Navigation

A repressão aos protestos no Chile volta a destacar violência policial

Os Carabineros do Chile prendem um manifestante durante protesto contra o governo do presidente Sebastián Piñera em Santiago, em 25 de setembro de 2020 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 06. outubro 2020 - 17:10
(AFP)

A queda de um adolescente de uma ponte em Santiago, após ser empurrado por um agente das forças de segurança, fez as atenções se voltaram aos Carabineros do Chile, a polícia nacional do país, acusados de cometer abusos apesar de uma prometida reforma.

Cerca de vinte policiais atacaram um grupo de manifestantes reunidos na última sexta-feira na Plaza Italia, em Santiago, epicentro das manifestações sociais que ocorrem no Chile desde outubro do ano passado.

Um dos policiais cercou o jovem de 16 anos até o parapeito da ponte Pio Nono sobre o rio Mapocho, onde ele caiu de mais de sete metros.

A Carabineros afirma que foi um acidente, mas para a Justiça o agente fez uso de força excessiva, mandando-o para a prisão por "tentativa de homicídio".

Na terça-feira, quatro dias depois do incidente, o presidente Sebastián Piñera condenou o fato.

"Condenamos clara e categoricamente qualquer atentado aos direitos humanos e também rejeitamos qualquer desvio dos protocolos e das regras que devem ben administrar a atuação de nossas forças de ordem e segurança", declarou Piñera em um evento no palácio de governo, onde também reiterou seu "profundo respaldo" à instituição policial.

A poucos dias para 18 de outubro - um ano da maior manifestação social em décadas, que deixou cerca de 30 mortos e centenas de feridos - o incidente reacendeu o movimento nas ruas.

A polícia foi acusada de violar os direitos humanos ao reprimir os protestos e prometeu fazer uma reforma em seus procedimentos.

"Os meios logísticos foram incorporados e renovados" e está sendo feito um trabalho de "modernização institucional e capacitação permanente do pessoal; por exemplo, com capacitação e reciclagem no âmbito dos direitos humanos", explicou à AFP o Inspetor Geral Ricardo Yáñez, diretor de Ordem e Segurança dos Carabineros.

Entre as mudanças, destacou as "novas ferramentas tangíveis e intangíveis", como os novos carros que lançam jatos de água, popularmente conhecidos como 'guanacos', ou a comunicação através de alto-falantes "para informar os cidadãos" durante as manifestações.

No entanto, para os especialistas, pouca coisa mudou neste ano, já que os protestos ficaram paralisados por vários meses devido à pandemia.

Durante essa pausa, a os Carabineros buscaram treinar seu pessoal e equipar-se com equipamentos mais modernos para o controle da ordem pública.

Lucía Dammert, especialista em questões de segurança e professora da Universidade de Santiago, afirma que um dos principais problemas da polícia chilena é a concepção de que enfrenta "um inimigo interno permanente".

"Percebe-se que é uma estratégia policial muito marcada entre 'nós' e 'os outros', e os outros são os inimigos, os criminosos, os vândalos, e é uma retórica que também tem uma ressonância política que a legitima", explicou Dammert.

Agora os "eles" são os manifestantes, afirma a acadêmica, embora também o sejam os mapuches e os setores populares.

Os casos de corrupção descobertos após o desvio de mais de US$ 30 milhões por generais entre os anos de 2006 e 2017, além do assassinato de um membro da comunidade mapuche, Camilo Catrillanca, em 2018 - morto por um tiro na cabeça disparado por um policial - contribuíram para minar o imagem pública dessa instituição que até cinco anos era muito conceituada no país e uma das mais prestigiadas da região.

Para Dammert, nem a saída do diretor-geral dos Carabineros, Mario Rozas - exigida pela oposição após o incidente de sexta-feira - serviria para aliviar o descontentamento de grande parte do país com sua polícia, que precisa de uma "reforma estrutural" e treinamento exaustivo dos seus efetivos.

O Instituto Nacional dos Direitos Humanos (INDH) também alertou que "os Carabineros do Chile não deram toda a colaboração necessária para que haja verdade e justiça" no país a respeito "das graves violações dos direitos humanos ocorridas durante as manifestações sociais", ressaltou seu diretor jurídico, Rodrigo Bustos.

Partilhar este artigo

Participe da discussão

Com uma conta SWI, você pode contribuir com comentários em nosso site.

Faça o login ou registre-se aqui.