A visão colonial de uma multinacional suíça

Um passatempo com sabor colonial: o "Jogo do Aviador" foi distribuído pela empresa Maggi nos anos 1930 em três idiomas: alemão, francês e italiano. swissinfo.ch

Várias empresas multinacionais estão sediadas na Suíça. Muitas foram fundadas na segunda metade do século 19, quando vários países europeus ainda tinham colônias. Existe alguma conexão entre a ascensão dessas grandes empresas suíças e a fase de expansão colonial europeia? Uma pergunta difícil de responder.

Este conteúdo foi publicado em 06. outubro 2020 - 15:30

Em primeiro lugar, uma lembrança pessoal da infância com a qual me deparei há algumas semanas, quando visitei o antigo apartamento da minha avó. Lá encontrei um jogo, provavelmente fabricado na década de 1930. O jogo de avião dobrável, impresso em papelão, foi feito pela empresa suíça Maggi, mundialmente famosa por seus cubos de tempero para caldos.

O jogo exibe um mapa da África e partes da Ásia e Europa. A viagem aos países é feita em etapas. O protagonista do jogo é um piloto que decola em seu avião de Kemptthal (Zurique), principal local de produção de Maggi, e que vive uma série de aventuras nos três continentes.

Clichês da era colonial

Quando criança não notava a maneira como os povos eram retratados no jogo, que correspondia aos clichês habituais da época. Quase todos os habitantes da África subsaariana estão seminus, vestidos apenas com uma saia simples feita de palha. Alguns dançam de maneira bizarra; outros têm um anel no nariz e cozinham em tachos e panelas penduradas sobre o fogo.

O piloto apresenta aos nativos os produtos Maggi, recebe presentes e muita gratidão em troca. No Sudão francês (hoje Mali) ele encontra "excelentes ervas para sopa", sobre as quais ele se reporta à Maggi. De Calcutá, envia arroz para a sopa de legumes para a empresa. No Afeganistão, dá uma palestra sobre produtos Maggi no clube feminino em Cabul.

O jogo reproduz muitas das ideias do mundo colonial comuns na época: o piloto encarna a figura do aventureiro, que se move como um herói em um mundo habitado por povos atrasados e selvagens: "De acordo com a visão colonial de um mundo no qual o Ocidente branco domina os povos de cor." (Patrick Minder, La Suisse coloniale).

Uma empresa multinacional em um mundo colonial

Ao mesmo tempo, o mapa reflete a imagem de uma empresa multinacional que mantém relações comerciais com vários países, promove seus produtos no mundo inteiro e importa matérias-primas utilizando o meio de transporte mais moderno, o avião. A empresa se coloca no centro de uma rede de relações sociais e econômicas de natureza colonial.

Claro que é apenas um jogo, o que na melhor das hipóteses dá provas da participação de seus autores em uma noção que é difundida nas sociedades dos países industrializados. No entanto, pode-se perguntar por que uma empresa suíça opta por se apresentar desta forma. Existe alguma conexão entre o surgimento de algumas grandes empresas multinacionais na Suíça no final do século 19 e a economia colonial?

"De fato, não é possível compreender a história econômica da Suíça sem levar em conta o colonialismo", diz Christof Dejung, professor de História na Universidade de Berna. E acrescenta: "No entanto, em geral não existe uma ligação direta entre o desenvolvimento das grandes empresas suíças e o colonialismo.” A relação é complexa.

A Suíça na época da primeira globalização

Entre 1870 e 1910, a Suíça vivenciou um rápido crescimento econômico, acompanhado por uma forte integração na economia mundial. Segundo uma reconstrução do historiador Thomas David, professor da Universidade de Lausanne, em 1913, a Suíça ficou em terceiro lugar entre os países industrializados, atrás da Bélgica e da Holanda (dois países coloniais), em termos de exportações per capita. Ao mesmo tempo, a Suíça obteve o primeiro lugar em termos de investimento diretos no exterior.

Para reduzir os custos de produção, encontrar novos mercados, e a fim de superar as tarifas e barreiras comerciais impostas por muitos países durante a Grande Depressão (1873-1895), algumas empresas suíças começaram a relocação da produção já na década de 1870. O fenômeno se intensificou depois de 1890.

O desenvolvimento na Suíça é semelhante ao de outros pequenos países industrializados europeus como a Dinamarca, Suécia, Holanda e Bélgica. O tamanho limitado do mercado interno força as empresas desses países a procurarem mercados no exterior.

