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A restauradora do C2RMF Alexandra Gérard examina as estátuas do museu de Cluny, em Paris, no dia 28 de junho de 2017

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Especialistas do Centro de Pesquisa e Restauração dos Museus da França (C2RMF) fazem da ciência sua arma para revelar os detalhes originais das estátuas dos apóstolos da Santa Capela de Paris.

Armados com instrumentos científicos, eles analisam minuciosamente seis estátuas do colégio apostólico deste monumento de estilo gótico, edificado por São Luís no século XIII para receber as relíquias da Crucificação de Cristo.

Fazem parte da coleção do Museu de Cluny, em Paris, que encarregou o C2RMF da sua análise e restauração.

Sob a luz tênue das oficinas de restauração, as estátuas de calcário revelam seus segredos.

Há o "apóstolo com pinta de filósofo", com sua barba espessa, o que parece "melancólico", com a cabeça inclinada, o jovem "São João", e também o "acéfalo". Das outras duas obras, ainda coloridas, só resta a parte inferior.

As estátuas foram transportadas aos laboratórios do C2RMF, nos porões do Louvre, para serem submetidas a radiografias, explicou à AFP Alexandra Gérard, chefe de escultura do departamento de restauração do centro. "Isto permitiu entender melhor a montagem" das obras.

Uma série de fotos com luz ultravioleta (que torna algumas superfícies fluorescentes) revelaram as zonas de gesso que "envelheceram mal", acrescenta.

- Decapitação -

Mas o que mais interessa aos conservadores do Museu do Cluny e do C2RMF é o estudo da policromia. As estátuas foram pintadas várias vezes até a Revolução Francesa, e ficaram vestígios disso.

Amostras foram tomadas com um escalpelo, envolvidas com resina e analisadas com um microscópio eletrônico de varredura. O corte estratigráfico - "como um sanduíche" - permite ver as camadas de cores, informa Alexandra Gérard.

O colégio apostólico da Santa Capela, obra-prima do século XIII, sofreu múltiplas vicissitudes após a Revolução Francesa.

As estátuas dos doze apóstolos foram retiradas sem cuidado em 1797, quando o lugar se converteu em um armazém de arquivos. Duas quebraram e foram enterradas sob os paralelepípedos, e as outras 10 foram enviadas ao museu dos Monumentos franceses. Com o tempo, se dispersaram.

A revolução de 1830 foi ainda mais prejudicial. Os insurgentes decapitaram quatro das estátuas dos apóstolos. Uma idosa encontrou as cabeças.

A partir dos anos 1840, o arquiteto Félix Duban tentou juntar as 12 estátuas (e seus pedaços) para levá-las de novo à Santa Capela e restaurá-las.

Mas as quatro estátuas decapitadas e as duas quebradas em 1797 estavam mutiladas demais para ser trasladadas à capela. Optou-se por fazer cópias de gesso, ainda visíveis na Santa Capela junto com os seis originais, que foram pintadas à moda do romantismo do século XIX.

Os originais em mal estado acabaram no Museu de Cluny, e três das estátuas recuperaram suas cabeças.

- 'Pezinho charmoso'-

As análises da policromia continuam, mas os conservadores têm uma pista.

"A Santa Capela em seu estado atual propõe uma visão extremamente colorida e recarregada dos apóstolos, um pouco como vitrais", aponta Damien Berné, conservador do patrimônio do Museu de Cluny.

"Parece que no século XIII havia uma gama cromática muito diferente" que "distinguia os apóstolos" dos famosos vitrais.

Nos próximos meses, o Museu de Cluny lançará uma licitação para restaurar os seis apóstolos. Trata-se de fazer uma limpeza completa da superfície, retirar "o polimento moderno" mas preservando os rastros de policromia, detalha Damien Berné.

Também serão restauradas as juntas entre as cabeças e os corpos, o que poderia modificar o aspecto dos apóstolos, como o "melancólico".

Por último, as estátuas serão separadas dos pedestais que lhes foram adicionados no século XX e que acabaram com os tornozelos dos apóstolos.

"Talvez encontremos o dono legítimo do pezinho 'charmoso'" do apóstolo guardado no museu, espera o conservador.

AFP