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A absurda arte de ser suíço

Pedro Moraes interpretando uma "típica" suíça.

Um grupo de imigrantes de Berna se reúne para apresentar uma peça incomum no principal teatro da capital suíça. "Charta von Bern" é sucesso de bilheteria e uma colcha de retalhos, cujo principal objetivo é "reintegrar" os suíços no seu próprio país.

Com muito humor, os quatorze atores transmitem a principal mensagem de que a integração é uma via de duas mãos. Todos são estrangeiros, não importa onde vivam.

Os ingressos já estavam esgotados. Na bilheteria, a vendedora nem dava mais esperanças às pessoas que chegavam para perguntar se já havia desistências. Nada, sem chance.

A peça "Charta von Bern" foi bastante comentada pela imprensa. Não é todo dia que o Stadttheater, o principal teatro da capital helvética, abria seu palco para atores amadores com um perfil tão singular como o deles: imigrantes dos quatro continentes vivendo em Berna há poucos meses ou décadas.

Seu objetivo: discutir "integração", a palavra mágica utilizada utilizada no debate político na Europa ocidental para tentar entender o fenômeno da população crescente de estrangeiros e sua adaptação nos países de acolho.

Para realizar o projeto, o diretor e co-autor da peça, o jovem escritor suíço Raphael Urweider se inspirou em um fato curioso, senão tragicômico, noticiado plenamente pelos jornais helvéticos no final de 2007.

Inspiração na vida real

Foi quando membros do governo municipal de Birr, uma pequena comuna localizada a vinte quilômetros de Zurique, no cantão da Argóvia, exasperados com problemas ligados à criminalidade de jovens imigrantes e o medo do extremismo islâmico, decidiram enviar a cada residência um folheto contendo doze regras básicas de convívio entre suíços e estrangeiros – que correspondem a 45% da população local.

Intitulada "Charta von Birr", o documento foi criticado como sinal de xenofobia ou prova concreta do estranhamento entre os dois grupos. Dentre outras, as regras exigiam respeito às tradições suíças como a fé cristã, o silêncio ou até mesmo o bom funcionamento do sistema social. "Nós, habitantes de Birr, não toleramos abusos das instituições de assistência social", escreveram. O recado claramente direcionado às pessoas sem o passaporte da cruz branca sobre o fundo vermelho.

Considerações políticas a parte, a curiosidade do público em Berna era justificada. O que esses estrangeiros iriam apresentar? Somos pouco tolerantes?

A resposta era dada já na porta do Stadttheater. Para entrar no teatro o público precisava mostrar um visto (distribuído poucos minutos antes por ajudantes). Quem mostrava um "Ausländerausweis C", o visto de permanência e o melhor status para um estrangeiros na Suíça, não era incomodado pelos atores negros fantasiados de policiais. Quem apresentasse só o documento "L", o de curta permanência, "sofria" todo o tipo de arbitrariedade, como receber os piores lugares. Detalhe: o público entrava e sentava no palco, recebendo a luz forte dos holofotes contra os olhos e os atores ficavam nas cadeiras. "Foi interessante, pois aquela situação incômoda me deu a impressão de estar na pele dos estrangeiros", lembrou-se uma espectadora após a apresentação.

"Você pensa que é mais especial que os outros?", gritou um ator para "Lutz", o suíço-álibi no público que se transformava em saco de pancadas durante a peça. Só depois que se percebia que ele também era um dos atores.

Caótico

"Charta von Bern" é propositalmente caótica. Os quatorze estrangeiros convidados por Raphael Urweider para participar do projeto vinham de países como Congo, Egito, EUA, Brasil, Uruguai, Argentina, Senegal e Brasil. Como um retalho, cada um colaborou à peça com um poema, encenação, charge, declamação ou mesmo dança para explicar como conseguiram (ou não) fazer a introjeção na sociedade helvética.

O próprio ensaio já foi um trabalho de "integração", pois a trupe não tinha um idioma comum. "Por sorte, alguns de nós dominava várias línguas e assim foi possível a troca de idéias", conta Pedro Moraes, brasileiro de Belém do Pará e residente há 19 anos na Suíça.

Ele considera-se integrado? Pedro desconhece a razão da palavra. "Não há uma receita para integrar-se ou não integrar-se. Quando a gente mais pensa que está integrado, descobre que não está. E quando achamos que não estamos, é que estamos", brinca.

