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(Arquivo) Foto tirada em 13 de julho de 2017 mostra a iniciação tradicional xhosa com Fezikhaya Tselane (E) e Khanyisile Mapope (D), em Umtata

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Nu, com o corpo coberto de argila e o pênis envolto em folhas, Abongile Maqegu se recupera lentamente de uma circuncisão realizada com faca e sem anestesia, um rito de passagem na África do Sul que pode se transformar num verdadeiro drama.

Para Abongile, um jovem sul-africano de 20 anos, a dor é inerente à experiência que, na cultura xhosa, marca a entrada na idade adulta.

"É necessário sofrer para provar que se é um homem", explica à AFP em uma cabana nos arredores de Coffee Bay, uma aldeia da província do Cabo Oriental, no sudeste da África do Sul.

"Fazer uma circuncisão em um ambiente hospitalar é a solução fácil", diz. "Zombamos de quem vai ao hospital".

Abongile é um dos milhares de jovens da etnia xhosa que, a cada ano durante o inverno, se submetem à circuncisão segundo o ritual ancestral, que se assemelha, devido à dor, a um desafio de resistência física.

Uma vez realizada a intervenção por um "ancião", o jovem se vê confinado, durante um mês no máximo, em uma cabana com teto de palha junto com outro dois colegas de sofrimento.

Um "curandeiro", sem formação científica, monitora constantemente os pacientes, para agir caso haja alguma complicação.

- Cabra sacrificada -

Durante um mês, os "iniciados" são proibidos de ter qualquer contato com mulheres, sendo seus pais e outros jovens que se submeteram ao ritual os únicos autorizados a visitá-los.

Para matar o tempo, os jovens jogam cartas sobre uma manta no chão enquanto reavivam uma fogueira para se manter aquecidos.

Depois de duas semanas, "sacrificamos uma cabra para apaziguar os espíritos", relata Lukholo Marhenene, um curandeiro de 21 anos.

Em honra à tradição, receber ajuda médica é inconcebível. "Se você vai ao hospital, você é fraco, não é um homem. Não deve curar suas feridas com Betadine", um antisséptico, afirma Abongile.

"Há remédios tradicionais especialmente para isso", assegura.

Um curativo básico feito com folhas e atado com um cordão oculta seu membro, coberto de pomada artesanal.

A argila branca que cobre seu corpo possui propriedades cicatrizantes e anti-inflamatórias, e acredita-se que conserva a temperatura corporal e afasta os maus espíritos.

- Centenas de mortos -

Em consequência das condições de higiene nas que é praticada, a circuncisão tradicional provoca a cada ano um grande número de vítimas - tanto mortos como homens que precisam ter seu membro amputado devido a graves infecções.

Apenas neste inverno, ao menos 11 jovens perderam a vida no Cabo Oriental, "epicentro" do ritual na África do Sul, segundo as autoridades provinciais.

A circuncisão tradicional é praticada também em outras províncias, como KwaZulu-Natal, ao leste, e Mpumalanga, ao norte.

Foram registradas centenas de mortes em todo o país desde 1995, segundo o governo.

Diante desta tragédia, as autoridades do Cabo Oriental estabeleceram em 18 anos a idade mínima para se submeter à intervenção.

Paralelamente, "este ano foram destinados recursos consideráveis para limitar a quantidade de vítimas", assegura Mxolisi Dimaza, presidente do comitê provincial de saúde após uma visita aos lugares onde se realiza o ritual.

A província alugou 35 veículos 4X4 para visitar as "escolas de iniciação" em uma região de colinas declivosas, estradas de terra e caminhos íngremes.

"Há escolas de iniciação ilegais, que não estão registradas junto às autoridades e onde os iniciados com frequência têm menos de 18 anos", se indigna Mxolisi Dimaza.

A circuncisão tradicional faz parte da "nossa cultura. Mas se os pais desejam que seus filhos sejam circuncisados por médicos, não nos opomos", acrescenta, tentando reduzir a pressão social sobre as famílias.

- Circuncisão contra a aids -

As autoridades sul-africanas encorajam a circuncisão médica como ferramenta de luta contra a transmissão da aids, em um dos países mais afetados pelo HIV.

Mas os especialistas na epidemia, reunidos em Paris até quarta-feira com ocasião de uma conferência internacional, continuam preocupados com as cirurgias mal feitas e a falta de higiene com que esse intervenções podem ser feitas.

Fezikhaya Tselane, de 20 anos, acaba de viver essa experiência. "Esperei este momento durante muito tempo. Todos os meus irmãos passaram por este processo", conta à AFP, sentado em uma esteira de palha sobre a qual se acumulam pratos sujos e garrafas de cerveja vazias.

"Agora posso me casar, ter a minha casa e os meus filhos e não depender mais dos meus pais", ele se entusiasma, apesar da dor.

AFP