Artístico e popular: nova diretora reforça caráter cinéfilo de Locarno

Da esq. para a direita, Raphael Brunschwig, diretor executivo, Lili Hinstin, diretora artística, e Marco Solari, presidente do festival, durante a apresentação oficial do programa de 2019, em 17 de julho. Keystone / Francesca Agosta

Lili Hinstin estreia diretora artística do Festival de Cinema de Locarno com um dos mais ousados e excitantes programas em anos. O festival começa hoje, e vai até o dia 17 de agosto.. 

Este conteúdo foi publicado em 07. agosto 2019 - 11:00
swissinfo.ch

Fiel à sua longa tradição de vitrine cuidadosamente selecionada de filmes europeus e "periféricos" (aqueles feitos fora do eixo EUA-Europa), o próximo festival promete muitas surpresas e mudanças, privilegiando jovens cineastas e obras experimentais de diretores experientes, sem desconsiderar o gosto do grande público.

Para o "cartão-postal" do festival, as sessões noturnas ao ar livre na Piazza Grande, a praça central de Locarno que acolhe até 8.000 pessoas, Hinstin ousou resistir à tendência de oferecer ao público filmes "água-com-açúcar" para atingir grandes audiências.

Algumas mudanças

Ela aceitou o difícil desafio de trazer filmes de qualidade que cativam um amplo espectro do público.

Entre suas escolhas estão o mais recente Quentin Tarantino, Once Upon a Time in … Hollywood, que estreou em Cannes e foi remontado pelo diretor depois; Diego Maradona, um documentário sobre os anos negros do argentino quando jogava no Napoli, feito pelo aclamado diretor do documentário Senna, Asif Kapadia; Até os Confins da Terra (To the End of the Earth), do japonês Kyoshi Kurosawa, diretor 'cult' de filmes de terror; o thriller germano-austríaco "7500" de Patrick Vollrath; e, na abertura do festival, Magari, uma ficção autobiográfica de Ginevra Elkann, neta do industrial Gianni Agnelli, da Fiat.

Portugueses e brasileiros em alta

Dos 17 longa-metragens concorrendo pelo prêmio máximo do festival, o Leopardo de Ouro, dois são portugueses ("Technoboss", de João Nicolau, e "Vitalina Varela", do veterano Pedro Costa), um é brasileiro - o ainda inédito "A Febre", de Maya Da-Rin - e um quarto é suíço mas feito por um diretor genebrino de origem portuguesa, Basil da Cunha, e que se passa no submundo de Lisboa - "O Fim do Mundo". Nunca na história de Locarno houve tantas chances do vencedor falar português. A conferir.  

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Juntando alegria ao prazer dos cinéfilos, Hinstin decidiu transformar a segunda sessão noturna na Piazza Grande em um ciclo típico das sessões malditas da meia-noite, chamado de "Crazy Midnight", com um misto de obras "trash", de horror e suspense de diretores cultuados, como o coreano Bong Joon-ho e os americanos Jack Hill e John Waters, entre outros. Waters, que será homenageado com uma retrospectiva das suas obras, apresentará também uma projeção especial de um dos seus filmes favoritos, "Show People", de King Vidor (1928). 

Hinstin também alterou o título e o âmbito da secção de filmes experimentais, de "Signs of Life" (sinais de vida) para "Moving Ahead" (indo adiante), uma homenagem a Jonas Mekas, falecido recentemente, patrono de longa data dos filmes experimentais, fundador do Anthology Film Archives de Nova Iorque e um dos maiores artistas da câmera do século 20 e deste que se inicia. O nome da seção experimental de Locarno se refere ao filme de Mekas As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty, de 2000 (Enquanto ia adiante, via ocasionalmente breves lampejos de beleza).

Uma nova seção dedicada à realidade virtual, "Gender Bender", mostrará obras da Suíça, Canadá, Grécia, Ucrânia e França, selecionadas, diz Hinstin, menos por suas proezas tecnológicas do que por suas "perspectivas artísticas contemporâneas". Este tipo de trabalho terá um espaço cada vez maior nas futuras edições do festival. 

A fonte da juventude

O festival vem já há vários anos promovendo programas paralelos dedicados a jovens talentos. 

A Academia Locarno inclui programas para cineastas, produtores e críticos em ascensão. swissinfo.ch é também um dos parceiros de mídia da Academia da Crítica (v. box abaixo), juntamente com as publicações Filmexplorer.ch, Film Bulletin, MUBI, Variety e Indiewire.

Este ano, o festival também introduz o seu "Base Camp": um antigo quartel do exército alojará 200 talentos criativos (cineastas, artistas, designers, poetas, etc.) com idades entre 18 e 30 anos, de todo o mundo, sem plano, mas com acesso total aos locais do festival e aos bastidores.

Sabe-se lá o que sairá disso, mas a nova direção do festival parece feliz em assumir alguns riscos criativos. 

Escopo internacional

O "Panorama Suíço", uma seção tradicionalmente dedicada aos filmes nacionais, permanece, mas Hinstin deixou claro que, sob sua direção, a "suiçisse" de um filme não é mais uma garantia de que ele será selecionado.

Referindo-se à "qualidade impressionante das obras de uma nova geração de cineastas suíços", Hinstin espalhou sua escolha de filmes suíços pelas diversas seções do festival, lado a lado com longas internacionais. 

Os filmes suíços que serão exibidos em Locarno incluem 21 co-produções da Sociedade Suíça de Rádio e Televisão (SSR-SRG), empresa-mãe da swissinfo.ch. Muitos deles tratam das oportunas questões de migração, diáspora e temas interculturais, como O Fim do Mundo, do diretor genebrino de origem portuguesa Basil da Cunha, selecionado para o concurso internacional. Há ainda Baghdad in my Shadow (Bagdá na minha Sombra), de Samir, um realizador nascido no Iraque e baseado em Zurique, e Shalom Allah, de David Vogel, em que uma investigação sobre convertidos suíços ao Islã provoca uma série de questionamentos sobre as raízes judaicas do realizador.


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