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"Viajei mais de 220 vezes entre a Suíça e o Brasil"

A famosa Ponte da Capela, em Lucerna, cidade natal de Pablo Stähli

(Keystone)

Quem o diz é Pablo Stahli, 63 anos, 'o gringo' para os íntimos. Natural de Lucerna, Pablo conhece o Brasil desde 1972. Enamorou-se do Nordeste (e de uma recifense), viajou no Brasil de norte a sul, de leste a oeste.

Esse suíço fez muito pela cultura brasileira, em particular nordestina. Há pouco tempo Pernambuco prestou-lhe tributo, homenageando-o com o título de cidadão pernambucano.

Pablo Stahli é um fenômeno. Editor, escritor e ex-galerista e, é claro, amante de arte, carinhosamente chamado de "gringo" em Recife, Pablo adotou como sua segunda pátria o Brasil que conhece "de Fernando de Noronha a Foz do Iguaçu, do Rio Branco a Parati, de Cuiabá a Tabatinga, de Brasília a Tocantins e a Serra Pelada".

Ele lembra ter realizado inúmeras viagens ao Pantanal e à Amazônia, além de excursões pelo interior pernambucano: Goiana, Timbaúba, Caruaru e Exu (terra de Luiz Gonzaga).

E aprendeu em suas andanças a gostar "do pato no tucupi, do acarajé baiano, do churrasco gaúcho, da feijoada, da galinha a cabidela, da carne do sol e a estimar o açaí, o sapoti, a manga e o abacaxi". Para um gourmet como ele parece – e mesmo um pouco gourmand, como confessa – descortinava-se um mundo de novos sabores.

Primeiro impacto

Foram estes alguns dos pontos que destacou ao agradecer o título de cidadão pernambucano que lhe foi conferido pela Assembléia Legislativa de Pernambuco, pelos enormes serviços prestados à cultura nordestina, em 14 de março deste ano.

Este título foi importantíssimo para mim, disse-nos ele, em Zurique, agora em julho, porque significa "uma grande prova de amizade".

A primeira das viagens de Pablo Stahli ao Brasil ocorreu em 1972, quando ao visitar compatriotas amigos, "não falava uma palavra de português". Para ele, na época, Recife - que iria apreciar cada vez mais - não passava de um ponto no mapa.

Naquele ano suas impressões sobre o Brasil já tinham ficado marcadas por um primeiro impacto: o pouso no Rio de Janeiro em plena aurora, um momento inesquecível, diz ele, pois diante da deslumbrante beleza da cidade e da natureza circundante comoveu-se a ponto de derramar algumas lágrimas. "Viajei mais de 220 vezes ao Brasil, nunca a emoção foi tão grande como naquela chegada".

Até então a imagem que ele tinha do País estava associada a uma grande figura, Oscar Niemeyer, e a alguns clichês: "samba, futebol e morenas bonitas".

Mágoa com a arrogância sulista

Mas já nessa primeira viagem começou a impregnar-se da realidade... e tomar consciência de preconceitos persistentes.

Ao manifestar desejo de viajar para Recife, foi seriamente desaconselhado por amigos. "Para um gringo culto e educado", o Nordeste - região de "cobras, de ladrões, de muitos perigos e muito inóspito" - não era um destino digno. (Confira no audio, ao lado).

Mas contrariando as advertências, a viagem ia revelar-lhe que o Nordeste não era nada daquilo. Ao contrário, ele deparou com "hospitalidade, charme, amabilidade. Exatamente o oposto do que os preconceituosos sulistas disseram", como enfatiza.

Hoje, rememorando o que ocorreu há mais de 30 anos, Pablo Stahli - 'recifense de coração', como proclama - diz ter tido então "o primeiro encontro com a arrogância sulista, que machuca até hoje".

O desabafo foi feito por ocasião da homenagem de Recife "pelos serviços prestados a Pernambuco e, conseqüentemente, ao Brasil".

Carinho devolvido em dobro

Numa segunda viagem, o apreço pela região seria reforçado pelo encontro do amor: "Desde que conheci Iracema, o Recife virou o centro de meu mundo", confessa.

Em 1992, quando de um importante evento sobre cultura brasileira na Suíça – o Festival Veraneio Brasileiro, em Zurique – o suíço-pernambucano vai devolver "um pouco de todo o carinho recebido".

Responsável pela parte nordestina da exposição, Pablo organizou uma mostra de pinturas e arquitetura e parte do catálogo do evento publicando uma obra de 500 páginas (em alemão), que considera "o livro mais completo e competente sobre a história e a cultura brasileira publicado no exterior".

Em Zurique "mostramos história, música, teatro, cinema, artes plásticas, escultura, dança, etc", lembra Stahli com legítimo orgulho. Os suíços tiveram excelente ocasião de preencher lacunas sobre uma cultura pouco conhecida na Europa.

Os suíços puderam, por exemplo, não apenas conhecer algumas obras de pintores famosos, parte do acervo do MASP (Museu de Artes de São Paulo) como também ouvir a espantosa história de Lampião, admirar as carrancas do Rio São Francisco, várias peças de artesanato de Goiana e Caruaru e outras coisas típicas pernambucanas.

