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Kinshasa, no dia 9 de abril de 2017

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"Em 62 anos de vida em Kinshasa, deixei de falar minha língua materna, o kilokele, pela falta de interlocutores. Meus nove filhos já não o falam", lamenta Charles Tongohala, temendo que este idioma da República Democrática do Congo (RDC) desapareça com a sua geração.

Aposentado da empresa estatal de transporte fluvial, Tongohala conta que deixou sua aldeia natal no nordeste da RDC, onde todos falavam a língua dos lokele, povo de pescadores.

Outro habitante da capital congolesa, megalópole de 10 milhões de habitantes em constante expansão, Daniel Mukebayi, ex-funcionário público aposentado, diz ter educado, junto com a sua esposa, seus dez filhos em tshiluba, a língua dos luba, falada no centro do país, principalmente na região de Kasai.

Em 1974, lembra este sexagenário, seu filho Michel "falava perfeitamente tshiluba, quando tinha apenas quatro anos".

"No entanto, desde que se casou e formou sua própria família, não fala sua língua materna, e seus filhos só conhecem o francês e o lingala", lamenta.

Os casos das famílias Tongohala e Mukebayi estão longe de ser isolados na RDC, um país enorme no coração da África onde há 450 línguas vivas, em sua maioria faladas, o que representa 9% das cerca de 5.000 utilizadas no planeta.

Ao se tornar independente, em 1960, o antigo Congo Belga optou pelo francês como língua oficial, embora muitos dos seus mais de 71 milhões de habitantes atuais não falem esse idioma.

Em uma época em que estava na moda "apelar à autenticidade", as autoridades promoveram quatro línguas denominadas "nacionais", que passaram a ser ensinadas nas escolas: lingala (a língua das forças armadas, falada em Kinshasa e no noroeste), kikongo (oeste), tshiluba (centro) e swahili (leste).

Pressão política

Essas línguas também são utilizadas nos tribunais, segundo as regiões, e convivem com o francês na mídia, mas atualmente o lingala e o swahili, também falados em países vizinhos, predominam sobre as outras duas.

Em um livro de 2000 que já advertia sobre "a morte dos idiomas", o linguista francês Claude Hagège destacou "a pressão política" exercida na África pelas línguas regionais sobre as "línguas pequenas".

"A promoção de uma língua africana é utilizada pelo poder como um ato de reafirmação nacional e põe em risco os idiomas minoritários que não são capazes de rivalizar com um que recebe apoio dos programas escolares e dos meios", escreveu.

Na família Mukebayi, a esposa de Michel, Cocotte Kolo, é uma luba, assim como ele, mas não fala o tshiluba e, portanto, não pode transmiti-lo aos seus filhos. Ela é fluente em swahili, kinyarwanda (língua falada em Ruanda e no leste do Congo), o lingala e o francês.

Esse é o paradoxo congolês: um país onde a multiplicidade de línguas é uma realidade cotidiana mas onde muitas vezes se ignora ou esquece sua própria língua materna.

"Às vezes fico com vergonha, às vezes sinto medo, porque perdi minhas referências", diz Cocotte Kolo.

Vergonha e esnobismo

Em determinados círculos de elite de Kinshasa, existe um certo esnobismo de se ensinar apenas o francês aos filhos, e eventualmente o inglês.

O desaparecimento de algumas línguas "é um fenômeno normal vinculado ao êxodo rural e principalmente ao (escasso) peso demográfico, econômico e cultural" dos que as falam, aponta Kadima Nzuji, linguista da Universidade Marien Ngouabi, de Brazzaville.

Segundo ele, o kinande e o kitetela, duas línguas de comunidades relativamente reduzidas, têm possibilidades de sobreviver graças ao dinamismo comercial de seus membros.

"Os velhos falam as línguas locais por uma questão de sobrevivência", afirma Kambayi Bwatshia, professor de história na Universidade pedagógica nacional (UPN) de Kinshasa, mas "os jovens, (...) especialmente nos grandes centros urbanos, se adaptam ao meio".

Ambos os acadêmicos aplaudem o trabalho de formiga realizado por missionários cristãos que estudaram em profundidade muitas línguas faladas no Congo a partir do final do século XIX.

Consideram, no entanto, inevitável o desaparecimento de alguns idiomas, e afirmam que os documentos deixados por aqueles religiosos poderiam se tornar, em breve, os únicos vestígios de línguas mortas.

A aceleração da degradação econômica do país a partir dos anos 1980, as duas guerras que o devastaram entre 1996 e 2003, e o estado de subdesenvolvimento crônico em escala nacional também contribuem para o desaparecimento das línguas menos utilizadas.

"Quando havia viagens em barco, eu voltava ao meu povoado, onde falava kilokele com pessoas da minha geração", lembra Tongohala.

Mas isso aconteceu há mais de um quarto de século.

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