Na Suíça, a orientação internacional é particularmente evidente. De acordo com um estudo do historiador alemão Harm Schröter, em 1914, mais da metade das empresas multinacionais dos cinco pequenos estados mencionados acima tinham sua sede na Suíça.

Incluindo empresas como Brown Boveri (agora ABB), Ciba e Geigy (Novartis), Maggi (Nestlé), Nestlé, Sulzer, Suchard (Mondelez International), Wander (Associated British Foods) e outras.

O papel das colônias

Entretanto, os investimentos diretos de empresas suíças no exterior afetam principalmente os países vizinhos (Alemanha, França e Itália), assim como o Reino Unido e os Estados Unidos.

"Durante o período em estudo, as empresas industriais suíças mal estão presentes nas colônias e não têm atividades produtivas", diz Thomas David, professor de História da Universidade de Lausanne.

"O centro das atividades dos grupos industriais multinacionais antes de 1914 era a Europa", diz a historiadora de Genebra Béatrice Veyrassat. Nas colônias, a maioria tinha escritórios de vendas, como a Nestlé, por exemplo.

Um mapa mundial, publicado no almanaque da empresa em 1913, documenta a presença de numerosas filiais e agências ao longo da costa africana, na Índia e no sudeste asiático. As fábricas da Nestlé, entretanto, existiam naquela época apenas na Europa, nos Estados Unidos e na Austrália.

"Se você quer examinar a relação entre as multinacionais suíças e o colonialismo, você tem que olhar mais de perto para as sociedades comerciais. Eles têm uma longa tradição na Suíça, que remonta ao século 18", acrescenta Veyrassat.

Operadores como os irmãos Volkart, a empresa comercial da Basileia ou as casas comerciais suíças na Ásia, que se fundiram para formar a atual DKSH (Diethelm Keller Siber Hegner), negociaram algodão, cacau, café e outras matérias primas, e controlaram importantes áreas do comércio internacional.

Estes grupos comerciais multinacionais forneciam matérias-primas necessárias para desenvolver as atividades de produção de empresas industriais, por exemplo, café e cacau. Ao mesmo tempo, eles ajudaram a garantir que os produtos industriais suíços fossem vendidos em mais e mais países do hemisfério Sul.

"Nessas atividades, os atores suíços demonstraram grande adaptabilidade e flexibilidade econômica e cultural", diz Veyrassat. E, em certa medida, eles aproveitaram das estruturas coloniais.

Entretanto, é extremamente difícil avaliar até que ponto as relações comerciais com as colônias tiveram um impacto no crescimento econômico da Suíça, antes e depois da I Guerra Mundial. Os mercados mais importantes de exportação e importação ainda eram, de longe, os mercados europeus.

E mesmo entre os países do Hemisfério Sul, os principais parceiros comerciais da Suíça eram países formalmente independentes. Para algumas empresas e indústrias, entretanto, as colônias desempenharam um papel importante como fornecedores de matérias-primas e como centro comercial.

Sonhos de expansão

E o que aconteceu com a Maggi? Na década de 1930, a empresa suíça, pioneira na produção de alimentos industriais era ativa principalmente na Europa, especialmente na Alemanha e na França. Ao contrário da Nestlé, que assumiu o controle da Maggi após a II Guerra Mundial, esta empresa não tinha presença significativa no exterior.

E ainda assim há um certo toque colonial na estratégia da Maggi. Entre as primeiras caricaturas publicitárias para o sabor Maggi, datados do final do século 19, está a imagem de dois africanos nativos cozinhando sopa em uma paisagem desértica. Em 1922, a Maggi participou da Exposição Colonial em Marselha. Nessa época, alguns dos produtos da empresa provavelmente já tinham encontrado seu caminho para as colônias.

Mas foi somente após a II Guerra Mundial, e ao longo do processo de descolonização, que os produtos Maggi se tornaram de fato globais. Na África, em poucas décadas, cubos de caldo de tempero amarelos e vermelhos já eram vendidos nos mercados locais. Logo se tornaram uma parte importante da culinária local.

O jogo do piloto Maggi talvez tenha sido apenas uma visão, que correspondia ao sonho de uma expansão comercial que se movia dentro de uma lógica colonial permeada por ambições civilizacionais e atitudes racistas e baseada em uma concepção hierárquica das relações entre os países industrializados e os países do Sul.

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