Tiveram também oportunidade conhecer diferentes comidas nordestinas servidas em restaurante - montado in loco - preparadas por sua própria esposa.

O feito maior de Pablo Stahli - ou melhor, o mais excepcional - por ocasião da mostra brasileira em Zurique, no verão de 1992, consistiu, porém, em trazer do Nordeste "uma jangada de seis paus e dez metros de comprimento" para navegar no lago de Zurique, em frente à exposição. "Uma aventura espetacular", como ele mesmo comenta.

Um pé na Suíça e outro no Brasil

Seu amor pelo região vai além: ele tem particular apreço por Luiz Gonzaga, dispondo de uma importante coleção de obras do 'rei do baião', que é considerado o maior divulgador da música nordestina no Brasil.

O suíço ajudou também a publicar Quem foi Lampião e A Guerra Total de Canudos, dois livros de peso, de autoria de Frederico Pernambucano de Mello (superintendente da Fundação Joaquim Nabuco).

Difundiu ainda no velho continente as xilogravuras de J. Borges - o internacionalmente famoso artista folclórico, a quem admira e quem promoveu - além de homenagear a literatura de cordel.

Outra faceta do novo cidadão pernambucano – alem de seu interesse pelas diferentes expressões culturais nordestinas – são suas preocupações em melhorar a situação dos menos favorecidos.

A maior expressão dessa preocupação social materializou-se na criação, em 1997, com apoio de amigos de Zurique, de uma escola no município pernambucano de Igarassu (cidade de quase 80 mil habitantes), onde através de doações, atende hoje a cerca de 600 crianças carentes.

Pablo mexe – um pouco por acaso – até com piscicultura, criando tilápias, que fornece à escola de Igarassu: "não é lá tão saborosas, mas são uma bomba de proteínas", observa.

Pablo Stahli – que incorporou o sobrenome Couto, da esposa, a seu próprio sobrenome – mora há 10 anos em Recife. Viaja muito, estando por vezes com um pé na Suíça e outro no Brasil. Daí o espantoso e quase inacreditável número de viagens que realizou e continua a realizar entre os dois países.

Ele diz gostar da capital pernambucana, do clima da região, das numerosas amizades e apreciar o mar "que para um suíço é uma coisa incrível". Lembra ter sido assaltado três vezes, mas pelo que tudo indica não se arrependeu nem um pingo de ter se estabelecido na capital nordestina.

swissinfo, J.Gabriel Barbosa

Breves

Pablo Stahli (na realidade Stähli - com trema - nome que se pronuncia 'stêeli'), virou Pablo Stahli Couto em Recife, depois que ele acrescentou ao seu o nome de sua esposa pernambucana, numa aparente vontade de integrar-se no Brasil.

Desde 1972, quando de sua primeira de mais de 200 viagens ao País, encantou-se do Nordeste, pois casou com uma recifense, aprendeu a apreciar a cultura e a culinária locais, promoveu as xilogravuras do pernambucano J. Borges (natural de Bezerros) que considera um gênio, publicou um livro sobre Lampião e outro sobre a Guerra dos Canudos e divulgou na Europa - em particular através de uma importante exposição em Zurique, em 1992 - a arte, a literatura e a música nordestinas.

Por tudo que fez pelo Nordeste e pelo Brasil foi homenageado em março deste ano de 2007 com o título de cidadão pernambucano, sentindo-se muito muito honrado pelo reconhecimento de seu trabalho em prol da divulgação de uma realidade brasileira que foge aos tradicionais clichês sobre violência, mulatas, mulheres fáceis, futebol, samba, carnaval...

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OBRAS PUBLICADAS

Através de sua editora no Brasil (Stahli.Recife.Editora) publicou :
"Quem foi LAMPIÃO", uma biografia de 154 páginas e 38 ilustrações sobre o cangaceiro, assinada por Frederico Pernambucano de Mello que assinou também "Que foi A GUERRA TOTAL DE CANUDOS", de 314 páginas e 48 ilustrações.

Em 1992, para uma mostra sobre cultura brasileira em Zurique, foi lançado um obra de fôlego: BRASILIEN Entdeckung und Selbstentdeckung, livro de 526 páginas, exclusivamente em alemão, com numerosas ilustrações. São 60 artigos sobre história, cultura, cinema, artes plásticas, música, política, economia, Amazônia, o Nordeste, etc.

Além de livros sobre artes, em alemão – pela Stähli.Zürich.Edition , publicou também, em 2006, em edição bilingüe O Novo Catálogo Brasileiro, extrato de um registro de observações sobre o Brasil, elaboradas pelo escritor e jornalista suíço Peter K. Wehrli e ilustradas por J.Borges. Do extrato das 148 notas, destacamos como exemplo a seguinte: 'balbúrdia' e 'bugiganga' e 'geringonça' ... três estranhas palavras presentes no dicionário que, para retê-las na memómia, pelo menos me custaram alguns minutos do melhor sono fortalezense...

São palavras, de fato, complicadas, não somente para um gringo...

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