Pedro apresentou várias dos esquetes na peça. Em um deles, o brasileiro aparecia no palco vestido com uma roupa típica de camponesa suíça, com saia e chapéu, e fazia uma performance ao som de música folclórica dos Alpes que mais lembrava a famosa "Dança da Garrafa". A única diferença era que, ao invés da garrafa, um gigantesco sino de vaca servia como objeto para os movimentos quase sensuais e pouco helvéticos. Provocação? "O nome que demos ao número é 'Samba Suíço'. Na realidade só queremos mostrar os clichês, pois nem todos na Suíça utilizam esses trajes e nem todo mundo no Brasil sabe sambar. Misturamos tudo para mostrar que os clichês podem se misturar ou até mesmo se anular".

Vida cotidiana

Outros esquetes se baseavam na vida real dos atores: um africano carregava o carrinho de bebida e comida através no apertado corredor entre as cadeiras, como no trem. Os "passageiros" pulavam irritados e se incomodavam de não ser entendidos ou não compreenderem o que outros diziam. A idéia era mostrar que problemas de comunicação podem ser levados com humor, uma qualidade por vezes rara na Suíça.

Uma africana entrou e explicou as que as mulheres bernenses deviam fazer mais atenção aos seus maridos. "É preciso tratá-los bem e dar-lhes tudo que necessitam". Risos na platéia. Um outro ator africano se apresentou como ministro. Com terno e gravata, ele fez um discurso, que se revelou, ao final, um impressionante poema sobre passaportes. Em rimas cadenciadas, ele conseguiu transportar ao público o que significa, para um africano, esse pedaço de papel colorido. Se para muitos, um passaporte é um documento, para outros é a liberdade. Palavras sábias do ministro.

A diversidade das biografias foi o tempero no caos. "O nosso grupo tem um ator que trabalha como vendedor de bebidas e comestíveis na Companhia Suíça de Trem, outra está na limpeza do hospital Insel, um trabalha na construção, outro é bailarino profissional, um ator e outros até estudam. Essa é a nossa peça: tem gente de todo tipo", revela Clóvis Inocêncio.

Técnico de luz e ator, ele é o segundo brasileiro em "Charta von Berna" e já vive há seis anos na Suíça. Ele define o projeto como uma tentativa de mostrar a solução para o problema. "A idéia central é que está todo mundo aqui. Temos que tentar viver bem do jeito que está. Obviamente existem um monte de problemas, mas também um monte de coisas positivas. E é isso que é a integração: uma miscelânea de coisas".

E polêmica não faltou em "Charta von Bern". Talvez uma das mensagens mais duras – e pouco cômicas – foi o discurso do ator argentino/uruguaio Angel Zulueta, também no papel de ministro. Ele lembrou ao público o risco de se tornar "ovelha" ao votar em um partido de pede a expulsão de "ovelhas negras". Para quem conhece a política helvética, sabia que ele estava fazendo alusão ao Partido Democrático do Centro/UDC (direita nacionalista) e sua recente campanha de expulsão de estrangeiros criminosos (ler artigo: Concretizada iniciativa contra estrangeiros criminosos).

Reflexão

No final da apresentação, os atores se reuniram com o público no foyer do teatro e dançaram ao som da guitarra de Isaac Biaas, um guitarrista dos Camarões e também imigrante de décadas na Suíça.

Apesar da música, muitos dos espectadores tentaram refletir sobre as mensagens transmitidas. Talvez as mais impactantes tenham sido aquelas que falavam dos próprios suíços. "Quando eles brincam com as diferentes bandeiras dos cantões, onde a gente encontra desde urso, carneiro e até boi, percebi que a gente tem um passado até bem selvagem", brincou um espectador.

Para o Clóvis Inocêncio, a bola é jogada em outra direção. Ele e outros colegas da peça esperam poder mais uma vez se apresentar no palco. A direção do teatro parecia satisfeita com os resultados. Porém o importante é que o recado foi transmitido. "Tentamos traduzir a idéia de que integração não parte só do estrangeiro, mas sim dos dois lados".

swissinfo, Alexander Thoele

"Charta von Bern"

Peça de Erich Sidler e Raphael Urweider
Direção: Raphael Urweider, Erich Sidler.
Atores: Lucas Balogno, Isak Biaas, Souleymane Diallo, Khady Diop, Clóvis Inocêncio, Florentin Lutz, Chera Mack, Seye Madior, Yenga Mogbaya, Joshua Monten, Pedro Moraes, Aziz Touré, Angel Zulueta e Stefano Wenk.

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