Conteúdo externo

O seguinte conteúdo vem de parceiros externos. Nós não podemos garantir que esse conteúdo seja exibido sem barreiras.

Enfermeira Japón das Farc examina companheiro rebelde em Colinas, em 15 de junho de 2017

(afp_tickers)

Eles realizaram intervenções cirúrgicas na selva entre combates. Agora que estão deixando suas armas para cumprir o acordo de paz assinado com o governo da Colômbia, os "enfermeiros" da guerrilha das Farc querem estudar para se dedicar à medicina.

O caso mais difícil que Johana Japón em seus 17 anos como "enfermeira" nas fileiras das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) teve que atender foi o de um guerrilheiro "ferido por uma arma de fogo na altura do intestino e cujo quadril ficou praticamente destruído pelo impacto da bala".

"Tinha lascas de osso que romperam o intestino delgado, tiveram que operá-lo por três vezes e na última teve que ficar com o intestino para fora e tínhamos que jogar água para manter úmido [...]. Tivemos que retirá-lo de emergência de onde estávamos porque o Exército chegou e dois dias depois ele morreu", conta à AFP Japón, de 35 anos.

Esta mulher, que se juntou às Farc depois de abandonar os estudos de Bacteriologia porque sua mãe ficou sem trabalho e não podia mais pagar, é uma dos 500 guerrilheiros concentrados na localidade de Colinas, no departamento de Guaviare, um dos 26 pontos onde os 7.000 rebeldes deixam as suas armas nas mãos da ONU e transitam para a vida civil.

- Destino: Cuba -

Agora, além de colaborar com a médica designada para esta zona de concentração, Japón está se dedicando a preencher a papelada necessária para optar por uma das 500 bolsas de estudo que o governo de Cuba ofereceu aos guerrilheiros interessados em estudar carreiras médicas na ilha.

Mauricio Jaramillo, membro da cúpula das Farc e um dos guerrilheiros que instruiu Japón em procedimentos médicos ao chegar às fileiras, diz que as bolsas de Cuba "são a oportunidade de ouro" para os rebeldes que exerceram na prática a profissão durante o conflito armado de mais de meio século.

Mas aponta que não apenas os guerrilheiros, que em sua maioria veem como difícil o acesso às bolsas por carecer de estudos de bacharelado, poderão aproveitar a oferta de Cuba: "há muitos apoios nossos que têm filhos [...] jovens e que querem estudar medicina", assegura.

Jaramillo, cujo nome de batismo é Jaime Parra, mas que também é chamado de "El Médico" por sua profissão, foi um dos encarregados de criar o sistema de saúde das Farc, que teve o seu apogeu em 2000, quando tinham um hospital com capacidade para 300 pacientes no sul do país.

"Em todos estes anos preparamos cerca de 150 pessoas que ficaram como enfermeiras, porque tínhamos que preparar enfermeiros para todas as unidades", conta o comandante guerrilheiro e aponta que os seus aprenderam - em meio à guerra contra o Estado - sobre laboratórios, cirurgias, traumas e outras especialidades.

- Mudança de imagem -

Mas o exercício médico nas Farc também é rodeado pelos fantasmas silenciosos, como os abortos aos quais foram submetidas algumas combatentes para que a maternidade não afetasse o seu desempenho no confronto armado.

"Apesar de para o mundo inteiro termos sido os piores, acredito que com tudo o que estamos fazendo, nós estamos deixando uma marca diferente de tudo o que imaginavam que éramos", disse Mery Quintero, de 47 anos, 20 deles nas fileiras das Farc.

"Trabalhamos na enfermagem e isso nós dá [possibilidades] para contribuir aos camponeses e ao povo", afirma esta mulher que gostaria de estudar para trocar o uniforme de combatente pelo branco de enfermeira, embora acredite que isso será complexo por só ter feito o ensino básico.

Durante estes dias, enquanto espera deixar a sua arma ao culminar o processo de desarmamento acordado com o governo, Quintero trabalha na construção do posto de saúde do povoado onde os guerrilheiros localizados na zona de Colinas pretendem viver tempos de paz.

AFP