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15 de dezembro de 2017 Especialista explica que mães migrantes têm mais tendência ao estresse e à depressão

Experimente juntar mudanças hormonais com inseguranças, saudades, dor, cansaço, solidão, incompreensão, diferenças culturais, língua estrangeira... Esses são alguns dos ingredientes que compõe o coquetel bebido pela maioria das estrangeiras que se tornam mães ou que engravidam longe de seu país de origem.

Uma mulher grávida na varanda de um prédio moderno

Gravidez é um momento importante na vida de uma mulher, mas não é fácil quando a família está distante.

(swissinfo.ch)

Muitas vezes, dores que podem tirar o brilho da maternidade tão esperada. Para a assessora de Lactação e coach Claudia Rodrigues, portuguesa que vive na Suíça desde 2014, a solução passa por uma maior humanização dos serviços ligados a essa fase e, principalmente, pela recriação das tribos, onde no passado os integrantes se auto ajudavam. Formada em Ciências Sociais, com foco em psicologia, Claudia diz que: “As mulheres das sociedades ocidentais estão extremamente sozinhas, a ponto de perderem a sabedoria feminina que era passada de mãe para filha”.  Em entrevista à Swissinfo.ch, a profissional explica em detalhes o que pode ser feito para suavizar esse momento tão especial de toda mulher.  

Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Como a Senhora vê os desafios da maternidade fora do país de origem?

C.R.: A maternidade é interpretada de forma diferente dependendo da cultura. É um fato no qual os médicos e profissionais têm que atentar. Mesmo entre Brasil e Portugal existem dissemelhanças. Aliado a isso, acrescente nesse caldeirão o contexto da imigração, que vem acompanhado de outras adversidades, sentimentos e situações culturais desiguais. A mãe ou grávida no exterior sofre de dupla vulnerabilidade: se sente excluída seja pelo idioma ou pela cultura, e ainda vive uma realidade ambígua, já que não reside no seu país de origem e não se identifica com alguns conselhos do local de acolhida.

A dificuldade com o idioma, por exemplo, aumenta o sentimento de distância. Entender e até explicar em outra língua os embaraços psicológicos pelos quais muitas mulheres vivenciam nessa fase vivem é muito complicado. Vamos supor que eu me sinta, por exemplo, triste e oprimida na gravidez, ou que o meu bebê já tenha nascido e eu esteja muito cansada, com privação do sono, e saudades do meu país. Como eu vou dizer isso ao médico? Eu posso não encontrar as palavras, por ser uma língua estrangeira; mas existe também a probabilidade de que eu não consiga sensibilizar o profissional, caso seja de uma outra realidade cultural.

Por isso é uma mistura de barreiras culturais temperada por explosão hormonal.

swissinfo.ch: Então a Senhora diria que é mais difícil ser mãe no exterior?

C.R.: Eu diria que o desafio é com certeza maior. Infelizmente muitas migrantes estão expostas a uma posição inferior na sociedade estrangeira. Essa vulnerabilidade acaba por colocá-la em submissão, muitas vezes obrigada a aceitar tudo que dizem a ela.

Como já mencionei anteriormente, a cultura tem um papel muito importante na maternidade, qualquer que seja o estrato social. Conselhos que vêm de realidades muito distintas podem aumentar o conflito que as migrantes já vivem com elas mesmas. Como as formas de cuidados com os bebês são diversas, baseadas no que vimos nossas mães e tias fazerem, cria-se essa dualidade. É importante que profissionais como médicos e até mesmo as parteiras tenham em mente que as raízes culturais são muito fortes e prevalecem no momento de ter e cuidar de um bebê. Por exemplo, Juliana Pereira, brasileira e terapeuta da Fala, que vive em Portugal, relatou que uma experiência negativa durante o parto a levou, após o nascimento de seu bebê, ao isolamento para não ter que ouvir coisas que não tinham nada a ver com a sua cultura. E reconhece que isso lhe fez mal e que, agora grávida novamente, sabe que não pode voltar fazer o mesmo.

Já foi comprovado que mães migrantes têm mais tendência ao estresse e à depressão. De acordo com estudos, 85% das mulheres experimentam algum tipo de distúrbio do humor. Na maioria dos casos: sintomas ligeiros e de curta-duração; 10 a 15% das mulheres desenvolvem sintomas mais significativos de depressão ou ansiedade. Portanto, é imprescindível paciência e compreensão. O fato de a mãe se encontrar emigrada é um fator de risco relevante para o desenvolvimento de patologia psiquiátrica associada à maternidade.

swissinfo.ch: Então a condição de migrante funcionaria como um catalizador da já complicada fase da gravidez ou da recém maternidade?

