Navegação

Menu Skip link

Funcionalidade principal

A longa travessia dos Walser

Casa típica dos Walser em Bosco Gurin, no cantão do Ticino (sul da Suíça).

(picswiss.ch)

Os Walser são uma civilização à parte, com uma antiga cultura germânica de um lado e alpina do outro.

Eles têm uma longa história, que começou quando ainda nem nome tinham, rumo à ocupação da zona alpina,
em torno do século XII.

Naquela época medieval muitas tribos nômades do vale do rio Ródano migraram para o sul em busca de novas terras para o cultivo e pastoreio. Cerca de 150 cidades nasceram a partir deste movimento.

Elas ocupam um arco de 300 quilômetros que vai da Suíça (Valais,Tessin e Saint-Gall, Grisões) à Áustria (Voralberg e Tyrol), passando pela Itália. O vale Landwasser, zona de Davos, os vales de St. Niklaus a Saas, foram alguns dos caminhos dos colonos Walser.

No lado italiano elas lançaram as primeiras bases das cidades de Macugnaga, Formazza e Ornavasso, na província de Novarra e Rima, Rimella e Alagna, em
Valsesia, na região do Piemonte.

O maciço do Monte Rosa foi o território escolhido por este povo que tão bem se adaptou à difícil vida nas montanhas. E, por muito tempo, elas serviram como uma
barreira natural contra a cobiça alheia.

Adaptação à montanha

O isolamento geográfico favoreceu a manuntenção da cultura Walser, principalmente em Im Land, ou seja, Alagna, que fica na fraçao de Z’Kantmud, ou Pedemonte, em italiano. Os seus primeiros habitantes e descendentes raramente tinham contato com os povos das vizinhas montanhas.

Eles quase nunca se aventuravam pelas planíces, além do vale de Valsesia. Aos olhos dos viajantes da época, aquele povo era uma gente estranha, de cabelos
vermelhos e que falava uma língua incompreensível.

Os Walser foram os primeiros a viver, na Europa, acima dos 1.000 metros acima do nível do mar, desafiando as lendas de terríveis habitantes daquelas áreas. Antes deles, somente alguns monges e eremitas se aventuravam por essas altitudes.

A terra era bastante inóspita. Esta dificuldade contribuiu para que eles caíssem nas graças dos senhores feudais e da Igreja, donos daquelas terras.
Em pouco tempo, os Walser se tornaram proprietários definitivos. E assim, puderam criar comunidades de direito.

Guerras e conflitos raramente os tiravam de casa

A neutralidade sempre foi uma característica dos Walser. Napoleão Bonaparte e o seu exército, na virada dos séculos XVIII e XIX, atravessaram as suas terras sem ser incomodados.

Ele ainda deixou para trás pontes construídas que, num futuro próximo, iriam facilitar a vida dos Walser. Uma delas, toda de pedras, ainda se encontra em Valvogna, em Alagna.

A língua e outras tradições foram “congeladas” pelo tempo, durante séculos, mas nas últimas décadas a política nacionalista e a televisão divulgaram o italiano, em detrimento dos dialetos locais.

Luta para manter o idioma

Hoje existe uma luta de resistência para não perdê-los. “Todas as sextas-feiras ensino o idioma, o “titsch”(alemão arcaico) de nossos ancestrais a cerca de 25 estudantes, jovens na maioria”, diz Angela Muretto, “walser” de sangue, italiana de certidão de nascimento e professora de alemão arcaico em Alagna.

“Mas em setembro, quando vai acontecer o nosso encontro trianual, em Gatür, na Áustria, fronteira com a Suíça, vamos iniciar o aprendizado também nas escolas”, comemora ela, ciente de que a morte de um idioma representaria o fim de uma cultura.

Durante séculos os Walser casaram entre si. Mas a miscigenação começou quando “forasteiros” do sul chegaram à região durante a corrida do ouro, em 1710. A mineração não foi a base da economia local, ao contrário da agricultura e da criação de animais.

A cada nova estação esses plantadores de batatas e criadores de vacas e cabras travavam uma luta com a natureza. Para sobreviver eles desenvolveram instrumentos e ferramentas de uso doméstico ou para trabalhar na terra, e uma arquitetura própria para desafiar as intempéries, principalmente durante o inverno. Entre eles, está uma espécie de gilhotina para cortar um tipo de pão, que é produzido apenas duas vezes por ano.

Casas típicas

Uma casa Walser se reconhece à distância, espalhada pelos bosques ou agrupada em vilas. Ela tem dois andares, é feita de pedras “blatte” e madeira de
pinho. Não tem pregos. Tudo é encaixado.

As varandas são fechadas com longas traves. Durante o frio é ali que se armazena o feno, colhido no final do verão. Para ganhar terreno, os Walser dividiam o mesmo teto com o estábulo e com o celeiro.

Economia local

Dezenas de casas típicas, ainda mantidas pelos moradores, fazem de Alagna um lugar único em toda a zona alpina e se transformam num atrativo a mais para
os turistas.

A atividade agrícola ainda é determinante para a economia local, mas já perde de longe para o turismo. Uma casa Walser virou museu. Outra transformou-se num hotel.

Muitos filhos e netos da comunidade Walser são guias de alta montanha. Eles conhecem o maciço de Monte Rosa com a palma da mão.

Alagna (ou "Im Land") tem a principal estação de esqui fora de pistas de todo o maciço do Monte Rosa. Durante o inverno, esta pequena cidade de apenas 432 habitantes recebe esquiadores de todo o mundo.

Turismo sem energia elétrica

Um velho “bondinho” leva os apaixonados do esporte até a Punta Indren, a 3.260 metros de altitude. Lá é um dos principais pontos de partida para uma descida longa das pistas e em meio à natureza selvagem. Quem não está em forma pode simplesmente admirar a paisagem. Em dias claros, é possível ver até o Mont Blanc francês de um lado e o lago Maggiore italiano do outro.

Longas caminhadas podem ser feitas com raquetes de neve até os vilarejos Walser mais distantes, onde a energia elétrica ainda pertence ao futuro.

Muitas casas, quase soterradas pela neve, ficam desabitadas nesta época do ano. Neste perìodo, mais do que pertencer ao homem, elas são da montanha.

swissinfo, Guilherme Aquino, Milão

Breves

- Os Walser começaram a emigrar por volta do século XII.

- Foram os primeiros a ocupar em permanência a região alpina acima dos mil metros de altitude.

- Fixaram-se num raio de 300 km, entre a Suíça, a Itália e a Áustria.

- Falavam, e ainda tentam preservar, o alemão arcaico.

- Viviam da agricultura e pastoreio mas hoje o turismo é a principal atividade.

- Desenvolveram uma arquitetura típica em função da vida nas montanhas.

- Fundaram cerca de 150 cidades nos três países onde vivem.

Aqui termina o infobox


Links

×