Nas ruas vazias, o gorjeio dos pássaros substituiu o habitual rugido de buzinas e multidões. A Índia se enclausurou nesta quarta-feira (25), o primeiro dia de confinamento nacional contra a pandemia de coronavírus.

No gigante asiático de 1,3 bilhão de habitantes, a agitação constante se transformou em uma calma irreal.

Desde a meia-noite, o segundo país mais populoso do mundo iniciou um confinamento de três semanas sob o lema: "Fique em casa".

Os voos estão paralisados, os trens não circulam e o serviço de ônibus é mínimo. Diferentes regiões fecharam suas fronteiras para impedir a propagação do vírus.

Mas na calma também há surtos de paranoia. Aldeias protegidas com barricadas, policiais autorizados a atirar nos que violarem o confinamento ou cartazes pregados nas portas daqueles que viajaram para o exterior.

Esta manhã, a Índia registrava oficialmente 562 casos confirmados de coronavírus e nove mortes.

Especialistas acreditam, porém, que esse número está subestimado, devido ao baixo número de testes realizados.

Em um canteiro de obras na capital Nova Delhi, trabalhadores ociosos estão bloqueados longe de suas casas. Para passar o tempo, ouvem música de Bollywood em seus telefones celulares.

No bairro de Bandra, em Mumbai (oeste), a maioria das lojas está fechada. Nos poucos estabelecimentos que vendem artigos essenciais ainda abertos, as prateleiras estão vazias. Os clientes podem entrar apenas um por um, para respeitar o distanciamento social.

- Medo de escassez -

"Vamos ter escassez (de produtos) nos próximos dias. Paralelamente, os preços vão disparar", disse à AFP Rafiq Ansari, um vendedor de verduras. "O tomate já custa mais que o dobro", reclama.

"Os clientes estão zangados e reclamam que cobramos demais, mas o que podemos fazer? Há menos coisas e tudo é mais caro do que antes".

Minutos depois que o primeiro-ministro Narendra Modi anunciou o confinamento em um discurso televisionado na terça-feira à noite, muitos indianos correram para as lojas para comprar suprimentos e remédios antes da medida entrar em vigor.

"Tivemos que gritar com as pessoas para pedir que não superlotassem a loja", explica Mukesh Patel, dono de uma modesta farmácia em Ahmedabad, Gujarat (oeste).

As autoridades garantem que o fornecimento de produtos essenciais não será perturbado e exortam os habitantes a não entrar em pânico.

Mas muitos comerciantes acreditam que não poderão receber suas mercadorias, em um país com transportes paralisados.

"Ainda chega leite, ovos e pão. Mas enquanto normalmente recebo cerca de 100 pacotes de pão, hoje só recebi 20", diz Pradeep, um vendedor que trabalha no leste de Nova Delhi.

"Não sei quanto tempo minhas reservas atuais durarão", afirma, preocupado.

Em Bangalore (sul), cidade com os piores congestionamentos do mundo, de acordo com um estudo recente, os poucos veículos autorizados circulam em estradas vazias.

- Barricadas, denúncias, tiros -

No nordeste do país, algumas cidades bloquearam seus acessos com barricadas de bambu.

Em Nova Delhi, a polícia percorre os bairros colando cartazes vermelhos de quarentena nas casas em que os moradores viajaram recentemente para o exterior.

A paranoia entre os vizinhos explodiu.

No estado de Telangana (sul), o governo local autorizou a polícia a abrir fogo se os habitantes não respeitarem as instruções de confinamento.

Rohit Chaudhry, natural de Bihar (leste) e que trabalha como motorista em Bombaim, concorda com as medidas nacionais de isolamento contra o coronavírus. "Temos que erradicar esta doença", disse à AFP.

"Até agora não tive problemas para comprar comida ou qualquer outra coisa essencial, vamos ver o que vai acontecer", diz. "Será difícil, mas temos que lidar com isso".

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