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01 de junho de 2018 Empresários brasileiros atingem maturidade e saem do lugar comum

O sonho de Luciana Monin era voltar a pintar, assim como faz sua mãe, professora de artes desde que a filha era pequena. Deixou a carreira na área de finanças e abriu um atelier de arte próximo a Vevey, onde promove exposições, eventos temáticos e cursos. 

Mulher com um bolo na mão

Amuni Ghazzaoui: "Eu cozinho com amor, adoro conversar com os clientes e apresentar a culinária brasileira e suíça".

(swissinfo.ch)

Amuni Ghazzaoui ama cozinhar e sempre teve tino comercial. Quando menina, vendia para a vizinhança os limões do seu limoeiro, para espanto da avó. Deixou o emprego no setor de Meio Ambiente e montou o Café MoemaLink externo, especializado em comida suíça e brasileira em Glattbrugg. Já Isa Felder sempre gostou de idiomas. Jornalista de formação, hoje dirige a escola de idiomas World Language em Zurique com dois sócios. Kelly Nielsen se sensibilizou com a cultura do capim dourado do Tocantins e queria ter mais tempo para o filho pequeno. Abriu a loja Almada Bijou, que vende bijuterias on-line, onde revende o produto artesanal principalmente para clientes suíças.

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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Os quatro perfis de empresários demonstram o grau avançado da comunidade empreendedora brasileira na Suíça. Nada de picanha ou coxinha, esses negociantes saíram do lugar comum dos produtos étnicos, que vendem exclusivamente para o mercado brasileiro da saudade, e atuam em níveis mais desenvolvidos como o de mercados altamente competitivos.

O professor Eduardo Picanço Cruz, que coordena o projeto de pesquisa de Empreendedorismo de Imigrantes e Refugiados na Universidade Federal Fluminense (UFFLink externo), explica que a aposta na categoria de oportunidades denominada Mercados Altamente Competitivos demonstra claramente a maturidade no quesito empreendedorismo. “Esses empresários focam em um mercado consumidor internacional, tentam se adaptar culturalmente a esse novo público, desafio muito mais complexo. Isso não quer dizer que quem aposte no mercado étnico esteja desatualizado. De maneira alguma, é somente um outro foco de clientela”, explica o professor, que também coordena o MBA Executivo em Gestão Empreendedora da Universidade Federal Fluminense.

De acordo com Picanço, esses empresários têm perfis parecidos, em geral apresentam nível educacional mais alto, dominam a língua local e a cultura do país onde habitam. “Para atuar nesse mercado, é preciso entender o modus operandi suíço. Geralmente já trabalharam como empregados, compreendem o funcionamento e as necessidades do mercado e aí abrem seu próprio negócio”, explica. Segundo o professor, mesmo lidando com público internacional, o jeito, a simpatia e a flexibilidade brasileira devem ser mantidos como diferencial – isso é o principal “ativo” do empreendedor imigrante. Especializado no assunto e escrevendo livro sobre empreendedorismo em contexto migratório, ele cita o exemplo de brasileiros donos do próprio negócio em Miami, que ganham clientes por aceitarem encomendas de última hora, característica tipicamente brasileira.

De acordo com Luciana Monin, ela usa a organização e acuidade aprendidas no mercado financeiro em seu atelier. “Dou aula em vários idiomas, tenho sempre orçamento atualizado e registro dos clientes, disciplina que aprendi trabalhando em bancos aqui na Suíça. O meu lado brasileiro eu uso no atendimento. Sempre ofereço chá com biscoitos, respeito o ritmo individual de cada aluno e dou uma atenção especial às crianças e a seus pais, que podem até pintar juntos com os filhos”, diz a professora e empresária.

Mulher ao lado de pintura

Luciana Monin: " Sempre ofereço chá com biscoitos, respeito o ritmo individual de cada aluno e dou uma atenção especial às crianças e a seus pais, que podem até pintar juntos com os filhos."

(swissinfo.ch)

Amuni Ghazzaoui confessa que lança mão do seu lado latino para atender ao público do Moema Café. “Eu cozinho com amor, adoro conversar com os clientes e apresentar a culinária brasileira e suíça”, explica.

Empreendedores buscam qualificação

Outros indicadores do desenvolvimento do empreendedorismo na Suíça são o número de empresários e a consequente movimentação desse nicho da comunidade no país. Eventos, cursos de qualificação e plataforma de negócios podem ser usados como exemplo dessa ebulição.