C.R.: Exatamente. É uma etapa trabalhosa e complexa, experimentada por mulheres que estão longe de seus familiares, em um ambiente cultural totalmente diverso, onde se é falado um idioma diferente. Parir é um período conturbado, é uma transformação na vida, uma explosão de hormônios. Depois do nascimento, todas as mães têm privação do sono por causa do cuidado ao bebê. Têm um ser totalmente dependente dos seus cuidados. Algumas mães têm problemas com a amamentação ou têm um neném que chora muito com ou sem razão aparente, como com as cólicas. É preciso prestar atenção, algumas desenvolvem depressão e até algumas psicoses.

Nesse contexto de migração, as mulheres geralmente relatam mais dificuldades. A falta de uma rede de contatos ou até mesmo a ausência da família tornam o período mais difícil. As estrangeiras geralmente perdem os conselhos das mulheres da família, das vizinhas. As recém-chegadas, dessa maneira, são as que mais estão em desvantagem. Não podem contar com a ajuda de uma outra mulher para levar uma comida, por exemplo. Os rituais, como o chá de bebê, por exemplo, se perdem quando se vive no exterior. A não ser que a grávida já tenha formada uma rede de conhecidas no país de acolhida.

Claudia Rodrigues

(swissinfo.ch)

Sabendo das inconveniências desse período da vida, eu aconselho às mulheres a transformarem o chá de bebê convencional, por exemplo, em um encontro de bênção por um bom parto. Os rituais são importantes, mas melhores ainda se bem utilizados. Um exemplo: em vez de fazerem visitas para conhecerem o bebê, seria muito mais interessante se as amigas visitassem para ajudar na limpeza, para levar uma comida para aquela mãe que está sem tempo até de comer, ou até mesmo olhassem o bebê para que ela pudesse tomar um banho. É importante a recriação dos círculos de ajuda mútua.

swissinfo.ch: E como a Senhora vê a situação da maternidade aqui na Suíça?

C.R.: Há um ranking da Economist Intelligence Unit, de 2013, que diz que a Suíça seria o melhor país para nascer. Infelizmente não posso dizer o mesmo para o quesito mãe. A começar pelas leis de licença maternidade e paternidade. A lei federal dá 14 semanas para a mãe e um a dois dias para o pai. Levando-se em consideração que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida completo, existe aí uma brecha. A legislação garante o direito de a mãe de dispor de 90 minutos diários ao longo do dia para extração do leite ou amamentar o bebé no local de trabalho. Entretanto, se a mulher trabalhar em uma loja pequena, seria inviabilizado.

É preciso que as empresas entendam que a amamentação é um investimento no futuro, já que criança que recebe leite materno fica menos doente. Além disso, a ausência paterna nas primeiras semanas atrapalha na integração da família e pode também influenciar negativamente a amamentação. Sozinha e sem apoio, ela pode sentir nervosismo e estresse, produzindo adrenalina que inibe o efeito da oxitocina, que é o hormônio que auxilia no processo. E pode ainda piorar o estado psicológico da mulher, com a frustração e tristeza de não ter conseguido amamentar.

swissinfo.ch: O que a Senhora aconselharia às mães e às grávidas de língua portuguesa aqui na Suíça?

C.R.: Que busquem apoio, se possível na língua que se sentirem melhor. Não se isolem, falem dos seus sentimentos, medos e angústias. Vocês não estão sozinhas. Eu mesma tive problemas para amamentar meu filho, hoje com dois anos. Também procurei ajuda, que inclusive me inspirou a me tornar Assessora de Lactação.

Recriem a aldeia que tivemos nos séculos passados. Caso não haja a possibilidade de frequentar pessoalmente de um grupo de mães, participe de um virtual. Existem várias associações que promovem esse tipo de encontro. Aqui na Suíça há muitas enfermeiras, psicólogos e profissionais de saúde que falam português.

Eu, por exemplo, vou à casa de minhas clientes e tento ajudar da melhor maneira, sempre respeitando a cultura e desejos de cada família. Eu permaneço até três horas com a mãe e o bebê para auxiliar na amamentação e desmistificar algumas questões referentes por exemplo ao sono, dar colo a mais e outros cuidados com o bebê. Acima de tudo ouvir a mãe e o pai, as suas preocupações, receios e desabafos e propor estratégias para que eles possam decidir se são boas para eles como família. E, se for preciso, até ajudo em pequenas tarefas domésticas que aliviem a pressão daquela família.

É muito importante que as outras mulheres olhem para as mães migrantes com compaixão e amor. Infelizmente a experiência do parto e da amamentação sofreram muito com a modernidade. As mulheres, que assistiam os partos nos primórdios, deram lugar aos hospitais. Não faço uma crítica à medicina e à tecnologia, mas um alerta à necessidade de voltarmos a trocar experiência e a cooperarmos umas com as outras. Como já dizia um provérbio africano muito bonito: para criar uma criança, é preciso uma aldeia inteira.

Experiência de Claudia Rodrigues com amamentaçãoLink externo

Ch.Amamenta.netLink externo

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