AFP

Os atores Claire Neumann, Jason Collins, Brennan Caldwell, Bob D'Haene, Ethan Slater, Brandon Espinoza, e Larisa Oleynik ensaiam para o musical Baghdaddy em Nova York

(afp_tickers)

A guerra do Iraque pode não parecer uma comédia musical, mas a montagem sobre o tema no circuito off-Broadway converteu a tragédia em uma farsa com fortes mensagens para os Estados Unidos de Donald Trump.

"Baghdaddy", que estreou na segunda-feira à noite (2), conta a história real de um desertor iraquiano de codinome Curveball, um informante cujos relatos falsos sobre armas de destruição em massa se tornaram uma justificativa para a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003.

"Se você coloca 'Hamilton' e 'The Office' em um liquidificador, o resultado é esse espetáculo", diz o produtor Charlie Fink, referindo-se a Alexander Hamilton, um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos, e à bem-sucedida série televisiva de comédia.

A trama começa no presente, no porão de uma igreja onde espiões da CIA se reúnem em um grupo de apoio - no estilo do Alcoólicos Anônimos - em busca de redenção e de compreensão pelas transgressões cometidas, as quais continuam a assombrá-los anos mais tarde.

A ação então volta no tempo, até o aeroporto de Frankfurt, onde o informante parece oferecer segredos de um suposto programa de armas biológicas de Saddam Hussein em troca de asilo político.

A Inteligência alemã consulta a CIA, onde analistas que lutam com suas próprias ambições, amores de escritório e chefes intransigentes veem Curveball como um bilhete para fugir do tédio da rotina e como um caminho rápido para a promoção.

A farsa crescente rapidamente dá lugar aos ataques do 11 de Setembro, trocando a comédia pela tragédia, com o início de uma guerra que é travada ainda hoje, 14 anos após uma invasão que não encontrou armas de destruição em massa.

É um roteiro acelerado que mistura o teatro musical tradicional e a dança em grupo com faixas de hip hop que carregam um alerta rígido de que a História não deve se repetir.

Fink diz que o tema é mais relevante do que nunca no clima atual de "notícias falsas" e de "fatos alternativos", enquanto alguns temem que Trump possa arrastar o país para outro conflito - na Síria, ou na Coreia do Norte.

"Tem um imediatismo que não tinha em 2015, e uma sensação de que estamos fazendo tudo isso de novo", acrescenta Fink, referindo-se a um breve período, durante o qual a obra esteve em cartaz há dois anos.

- 'Assustador' -

"Parece um momento em que as regras estão sendo reescritas, e a autoridade está dando ouvidos a seus instintos, mais do que a fatos e análises, e isso é assustador", lamenta Fink.

A pré-estreia, em 6 de abril, coincidiu com o dia, em que o presidente ordenou um ataque com mísseis de cruzeiro a uma base aérea da Síria. Foi a primeira ação direta dos Estados Unidos contra o governo sírio de Bashar al-Assad.

Com baixo orçamento e em construção há dez anos, a obra conta com apenas oito atores que interpretam os seis papéis principais.

"Baghdaddy" retorna no auge da temporada da Broadway, competindo com mais de uma dúzia de outros novos espetáculos.

Também amplia a responsabilidade pela invasão de 2003, atribuindo-a não apenas ao então presidente George W. Bush, ou ao governo dos Estados Unidos, mas também ao país como um todo e a seus aliados ocidentais em geral.

"Todos nós erramos", diz Marshall Pailet, diretor, co-roteirista e compositor.

Longe de ver a comédia como inapropriada, Pailet diz que é um ótimo veículo para fazer os espectadores de teatro de Nova York pensarem.

"Ao abrir seus corações e mentes com a comédia, podemos introduzir substância, história, caráter e uma lição", acrescentou.

A.D. Penedo, que compôs as letras das canções e coescreveu o livro, admite que foi intimidador transformar o tema em um musical que entretivesse e, ao mesmo tempo, enviasse às pessoas uma mensagem clara.

"Queremos que eles fiquem entretidos e comovidos", explicou.

"Mas queremos que eles levem... que mesmo que você sinta que você não importa, você realmente importa, e há ramificações para suas ações", completou.

O espetáculo está programado para apresentações até 18 de junho, no St Luke's Theatre, um porão a poucos passos da Times Square.

Em nenhum momento, porém, a obra ri da guerra em si. Mais de 4.500 soldados americanos morreram no Iraque desde 2003, e estimativas do número de civis mortos variam de 173.916 a quase meio milhão.

"Todos somos responsáveis", desabafa Fink, acrescentando que se trata de "uma ferida no mundo que não vai ser curada com lágrimas, ou risos".

AFP

 AFP