llosa e Jacques Chessex, único escritor suíço de expressão francesa a receber o prêmio Goncourt, debateram temas diversos durante uma noite literária organizada no Hotel Bellevue Palace de Berna.

Pouco antes de iniciar o evento, patrocinado pela Aliança Francesa de Berna e a Embaixada do Peru na Suíça, o escritor peruano foi entrevistado por um repórter da swissinfo.

swissinfo: Caro Vargas Llosa, essa não é sua primeira visita à Suíça. O senhor também esteve no Fórum Econômico Mundial e há pouco tempo em Zurique. Qual seu vínculo pessoal com a Suíça?

Eu já vim à Suíça muitas vezes. Muitas delas foi para participar de conferências, exposições. Outras vezes vim para ver as minhas netas. Duas delas vivem em Genebra, pois o segundo dos meus filhos é funcionário das Nações Unidas e trabalha com refugiados. Essa é uma das razões mais importantes nos últimos anos para vir a esse país.

Em 1989 o senhor foi candidato à presidência do Peru e disse, durante muitas vezes durante a campanha, que gostaria de ver o país chegar a ser como a Suíça. Na sua opinião, a Suíça é um país exemplar?

A Suíça tem um dos níveis de vida mais altos do mundo. Essa é uma razão para se admirar esse povo. O que eu disse é que isso não foi um milagre, mas sim obra do trabalho, da disciplina, da economia e de uma política muito inteligente e contínua. Tudo isso fez da Suíça um país de altíssimo nível como é o caso hoje em dia.

Eu disse que se quiséssemos, seria possível para o Peru ser um país como a Suíça. Porém meus compatriotas se aterrorizaram e votaram em massa no meu adversário, que era um senhor que lhes garantiria a barbárie. Eles preferiram a barbárie. Por isso não há que se surpreender se muitos povos preferem esse estado à civilização.

Admiro muito a Suíça. Esse é um país que não é pretensioso e nunca tentou assumir um papel executivo internacional. Esse é um país, cujas organizações internacionais como a Cruz Vermelha são de grande utilidade para a humanidade.

Por outro lado, eu admiro também discrição, a modéstia, a falta de pretensão e de arrogância. A civilização suíça tem a fama de ser muito enfadonha. Quando se lê os escritores suíços, parece que a Suíça é um limbo e que todos têm nostalgia do apocalipse.

Isso me parece positivo. A literatura deve oferecer uma alternativa. O apocalipse em si é muito bonito na literatura e na arte. Posso afirmar isso como alguém que vem de um continente que passou por muitos apocalipses na sua história.

Falando de escritores suíços, quem o senhor destacaria com mais veemência?

Existem escritores suíços magníficos. Max Frisch, por exemplo, me parece um excelente representante da literatura. Dürrenmatt é um magnífico dramaturgo. Eu gosto muito das suas novelas e ensaios. Porém cito grandes escritores suíços que, curiosamente, dão através dos seus livros uma visão aterradora do próprio país.

Creio que isso é compreensível. Os escritores têm como função principal manter a insatisfação humana. Eles não existem para dizer às pessoas que o mundo está bem feito e que devem conformar-se com o que tem. Não, o contrário! Eles devem recordar constantemente aos seres humanos que a realidade nunca será suficiente para aplacar todos os nossos desejos, nossos impulsos, nossos anseios, nossos sonhos, nossas ilusões.

Creio que essa é a grande função social da literatura e esse é o grande compromisso do escritor. Ele deve manter a insatisfação humana viva, pois sem insatisfação não há progresso. Sem insatisfação nós iríamos naufragar em um conformismo que manteria o mundo estático. Essa imobilidade é quase o símbolo da morte.

É fundamental que a civilização continue se auto-exigindo e autocriticando. Incluindo países como a Suíça, que alcançaram níveis de vida extremamente elevados, não estão isentos de vazios, de deficiências, de preconceitos. Ainda existe muito a combater. Por isso a literatura cumpre uma função muito importante.

Por essa razão é que Mario Vargas Llosa pode ser considerado um escritor comprometido?

Não creio que a literatura deve ser apenas uma forma de entretenimento. Creio que ela é um entretenimento maravilhoso. Para mim não existe um prazer maior do que ler um bom livro. Porém creio que se a literatura tivesse apenas a função de entreter, ela estaria condenada a desaparecer.

Ela nunca poderá competir com o cinema, com a televisão, com esses meios audiovisuais, onde a diversão é sua função principal. Eu também creio que a literatura entretém, porém ao mesmo tempo ela deve preocupar, estimular a reflexão e nos dar uma perspectiva crítica sobre o mundo em que vivemos em todos seus aspectos: cultural, religioso, social e político.