De acordo com dados fornecidos pelo Ministério das Relações ExterioresLink externo, dos 20 mil microempresários conterrâneos pelo mundo, 950 têm sede na Suíça. Apesar de não contar com uma população brasileira tão numerosa, ocupa o quarto lugar no ranking, atrás somente dos Estados Unidos (6 mil), Japão (1,5 mil) e França (1,3 mil). Cerca de 3,1 milhões de brasileiros vivem em outros países.

Seguindo orientação do MRE, o Consulado Brasileiro de ZuriquLink externoe tem realizado eventos desde o ano passado. O último aconteceu em março deste ano. De acordo com vice-cônsul Brasileiro em Zurique, Leandro Rocha de Araújo, outros eventos estão previstos para 2018.

Durante o encontro, que contou com a participação de cerca de 70 brasileiros, a advogada Fernanda Pontes Clavadetscher pode contar como foi I Conferência sobre Micro e Pequeno Empreendedorismo Brasileiro no Exterior, promovida pelos Ministério das Relações Exteriores em setembro do ano passado. A advogada foi convidada como integrante do Conselho de Cidadania da Jurisdição de Zurique para representar a Suíça.

O Consulado ofereceu também aos convidados palestras sobre Como Elaborar plano de Negócios (SEBRAE), Marketing Digital (Loovus Comunicação), Empreendedorismo (Interpreender) e Comércio On Line (Eurora).

De olho na tendência, a Interpreender criou cursos e workshops para quem já administra a própria empresa ou quem iniciar o seu negócio. Junto com a Loovus Comunicação, desenvolveu o workshop Empreendendo na Suíça. A Loovus criou a plataforma on line Longe de Casa para anunciar negócios e serviços da comunidade na Suíça.

Em busca de sonhos e de aventuras

Amuni Ghazzaoui é bióloga com especialização em Gestão e Tecnologia Ambiental e tem mestrado em Ecologia na Universidade de Zurique. Mas quem venceu foi a vontade de cozinhar e atender clientes. Montou no ano passado com o sócio suíço Andreas Portman o Moema Café, com a proposta de oferecer um mix de pratos suíços e brasileiros. Levam a ideia da mistura das culturas tão a sério que chegam a fazer pastel de Züri Geschnetzeltes (picadinho de carne à moda suíça) e pão de queijo com queijos suíços e biscoito goiabinha de lembrança de natal. Colegas de universidade, dão toque sustentável ao negócio: tentam comprar ingredientes locais e orgânicos e usar o mínimo possível de material descartável.

A união das duas culturas deu tão certo que os sócios irão abrir novo restaurante no dia 1 de agosto. A nova localidade será em Eglisau, onde Amuni promete mais novidades, já que terá uma cozinha bem maior que a do Café Moema. 

Desde 2016, Lu Monin realiza o sonho de trabalhar com arte e comanda o Atelier que leva seu nome. É no espaço anexo à sua casa que a ex-gestora de Patrimônio ensina crianças e adultos os truques e técnicas dos pincéis e das tintas. Criativa, abre o local para festas infantis diferentes e oferece cursos para os pequenos durante as férias e workshops para adultos do tipo “Wine & Painting Night”, que como o próprio nome explica, as pessoas podem tomar vinho e pintar à noite. Desafio maior: a disciplina de trabalhar próxima da família e conseguir separar trabalho e tarefas do lar.

Kelly Nielsen chegou à Suíça em 2002. Aprendeu o alemão, trabalhou como cuidadora de idosos até que engravidou do seu filho, há cinco anos. Não queria mais ficar tanto tempo longe de casa e decidiu aprender algo novo. Foi quando conheceu a proposta dos artesãos de Palmas, que fazem bijuterias finas com o capim dourado, e montou a Almada BijouLink externo. Seu foco é o público suíço e venda online. “Como empreendedora, aprendi que não existe achismo. Quero levar o nome do Brasil para a Europa e ajudar a população carente de Tocantins”, conta Kelly, que para entrar no mercado internacional, teve que retirar materiais proibidos como níquel, usados na confecção das bijuterias brasileiras. 

Isa Felder queria fazer diferença na sociedade suíça e ajudar na formação do ser humano. Dessa forma, abrir uma escola de línguas veio de encontro à vontade. Isa defende a ideia de que nada mais importante que falar a língua para facilitar a integração. Formada em jornalismo, tradutora e com capacitação suíça para dar aula para adulto, decidiu a escola junto com os sócios Nelson Adão e Claudia Lopes. A World Language SchoolLink externo aposta no diferencial: ensina alemão e outros idiomas com professores de língua portuguesa, o que ajuda no entendimento da gramática e na explicação do conteúdo. A escola de idiomas funciona próxima à estação principal de trem de Zurique e atualmente tem alunos dos cursos de inglês, alemão e até de ioga.

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