A literatura deve ser um fermento de inquietude e de preocupação e nos permitir de ver a realidade com olhos de inconformidade. Creio que essa foi a principal função da literatura durante sua história. Por isso sou muito crítico com essa literatura “light”, essa literatura ligeira que não se fixa outros objetivos a não ser propiciar momentos agradáveis aos leitores.

Falando da sua última obra. Depois de vários romances, o senhor mudou o gênero. A “Tentação do Impossível” é um ensaio sobre uma das obras-mestras do século XIX: “Os Miseráveis”, do escritor francês Victor Hugo, uma obra que na sua opinião mantém sua atualidade.

Essa é um dos grandes romances já escritos na história. Justifico através da sua ambição, da sua complexidade e também pois muitos dos temas desenvolvidos na obra continuarem a ser extremamente atuais: a condição humana, o mistério do bem e do mal, a transcendência, a redenção e a natureza da história.

As coisas que ocorrem no mundo se desenvolvem de uma forma totalmente arbitrária, casual, ou existe uma força superior que organiza a história numa determinada direção e nós não podemos senão interpretar esse pendão por escrito. Esses são temas não resolvidos e são temas que a atualidade vai constantemente ressuscitando, colocando em evidência.

“Os Miseráveis” é um romance que trata de todos esses temas com respostas que podem ser aceitas ou discutidas, mas que são de uma atualidade permanente. Ao mesmo tempo, o livro tem personagens sedutores, uma história fascinante que traz emoção.

Na minha opinião, esse livro mantém sua audiência como poucos romances do seu tempo. Ao escrever o meu ensaio, descobri que depois de Shakespeare, Victor Hugo é o escritor que mais gera biografias no mundo, inclusive na atualidade. É o autor, sobre o qual se produzem uma quantidade impressionante de ensaios críticos, edições críticas e traduções.

Creio que dentro da obra de Victor Hugo, sem dúvida, a principal é “Os Miseráveis”. Esse é um dos romances mais adaptados para o cinema, televisão, teatro, história em quadrinhos e para as crianças. Também foi um dos romances mais traduzidos na história da literatura.

Na “Tentação do Impossível” analisa minuciosamente a vida e a obra do escritor francês. Na sua tentativa de desvendar quem foi Victor Hugo, o que mais o fascina nesse personagem?

Pela diversidade da sua vida. Pois ele foi poeta, novelista, ensaísta e autor de livros de viagem. Do seu modo, ele foi um jornalista, um repórter da atualidade. Ao mesmo tempo em que ele escreveu milhares de páginas, foi também um homem que viveu de uma forma extremamente intensa.

Estive praticamente como protagonista e como testemunho de todos os grandes sucessos históricos do seu tempo na França, na Europa. Ao mesmo tempo, ele teve uma vida familiar, uma vida sentimental riquíssima. Qualquer pessoa fica maravilhada de ver como ele foi tanta coisa de uma só vez. Creio que esse é o aspecto que mais me fascina na vida de Victor Hugo.

O senhor se define como um escritor muito disciplinado, que escreve todos os dias. Qual a importância da disciplina para um escritor?

Não poderia ter realizado a minha obra se não fosse a disciplina. Creio que devo muito dessa qualidade à Europa. Quando cheguei ao continente por volta de vinte anos, descobri que se não trabalhasse de uma maneira organizada, disciplinada, metódica, eu nunca chegaria a terminar de escrever um livro.

Sou disciplinado. Meu trabalho é o único setor da minha vida onde sou realmente disciplinado. Nos outros sou desordenado. Escrevo de uma maneira sistemática, com horário, trabalhando pelas manhãs e tardes. Preparo meu esquema diário e cumpro-o de forma rigorosa. Assim se converteu minha maneira de viver, como dizia Flaubert, e eu não posso imaginar algo distinto.

swissinfo, Belén Couceiro
traduzido por Alexander Thoele

Breves

Mario Vargas Llosa nasceu em 1936 em Arequipa, Peru, e vive atualmente entre Madrid, Londres, Paris e Lima.

Em 1993 obteve a nacionalidade espanhola e em 1994 foi designado membro da Real Academia Española.

O escritor recebeu diversos prêmios por sua obra literária, dentre elas o Prêmio Príncipe de Asturias e o Premio Cervantes.

Suas obras foram traduzidas em mais de trinta idiomas.

Está casado com Patricia Llosa e tem três filhos: Alvaro, Gonzalo e Morgana.

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